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Lukács e a expressão “Não sabem, mas o fazem” – Final

  • há 1 dia
  • 42 min de leitura

Esta é a última postagem da série dedicada à análise crítico-filológica das ocorrências da expressão Sie wissen das nicht, aber sie tun es — “Eles não sabem, mas o fazem” — nos escritos ontológicos de György Lukács. Depois de examinarmos sua presença em Para uma Ontologia do Ser Social, voltamo-nos, nesta etapa conclusiva, aos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social, último grande texto filosófico do autor, redigido em 1970.


Como salientamos desde o início, nosso propósito não se limita a registrar ou contabilizar as passagens nas quais Lukács retoma a conhecida formulação de Marx. Por meio do exame atento de seus diferentes contextos e funções argumentativas, procuramos compreender como o filósofo húngaro articula determinações fundamentais para a construção de uma ontologia do ser social fundada na práxis. A expressão condensa um problema decisivo: os seres humanos agem de maneira consciente e teleologicamente orientada no âmbito de suas atividades singulares, mas nem sempre conhecem as condições objetivas, as mediações sociais e as consequências históricas produzidas pelo entrelaçamento de seus próprios atos.


Foram identificadas, ao todo, dezoito ocorrências: doze em Para uma Ontologia do Ser Social e seis nos Prolegômenos. Cada uma delas foi submetida a uma análise crítico-filológica, atenta tanto às variações da tradução quanto à posição ocupada pela fórmula no desenvolvimento conceitual de Lukács. Embora numericamente menos numerosas, as ocorrências presentes nos Prolegômenos possuem maior frequência relativa, uma vez considerada a extensão textual das duas obras.


Ao longo da série, certas determinações reaparecem. Essas repetições, contudo, devem ser compreendidas menos como redundâncias ou descuidos expositivos do que como índices da insistência teórica com que Lukács retorna a alguns dos problemas centrais de sua ontologia. A recorrência não é acidental. Ela revela o esforço de apreender, sob diferentes ângulos e em níveis diversos de concreção, a relação entre consciência e objetividade, teleologia e causalidade, ação individual e processo social, saber imediato e efetividade histórica.


As sucessivas ênfases conferidas às questões que gravitam em torno de Sie wissen das nicht, aber sie tun es contribuem, assim, para a elaboração de uma teoria ontológica da práxis. Nela, a atividade humana não aparece nem como execução mecânica de determinações objetivas nem como criação soberana de uma consciência desligada da realidade. A práxis constitui, antes, o campo contraditório no qual atos teleológicos conscientemente postos desencadeiam nexos causais cujos resultados frequentemente ultrapassam o saber, as intenções e o controle dos indivíduos que os realizaram. É precisamente nessa tensão entre consciência do ato e desconhecimento de suas mediações e consequências que a fórmula marxiana adquire sua força e sua centralidade no pensamento do último Lukács.

 

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Diz Lukács: “Essa unidade entre capacidade de desenvolvimento e permanência de determinações fundamentais, de elasticidade e solidez, faz este caso de assimilação ontológica do mundo na linguagem adequado para poder acompanhar as variações essenciais deste tipo de relação dos objetos para com o sujeito no ser social como modo de expressão, como órgãos do fazer consciente, como capacidade de preparação e realização das posições e decisões necessárias para a práxis. Nossa formulação não é, todavia, a realmente exata a esse respeito, pois, pela sua essência, já eram de caráter social as acima comentadas fixações pela linguagem dos momentos da troca material da sociedade com a natureza. Em todo ato de trabalho está contida, objetivamente considerado, a transição plena do meramente conhecido ao reconhecido, mesmo que isto não obtenha incondicionalmente um reflexo intelectual realmente consciente. Também para o trabalho, para ele com maior razão, vale a, de Marx, observação fundamental para a metodologia histórica sobre a práxis humana: não sabem, mas fazem. O conhecimento que se desdobra do mero ser-conhecido pode tornar-se rotina na práxis do trabalho, pode tornar-se tão evidente e fixo a ponto de se converter em reflexo condicionado, sem que os atos dos seres humanos que, enquanto tais, tornam conscientes, que fixam e concretizam a sua objetividade, devam ser diretamente retidos intelectualmente. Na objetividade da práxis, este processo dos sinais à linguagem, do meramente conhecido ao mais »comportamento« ante os complexos e processos de objetos, já deve ter sido realizado para que possa ser fixado como base da práxis do trabalho. Pois, apenas assim, o ser humano fica em condições de comportar-se correspondentemente aos complexos de ser que, em sua objetividade, já prevalecente ou exclusivamente surgiram do ser social. A qualitativamente nova forma de ser da generidade na sociedade se mostra, igualmente desde o início, que ela é pluralística, i.e., que se diferencia, já na práxis imediata, em pequenos grupos genéricos singulares, ante os quais a generidade humana geral parece existir apenas como mera abstração, ainda que — por fim — seja aquela força que determina a direção das tendências principais. Pensamos no fato fundamental de que, enquanto os organismos na natureza orgânica são imediatamente exemplares de seus respectivos gêneros, o gênero humano tornado social se diferencia em unidades menores, imediata e aparentemente fechadas em si mesmas, de tal modo que, na sua práxis — para além do gênero natural-mudo, ao se esforçar por uma certa conscienciosidade sobre essa determinação do seu ser como ser genérico —, é constrangido, ao mesmo tempo, a aparecer apenas como um membro consciente de uma parte menor do gênero. A generidade não mais muda do ser humano, portanto, ancora sua autoconsciência não diretamente no gênero real, total da humanidade, que adentra ao ser como sociedade, mas nestas suas imediatas, primeiras, formas fenomênicas parciais. A separação adentra à consciência tão amplamente que os membros destas primeiras, parciais, ainda que parcialmente não mais mudas, formas de generidade, tratam os outros grupos similares praticamente como se não fossem humanos, como não pertencentes ao mesmo gênero (canibalismo, etc.). Assim a generidade humana não mais muda parece, portanto, na práxis imediata, desmembrar-se totalmente em partes independentes. Com o que aparece como ontologicamente evidente que as formas imediatas de consciência da vida cotidiana são amplamente forçadas a seguir esta decomposição. Isto é de todo claramente indicado pela história de um dos órgãos primários da específica generidade humana, a linguagem. Tal como o desenvolvimento geral da generidade do ser humano exibe um pluralismo desconhecido da natureza, o mesmo ocorre com a linguagem; ela, desde o início, também existe de modo plural.” [p.48]


A longa passagem dos "Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social" é uma das mais importantes para compreender como György Lukács interpreta a relação entre trabalho, linguagem, consciência e formação do ser social a partir de Marx. Nela, Lukács retoma explicitamente a célebre formulação marxiana presente no capítulo sobre o fetichismo da mercadoria em O Capital: Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ (“Eles não sabem disso, mas o fazem”). Como temos salientado nas postagens anteriores, embora essa frase tenha sido originalmente utilizada por Marx para explicar como os produtores de mercadorias criam objetivamente as relações de valor sem terem consciência teórica do que estão fazendo, Lukács amplia enormemente seu alcance. Para ele, trata-se de um princípio metodológico fundamental para compreender toda a gênese do ser social.


O ponto de partida de Lukács é a constatação de que a consciência humana não surge primeiro como conhecimento teórico para depois orientar a ação prática. O processo real ocorre de maneira inversa. Os seres humanos agem sobre a realidade, transformam a natureza, produzem instrumentos, estabelecem relações sociais, desenvolvem a linguagem e constroem formas de vida coletiva muito antes de possuírem uma compreensão conceitual e reflexiva dessas atividades.


Em outras palavras, a prática precede a teoria. É exatamente nesse sentido que a observação de Marx adquire importância ontológica. Os homens realizam objetivamente determinadas operações e produzem determinadas formas sociais sem conhecer plenamente o significado delas. Eles não sabem, mas fazem.


Lukács introduz essa ideia ao analisar o trabalho. Todo ato de trabalho pressupõe uma relação objetiva com as propriedades da realidade. Quando um ser humano primitivo escolhe uma pedra para transformá-la em instrumento de corte, ele precisa distinguir certas características objetivas dessa pedra: sua dureza, resistência, forma e capacidade de ser afiada. Essas propriedades existem independentemente de sua consciência. O êxito da atividade prática depende justamente da adequação do comportamento humano às determinações objetivas do objeto.


No entanto, esse reconhecimento inicial não possui necessariamente caráter teórico ou científico. O indivíduo não precisa formular conceitos abstratos sobre a dureza ou a resistência da matéria. Ele age corretamente em relação a essas propriedades antes de compreendê-las conceitualmente. É nesse ponto que Lukács introduz a fórmula marxiana. O trabalhador não possui ainda um conhecimento explícito da objetividade que enfrenta, mas seu comportamento demonstra que ele já opera praticamente segundo essa objetividade. Ele não sabe, mas faz.


Por isso Lukács afirma que, em todo ato de trabalho, está contida a passagem do meramente conhecido ao efetivamente reconhecido. Trata-se de uma distinção importante. Algo pode ser familiar ao sujeito no nível da experiência imediata sem que ele compreenda conscientemente sua estrutura objetiva.


A prática social contém continuamente essa transformação do simples contato com a realidade em formas cada vez mais profundas de reconhecimento. Contudo, esse processo não ocorre necessariamente por meio da reflexão intelectual. Muitas vezes ele se sedimenta na forma de hábitos, costumes e rotinas.


É precisamente esse aspecto que Lukács destaca ao afirmar que o conhecimento adquirido pelo trabalho pode tornar-se rotina. Uma vez incorporadas determinadas experiências práticas, elas deixam de exigir reflexão consciente permanente.


O trabalhador experiente não precisa pensar teoricamente em cada movimento que realiza. O conhecimento objetivo sedimenta-se em comportamentos automáticos, em habilidades adquiridas e em reflexos condicionados. O sujeito continua agindo de acordo com determinações reais do mundo, mas já não precisa tematizá-las intelectualmente a cada instante. Novamente se verifica a validade da observação de Marx: ele não sabe, mas faz.


Essa análise possui enorme alcance ontológico. Lukács pretende demonstrar que grande parte das objetivações fundamentais do ser social surge exatamente dessa maneira. A linguagem, por exemplo, não nasceu de uma decisão consciente dos indivíduos. Nenhum grupo humano se reuniu para elaborar deliberadamente um sistema gramatical ou um conjunto de regras linguísticas. A linguagem desenvolveu-se gradualmente no interior da práxis social. Novos significados, formas sintáticas e estruturas comunicativas surgiram através da atividade cotidiana dos indivíduos. Durante milênios os seres humanos falaram antes de possuir qualquer ciência da linguagem. As regras gramaticais existiam objetivamente na prática muito antes de serem formuladas pelos gramáticos. Assim, também a linguagem confirma a tese de que os homens produzem realidades objetivas que transcendem sua consciência imediata. Eles falam antes de compreender o funcionamento da língua. Não sabem, mas fazem.


Lukács estende essa lógica a toda a constituição do mundo social. Instituições, costumes, formas de cooperação, estruturas econômicas e relações sociais são produzidos historicamente pela atividade humana muito antes de se tornarem objetos de reflexão consciente. A objetividade social é sempre mais rica e mais ampla do que o nível de consciência que os indivíduos possuem dela. O ser social cria continuamente formas que ultrapassam o saber dos próprios sujeitos que as produzem.


É nesse contexto que a reflexão se desloca para a questão da generidade humana [Gattungsmäßigkeit].


O termo deriva de Gattung, que significa gênero ou espécie. Em Marx e Lukács, designa a condição humana enquanto pertencimento ao gênero humano. Contudo, essa universalidade não aparece imediatamente à consciência dos indivíduos. Enquanto os organismos da natureza pertencem diretamente ao seu gênero biológico, os seres humanos socializados vivem em grupos concretos e particulares: famílias, clãs, tribos, aldeias e comunidades específicas. Por isso sua autoconsciência inicial não se orienta para a humanidade como um todo, mas para essas formas imediatas de pertencimento.


Segundo Lukács, a humanidade objetiva já existe enquanto gênero social, mas os indivíduos não têm consciência disso. Eles identificam-se primeiramente com sua comunidade particular e frequentemente encaram os grupos externos como estranhos ou até mesmo como não humanos.


O exemplo do canibalismo mencionado por Lukács possui exatamente esse sentido. Em muitas formações sociais primitivas, os membros de outras tribos não eram reconhecidos como integrantes da mesma humanidade. A universalidade objetiva da espécie humana permanecia oculta sob as formas particulares da vida social imediata.


Também aqui a fórmula marxiana conserva toda a sua validade. Os seres humanos pertencem objetivamente à humanidade enquanto gênero social, mas não sabem disso. Sua prática já expressa essa condição universal, embora sua consciência permaneça limitada pelas formas particulares de sociabilidade. A realidade objetiva é mais ampla que a consciência que dela se possui. A humanidade existe antes de ser reconhecida como humanidade.


Por essa razão, a frase Sie wissen das nicht, aber sie tun es adquire em Lukács um significado muito mais amplo do que possuía originalmente em Marx. Ela deixa de ser apenas uma explicação do fetichismo da mercadoria para tornar-se um princípio geral da ontologia do ser social.


O trabalho, a linguagem, a formação da consciência, as instituições sociais e a própria história humana desenvolvem-se segundo essa lógica fundamental. Os homens criam continuamente realidades objetivas que excedem seu conhecimento imediato. Primeiro produzem essas realidades através da prática; somente depois podem compreendê-las teoricamente. A prioridade ontológica pertence ao ser social efetivamente existente, e não à consciência que os indivíduos têm dele.


Em última instância, Lukács está afirmando que a história humana avança porque a prática produz mais do que os sujeitos sabem sobre ela. O mundo social é uma criação humana, mas uma criação que constantemente ultrapassa a consciência de seus criadores. Por isso os homens podem transformar a realidade antes de compreendê-la plenamente, assim como podem estar submetidos a determinações sociais que eles próprios produziram sem saber. A famosa frase de Marx expressa exatamente essa dialética fundamental entre objetividade e consciência: os humanos fazem sua própria história, mas frequentemente o fazem sem saber inteiramente o que estão fazendo. Somente a reflexão posterior, filosófica, científica e crítica, permite elevar ao plano da consciência aquilo que já estava objetivamente presente na práxis social. Em Lukács, essa fórmula torna-se a chave para compreender a gênese do trabalho, da linguagem, da consciência e do próprio ser social enquanto totalidade histórica.


Observações filológicas


Uma leitura filológica atenta do texto acima dos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social revela uma série de nuances conceituais que se perdem parcialmente nas traduções correntes e que são decisivas para compreender o significado que Lukács atribui à famosa frase de Marx: Sie wissen das nicht, aber sie tun es (“Eles não sabem disso, mas o fazem”). Nessa passagem, Lukács não está apenas citando Marx para ilustrar um aspecto da consciência prática. Ele está transformando essa formulação em um princípio ontológico geral para explicar a gênese do trabalho, da linguagem, da consciência e da própria constituição histórica do ser social.


A primeira observação filológica importante diz respeito à expressão der vollzogene Übergang vom bloß Bekannten zum Erkannten, geralmente traduzida como “a passagem do meramente conhecido ao reconhecido”. O problema é que os termos alemães Bekannt e Erkannt não são simples sinônimos. Bekannt designa algo familiar, algo com que se convive ou que se conhece pela experiência cotidiana. É o domínio da familiaridade prática, daquilo que se encontra diante de nós sem que necessariamente compreendamos suas determinações essenciais. Já Erkannt deriva do verbo erkennen, que significa reconhecer efetivamente, compreender, captar intelectualmente as determinações constitutivas de algo.


Portanto, Lukács não está descrevendo a passagem entre dois graus quantitativos de conhecimento, mas a passagem qualitativa entre a simples familiaridade prática e o conhecimento efetivo. O trabalhador primitivo possui um conhecimento prático da pedra que utiliza como ferramenta; ele sabe manuseá-la, distingue intuitivamente suas propriedades e consegue empregá-la adequadamente. Contudo, ele não possui ainda um conhecimento conceitual dessas propriedades. Sua prática já contém um momento de reconhecimento objetivo da realidade, mesmo sem que isso tenha sido elevado ao plano da consciência teórica. É precisamente nesse contexto que Lukács invoca a frase de Marx: os homens não sabem, mas fazem.


Outra expressão decisiva é wirklich bewußte gedankliche Spiegelung, normalmente traduzida como “reflexo intelectual realmente consciente”. O termo central aqui é Spiegelung, literalmente “espelhamento” ou “reflexo”. Trata-se de uma categoria clássica da teoria do conhecimento de Lukács, vinculada à noção marxista de que a consciência reflete ou espelha a realidade objetiva.


O que Lukács está afirmando é que a prática pode ser objetivamente adequada ao mundo mesmo quando não existe ainda uma representação consciente dessa adequação. Os humanos podem agir corretamente em relação às determinações objetivas dos objetos antes de possuírem uma teoria sobre elas. Em outras palavras, a conformidade prática com a realidade antecede sua formulação intelectual. A práxis é ontologicamente anterior à teoria. A consciência conceitual surge posteriormente como reflexão sobre uma relação prática já existente.


Essa ideia aparece de modo ainda mais claro na expressão Die aus dem bloßen Bekanntsein sich entfaltende Erkenntnis, isto é, “o conhecimento que se desdobra da simples familiaridade”. O verbo entfalten possui um significado particularmente rico. Literalmente significa desdobrar, abrir algo que estava dobrado, fazer emergir algo que já se encontrava potencialmente presente. Trata-se de uma imagem profundamente hegeliana. Lukács sugere que o conhecimento não é acrescentado de fora à prática. Ele se desenvolve internamente a partir dela. A compreensão teórica não surge como uma criação arbitrária da consciência, mas como o desdobramento de possibilidades já contidas na própria atividade prática. A Erkenntnis encontra-se potencialmente presente no Bekanntsein e emerge historicamente através de um processo de desenvolvimento.


Outro aspecto filologicamente relevante aparece na expressão reflexgewordenen Fixiertsein. Traduzir simplesmente por “reflexo condicionado” não é incorreto, mas não capta toda a riqueza do original. Lukács está falando de um estado em que determinadas formas de conhecimento objetivo se sedimentam tão profundamente na prática que deixam de exigir reflexão consciente. Elas transformam-se em hábitos incorporados, em esquemas de ação que operam quase automaticamente. O conhecimento torna-se comportamento. O sujeito continua agindo de acordo com determinações objetivas do mundo, mas já não precisa tematizá-las intelectualmente. O saber transforma-se em uma segunda natureza prática.


Uma das distinções mais importantes do texto encontra-se na passagem em que Lukács descreve a transição vom unmittelbaren Reagieren auf Ereignisse zum Verhalten Gegenstandskomplexen und -prozessen gegenüber, isto é, “da reação imediata aos acontecimentos para o comportamento diante de complexos e processos objetivos”. Aqui a diferença entre Reagieren e Verhalten é fundamental. Em alemão filosófico, especialmente desde Hegel, esses termos não são equivalentes. Reagieren (Reagir) significa responder imediatamente a um estímulo. É algo que também caracteriza o comportamento animal. Já Verhalten possui um sentido muito mais rico. Significa comportar-se diante de algo, estabelecer uma relação mediada com uma realidade objetiva.


O comportamento humano não consiste simplesmente em reagir a estímulos isolados, mas em orientar-se diante de complexos de ser, diante de conjuntos articulados de relações objetivas. A passagem da reação ao comportamento expressa precisamente a emergência do ser social. O homem deixa de responder apenas a eventos imediatos e passa a agir em função de uma compreensão prática, ainda que rudimentar, de estruturas objetivas mais amplas.


Essa discussão prepara a entrada de um dos conceitos centrais da ontologia lukacsiana: Gattungsmäßigkeit, frequentemente traduzido por “generidade”. A tradução é útil, mas insuficiente. O termo deriva de Gattung, que significa gênero ou espécie, e remete diretamente ao conceito marxiano de Gattungswesen, o ser genérico.


Gattungsmäßigkeit designa a qualidade de pertencer ao gênero humano, a condição de ser um ente cuja existência é determinada por sua inserção em uma totalidade genérica. Lukács procura explicar como essa dimensão genérica da humanidade emerge historicamente.


Particularmente significativa é a expressão die nicht mehr stumme Gattungsmäßigkeit, literalmente “a generidade não mais muda”. A oposição implícita é entre natureza e sociedade. Na natureza, o pertencimento ao gênero é silencioso, inconsciente, mudo. O leão não sabe que é leão. O cavalo não sabe que pertence à espécie cavalo. Já no ser social surge uma forma de pertencimento genérico que pode tornar-se consciente. Contudo, essa consciência não aparece imediatamente na forma de uma consciência universal da humanidade. Ela emerge inicialmente em formas particulares e limitadas.


É exatamente por isso que Lukács fala em partial nicht mehr stummen Formen der Gattungsmäßigkeit, ou seja, “formas parcialmente não mais mudas da generidade”. Trata-se de uma formulação extremamente precisa. As primeiras comunidades humanas já não pertencem à natureza muda, pois possuem linguagem, cultura e formas de autoconsciência. Mas sua consciência continua restrita ao âmbito da tribo, do clã ou do grupo local. Elas ainda não alcançaram a consciência da humanidade como gênero universal. São formas intermediárias entre a pura naturalidade e a universalidade humana plenamente consciente.

Nesse contexto torna-se fundamental a utilização do termo Erscheinungsformen, traduzido como “formas fenomênicas” ou “formas de manifestação”. Em Lukács, assim como em Marx, Erscheinung não significa mera aparência ilusória. Significa a forma concreta pela qual uma essência se manifesta historicamente. A humanidade enquanto gênero universal existe objetivamente, mas aparece inicialmente sob formas particulares: tribos, povos, comunidades locais. Essas formas não são falsas; são manifestações históricas concretas de uma universalidade que ainda não se tornou consciente de si mesma.


Essa ideia é reforçada pela frase die allgemein menschliche Gattungsmäßigkeit unmittelbar als bloße Abstraktion zu existieren scheint, isto é, “a generidade humana universal parece existir apenas como uma abstração”. O verbo utilizado é scheint — “parece”. Aqui Lukács mobiliza uma distinção profundamente dialética entre aparência e essência.


A humanidade universal parece uma abstração porque a experiência cotidiana dos indivíduos está vinculada às formas particulares de pertencimento. Contudo, essa universalidade não é uma ficção. Ela constitui aquilo que Lukács chama de jene Kraft, die die Richtung der Haupttendenzen bestimmt, “a força que determina a direção das tendências fundamentais do desenvolvimento histórico”.


É nesse ponto que a frase de Marx adquire seu significado ontológico mais amplo. Em “O Capital”, “Eles não sabem disso, mas o fazem” descreve o fato de que os produtores de mercadorias criam relações de valor sem possuírem consciência delas.


Em Lukács, a mesma fórmula passa a expressar uma característica fundamental de todo o ser social. Os homens produzem linguagem antes de compreenderem a linguagem; produzem instituições antes de compreenderem as instituições; produzem formas de sociabilidade antes de compreendê-las; produzem a própria humanidade como gênero social antes de reconhecerem conscientemente sua pertença a ela. A passagem do Bekanntsein à Erkenntnis, da simples reação [Reagieren] ao comportamento mediado [Verhalten], da Gattungsmäßigkeit stumm à nicht mehr stumme Gattungsmäßigkeit, descreve precisamente esse longo processo histórico em que a prática antecede a consciência.


A tese fundamental de Lukács é que a objetividade do ser social é sempre mais rica, mais ampla e mais desenvolvida do que a consciência imediata que os indivíduos possuem dela.

A história humana avança porque os homens produzem continuamente realidades que ultrapassam seu próprio saber. Eles fazem antes de compreender. A consciência surge posteriormente como tentativa de apreender aquilo que a prática já havia produzido. É exatamente nesse sentido profundo que Lukács retoma a fórmula de Marx: Sie wissen das nicht, aber sie tun es. Ela deixa de ser apenas uma observação sobre o fetichismo da mercadoria para tornar-se a expressão de uma lei ontológica fundamental do desenvolvimento do ser social.


17

Diz Lukács: “Questões ontológicas desse tipo podem ser colocadas e mesmo adequadamente respondidas sem um acurado exame científico de se os elementos das formas de ser mais simples inseridos nas formas de ser mais complicadas foram submetidos, nessa transação, a um rearranjo interno ou se submetem, como elementos da nova conexão, a uma mera mudança de função. A sua nova existência na nova conexão ontológica resulta, em ambos os casos, em um mesmo quadro. Todavia, precisamente do ponto de vista do modo de consideração ontológico, não parece inessencial qual das duas possibilidades, a depender do caso, é real. Pois sua constatação pode concretamente lançar luz sobre qual alteração ontológica o ser mais simples, fundante, tem de sofrer ao se tornar um elemento estrutural indispensável, mas subordinado, dos complexos ontológicos mais complicados. Os próprios fatos aparecem muito frequentemente tão conspícuos nos processos históricos concretos, que seu destino geral pode ser claramente visível sem um detalhado, preciso, desvelamento de seus momentos. Pense-se, para mencionar um exemplo relativamente simples, na criação dos animais domésticos, cujo início remonta à Idade da Pedra e cujo percurso puramente biológico está, ainda, amplamente não pesquisado. »Eles não sabem, mas fazem«, disse Marx certa vez sobre a atividade social dos seres humanos. Também aqui os seres humanos não sabiam, no sentido de uma cientificidade autêntica e, todavia, na prática realizaram em sua atividade o autêntico princípio de transformação: mudaram e reordenaram radicalmente as condições de vida dos animais em correspondência às suas finalidades postas socialmente, favoreceram o acasalamento daqueles exemplares que, relativamente, mais pronta e fundamentalmente, haviam se transformado segundo as novas posições de finalidade. Desse modo, emergiram novas espécies, fundamentalmente diferentes das »originárias«. São, além disso, amplamente diferenciadas em correspondência às finalidades socialmente postas a partir das necessidades socialmente surgidas: do cavalo inglês de corrida ao cavalo de tração, do cão de caça ao cão de companhia, produziram-se escalas altamente graduais, ricas. Que os tipos aqui surgidos corporifiquem desvios, no sentido biológico, é muito difícil de ser colocado em dúvida: o motor concreto da diferenciação foi, todavia, a mudança do mundo ambiente, das condições de vida, um motivo tão autenticamente tomado do ser que, a partir dele, Darwin foi capaz de desenvolver o método para a pesquisa científica da origem das espécies. [p. 216]


Nesta passagem dos “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social”, György Lukács retoma mais uma vez a célebre formulação de Marx — Sie wissen das nicht, aber sie tun es (“Eles não sabem disso, mas o fazem”) — conferindo-lhe um significado ontológico ainda mais amplo. Se em O Capital Marx utilizou essa expressão para explicar como os produtores de mercadorias criam objetivamente relações de valor sem terem consciência teórica do que estão fazendo, Lukács transforma essa observação em uma chave metodológica para compreender o próprio desenvolvimento histórico do ser social. A passagem em questão trata da relação entre formas simples e formas complexas de ser, mas utiliza o exemplo da domesticação dos animais para ilustrar uma característica fundamental da atividade humana: a capacidade de produzir transformações objetivas profundas na realidade antes de possuir um conhecimento científico dessas transformações.


O ponto de partida da reflexão de Lukács é uma questão ontológica. Quando formas mais simples de ser passam a integrar formas mais complexas de organização, ocorre apenas uma mudança de função ou há também uma transformação interna dos próprios elementos incorporados? Em outras palavras, quando algo passa a fazer parte de uma estrutura mais complexa, ele permanece essencialmente o mesmo ou sofre alterações qualitativas em sua constituição? Lukács observa que nem sempre é necessário resolver detalhadamente essa questão para reconhecer os resultados objetivos do processo. Muitas vezes os próprios fatos históricos tornam evidente que algo qualitativamente novo surgiu, ainda que os mecanismos precisos dessa transformação permaneçam desconhecidos.


É nesse contexto que ele introduz o exemplo da domesticação dos animais. A escolha não é casual. A domesticação constitui um dos exemplos mais antigos e mais impressionantes da capacidade humana de transformar a natureza. Os primeiros criadores de animais, ainda na Idade da Pedra, não possuíam qualquer conhecimento de genética, hereditariedade ou evolução biológica. Ignoravam completamente os mecanismos pelos quais características físicas e comportamentais são transmitidas entre gerações. Não existia nenhuma teoria científica da seleção artificial, nenhuma compreensão das mutações hereditárias, nenhuma biologia capaz de explicar o surgimento de novas formas de vida. No entanto, apesar dessa ausência total de conhecimento científico, eles produziram efetivamente transformações biológicas profundas.


É precisamente nesse momento que Lukács introduz a frase de Marx. Os humanos não sabiam o que estavam fazendo no sentido científico do termo. Não compreendiam teoricamente os mecanismos envolvidos. Contudo, realizavam na prática aquilo que mais tarde seria reconhecido como o princípio fundamental da transformação biológica. Ao selecionar determinados animais para reprodução, ao modificar seus hábitos alimentares, ao controlar seus ambientes de vida e ao favorecer certas características consideradas úteis, eles desencadeavam processos objetivos de transformação das espécies. Não possuíam uma teoria da evolução, mas realizavam uma forma prática de evolução dirigida. Não conheciam a genética, mas praticavam empiricamente algo que hoje chamamos de seleção genética. Não sabiam, mas faziam.


Lukács destaca que os seres humanos alteraram radicalmente as condições de existência dos animais. Eles reorganizaram o ambiente em que essas espécies viviam, modificaram sua alimentação, seus modos de reprodução, seus padrões de proteção e suas formas de interação com o meio. Em vez de atuar diretamente sobre a constituição biológica dos animais, atuaram sobre aquilo que Lukács chama de suas condições de vida. Essa observação é extremamente importante porque revela uma concepção ontológica profunda: as transformações mais significativas nem sempre ocorrem por intervenção direta sobre a essência de algo, mas frequentemente pela alteração de seu contexto de existência. Ao modificar o ambiente, os seres humanos modificaram indiretamente os próprios organismos animais.


Além disso, eles passaram a selecionar conscientemente para reprodução aqueles exemplares que melhor correspondiam às finalidades socialmente estabelecidas. Escolhiam os animais mais dóceis, mais resistentes, mais rápidos, mais fortes ou mais adequados às tarefas desejadas. Faziam isso sem qualquer compreensão dos mecanismos hereditários envolvidos. A escolha era inteiramente prática e empírica. Contudo, ao favorecer continuamente determinados traços e excluir outros, produziram mudanças cumulativas ao longo das gerações. A racionalidade objetiva do processo era muito maior do que o grau de consciência subjetiva dos indivíduos que o realizavam.


O resultado foi o surgimento de formas animais profundamente distintas das originais. Lukács menciona exemplos como a diferenciação entre o cavalo de corrida inglês e o cavalo de tração, ou entre o cão de caça e o cão de companhia. O que originalmente era uma única linhagem biológica passou a desdobrar-se em múltiplas variantes adaptadas a finalidades sociais diferentes. Ainda que do ponto de vista biológico moderno possamos discutir se essas formas constituem novas espécies ou novas raças, isso não altera o argumento filosófico fundamental. O que importa para Lukács é que os seres humanos produziram formas qualitativamente novas de vida animal por meio de uma prática orientada por necessidades sociais.


A parte mais profunda da análise aparece quando Lukács enfatiza que o motor concreto dessas transformações foi a mudança do ambiente. O termo alemão utilizado é Umwelt, que significa mundo circundante, meio ambiente ou conjunto das condições de existência. Os humanos não alteraram diretamente a estrutura genética dos animais. Alteraram o mundo em que eles viviam. Essa modificação das condições de existência desencadeou processos objetivos de transformação biológica. Trata-se de uma ideia de enorme alcance ontológico. O ser humano produz mudanças reais na natureza ao reorganizar contextos, ambientes e relações. Sua ação prática possui consequências objetivas que frequentemente ultrapassam em muito a consciência que ele possui delas.


É por isso que Lukács observa que Darwin pôde posteriormente construir uma teoria científica da evolução precisamente porque encontrou na realidade processos que já haviam sido produzidos historicamente pela prática humana. A ciência veio depois. Durante milhares de anos, os seres humanos haviam realizado empiricamente aquilo que somente muito mais tarde a biologia seria capaz de explicar teoricamente. A prática precedeu o conhecimento. A transformação objetiva da realidade antecedeu sua compreensão científica.


Esse é o verdadeiro significado da frase de Marx nesse contexto. Ela não se refere apenas ao fetichismo da mercadoria nem apenas à constituição das relações de valor. Ela expressa uma determinação ontológica fundamental do ser social. Os homens transformam a natureza antes de compreender as leis da natureza. Transformam a sociedade antes de compreender as leis da sociedade. Transformam a si mesmos antes de compreender os mecanismos de sua própria transformação. A história humana avança porque a prática produz continuamente resultados que excedem a consciência imediata dos agentes envolvidos.


Para Lukács, essa diferença entre a riqueza objetiva da práxis e a limitação da consciência subjetiva constitui uma característica essencial do ser social. A atividade humana é sempre mais ampla do que o saber que os indivíduos possuem acerca dela. A prática contém uma racionalidade objetiva que frequentemente ultrapassa o horizonte intelectual dos próprios sujeitos que a realizam. Por isso a observação de Marx adquire um alcance ontológico universal: os homens fazem a história antes de compreendê-la; criam novas formas de ser antes de conhecê-las teoricamente; produzem objetivações reais cujo significado somente mais tarde será revelado pela ciência, pela filosofia ou pela autoconsciência histórica.


A domesticação dos animais é apenas um exemplo particularmente claro desse processo. Ela mostra que os seres humanos foram capazes de realizar durante milênios uma transformação biológica profunda sem possuírem qualquer conhecimento científico dos mecanismos envolvidos. Eles não sabiam genética, não sabiam evolução, não sabiam biologia. Entretanto, por meio de sua atividade prática orientada por finalidades sociais, modificaram efetivamente a constituição de inúmeras espécies animais. É exatamente nesse sentido que se aplica aqui a fórmula de Marx: eles não sabiam, mas o faziam. A práxis continha uma verdade objetiva que a consciência só viria a alcançar muito tempo depois. Essa precedência da prática sobre a teoria é, para Lukács, uma das determinações mais fundamentais da ontologia do ser social.


Observações filológicas


Uma análise filológica atenta do texto alemão dos “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social” revela que a passagem sobre a domesticação dos animais é muito mais rica do que sugere uma leitura superficial. Nela, Lukács não está apenas oferecendo um exemplo histórico para ilustrar a famosa frase de Marx — Sie wissen das nicht, aber sie tun es (“Eles não sabem disso, mas o fazem”). Ele está desenvolvendo um problema ontológico fundamental: como formas mais simples de ser são incorporadas a formas mais complexas e quais transformações ocorrem nesse processo. O vocabulário empregado é extremamente preciso e remete constantemente à tradição filosófica de Hegel e Marx.


A reflexão começa com a expressão Ontologische Fragen dieser Art, isto é, “questões ontológicas desse tipo”. A escolha do termo é importante porque Lukács não está formulando um problema meramente científico, biológico ou epistemológico. Ele está tratando de uma questão relativa ao próprio ser [Sein], ao modo de existência das coisas.


A pergunta fundamental não é como conhecemos determinado fenômeno, mas o que acontece com uma forma de ser quando ela passa a integrar uma forma superior e mais complexa de organização. Trata-se, portanto, de um problema tipicamente ontológico.


Essa preocupação aparece logo em seguida na formulação die sich in die kompliziertere Form des Seins einfügenden Elemente der einfacheren, literalmente “os elementos da forma mais simples de ser que se inserem na forma mais complexa de ser”. O verbo utilizado, einfügen, significa inserir, integrar, encaixar em uma totalidade maior. Lukács está descrevendo um processo de incorporação ontológica. Uma forma simples de ser não desaparece quando surge uma forma mais complexa; ela continua existindo, mas agora integrada em uma totalidade qualitativamente superior. Trata-se de uma formulação profundamente próxima da lógica hegeliana da Aufhebung: o nível inferior é conservado, transformado e subordinado dentro do nível superior.


É nesse contexto que surge uma distinção conceitualmente decisiva entre innere Umgestaltungen e Funktionswechsel. As traduções normalmente falam em “transformação interna” e “mudança de função”, mas os termos alemães possuem um alcance muito mais preciso. Umgestaltung deriva do verbo umgestalten, que significa remodelar, reconfigurar estruturalmente, alterar a forma interna de algo. Não se trata de uma mudança superficial, mas de uma transformação efetiva da constituição do ente.


Funktionswechsel significa simplesmente mudança de função. Nesse caso, o elemento permanece estruturalmente o mesmo, mas passa a desempenhar um papel diferente dentro de uma nova totalidade. A questão colocada por Lukács é precisamente esta: quando uma forma simples de ser é incorporada a um complexo superior, ela sofre uma transformação interna ou apenas assume uma nova função? A resposta tem enorme importância ontológica porque permite compreender a natureza das transformações que acompanham o desenvolvimento do ser.


Essa preocupação aparece de maneira explícita quando Lukács fala em welche Seinsveränderung das einfachere, fundierende Sein erleiden muß, isto é, “que transformação de ser a forma simples e fundante deve sofrer”.


O termo central aqui é Seinsveränderung, literalmente “transformação do ser”. Não se trata de uma simples alteração fenomênica ou acidental, mas de uma modificação ontológica. Lukács quer compreender como o ser fundante se transforma ao tornar-se um elemento indispensável, embora subordinado, de um complexo mais desenvolvido.


Também merece atenção o adjetivo fundierende, derivado de fundieren, que significa fundar, fundamentar, servir de base. Surge aqui uma das categorias centrais da ontologia lukacsiana: a relação de fundamentação ontológica [Fundierung]. O biológico funda o social; o natural funda o biológico. Mas aquilo que fundamenta não desaparece quando surge um nível superior. Continua presente, embora submetido a novas determinações.


A passagem sobre a domesticação dos animais é introduzida através da expressão Zucht der Haustiere, geralmente traduzida como “criação de animais domésticos”. Contudo, o termo Zucht possui um significado mais forte do que simplesmente criar. Ele designa criação seletiva, reprodução controlada, melhoramento dirigido. O vocábulo aproxima-se bastante do que hoje chamaríamos de seleção artificial. A escolha dessa palavra não é casual. Lukács pretende mostrar que os seres humanos realizaram objetivamente um processo de transformação biológica sem possuírem qualquer conhecimento científico sobre ele.


É nesse momento que aparece a referência à frase de Marx. Lukács escreve: „Hier haben die Menschen es auch nicht im Sinne einer echten Wissenschaftlichkeit gewußt“, isto é, “também aqui os homens não o sabiam no sentido de uma verdadeira cientificidade”.


A expressão echte Wissenschaftlichkeit é extremamente importante. Lukács não afirma que os homens nada sabiam. Eles possuíam experiência prática, conhecimento empírico, observação acumulada. O que lhes faltava era ciência no sentido rigoroso da palavra. Sabiam que determinados animais produziam melhores resultados do que outros, sabiam que certas características podiam ser favorecidas através da reprodução seletiva, mas desconheciam completamente os mecanismos biológicos envolvidos. Portanto, a frase de Marx não significa aqui ausência absoluta de conhecimento. Significa ausência de conhecimento científico.


A formulação seguinte é ainda mais reveladora. Lukács afirma que, apesar disso, os homens das echte Umwandlungsprinzip in ihrer Tätigkeit praktisch verwirklicht — “realizaram praticamente em sua atividade o verdadeiro princípio da transformação”.


O termo Umwandlungsprinzip é composto por Umwandlung (transformação) e Prinzip (princípio). Lukács está dizendo que a prática continha objetivamente aquilo que a teoria só viria a descobrir muito mais tarde. O princípio real da transformação já estava presente na atividade humana. O verbo utilizado é verwirklichen, um termo profundamente hegeliano que significa efetivar, realizar, tornar real. O princípio não permaneceu como uma possibilidade abstrata; foi objetivamente realizado na história.


Essa efetivação ocorreu porque os seres humanos transformaram as condições de vida dos animais em conformidade com suas finalidades sociais. Lukács fala em gesellschaftliche Zielsetzungen, literalmente “posições sociais de finalidade” ou “finalidades socialmente postas”.


Surge aqui uma categoria central de sua ontologia do trabalho: a noção de Setzung, isto é, posição teleológica. Os homens estabelecem finalidades socialmente determinadas e reorganizam a realidade em função delas. A domesticação dos animais constitui um exemplo clássico dessa atividade teleológica. Os animais não foram transformados por forças naturais cegas, mas por práticas orientadas por finalidades humanas.


Essa orientação aparece claramente na expressão jene Exemplare bevorzugt, ou seja, “favoreceram determinados exemplares”. O verbo bevorzugen significa preferir, privilegiar, selecionar. Sem qualquer conhecimento de genética, os seres humanos já praticavam uma forma empírica de seleção artificial. Escolhiam os animais mais adequados às finalidades desejadas, favoreciam sua reprodução e excluíam outros exemplares. A prática continha objetivamente uma racionalidade que ultrapassava o nível de consciência dos próprios agentes.


Lukács afirma então que So sind neue Gattungen entstanden, isto é, “assim surgiram novas Gattungen”. O termo Gattung merece atenção especial. Embora muitas traduções utilizem a palavra “espécie”, o vocábulo alemão possui um sentido mais amplo. Pode significar gênero, espécie, tipo ou forma de agrupamento. O interesse de Lukács não é taxonômico. Ele não está discutindo classificações biológicas rigorosas. Seu objetivo é destacar o surgimento de formas qualitativamente novas de vida. O cavalo de corrida, o cavalo de tração, o cão de caça e o cão de companhia representam formas diferenciadas que não existiam originalmente na natureza.


Talvez a passagem mais importante seja aquela em que Lukács identifica der konkrete Motor der Differenzierung“, o “motor concreto da diferenciação”. O termo Motor não significa simplesmente causa. Significa força motriz, princípio impulsionador do processo. E essa força motriz foi, segundo ele, die Änderung der Umwelt, a transformação da Umwelt.


O conceito de Umwelt possui enorme importância. Não se refere apenas ao meio ambiente físico, mas ao mundo circundante, ao conjunto concreto das condições de existência de um ser vivo. Os seres humanos não modificaram diretamente a constituição biológica dos animais. Modificaram seu mundo circundante, suas condições de vida, seus modos de reprodução, alimentação e interação com o ambiente. Foi essa transformação da Umwelt que desencadeou as mudanças biológicas posteriores.


A conclusão da passagem é particularmente reveladora quando Lukács afirma que Darwin foi capaz de desenvolver sua teoria da origem das espécies porque encontrou nesse processo um motivo so echt aus diesem Sein entnommen, isto é, “tão autenticamente extraído desse próprio ser”.


O verbo entnehmen significa retirar, extrair, tirar algo de uma realidade já existente. Lukács está afirmando que Darwin não inventou arbitrariamente sua teoria. Ele extraiu seus princípios da própria objetividade do real. A ciência não cria suas categorias a partir do nada; ela as descobre na estrutura objetiva do ser.


É precisamente nesse contexto que a frase de Marx adquire seu significado mais profundo. Quando Lukács afirma que os homens “não sabiam, mas faziam”, ele não está dizendo que agiam irracionalmente. Está afirmando que existe uma diferença estrutural entre a riqueza objetiva da práxis e o grau de consciência teórica dos sujeitos. Os criadores neolíticos desconheciam a genética, mas realizavam processos genéticos. Desconheciam a teoria da evolução, mas desencadeavam processos evolutivos. Desconheciam as leis biológicas da diferenciação das espécies, mas produziam efetivamente novas formas biológicas. A prática continha uma racionalidade objetiva superior ao saber subjetivo dos agentes. Por isso a fórmula marxiana assume aqui um significado ontológico universal: a história humana é um processo no qual a práxis produz continuamente transformações reais que ultrapassam a consciência dos indivíduos. Primeiro os homens transformam o ser; depois a ciência, a filosofia e a reflexão crítica descobrem aquilo que eles haviam realizado. É exatamente essa precedência da prática sobre a teoria que Lukács vê condensada na frase de Marx: Sie wissen das nicht, aber sie tun es.


18

Diz Lukács: “Naturalmente isso não se refere ao dinheiro, apenas. Revela-se aqui a estrutura fundamental da relação entre teoria e práxis. Um mérito, que fez época, da teoria de Marx consiste em ter descoberto a prioridade da práxis, sua função condutora e controladora para o conhecimento. Marx, contudo, não se contentou com o esclarecimento dessa conexão fundamental em geral; pelo contrário, demonstrou o método da iluminação da via pela qual essa relação adequada de teoria e práxis ocorre socialmente. E aqui se mostra que toda práxis, mesmo a mais imediata e mais cotidiana, possui essa relação para com a compreensão, para com a consciência, porque é sempre um ato teleológico em que a posição da finalidade precede a realização, tanto de fato quanto cronologicamente. Disto não se segue, de maneira alguma, que seja apenas possível mesmo um conhecimento das consequências sociais apenas de uma ação singular, sobretudo se ela constitui a causa parcial de uma mudança no ser social em sua totalidade (ou totalidade parcial). O agir social, econômico, dos seres humanos, libera com ele forças, tendências, objetividades, estruturas etc. que, embora emerjam exclusivamente através da práxis humana, seu tipo de essência permanece incompreensível, plenamente ou em grande parte, para o seu produtor. Disse Marx, acerca de um estado de coisa tão elementar, cotidiano, a saber, o emergir da troca simples da relação dos produtos do trabalho como valor: »não o sabem, mas o fazem.« Esta é a situação, não apenas para a experiência da práxis imediata, mas também onde a teoria se esforça para apreender intelectualmente a essência dessa práxis. Marx, nas tentativas de Franklin de descobrir o valor no trabalho, mostra: »Diz, contudo, o que não sabe.« Tais constatações possuem um significado basilar para a economia e sua história, para a teoria econômica e sua história; ultrapassam, todavia — numa transição gradual da ciência para a filosofia —, a esfera da economia e abrangem tudo o que ocorre a esse respeito no ser social e na consciência. Aqui, a gênese ontológica mostra novamente seu poder que a tudo abrange: ao se estabelecer essa relação entre práxis e consciência nos fatos elementares da vida cotidiana prática, aparece o fenômeno da coisificação, da alienação, da fetichização, como imagens autocriadas [selbstgeschaffene Nachbilder] de uma realidade incompreendida, não mais do que misteriosas expressões de forças irreconhecidas e inconscientes internas e externas do ser humano e, por vezes, ao contrário, como mediações muito amplas na práxis mais elementar enquanto tal. (Os problemas que aqui emergem apenas podem, igualmente, ser tratados em detalhe na segunda parte.) (p. 592)


Esta passagem dos “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social” possui uma importância singular na obra tardia de György Lukács. Ao que tudo indica, trata-se da última vez que ele cita explicitamente a célebre fórmula marxiana „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ (“Eles não sabem disso, mas o fazem”). Considerando que os Prolegômenos constituem seu derradeiro escrito filosófico e que Lukács morreria poucos meses depois de concluí-lo, essa passagem pode ser lida como uma espécie de síntese final do significado ontológico que essa frase adquiriu ao longo de toda a sua trajetória intelectual. Não se trata mais de uma observação localizada sobre a economia política. Ela transforma-se numa chave para compreender a própria constituição do ser social.


Se acompanharmos as diversas aparições da fórmula ao longo dos Prolegômenos, n- como temos feito nas postagens anteriores - perceberemos um movimento de ampliação progressiva de seu significado. Inicialmente, ela surge ligada ao trabalho. Os homens fabricam instrumentos sem possuir uma teoria do trabalho.


Depois aparece relacionada à domesticação dos animais. Os seres humanos transformam espécies sem conhecer genética ou biologia.


Em seguida, Lukács a utiliza para explicar a atuação das categorias. Os homens vivem e agem segundo categorias objetivas sem compreender sua natureza conceitual.


Mais adiante, a frase é aplicada à consciência: os homens utilizam a consciência sem conhecer sua gênese ou estrutura.


Nesta passagem final, entretanto, a fórmula alcança seu nível mais universal. Ela passa a expressar a própria estrutura fundamental da relação entre teoria e práxis e, em última instância, a condição ontológica do ser social.


O texto começa com uma observação aparentemente simples, mas decisiva. Lukács afirma que o problema não se refere apenas ao dinheiro. Essa observação remete diretamente ao contexto original da frase em Marx. Em “O Capital”, a fórmula aparece quando Marx analisa o surgimento da relação de valor. Os produtores de mercadorias não sabem que estão reduzindo seus trabalhos concretos a trabalho abstrato socialmente necessário. Não sabem que estão produzindo valor. Contudo, produzem efetivamente valor. Durante muito tempo, muitos intérpretes consideraram essa observação restrita ao campo da economia política. Lukács recusa essa limitação. Para ele, a frase revela algo muito mais profundo: a estrutura fundamental da relação entre teoria e práxis em toda a vida social.


É por isso que ele afirma que aqui se revela a Grundstruktur, a estrutura fundamental dessa relação. A palavra alemã é significativa porque não designa um aspecto secundário ou derivado. Trata-se de uma estrutura constitutiva. A fórmula marxiana expressa uma lei fundamental do ser social. O mérito histórico decisivo de Marx, segundo Lukács, foi descobrir a prioridade da práxis sobre o conhecimento. A expressão utilizada é Vorrang der Praxis, prioridade da práxis. Essa é uma das teses centrais de toda a ontologia lukacsiana.


O conhecimento não vem primeiro. Primeiro os homens agem. Depois compreendem. Primeiro transformam a realidade. Depois constroem teorias sobre aquilo que transformaram. Primeiro produzem relações sociais. Somente depois desenvolvem conceitos para explicá-las.


Contudo, Lukács insiste que Marx não se limitou a formular abstratamente essa prioridade. Ele mostrou concretamente como ela se realiza na vida social. Toda práxis humana possui uma estrutura teleológica. Toda ação orientada para um fim envolve uma finalidade previamente posta. O sujeito sabe o que pretende realizar. A finalidade existe idealmente antes de sua realização material. Nesse sentido, a finalidade precede cronológica e efetivamente a ação. É exatamente isso que distingue o trabalho humano da adaptação puramente biológica.


Mas essa teleologia possui um limite fundamental. O sujeito pode conhecer a finalidade de sua ação sem conhecer todas as suas consequências. É nesse ponto que Lukács introduz uma observação decisiva. Do fato de que uma ação seja orientada para um fim não decorre que seja possível conhecer suas consequências sociais. Pelo contrário. Uma ação singular pode tornar-se causa parcial de transformações muito mais amplas que escapam completamente à consciência do agente. A práxis humana desencadeia efeitos que ultrapassam suas intenções originais.


É nesse contexto que Lukács afirma que a atividade social e econômica dos homens libera forças, tendências, objetividades e estruturas.


O verbo alemão utilizado, freisetzen, significa liberar ou desencadear. Os seres humanos produzem continuamente processos que vão muito além daquilo que pretendiam realizar. Esses processos não surgem de nenhuma fonte transcendente. Surgem exclusivamente da própria atividade humana. Contudo, uma vez produzidos, adquirem uma objetividade própria. Passam a funcionar segundo determinações que não coincidem mais com as intenções conscientes dos indivíduos que os criaram.


Aqui encontramos uma reformulação ontológica da teoria marxiana do fetichismo. Os homens produzem a realidade social. Mas essa realidade adquire uma autonomia relativa diante de seus produtores. Não porque possua existência sobrenatural ou metafísica, mas porque suas determinações objetivas ultrapassam a consciência imediata dos agentes. Os indivíduos produzem relações sociais que não compreendem plenamente. É exatamente nesse sentido que vale a fórmula: eles não sabem, mas fazem.


Por isso Lukács retorna ao exemplo da troca de mercadorias. Quando os produtores trocam seus produtos, surge objetivamente a relação de valor. Nenhum deles planejou conscientemente a criação do valor. Ninguém decidiu produzir trabalho abstrato. Ninguém concebeu teoricamente a forma-valor antes de sua existência histórica. Contudo, o valor emerge efetivamente da prática social. A realidade objetiva antecede sua compreensão conceitual.


Mas Lukács vai ainda mais longe. Ele recorda uma observação de Marx sobre Benjamin Franklin. Ao analisar as tentativas de Franklin de descobrir a origem do valor no trabalho, Marx afirma: „Er sagt jedoch, was er nicht weiß“ — “Ele diz, contudo, aquilo que não sabe.” Essa observação possui enorme profundidade. Franklin aproxima-se teoricamente de uma verdade objetiva. Contudo, não compreende inteiramente o alcance daquilo que afirma.


Sua formulação contém mais verdade do que sua consciência é capaz de reconhecer. Aqui a fórmula marxiana deixa de valer apenas para a prática e passa a valer também para a própria teoria. Muitas vezes os teóricos dizem mais do que sabem. A verdade objetiva de suas formulações ultrapassa a compreensão subjetiva que possuem delas.


É justamente nesse ponto que Lukács amplia definitivamente o alcance da tese. Essas observações são fundamentais para a economia e para a história da economia. Entretanto, não permanecem restritas a esse campo.


Há uma transição gradual da ciência para a filosofia. E então a fórmula passa a abranger tudo o que ocorre no ser social e na consciência. Ela deixa de ser uma observação econômica para tornar-se uma categoria ontológica universal.


Por isso Lukács afirma que aqui a gênese ontológica mostra novamente seu poder abrangente. O termo ontologische Genesis é decisivo. Trata-se do modo como formas de ser surgem historicamente. A frase de Marx não descreve apenas um fenômeno particular. Ela expressa uma característica constitutiva do próprio processo de formação do ser social. Os homens produzem continuamente realidades cuja essência desconhecem. A realidade social é sempre mais rica, mais complexa e mais profunda do que a consciência que os indivíduos possuem dela.


É nesse contexto que Lukács introduz sua formulação final sobre a coisificação, o estranhamento e o fetichismo. Segundo ele, é precisamente dessa relação entre práxis e consciência que surgem os fenômenos da Verdinglichung (coisificação), da Entfremdung (estranhamento ou alienação) e da Fetischisierung (fetichização). Contudo, ele os define de uma maneira particularmente reveladora: como „selbstgeschaffene Nachbilder einer unverstandenen Wirklichkeit“, isto é, “imagens derivadas e autocriadas de uma realidade incompreendida”.


A palavra Nachbild possui grande importância filológica. Ela não significa simplesmente imagem ou representação. Designa uma reprodução, uma imagem derivada, uma cópia produzida a partir de algo anterior. Os homens criam imagens da realidade social. Mas essas imagens são produzidas a partir de uma realidade cuja essência não compreendem.


O fetichismo, a alienação e a coisificação não surgem porque os indivíduos sejam simplesmente ignorantes. Surgem porque a própria realidade social produzida pela práxis possui determinações objetivas que excedem a consciência imediata de seus agentes.


Essa parece ser a conclusão final da reflexão lukacsiana sobre a fórmula de Marx.


Ao longo de toda a história humana, os homens produzem sua própria realidade social. Criam instituições, relações econômicas, formas de consciência, imagens de mundo e estruturas de vida. Tudo isso nasce exclusivamente de sua atividade. Contudo, as forças, tendências, estruturas e objetividades que eles mesmos criam ultrapassam continuamente aquilo que sabem sobre elas. A teoria surge para compreender esse processo. Mas ela própria frequentemente diz mais do que sabe. E é justamente nesse intervalo entre a riqueza objetiva da práxis e a limitação da consciência que surgem tanto a necessidade da ciência e da filosofia quanto os fenômenos da alienação, da coisificação e do fetichismo.

Assim, nesta última aparição da fórmula „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“, Lukács lhe atribui um significado verdadeiramente universal. Ela já não se refere apenas ao valor, ao trabalho, à linguagem, às categorias ou à consciência. Ela expressa a própria condição ontológica do ser social.


Os homens fazem sua história, criam suas instituições, produzem suas relações sociais e constroem suas formas de consciência. Contudo, a essência objetiva dessas criações excede continuamente aquilo que sabem sobre elas. O ser social produz sempre mais realidade do que a consciência é capaz de apreender. E é precisamente desse descompasso constitutivo entre produção prática e conhecimento reflexivo que nascem simultaneamente a ciência, a filosofia, a alienação, a coisificação e o fetichismo.


A derradeira utilização da fórmula por Lukács parece condensar toda a sua ontologia numa única ideia fundamental: a realidade social é uma obra humana, mas a verdade dessa obra ultrapassa continuamente a consciência dos próprios autores. É nesse sentido que os homens, ao longo da história, não sabem plenamente o que fazem e, no entanto, continuam fazendo.


Observações filológicas


Uma análise filológica rigorosa desta passagem final dos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social permite perceber que Lukács está condensando nela praticamente toda a arquitetura conceitual de sua ontologia. Não é casual que esta seja, ao que tudo indica, a última vez que ele cita explicitamente a fórmula marxiana „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ (“Eles não sabem disso, mas o fazem”).


O contexto em que ela aparece mostra que Lukács já não a utiliza apenas para explicar a gênese do valor, o trabalho, a consciência ou a linguagem. A frase passa a expressar uma determinação universal do ser social, isto é, a relação constitutiva entre práxis, consciência, teoria, objetivação, estranhamento e fetichismo.


A passagem começa com uma observação que pode parecer secundária, mas que possui grande alcance teórico. Lukács afirma que a questão não se refere apenas ao dinheiro. Com isso, ele está retomando o contexto original da frase em Marx.


Em “O Capital”, a formulação “eles não sabem disso, mas o fazem” aparece quando Marx analisa a gênese da forma-valor. Os produtores de mercadorias não sabem que, ao trocar seus produtos, estão reduzindo trabalhos concretos a trabalho abstrato socialmente necessário. Não sabem que estão produzindo valor. Contudo, produzem valor efetivamente. Durante muito tempo, muitos intérpretes consideraram essa observação restrita ao âmbito da economia política. Lukács, ao contrário, afirma que ela revela algo muito mais profundo. Ela manifesta a Grundstruktur, a estrutura fundamental, da relação entre teoria e práxis em toda a vida social.


O termo Grundstruktur merece atenção especial. Ele não significa simplesmente estrutura básica. A palavra Grund designa fundamento, base constitutiva, aquilo sobre o qual algo repousa. Quando Lukács fala de uma Grundstruktur, está afirmando que se trata de uma determinação fundante do ser social. A fórmula marxiana não descreve um fenômeno particular. Ela revela uma lei ontológica.


É nesse contexto que Lukács recorda um dos maiores méritos históricos da teoria de Marx: a descoberta da prioridade da práxis. A expressão alemã utilizada é „die Priorität der Praxis“.

Filologicamente, o termo Priorität não significa apenas anterioridade cronológica. Significa também precedência constitutiva e primazia ontológica. Lukács não está dizendo apenas que a prática vem antes da teoria no tempo. Está afirmando que a teoria surge da prática, depende dela e só pode ser compreendida a partir dela. A prática possui prioridade genética, histórica e ontológica.


Essa prioridade aparece ainda mais claramente quando Lukács afirma que a práxis exerce uma função leitende und kontrollierende em relação ao conhecimento. Os termos são importantes. Leitend significa orientadora, dirigente, condutora. Kontrollierend significa controladora, verificadora.


A prática não apenas gera o conhecimento; ela também o orienta e o testa. Há aqui uma evidente proximidade com a segunda tese sobre Feuerbach de Marx, segundo a qual a verdade do pensamento deve ser demonstrada na prática.


Lukács acrescenta então que Marx não se limitou a formular abstratamente essa prioridade. Ele mostrou o caminho pelo qual a relação adequada entre teoria e práxis se constitui socialmente. É por isso que aparece a expressão „die Methode zur Erhellung des Weges“, “o método para iluminar o caminho”. O termo Erhellung deriva de hell (claro, luminoso) e significa esclarecimento, iluminação, tornar algo visível. Marx não apenas descobriu uma relação. Tornou inteligível sua gênese.


A razão pela qual teoria e prática estão necessariamente ligadas é que toda práxis humana possui uma estrutura teleológica.


Lukács afirma que toda prática, inclusive a mais imediata e cotidiana, contém uma relação com a compreensão e com a consciência porque é sempre um teleologischer Akt, um ato teleológico. A ação humana é orientada por finalidades. Antes de agir, o sujeito estabelece um objetivo. A finalidade existe idealmente antes da realização material.


Por isso Lukács observa que a posição da finalidade precede a realização tanto sachlich quanto zeitlich. Os dois termos são importantes. Zeitlich significa temporalmente. A finalidade surge antes do resultado. Mas sachlich significa algo mais profundo: objetiva ou estruturalmente. A finalidade precede o resultado não apenas no tempo, mas na própria estrutura da ação. Esse é um dos fundamentos ontológicos do trabalho humano.


Contudo, Lukács introduz imediatamente uma advertência decisiva. Do fato de toda ação possuir uma finalidade consciente não decorre que os agentes sejam capazes de conhecer suas consequências sociais. A expressão utilizada é enfática: „Daraus folgt jedoch keineswegs“, “disso de modo algum decorre”. O termo keineswegs significa absolutamente não. Lukács quer impedir qualquer interpretação racionalista da teleologia. Os homens podem conhecer seus objetivos imediatos sem conhecer os desdobramentos históricos de suas ações.


Aqui aparece uma das ideias mais importantes da passagem. A atividade social e econômica dos homens libera forças, tendências, objetividades e estruturas. O verbo utilizado é freisetzen, liberar, desencadear.


A práxis humana põe em movimento processos que ultrapassam completamente a intenção dos agentes. Essas forças não existem independentemente da atividade humana. Pelo contrário, surgem exclusivamente dela. Contudo, uma vez produzidas, adquirem uma objetividade própria.


É nesse contexto que Lukács utiliza a expressão Gegenständlichkeiten, objetividades. O termo é mais forte do que simples objetos. Refere-se a formas objetivas de existência. Os homens criam objetividades sociais que posteriormente os confrontam como uma realidade relativamente autônoma. Da mesma forma, criam estruturas e tendências que continuam atuando independentemente de sua vontade individual.


A observação seguinte é decisiva. Embora essas forças surjam exclusivamente da práxis humana, sua Wesensart, sua natureza essencial, permanece obscura para os próprios criadores.


O termo Wesensart merece atenção. Não se refere apenas à essência [Wesen], mas ao modo de ser da essência, à sua natureza constitutiva. Os homens produzem relações sociais cuja estrutura essencial não compreendem plenamente.


É exatamente aqui que Lukács retoma a frase de Marx. Os produtores de mercadorias não sabem que estão criando valor. Mas criam valor. Conhecem seus objetivos imediatos. Não conhecem a essência das estruturas sociais que produzem. A fórmula “eles não sabem disso, mas o fazem” expressa precisamente esse descompasso entre a prática e a compreensão da prática.


Mas Lukács amplia ainda mais o argumento ao citar a observação de Marx sobre Benjamin Franklin: „Was er nicht weiß, sagt er jedoch“ (“Aquilo que ele não sabe, contudo, ele diz”). Essa formulação é extraordinariamente profunda. Ela mostra que a própria teoria está submetida à mesma estrutura que caracteriza a prática. Franklin aproxima-se da descoberta da origem do valor no trabalho. Sua formulação contém uma verdade objetiva. Contudo, ele próprio não compreende plenamente aquilo que está dizendo. A teoria pode expressar mais verdade do que o teórico sabe possuir.


Nesse ponto, a fórmula marxiana deixa de valer apenas para a prática e passa a valer também para a teoria. Os homens não apenas fazem mais do que sabem; às vezes também dizem mais do que sabem. A objetividade do conhecimento pode ultrapassar a consciência subjetiva do próprio pensador.


É por isso que Lukács afirma que essas observações possuem importância não apenas para a economia, mas para toda a filosofia. Há uma passagem gradual da ciência para a ontologia. O problema deixa de ser apenas econômico e passa a dizer respeito ao conjunto do ser social.


Surge então uma das expressões mais importantes da passagem: „die ontologische Genesis“, a gênese ontológica. Trata-se do processo pelo qual novas formas de ser emergem historicamente. A gênese ontológica possui, segundo Lukács, um poder allumfassend, abrangente, totalizante. Ela produz continuamente realidades que excedem a capacidade imediata de compreensão dos indivíduos.


É nesse contexto que aparece a conclusão mais profunda de toda a passagem. Quando compreendemos essa relação entre prática e consciência, os fenômenos da Verdinglichung (coisificação), da Entfremdung (estranhamento ou alienação) e da Fetischisierung (fetichização) deixam de parecer mistérios. Eles passam a aparecer como „selbstgeschaffene Nachbilder einer unbegriffenen Wirklichkeit“, “imagens derivadas autocriadas de uma realidade não compreendida”.


A expressão é extraordinária. O termo Nachbild não significa simplesmente imagem. Significa reprodução, imagem derivada, cópia produzida a partir de algo anterior. Já unbegriffene Wirklichkeit não significa apenas realidade desconhecida. Significa realidade não conceituada, realidade cuja essência ainda não foi apreendida pelo pensamento. O verbo implícito é begreifen, compreender conceitualmente.


A consequência é decisiva. O fetichismo, a alienação e a coisificação não são ilusões arbitrárias nem manifestações de forças sobrenaturais. Tampouco são simples erros psicológicos. São imagens produzidas pelos próprios seres humanos na tentativa de representar uma realidade social cuja essência ainda não compreendem. São formas de consciência que surgem da própria práxis e refletem, de maneira invertida ou parcial, as estruturas objetivas produzidas por essa mesma práxis.


Por isso esta última aparição da fórmula „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ pode ser considerada a síntese final da ontologia lukacsiana.


Os homens produzem sua própria realidade social. Criam instituições, relações econômicas, formas de consciência, estruturas e tendências históricas. Contudo, a essência dessas objetivações excede continuamente sua consciência imediata. Dessa realidade não compreendida surgem as imagens derivadas que assumem as formas de fetichismo, alienação e coisificação. A ciência e a filosofia aparecem precisamente como tentativas de superar esse descompasso.


Em sua derradeira formulação, portanto, a frase de Marx deixa de designar apenas um fenômeno econômico e passa a expressar a própria condição ontológica do ser social. Os homens criam o mundo social e criam simultaneamente as imagens através das quais procuram compreendê-lo.


Mas o mundo que produzem é sempre mais rico, mais profundo e mais complexo do que a consciência que possuem dele. O ser social produz continuamente mais realidade do que a consciência consegue apreender. É justamente nesse excesso ontológico do ser sobre a consciência que Lukács encontra o fundamento último da frase marxiana: os homens não sabem plenamente o que fazem, mas é precisamente fazendo que produzem o mundo histórico cuja verdade procuram posteriormente compreender por meio da ciência, da filosofia e da autoconsciência crítica.

 

Considerações Finais: Para Além de Lukács

 

Com o capitalismo global se transforma historicamente a escala, a densidade e o perigo da desproporção entre o saber dos agentes e os efeitos objetivos de suas ações. O desenvolvimento capitalista não elimina o princípio ontológico identificado por Lukács; ao contrário, universaliza-o e o leva a um patamar qualitativamente superior.


A divisão social do trabalho, o mercado mundial, o sistema financeiro, as cadeias globais de produção, o aparato tecnocientífico e, mais recentemente, as redes digitais e os sistemas algorítmicos entrelaçam atos locais em processos planetários cujas consequências escapam crescentemente ao horizonte imediato dos indivíduos, das empresas e até dos Estados.


Surge, entretanto, uma contradição decisiva.


Quanto mais a sociedade se torna objetivamente interdependente, mais necessita de conhecimento totalizante e de coordenação consciente; ao mesmo tempo, a forma social capitalista fragmenta esse conhecimento, subordina a ciência à valorização e entrega decisões de alcance coletivo a agentes privados orientados por interesses particulares.


O capitalismo desenvolve extraordinariamente as forças do conhecimento, mas impede que o saber socialmente produzido se converta plenamente em autoconsciência e autodeterminação do gênero humano. Produz ciência em escala inédita, porém utiliza-a predominantemente como força produtiva do capital, meio de concorrência, instrumento de controle e tecnologia de poder.


Aqui a formulação de Lukács exposta acima alcança seu núcleo crítico. Nas sociedades anteriores, o desconhecimento das consequências remotas da práxis podia permanecer relativamente limitado no espaço e no tempo. Sob o capital global, atos particulares podem produzir efeitos cumulativos, irreversíveis e planetários: crises financeiras, alterações climáticas, destruição de ecossistemas, pandemias, guerras tecnologicamente ampliadas e formas generalizadas de manipulação da subjetividade.


A humanidade adquiriu poderes capazes de modificar as condições fundamentais de sua própria reprodução, sem ter constituído, na mesma medida, formas conscientes e democráticas de controle desses poderes. A distância entre capacidade de intervenção e capacidade de direção tornou-se uma contradição histórica central.


Por isso, pode-se dizer que Sie wissen das nicht, aber sie tun es encontra no capitalismo não propriamente sua invalidação, mas seu limite histórico-prático.


A fórmula continua verdadeira como descrição ontológica da diferença entre as finalidades conscientes dos atos singulares e os resultados causais do processo social. Contudo, aquilo que antes podia ser compreendido como condição inevitável da historicidade transforma-se, diante da potência destrutiva do capital global, em risco para a continuidade da vida humana. Não saber o que coletivamente fazemos deixou de ser apenas uma característica da práxis social; tornou-se um perigo civilizatório.


Todavia, também seria insuficiente concluir que agora “é preciso saber” como se a ampliação do conhecimento científico resolvesse, por si mesma, o problema. A sociedade capitalista já dispõe de enorme quantidade de conhecimentos sobre as crises que produz. Sabe-se muito sobre a mudança climática, a desigualdade, a exploração do trabalho, a deterioração ambiental e os riscos tecnológicos. O obstáculo não reside apenas na falta de informação, mas nas relações sociais que impedem o conhecimento de converter-se em direção consciente da reprodução coletiva.


A ciência pode esclarecer nexos causais, mas não decide por si mesma quais fins devem orientar a humanidade. Tampouco suprime os interesses materiais, as estruturas de poder e os antagonismos de classe que bloqueiam a realização prática do que já se conhece.


É necessário, portanto, distinguir a eficácia instrumental da eficácia histórica. Uma ação pode ser tecnicamente eficiente para alcançar um objetivo imediato — aumentar a produtividade, reduzir custos ou conquistar mercados — e, simultaneamente, aprofundar tendências destrutivas no plano da totalidade social.


A consciência científica dos meios não assegura a racionalidade dos fins. O capital é capaz de mobilizar conhecimento altamente sofisticado enquanto reproduz uma forma social globalmente irracional. Quanto mais racional se torna a administração parcial dos processos produtivos, mais irracional pode tornar-se o movimento do conjunto.


A superação do limite histórico contido na fórmula exige, assim, mais do que ciência. Requer autoconsciência crítica, capacidade de apreensão da totalidade, deliberação coletiva e transformação das relações sociais que submetem o conhecimento aos imperativos da valorização. Exige também organização política e instituições mediante as quais os produtores possam exercer controle consciente sobre as forças sociais que eles próprios criaram.


O problema não é substituir o fazer pelo saber, mas transformar a relação entre ambos: fazer sabendo tanto quanto historicamente possível, submeter os meios a fins coletivamente deliberados e acompanhar reflexivamente as consequências da própria ação.


A crítica imanente a Lukács poderia, portanto, ser formulada nos seguintes termos: o princípio segundo o qual os homens produzem objetivamente mais do que sabem permanece ontologicamente válido, mas sua vigência histórica adquire uma forma contraditória sob o capitalismo desenvolvido.


A crescente complexidade e a potência das forças sociais tornam impossível eliminar inteiramente a diferença entre intenção e resultado; ao mesmo tempo, tornam cada vez mais urgente reduzi-la por meio da ciência, da crítica da totalidade e do controle social consciente.


O limite da fórmula não é teórico, como se ela tivesse deixado de explicar a práxis, mas histórico e normativo: a humanidade já não pode permitir que o desconhecimento das consequências de sua atividade continue funcionando como princípio espontâneo de sua reprodução.


Uma síntese possível seria:


Sie wissen das nicht, aber sie tun es permanece uma determinação ontológica da práxis: os seres humanos produzem, pelo entrelaçamento de seus atos teleológicos, resultados históricos que excedem suas intenções e seu saber imediato.


Sob o capitalismo global, porém, essa diferença entre fazer e saber alcança um limite crítico. A socialização planetária da produção, o desenvolvimento tecnocientífico e a potência destrutiva das forças desencadeadas pelo capital tornam a espontaneidade histórica progressivamente incompatível com a reprodução da humanidade.


Não basta, portanto, agir. Torna-se necessário conhecer as mediações da própria ação, compreender cientificamente seus nexos objetivos e submetê-la a uma autoconsciência crítica e coletiva. O desafio histórico consiste em passar de uma humanidade que produz sua história sem dominar suas consequências para uma humanidade capaz de dirigir conscientemente, embora nunca de modo absoluto, as forças sociais que ela própria criou.


FIM

 


 
 
 

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