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Os Titãs do Capital - Parte 1

4 de set.
7 min de leitura

Atualizado: 11 de set.


Na mitologia grega, os Titãs pertencem à geração primordial das potências que antecederam o domínio dos deuses olímpicos. Filhos de Urano e Gaia, eles personificavam forças elementares, anteriores à ordem política e simbólica posteriormente instituída por Zeus. Sua grandeza, contudo, não lhes garantia estabilidade nem permanência.


A violência pela qual Cronos destrona Urano inaugura um ciclo no qual a dominação somente consegue conservar-se destruindo as condições de seu próprio futuro. Advertido de que seria deposto por um dos filhos, Cronos passa a devorá-los assim que nascem. Pretende deter o tempo, impedir a sucessão e converter o presente de seu poder numa duração absoluta.


O gesto pelo qual procura tornar-se invulnerável, entretanto, prepara sua queda. Zeus escapa, os filhos devorados retornam e a ordem dos Titãs é derrotada na Titanomaquia (A Titanomaquia é o mito grego da guerra entre os Titãs, liderados por Cronos, e os deuses olímpicos, liderados por Zeus, que durou dez anos e decidiu quem governaria o universo. No fim, Zeus e os olímpicos venceram, instaurando a era dos deuses do Olimpo).


A imagem oferece uma chave interpretativa particularmente fecunda para compreender o capitalismo do século XXI.


Os titãs contemporâneos — proprietários das plataformas digitais, controladores de conglomerados tecnológicos, dirigentes de fundos financeiros e grandes gestores de ativos — aparecem como personificações de um poder econômico cuja escala excede os parâmetros tradicionais da experiência social. Alguns deles concentram patrimônios comparáveis à riqueza produzida anualmente por países inteiros; outros comandam instituições capazes de deslocar, em poucos instantes, massas de capital suficientes para desestabilizar moedas, setores produtivos e economias nacionais. Não são apenas indivíduos extraordinariamente ricos – os bilionários ou mesmo trilionários. Encarnam, em suas trajetórias e em suas decisões, a potência abstrata adquirida pelo capital quando a concentração patrimonial, a centralização financeira, os monopólios tecnológicos e a apropriação privada do conhecimento social se articulam numa estrutura global de comando.


Tal como os Titãs da narrativa grega, essas figuras pretendem submeter o tempo à duração de seu poder. A diferença é que já não precisam devorar fisicamente os próprios descendentes. Fazem-no ao hipotecar o futuro, transformar expectativas de rendimento em ativos presentes, converter necessidades vindouras em fluxos de pagamento e subordinar as gerações futuras às exigências atuais da valorização.


Quanto mais procuram controlar o porvir, mais dependem de uma riqueza que ainda não existe e que somente poderá ser confirmada pela exploração futura do trabalho, pela expropriação de recursos naturais e pela capacidade dos Estados de socializar perdas privadas. A força titânica do capital traz inscrita, portanto, uma vulnerabilidade que sua própria aparência de onipotência procura ocultar.


Os gregos denominavam hýbris a desmesura pela qual uma potência, embriagada por sua grandeza, ultrapassava os limites que sustentavam a ordem do mundo. A palavra designava algo mais profundo do que a simples arrogância pessoal.


A hýbris exprimia a transgressão do métron, da medida que preserva a proporção entre força, possibilidade e necessidade. Aquele que rompe a medida deixa de reconhecer as mediações das quais depende. Confunde poder circunstancial com soberania absoluta, trata a alteridade como obstáculo descartável e imagina poder abolir as consequências de seus atos. A desmesura não amplia indefinidamente a potência; corrói suas condições de existência.


Como adverte Ésquilo em “Os Persas”, “a insolência, ao florescer, produz a espiga do erro, de onde se colhe uma seara de lágrimas”.


Na estrutura da tragédia, a hýbris encontra sua resposta na némesis. Traduzida habitualmente como vingança ou punição divina, a palavra possui uma significação mais complexa. A némesis é a potência que se ergue diante do excesso, impondo-lhe um limite e restituindo a medida violada.


Não se deve, porém, transpor mecanicamente essa concepção para a história, como se as contradições do capitalismo produzissem por si mesmas uma justiça reparadora. A ordem do capital pode atravessar crises devastadoras, precipitar guerras, intensificar a destruição ecológica e recorrer a formas políticas autoritárias sem que daí resulte qualquer emancipação.


No terreno social, a némesis não é uma providência metafísica. Só adquire conteúdo libertador quando as contradições objetivas encontram uma práxis coletiva capaz de transformá-las em ruptura consciente.


A hipertrofia do poder contém, ainda assim, uma dialética autonegadora. Todo domínio pressupõe relações, mediações e alguma forma de reconhecimento. Quando procura eliminar inteiramente aquilo que lhe resiste, o poder destrói as próprias condições por meio das quais poderia confirmar-se.


Hegel apreendeu essa contradição na dialética do senhor e do servo. O senhor exige o reconhecimento de outra consciência, mas a submete de tal maneira que o reconhecimento obtido perde sua verdade. Reduzida à condição de instrumento, a consciência servil já não pode oferecer aquele reconhecimento livre que o senhor pretendia conquistar. Sua aparente independência revela então a dependência recalcada que a sustenta. Por isso, na “Fenomenologia do Espírito”, “a verdade da consciência independente é a consciência servil”.


O capital participa de uma inversão semelhante.


Apresenta-se como sujeito autônomo, dotado da faculdade quase mágica de mobilizar trabalho, ciência, tecnologia e natureza segundo as exigências de sua autovalorização. Entretanto, não existe fora das relações que subordina. Depende do trabalho vivo, embora procure economizá-lo e expulsá-lo do processo produtivo imediato; necessita da natureza, ainda que destrua as condições metabólicas de sua reprodução; pressupõe vínculos sociais estáveis, ao mesmo tempo que dissolve solidariedades, fragmenta coletividades e transforma a insegurança em princípio de governo.


Precisa igualmente do Estado, mesmo quando proclama a superioridade absoluta dos mercados e exige a privatização das funções públicas. Sua força repousa sobre uma extensa rede de dependências. O fetichismo consiste precisamente em apagar essas mediações, atribuindo ao capital uma autonomia que ele não possui.


Na sociedade burguesa, a hýbris deixa de ser apenas uma disposição moral ou uma patologia de governantes. Ela se objetiva na própria lógica da valorização do valor. O capital não conhece uma medida exterior capaz de lhe indicar quando a acumulação se tornou suficiente.


Cada resultado converte-se em pressuposto de uma expansão subsequente. O lucro deve produzir novo lucro; a propriedade acumulada precisa assegurar rendimentos adicionais; o crédito deve abrir outros ciclos de endividamento; a inovação tecnológica necessita converter-se em vantagem monopolista; a conquista de um mercado transforma-se em ponto de partida para a apropriação de mercados ainda maiores. A ausência de limites pode manifestar-se na avareza ou no narcisismo dos proprietários, mas não nasce de suas inclinações psicológicas. Decorre da compulsão objetiva de uma forma social que somente se conserva ao expandir-se.


É essa dinâmica desmedida que produz os titãs do capital.


Eles não inventam soberanamente as leis que governam sua conduta. São personificações do capital, agentes dotados de vontade e consciência por meio dos quais se executa uma lógica social impessoal. Podem decidir onde investir, quais empresas adquirir e quais tecnologias desenvolver, mas não podem renunciar duradouramente à rentabilidade sem comprometer a posição que ocupam.


Mesmo o mais poderoso dos bilionários permanece submetido à concorrência, às expectativas dos acionistas, às avaliações dos mercados, à solvência das dívidas e à necessidade de ampliar o patrimônio sob seu controle. Domina porque, num plano mais profundo, também é dominado pela abstração real que personifica.


A Escola de Frankfurt reconheceu uma configuração análoga na dialética do esclarecimento. A razão que prometia libertar a humanidade do medo converte-se em racionalidade instrumental quando reduz seres humanos e natureza a objetos calculáveis, intercambiáveis e manipuláveis. A dominação retorna então sobre o próprio sujeito. Aquele que organiza o mundo como matéria de administração passa a ser organizado pelos mesmos procedimentos; o pensamento reduz-se ao cálculo, a liberdade converte-se em adaptação eficiente e a autonomia individual torna-se a capacidade de responder funcionalmente a imperativos que ninguém controla.


Como observaram Max Horkheimer e Theodor Adorno, “o domínio universal sobre a natureza volta-se contra o próprio sujeito pensante”.


Essa inversão assume uma forma historicamente determinada naquilo que nós temos denominado de capitalismo quântico.


Este nosso conceito não se refere apenas ao emprego eventual da computação quântica nem pretende sugerir que as categorias da física possam ser simplesmente transferidas para a crítica da economia política. Designa uma nova configuração histórica do capitalismo global, constituída no interior da crise estrutural aberta na década de 1970 e caracterizada pela articulação entre revolução informacional, digitalização dos processos sociais, automação, inteligência artificial, mundialização do capital e dominância financeira. Não se trata de outro modo de produção. Permanecem vigentes a propriedade privada dos meios de produção, o trabalho assalariado, a produção de mais-valor e a lei do valor. O que se modifica é a morfologia histórica mediante a qual essas determinações se realizam e entram em contradição consigo mesmas.


O adjetivo “quântico” procura apreender justamente esse salto de qualidade. O capital alcança uma capacidade inédita de operar sobre o virtual, o provável e o possível, trazendo ao presente rendimentos ainda não produzidos e convertendo antecipações em direitos de propriedade negociáveis. A aceleração algorítmica comprime os intervalos entre decisão, circulação e investimento; ativos circulam globalmente em frações de segundo; expectativas alteram avaliações antes que qualquer transformação material tenha ocorrido; modelos probabilísticos procuram calcular comportamentos, riscos e acontecimentos futuros. O tempo deixa de aparecer como sucessão aberta e passa a ser colonizado por dispositivos de antecipação. O futuro é trazido coercitivamente ao presente sob a forma de dívida, capitalização, derivativos, contratos, patentes, expectativas de lucro e promessas de rendimento.


O capitalismo quântico constitui, assim, a forma contemporânea de uma subsunção real ampliada e de uma forma de interversão do valor. É a era do salto mortal da produtividade do trabalho e da plenitude do trabalho abstrato – como diria Francisco de Oliveira. O capital não se limita a transformar o processo imediato de trabalho, criando uma base técnica adequada à produção de mais-valor relativo. Avança sobre o conjunto da reprodução social: subsume o conhecimento, a linguagem, a comunicação, os afetos, a atenção, a natureza e a própria temporalidade.


O futuro possível é reduzido a futuro rentável; a incerteza histórica converte-se em risco precificável; a criatividade coletiva aparece como propriedade intelectual; as capacidades sociais acumuladas são apropriadas por plataformas privadas. A virtualidade tecnológica, que poderia alargar o campo das possibilidades humanas, é capturada pela forma-valor e reconduzida à acumulação.


A inteligência artificial ocupa uma posição decisiva nessa nova morfologia. Ela condensa conhecimentos produzidos socialmente, reorganiza processos de trabalho e eleva a potência objetiva da cooperação humana. Todavia, sob o comando do capital, apresenta-se aos produtores como força estranha, propriedade de grandes corporações e instrumento de vigilância, controle e redução de custos. Aquilo que poderia aliviar o trabalho necessário ameaça eliminar empregos, degradar qualificações e intensificar ritmos.


A potência coletiva da ciência retorna contra os sujeitos que a produziram. Eis uma das contradições centrais do capitalismo quântico: quanto mais o capital incorpora o intelecto geral às forças produtivas, mais procura submetê-lo aos direitos privados de propriedade e às exigências estreitas da lucratividade.


A expansão dessas capacidades técnicas ocorre sob a dominância do capital financeiro, conceito que François Chesnais reelabora para apreender a mundialização financeirizada do capital.


Na próxima postagem daremos prosseguimento à nossa reflexão sobre os titãs do capital abordando o conceito de capital financeiro e capital fictício na era da desmedida do valor. Tais categorias são indispensáveis para entendermos a fenomenologia dos titãs do capital no século XXI.  


 
 
 

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