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Os Titãs do Capital - Parte 3

há 1 minuto
16 min de leitura


De acordo com François Chesnais, existem instituições que centralizam massas gigantescas de dinheiro e de direitos patrimoniais. São os fundos de investimento, fundos de pensão, companhias de seguros, fundos soberanos, bancos de investimento, fundos de cobertura e grandes gestoras de ativos.


Essas instituições não precisam administrar diretamente o processo produtivo para comandá-lo. Exercem seu poder como proprietárias de títulos, ações, obrigações e diferentes formas de direitos sobre rendimentos futuros.


A aparente exterioridade do capital financeiro em relação à produção não elimina seu domínio sobre ela; ao contrário, permite que eles imponham às empresas produtivas critérios estritos de rentabilidade financeira, distribuição de dividendos, recompra de ações, redução de custos e reestruturação permanente do trabalho.


Portanto, o capital financeiro, na acepção de Chesnais, pode ser compreendido como a forma concentrada e organizada do capital-dinheiro portador de juros. Ele funciona como capital fictício centralizado por instituições financeiras e investidores institucionais como, por exemplo, os gigantes da Gestão de Ativos [Asset Managers] - que administram capitais de terceiros; os gigantes fundos soberanos (estatais;) e os gigantes fundos de pensão.


Eles são os titãs do capital.


Todos esses investidores institucionais - que concentram uma quantidade gigantesca de capital-monetário - reivindicam para si uma parcela crescente do mais-valor social. Ele se apresenta como propriedade patrimonial, isto é, como riqueza que confere a seus detentores o direito de receber rendimentos sem que precisem participar diretamente da organização da produção.


Essa autonomia é apenas relativa.


Como vimos acima, juros, dividendos e ganhos financeiros precisam, em última instância, encontrar correspondência na riqueza extraída do trabalho e apropriada na produção, ainda que a multiplicação dos títulos possa afastar-se enormemente dessa base.


Com base no cenário financeiro global atual de abril de 2026, a análise dos maiores fundos e gestores de investimento exige uma distinção fundamental entre as gestoras de ativos (que administram capitais de terceiros), os fundos soberanos (estatais) e os fundos de pensão. 


Vejamos:

 

1.     As Gigantes da Gestão de Ativos [Asset Managers]


 Estas são as corporações que gerenciam trilhões de dólares através de diversos veículos, como ETFs [1], fundos mútuos e contas institucionais. O domínio norte-americano permanece inabalável, com a BlackRock consolidando sua liderança absoluta, especialmente após a integração massiva de ativos digitais e ETFs de criptomoedas em 2025. A BlackRock, sob a liderança de Larry Fink, continua a ser o "quarto braço do governo" norte-americano devido à sua escala.

 

2. Os Gigantes dos Fundos Soberanos (Sovereign Wealth Funds)


Estes fundos são braços de investimento de Estados nacionais, acumulados geralmente a partir de superávits comerciais ou commodities (petróleo). O fundo da Noruega e os fundos asiáticos/árabes dominam este setor. Os principais Fundos Soberanos em 2026 são:

 

Norway Government Pension Fund Global [Norges Bank]: O maior fundo soberano do mundo, atingindo a marca histórica de $2.1 trilhões em 2026. Ele detém, em média, 1.5% de todas as empresas listadas em bolsa no planeta.


 China Investment Corporation [CIC]: Com aproximadamente $1.57 trilhão, é o principal veículo de investimento externo da China.


 Abu Dhabi Investment Authority [ADIA]: O maior fundo dos Emirados Árabes Unidos, com cerca de $1.2 trilhão.


 Public Investment Fund [PIF]: O fundo da Arábia Saudita, motor do plano "Vision 2030", que alcançou $1.15 trilhão e tornou-se um dos investidores mais agressivos em tecnologia e esportes globais.


3. Os Gigantes dos Fundos de Pensão Públicos e Previdenciários


Estes fundos gerenciam as aposentadorias de milhões de cidadãos e possuem horizontes de investimento de longuíssimo prazo. Os maiores fundos de pensão no mundo são:

 

 Government Pension Investment Fund [GPIF] - Japão: Frequentemente disputa o topo com o fundo norueguês, possuindo cerca de $1.87 trilhão.

 Federal Retirement Thrift Investment Board [FRTIB] - EUA: O fundo de previdência dos funcionários federais americanos, com quase $1 trilhão.

 National Pension Service [NPS] - Coreia do Sul: Gerencia mais de $1 trilhão e exerce influência massiva no mercado asiático.


 

 

Em 2026, essa concentração atingiu um patamar onde as cinco maiores gestoras detêm influência direta sobre as políticas de ESG [Environmental, Social, and Governance][2] de quase todas as corporações globais, criando um fenômeno de governança corporativa sem precedentes na história do capitalismo.


4. A Simbiose do Capital Global


A relação entre as grandes gestoras de ativos — sobretudo BlackRock, Vanguard e State Street — e os pilares estruturais da economia mundial não pode ser reduzida a uma sucessão de operações comerciais isoladas.


Trata-se de uma articulação sistêmica entre capital financeiro, infraestrutura digital, inteligência artificial, indústria farmacêutica, energia e poder militar.


Essa configuração constitui um dos fundamentos do que a literatura contemporânea denomina “capitalismo dos gestores de ativos” — asset manager capitalism.


O ponto de partida dessa arquitetura é a presença recorrente das grandes gestoras entre os principais acionistas institucionais das corporações de capital aberto que dominam esses setores. Isso não significa, rigorosamente, que BlackRock, Vanguard e State Street sejam as proprietárias finais dos ativos: as ações são administradas em nome dos cotistas dos fundos.




Entretanto, a concentração da gestão confere a essas instituições, enorme capacidade de alocação financeira, influência sobre a governança corporativa e exercício coordenado dos direitos de voto.


Forma-se, assim, uma estrutura simbiótica de propriedade comum institucional.


As mesmas gestoras aparecem simultaneamente no capital de empresas concorrentes — Microsoft e Apple, Pfizer e Merck, Lockheed Martin e RTX, por exemplo.


Essa sobreposição não elimina a concorrência, tampouco demonstra por si mesma a existência de uma direção centralizada da economia. Produz, porém, uma concentração do poder financeiro capaz de aproximar os interesses das corporações em torno da valorização acionária, da distribuição de dividendos, da recompra de ações e da preservação das posições oligopolistas.


A. Big Tech: a infraestrutura do capitalismo digital


Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Nvidia constituem o núcleo tecnológico do capitalismo contemporâneo. As grandes gestoras figuram entre seus principais acionistas institucionais porque essas corporações possuem enorme peso nos índices acionários replicados pelos fundos passivos.


Quanto maior a capitalização dessas empresas, maior tende a ser sua presença nos ETFs e, consequentemente, maior a quantidade de ações administradas pelas gestoras.


A relação, entretanto, não se limita à propriedade acionária. As Big Techs fornecem a infraestrutura material e informacional necessária ao funcionamento do próprio capital financeiro: serviços de computação em nuvem, bancos de dados, semicondutores, sistemas de comunicação, segurança cibernética, plataformas algorítmicas e ferramentas de inteligência artificial.


Em sentido inverso, os fundos administrados pelas gestoras canalizam parcelas crescentes da poupança mundial para essas corporações.


A financeirização impulsiona, portanto, a expansão das tecnologias que tornam o capital financeiro mais rápido, preditivo e abrangente.


A plataforma Aladdin, da BlackRock, ilustra esse movimento: integra avaliação de risco, administração de carteiras, dados de mercado e processamento algorítmico em uma infraestrutura utilizada por numerosas instituições financeiras. A própria BlackRock se apresenta simultaneamente como gestora global e fornecedora de tecnologia financeira.


B. As empresas de IA: O novo núcleo estratégico


As empresas de inteligência artificial devem ser situadas no interior do universo das Big Techs, mas não simplesmente dissolvidas nele. A IA constitui um núcleo relativamente autônomo e transversal, pois reorganiza simultaneamente a infraestrutura digital, o processo de trabalho, o mercado financeiro, a produção científica e o aparato militar.


Nesse campo coexistem três tipos principais de empresas.


O primeiro é formado pelas próprias Big Techs que desenvolvem modelos e sistemas de IA — Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta.


O segundo reúne empresas especializadas, como OpenAI, Anthropic e xAI, cuja expansão depende de aportes bilionários, computação em nuvem e alianças estratégicas com as grandes plataformas.


O terceiro compreende as corporações que fornecem a infraestrutura material da IA, sobretudo Nvidia, AMD, Broadcom, Oracle e as empresas responsáveis por centros de dados, redes, energia e fabricação de semicondutores.


A posição das gestoras varia conforme a natureza jurídica dessas empresas. Nas companhias cotadas em bolsa — Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta, Nvidia e Palantir, por exemplo — BlackRock, Vanguard e State Street geralmente aparecem como grandes acionistas institucionais.


Em empresas fechadas, como foram historicamente OpenAI e Anthropic, a relação é mais indireta. A exposição das gestoras ocorre por intermédio de suas participações nas corporações que financiam, hospedam e comercializam seus modelos: Microsoft no caso da OpenAI; Amazon e Alphabet no caso da Anthropic; além de fundos privados, veículos de capital de risco, crédito e infraestrutura.


A IA aprofunda, assim, a circularidade do sistema.


As gestoras administram os fundos que investem nas corporações de nuvem, semicondutores e plataformas digitais; essas corporações financiam empresas especializadas em modelos de fronteira; os modelos, por sua vez, são incorporados aos sistemas de avaliação de risco, negociação automatizada, vigilância empresarial, seleção de trabalhadores e administração de ativos. O capital financeiro não apenas financia a inteligência artificial: procura converter a própria inteligência social em infraestrutura de valorização.


C. Big Pharma: a capitalização da vida


A mesma concentração institucional manifesta-se no complexo farmacêutico e biotecnológico. As grandes gestoras aparecem entre os principais acionistas de Pfizer, Merck, Johnson & Johnson, Eli Lilly, AbbVie, Moderna e outras corporações do setor.


A saúde torna-se, desse modo, um campo estratégico de extração de rendas baseado em patentes, propriedade intelectual, controle de plataformas biotecnológicas e mercados de tratamentos prolongados.


O regime de valorização acionária, a proteção patentária e a busca por receitas previsíveis favorecem produtos capazes de gerar fluxos de caixa duradouros (pode-se dizer que as gestoras determinam diretamente a preferência por tratamentos contínuos em detrimento de curas definitivas).


A pesquisa médica passa a ser selecionada não apenas por sua utilidade social, mas também por sua capacidade de converter necessidades vitais em rendimentos monopolistas.


A Big Pharma representa, portanto, uma dimensão biopolítica do capital: a doença, o risco sanitário, o envelhecimento e a própria reprodução da vida são incorporados aos cálculos da lucratividade.


D. O Complexo Industrial-Militar: a guerra como mercado e ativo financeiro


A ligação entre as gestoras e o complexo industrial-militar é direta no plano acionário. BlackRock, Vanguard e State Street figuram regularmente entre os maiores investidores institucionais de Lockheed Martin, RTX — antiga Raytheon Technologies —, Northrop Grumman, General Dynamics, Boeing e L3Harris.


Como essas empresas compõem índices de mercado, suas ações são incorporadas automaticamente a numerosos ETFs e fundos de aposentadoria.





O gasto militar transforma recursos públicos em encomendas, contratos e receitas privadas. Parte desses resultados retorna ao circuito financeiro sob a forma de dividendos, valorização acionária e recompra de ações. A guerra não constitui apenas um acontecimento geopolítico: converte-se em fluxo de caixa previsível, sustentado por orçamentos estatais de longo prazo.


As gestoras não “financiam o braço armado” exclusivamente por uma decisão política centralizada. Elas concentram e administram títulos emitidos por empresas já integradas ao sistema de compras militares do Estado. A relação estrutural estabelece-se entre orçamento público, contratos de defesa, rentabilidade corporativa, índices financeiros e fundos de investimento.


E. O Complexo Industrial-Militar digital


A expansão da inteligência artificial altera qualitativamente essa arquitetura. O antigo complexo industrial-militar passa a incorporar empresas de nuvem, plataformas de dados, satélites, semicondutores e modelos de IA.


Forma-se um complexo industrial-militar-digital. Microsoft, Amazon, Google e Oracle fornecem nuvens seguras, serviços de processamento e infraestruturas classificadas. Nvidia fornece os aceleradores computacionais indispensáveis ao treinamento e à operação dos modelos. Palantir integra dados, inteligência, logística, reconhecimento de alvos e consciência situacional. OpenAI, Anthropic, Google e xAI passaram a desenvolver soluções para funções governamentais e militares.




Em junho de 2025, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos concedeu à OpenAI Public Sector um contrato com teto de US$ 200 milhões para desenvolver protótipos de capacidades avançadas de IA aplicadas a desafios de segurança nacional. No mês seguinte, a Anthropic anunciou um acordo de valor equivalente e destacou a integração do Claude a fluxos de trabalho militares por meio de sua parceria com a Palantir.


A IA penetra, desse modo, no planejamento operacional, na análise de inteligência, na logística, na ciberdefesa, na manutenção preditiva e no processamento de dados do campo de batalha.


O que está em formação não é somente uma indústria de armamentos dotada de inteligência artificial, mas uma infraestrutura computacional na qual as fronteiras entre tecnologia civil, finanças, vigilância e aplicações militares se tornam progressivamente porosas.





5. Petrodólar, poder militar e centralidade financeira dos Estados Unidos


A vinculação entre gestoras de ativos, indústrias tecnológicas, empresas farmacêuticas, inteligência artificial, complexo militar e sistema monetário internacional integra a arquitetura da hegemonia norte-americana consolidada desde a década de 1970.


Capital financeiro, energia, tecnologia e força militar não formam uma identidade perfeita, mas operam como dimensões interdependentes de um mesmo sistema de poder.


1. A reciclagem dos petrodólares

Após o colapso do sistema de Bretton Woods e o fim da conversibilidade do dólar em ouro, em 1971, os Estados Unidos aprofundaram suas relações econômicas e militares com a Arábia Saudita. Os entendimentos estabelecidos em 1974 contribuíram para canalizar excedentes petrolíferos sauditas para títulos do Tesouro e instituições financeiras norte-americanas.


A centralidade do dólar no comércio petrolífero resultou de um conjunto mais amplo de determinações: dimensão do mercado financeiro dos Estados Unidos, liquidez dos títulos do Tesouro, poder econômico e militar norte-americano, relações com as monarquias do Golfo e utilização internacional da moeda.


A reciclagem dos petrodólares reforçou esse circuito. Os dólares recebidos pelos países exportadores de petróleo retornavam aos mercados financeiros ocidentais por meio de títulos públicos, depósitos bancários, ações e outros ativos.


O processo ampliou a liquidez do sistema financeiro, mas não constitui, isoladamente, a origem dos trilhões administrados pelas grandes gestoras, que provêm também de fundos previdenciários, seguradoras, fundos soberanos, empresas e poupanças particulares.


2. O nexo energético-militar


O poder militar é uma de suas condições históricas da centralidade internacional do dólar. Ela depende igualmente da profundidade dos mercados norte-americanos, da confiança nos títulos do Tesouro, dos sistemas internacionais de pagamento e da inexistência, até o momento, de uma alternativa com escala, liquidez e capacidade institucional equivalentes.


O complexo industrial-militar protege rotas energéticas, alianças estratégicas e áreas de influência. Em contrapartida, o orçamento militar alimenta empresas presentes nas carteiras das grandes gestoras.


A circularidade pode ser assim expressa: a hegemonia monetária e financeira leva a capacidade de endividamento do Estado que promove o gasto militar e tecnológico contribuindo para as receitas das corporações contratadas, a valorização acionária delas e a expansão dos fundos e índices, reforçando deste modo, a centralidade financeira.


Não se trata de uma “circularidade perfeita”, pois o sistema está atravessado por crises, disputas geopolíticas e contradições fiscais. Trata-se de uma articulação estrutural na qual moeda, dívida pública, tecnologia e poder militar se sustentam reciprocamente.


6. Big Tech, inteligência artificial e Big Pharma como ativos estratégicos


A gradual diversificação monetária, o crescimento da China e a realização de algumas transações energéticas em outras moedas não significam o desaparecimento imediato do dólar. Revelam, entretanto, pressões sobre a ordem constituída.


Nesse contexto, ativos tecnológicos e direitos de propriedade intelectual adquirem importância crescente.


As Big Techs não funcionam literalmente como um novo lastro monetário. Elas reforçam, porém, a centralidade econômica dos Estados Unidos ao controlar sistemas operacionais, nuvens, plataformas, semicondutores, modelos de IA e serviços digitais utilizados mundialmente.


Se o petróleo foi uma infraestrutura decisiva da economia industrial, os dados, a capacidade computacional e a inteligência artificial tornam-se infraestruturas estratégicas do capitalismo digital.


A Big Pharma realiza movimento semelhante no domínio da vida. As patentes e os direitos de propriedade intelectual asseguram fluxos internacionais de renda, pagos em grande medida a corporações sediadas nos países centrais. A inteligência artificial aproxima ainda mais esses setores, pois passa a ser empregada na descoberta de medicamentos, na análise genética, na seleção de pacientes, na administração hospitalar e na vigilância epidemiológica.


7. Capital fictício, dados e militarização


O capital fictício compreende títulos financeiros — ações, obrigações, títulos públicos e outros direitos sobre rendimentos futuros — que são capitalizados e negociados como se constituíssem capital autônomo.


O dólar é a principal moeda em que grande parte desses direitos é denominada, liquidada e convertida internacionalmente.


Nas condições do capitalismo global, o dólar fornece o espaço monetário; os títulos públicos fornecem um ativo de referência; as gestoras concentram a administração das carteiras; as Big Techs oferecem a infraestrutura informacional; as empresas de IA transformam dados e capacidades cognitivas em ativos; a Big Pharma capitaliza direitos sobre a reprodução da vida; e o complexo militar protege e amplia as condições geopolíticas de funcionamento do sistema.


BlackRock, Vanguard e State Street não devem ser descritas simplesmente como “maestros” capazes de comandar soberanamente todo esse processo. Elas são, antes, centros estratégicos de concentração e coordenação financeira. Seu poder deriva da posição transversal que ocupam: administram frações gigantescas da riqueza social, exercem direitos de voto, influenciam padrões de governança e conectam poupanças dispersas aos principais oligopólios tecnológicos, farmacêuticos, energéticos e militares.

Essa integração transforma o trabalho vivo em fonte simultânea de valor, informação e previsão comportamental.


O indivíduo aparece como trabalhador, consumidor, paciente, usuário, devedor e conjunto de dados.


A mercadoria não desaparece, mas adquire novas camadas: converte-se em serviço recorrente, assinatura, patente, perfil algorítmico, fluxo futuro de rendimentos e instrumento financeiro.


O hiperfetichismo manifesta-se precisamente nessa autonomização aparente, pela qual dados, algoritmos e títulos parecem produzir valor por si mesmos, ocultando o trabalho, a natureza, a infraestrutura material e o poder estatal que sustentam sua existência.

 

 NOTAS 


[1] Os Exchange-Traded Funds (ETFs), ou Fundos de Índice negociados em bolsa, representam uma das inovações financeiras mais significativas do capitalismo neoliberal, operando na interseção entre os fundos de investimento tradicionais e a agilidade das ações individuais. De forma técnica e rigorosa, um ETF é um veículo de investimento coletivo que detém ativos (como ações, títulos, commodities ou moedas) e cujas cotas são negociadas em tempo real em bolsas de valores, como a B3 no Brasil ou a NYSE nos Estados Unidos. A característica ontológica do ETF é a sua natureza de gestão passiva. Diferente de um fundo de investimento ativo, onde um gestor busca "bater o mercado" através da seleção discricionária de ativos [stock picking], o ETF visa replicar fielmente o desempenho de um índice de referência [o benchmark]. Por exemplo, um ETF que segue o Ibovespa (como o BOVA11) terá em sua composição exatamente as mesmas ações, nas mesmas proporções, que compõem o índice da bolsa brasileira. Diferente dos fundos mútuos, onde o preço da cota é calculado apenas uma vez ao dia após o fechamento do mercado (o valor patrimonial líquido), o preço do ETF flutua durante todo o pregão. Isso ocorre devido ao mecanismo de criação e resgate por "Participantes Autorizados" (geralmente grandes instituições financeiras), que garante que o preço de mercado da cota não se desvie significativamente do valor real dos ativos subjacentes. Sob uma perspectiva de eficiência de mercado, os ETFs oferecem três pilares fundamentais: (1). Diversificação Imediata: Ao adquirir uma única cota, o investidor detém uma fração de dezenas ou centenas de empresas, mitigando o risco assistemático. (2). Baixo Custo: Devido à gestão passiva, as taxas de administração são substancialmente menores que as de fundos ativos. Não há necessidade de uma equipe de análise para escolher ações, apenas para manter a paridade com o índice. (3) Transparência: A composição do portfólio de um ETF é pública e atualizada diariamente.  No entanto, é pertinente observar, sob a lente da crítica à economia política, que a ascensão dos ETFs contribui para o que alguns teóricos chamam de "financeirização da economia". Ao transformar índices inteiros em mercadorias líquidas, o investimento deixa de ser uma análise sobre o valor de uso ou o potencial produtivo de uma empresa específica e passa a ser uma aposta na abstração do mercado como um todo. Como observa o economista John Bogle, o criador do primeiro fundo de índice, o foco desloca-se do "investimento empresarial" para o "investimento financeiro" puro. Esta visão fundamenta a tese de que, se o mercado é eficiente e reflete todas as informações disponíveis, a estratégia mais racional para o investidor médio é a replicação passiva através de ETFs, em vez da tentativa infrutífera de superar o mercado sistematicamente. Em suma, os ETFs são instrumentos que democratizaram o acesso a estratégias de investimento complexas, permitindo que o investidor individual opere com a mesma base de custos de grandes instituições, embora exijam uma compreensão clara de que o risco de mercado (o risco sistêmico) permanece intrínseco ao ativo. Os ETFs democratizaram relativamente o acesso a carteiras diversificadas e reduziram os custos suportados pelo pequeno investidor. Entretanto, esse avanço convive com uma concentração sem precedentes da gestão financeira. A propriedade econômica permanece dispersa entre milhões de cotistas, enquanto a administração dos ativos e o exercício dos direitos de voto se concentram em poucas instituições. A expansão da gestão passiva também intensifica a canalização automática de recursos para as empresas de maior capitalização. Quanto mais valorizadas se tornam as Big Techs, as fabricantes de semicondutores e as corporações associadas à inteligência artificial, maior é seu peso nos índices; quanto maior esse peso, maior tende a ser o fluxo recebido dos fundos que reproduzem esses índices. A gestão passiva não elimina o risco sistêmico nem constitui um mecanismo neutro. Ela participa da reprodução circular entre capitalização, concentração financeira e predomínio oligopolista. O investidor individual obtém diversificação e custos menores, mas ingressa em uma arquitetura cuja direção permanece fortemente concentrada. Eis a contradição central: a propriedade financeira massifica-se, enquanto o poder de organizar e administrar essa propriedade se centraliza. A aparente democratização do investimento torna-se, assim, uma das formas pelas quais se consolida o poder dos gigantes da gestão de ativos — agora articulados não apenas às Big Techs, à Big Pharma e ao complexo industrial-militar, mas também ao núcleo emergente das empresas de inteligência artificial.

 

 

 

 

[2] As políticas de ESG — sigla em inglês para Environmental, Social, and Governance (Ambiental, Social e Governança Corporativa) — constituem um conjunto de critérios e métricas extrafinanceiras empregados para orientar decisões de investimento, gestão de riscos sistêmicos e estratégias operacionais em organizações públicas e privadas. Historicamente cunhado no relatório Who Cares Wins (2004), fruto de uma iniciativa conjunta do Pacto Global da ONU com instituições financeiras internacionais sob a chancela do Banco Mundial, o conceito surge no âmbito de uma reconfiguração do mercado de capitais que busca internalizar externalidades negativas e mensurar a resiliência a longo prazo das corporações diante das crises climáticas, convulsões sociais e demandas por conformidade institucional. Em termos estruturais, a dimensão ambiental (Environmental) compreende a gestão dos impactos ecológicos das atividades produtivas, mensurando a pegada de carbono, as emissões de gases de efeito estufa nos três escopos de inventário, a gestão da matriz energética, a conservação dos recursos hídricos, o manejo da biodiversidade e a transição para modelos circulares de produção. O pilar social (Social) examina as relações de trabalho no interior da firma e as interfaces com as partes interessadas (stakeholders), abrangendo a garantia de saúde e segurança ocupacional, políticas de diversidade, equidade e inclusão, relações sindicais, respeito aos direitos humanos nas cadeias de suprimentos globais e o impacto direto nas comunidades circundantes. Por fim, a governança corporativa (Governance) abrange a estrutura decisória e os mecanismos de controle interno da entidade, envolvendo a composição, independência e diversidade do conselho de administração, a transparência e integridade das demonstrações contábeis, a estrutura de remuneração de executivos, o combate ativo à corrupção e à fraude, a conduta ética e os direitos conferidos aos acionistas majoritários e minoritários. Do ponto de vista teórico-econômico, a disseminação das diretrizes ESG representa um deslocamento — ao menos discursivo e metodológico — da tradicional doutrina da primazia do acionista (shareholder primacy), preconizada emblematicamente pela Escola de Chicago e articulada por Milton Friedman, em direção à teoria das partes interessadas (stakeholder theory), sistematizada por R. Edward Freeman. Friedman, em seu célebre ensaio de 1970 no The New York Times Magazine, postulava o isolamento da finalidade empresarial estritamente ao lucro dentro dos limites da lei: "Existe uma e apenas uma responsabilidade social dos negócios — usar seus recursos e engajar-se em atividades destinadas a aumentar seus lucros, desde que permaneça dentro das regras do jogo, isto é, envolva-se em competição aberta e livre, sem engano ou fraude." Em contraposição direta a esse reducionismo financeiro, R. Edward Freeman propôs que o valor gerado por uma corporação decorre de uma rede interdependente de relacionamentos, em que a desconsideração de agentes externos ou subordinados compromete a própria sustentabilidade da firma: "A teoria dos stakeholders sugere que, se adotarmos como unidade de análise as relações entre uma empresa e os grupos e indivíduos que podem afetar ou são afetados por ela, teremos uma chance melhor de lidar efetivamente com estes três problemas: o problema da criação de valor e do comércio, o problema da ética do capitalismo e o problema da mentalidade gerencial." Contudo, a literatura crítica contemporânea e a sociologia econômica examinam as políticas de ESG sob um prisma mais cético, analisando como tais métricas frequentemente operam como dispositivos de comodificação de imperativos ecológicos e sociais, integrando as crises socioambientais à própria lógica de acumulação e precificação de ativos por meio de fundos de investimento sustentáveis, títulos verdes (green bonds) e mercados de créditos de carbono. Aponta-se, ademais, a fragilidade metodológica dos índices e agências de classificação de risco ESG, os conflitos de interesse inerentes à autorregulação corporativa e o fenômeno do greenwashing e social washing, nos quais a adoção de relatórios sofisticados e metas de neutralidade de carbono mascara a continuidade inalterada da degradação ecológica e da precarização laboral em escala global.


[CONTINUA]

 
 
 

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