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Lukács e o termo "Sehnsucht"-2

  • há 12 horas
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Na postagem anterior realizamos uma investigação filológica e teórico-crítica do termo alemão Sehnsucht, articulando sua evolução semântica com a “Ontologia do Ser Social” e os “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social” de György Lukács. 


Em primeiro lugar, nossa primeira postagem demonstrou que Sehnsucht é um “conceito” de grande densidade semântica, formado pela articulação entre sehnen (ansiar, tender para algo ausente) e Sucht (busca compulsiva, dependência). Não se trata, portanto, de simples “saudade” ou “nostalgia”, mas de uma estrutura afetiva marcada por tensão, falta e impulso permanente em direção ao que não está dado. Filologicamente, o termo designa um desejo estruturalmente insatisfeito, cujo objeto é indeterminado ou mesmo irrealizável.


Em segundo lugar, nossa primeira postagem reconstrói a trajetória histórico-semântica do conceito, mostrando sua centralidade no romantismo alemão — especialmente em autores como Novalis e Johann Wolfgang von Goethe — onde passa a significar um anseio pelo infinito, pelo absoluto ou por uma totalidade perdida. Na filosofia, essa estrutura é reinterpretada como negatividade: em Georg Wilhelm Friedrich Hegel, como momento da falta constitutiva do sujeito; em Arthur Schopenhauer, como expressão da vontade insaciável. O artigo destaca que, nesse percurso, já se delineia uma tensão entre subjetividade e mundo objetivo, que prepara sua reinterpretação crítica.


O terceiro movimento — decisivo — consiste na reinterpretação materialista do “conceito”. A postagem sustenta que, no capitalismo, Sehnsucht pode ser compreendida como forma afetiva do estranhamento [Entfremdung]: o sujeito deseja aquilo que é produto de sua própria atividade social, mas que lhe aparece como externo e inacessível. Assim, o anseio torna-se expressão subjetiva da autonomização das relações sociais [Verselbständigung], isto é, da separação entre indivíduo e totalidade social. É nesse ponto que entra a contribuição de Lukács. O artigo mostra que, embora Sehnsucht não seja uma categoria sistemática explícita na obra tardia do autor, o fenômeno que ela designa é plenamente incorporado em sua ontologia. Lukács abandona o vocabulário romântico-existencial e reconstrói o problema em termos ontológicos rigorosos. O que antes aparecia como “anseio” é reinterpretado como:


1.A relação entre presente e possibilidade objetiva (teleologia do trabalho);2. A contradição entre desenvolvimento social e desenvolvimento individual (estranhamento);3. A antecipação ideológica de possibilidades reais ainda não realizadas.


Dessa forma, sustentamos uma tese central: Sehnsucht deixa de ser categoria explicativa e passa a ser fenômeno a ser explicado; ou seja, o anseio não é fundamento, mas expressão subjetiva de contradições objetivas do ser social.


Por fim, o texto introduz a relação entre Sehnsucht e a categoria de generidade [Gattungsmäßigkeit]. Aqui, o anseio humano aparece como tensão entre o indivíduo particular e a essência genérica da humanidade. No capitalismo, essa generidade permanece “muda” [Stumme Gattungsmäßigkeit], e a Sehnsucht surge como impulso para sua realização consciente. Ela indica que o estranhamento nunca é absoluto: há sempre um “resto” de humanidade que aponta para a superação das formas sociais existentes.


A síntese final do artigo é clara: Sehnsucht não é apenas um sentimento, mas a forma fenomenológica de uma contradição ontológica fundamental — a discrepância entre o que a humanidade é e o que pode ser. No pensamento de Lukács, essa tensão só adquire sentido pleno quando reconduzida à práxis, isto é, às condições reais de transformação histórica.


Nesta segunda postagem, comentaremos as passagens da “Ontologia do Ser Social”, de György Lukács, nas quais aparece o termo Sehnsucht. Trata-se de ocorrências relativamente raras — ainda mais escassas nos “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social”. Ainda assim, é fundamental resgatar seu sentido e sua relevância para a reflexão lukacsiana acerca da práxis emancipatória.

 

 Na Ontologia do Ser Social, o termo Sehnsucht aparece 8 vezes e nos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social, ele aparece 4 vezes.


Faremos comentários visando expor as significações do termo "Sehnsecht" no pensamento lukacsiano como sendo uma ontologia da práxis trágica nas condições históricas do capitalismo senil.


Nesta segunda postagem vamos ver os comentários críticos das 3 primeiras ocorrências do termo "Sehnsucht" na "Ontologia do Ser Social". Nas próximas postagens daremos prosseguimento às análises críticas das outras ocorrências – tanto na "Ontologia do Ser Social", quanto nos "Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social". 


Ocorrência 1


Diz Lukács: "Especialmente no anseio por um estágio já superado, a particularidade pode desempenhar um papel importante."


No original: Besonders in der Sehnsucht nach einer bereits überholten Stufe kann die Partikularität eine gewichtige Rolle spielen (p. 249).


A passagem da Ontologia do Ser Social, de György Lukács — Besonders in der Sehnsucht nach einer bereits überholten Stufe kann die Partikularität eine gewichtige Rolle spielen — é breve, mas teoricamente densa. Ela condensa, em poucas palavras, uma crítica decisiva às formas regressivas da consciência sob condições históricas determinadas.


Comecemos pelo núcleo da frase: Sehnsucht nach einer bereits überholten Stufe. Nesta passagem, Sehnsucht diz respeito a um desejo intenso, anseio ou saudade. Não se trata aqui de qualquer anseio, mas de um anseio dirigido a um estágio histórico já superado [überholten Stufe]. Ou seja, não é a tensão em direção ao possível objetivo inscrito no desenvolvimento social, mas um movimento regressivo da subjetividade, que se volta para formas de vida já ultrapassadas pelo próprio movimento da totalidade histórica.


Nesse contexto, Sehnsucht adquire um sentido preciso: ela não é simplesmente a expressão da negatividade ontológica — da distância entre o ser e suas possibilidades —, mas uma forma ideologicamente mediada dessa negatividade. Trata-se de um anseio deslocado, cujo objeto não corresponde às possibilidades reais abertas pelo desenvolvimento das forças sociais. É, portanto, uma Sehnsucht alienada, que não aponta para o futuro, mas para o passado.


O segundo termo decisivo da passagem é Partikularität (particularidade). Em Lukács, a particularidade designa o nível imediato da existência individual, marcado por interesses, necessidades e experiências fragmentadas, ainda não elevadas à mediação da totalidade social. A particularidade não é, em si, negativa; ela é um momento necessário do ser social. Torna-se problemática quando se autonomiza e se absolutiza, isto é, quando se fecha sobre si mesma, rompendo sua mediação com o universal (generidade) e com a totalidade histórica.


A frase de Lukács indica, então, uma articulação específica: é precisamente no anseio por formas históricas superadas que a particularidade pode adquirir um papel gewichtige — isto é, pesado, decisivo, influente. Por quê?


Porque a Sehnsucht regressiva encontra sua base afetiva na experiência imediata dos indivíduos. Sob condições de estranhamento, o presente aparece como insuportável ou incompreensível, e o passado pode ser idealizado como forma de compensação imaginária. Nesse movimento, a particularidade — com suas carências, frustrações e limitações — projeta sobre o passado uma imagem reconciliada que nunca existiu de fato. O que se tem, portanto, é uma forma de consciência ideológica: a nostalgia como falsificação da história.


Aqui, a análise lukacsiana é rigorosamente materialista. Não se trata de condenar moralmente a nostalgia, mas de explicá-la como produto de uma situação histórica. A regressão da Sehnsucht ao passado expressa uma incapacidade — objetiva e subjetiva — de apreender as mediações reais do presente e suas possibilidades de transformação. A negatividade, que poderia orientar-se para a práxis transformadora, é capturada pela particularidade e desviada para uma idealização regressiva.


Dito de outro modo: a Sehnsucht, enquanto forma afetiva da negatividade, é ambivalente. Ela pode ser um índice de abertura para o novo, quando articulada às possibilidades objetivas da totalidade social; mas pode também degenerar em forma ideológica, quando se fixa em conteúdos historicamente superados. É esse segundo caso que Lukács tematiza na passagem citada.


Há, portanto, uma crítica implícita tanto ao romantismo quanto a certas formas de consciência conservadora ou reacionária. O apego afetivo a formas pretéritas — comunidades orgânicas idealizadas, ordens tradicionais, supostas totalidades perdidas — não é expressão de uma verdade histórica, mas de uma particularidade que, incapaz de se elevar à compreensão da totalidade, refugia-se no passado.


A força da passagem está justamente em mostrar que nem todo anseio é progressivo. A direção da Sehnsucht depende de sua mediação com a totalidade histórica. Quando essa mediação falha, o anseio deixa de ser antecipação do possível e torna-se fuga para o irrecuperável.


Ocorrência 2


Diz Lukács: "Como o desenvolvimento da humanidade é contínuo, e como nele a luta pela existência da espécie busca incessantemente por expressão, os grandes filósofos expressam etapas desse desenvolvimento — algo que, na maioria das vezes sem uma consciência clara e correta, vive também em muitos homens como anseio, como negação abstrata e obscura do que está posto, como o pressentimento confuso de algo que virá, etc., e cujo efeito — por meio de muitas mediações — também se reflete em suas ações."


No original: Da nun die Menschheitsentwicklung eine kontinuierliche ist, da in ihr der Kampf um die Gattungsexistenz ununterbrochen um Ausdruck ringt, drücken die großen Philosophen Etappen dieser Entwicklung aus, etwas, das zumeist ohne richtiges und klares Bewußtsein auch in vielen Menschen als Sehnsucht, als unklarabstrakte Verneinung des Bestehenden, als verworrene Ahnung eines Kommenden  usw. lebendig ist, dessen Wirkung — durch viele Vermittlungen — auch auf ihre Taten abfärbt. (p. 470)


Esta passagem da Ontologia do Ser Social, de György Lukács, é particularmente rica porque desloca o sentido de Sehnsucht para um plano mais complexo: não mais como nostalgia regressiva (como na passagem anterior), mas como forma difusa, pré-conceitual e socialmente disseminada da negatividade histórica.


O ponto de partida é a tese ontológica: die Menschheitsentwicklung eine kontinuierliche ist — o desenvolvimento da humanidade é contínuo. Isso significa que a história não é uma sucessão arbitrária de eventos, mas um processo no qual a espécie humana [Gattung] luta permanentemente por sua própria existência e realização. Essa luta — der Kampf um die Gattungsexistenz — não é apenas material, mas também espiritual, cultural e prático: ela busca incessantemente expressão [um Ausdruck ringt].


É nesse contexto que Lukács introduz o papel dos grandes filósofos: eles expressam, em nível conceitual, as etapas desse desenvolvimento histórico. No entanto — e aqui está o ponto decisivo — aquilo que os filósofos elaboram conceitualmente não nasce do nada. Trata-se de algo que já está “vivo” [lebendig ist] no interior da experiência social mais ampla, ainda que de forma difusa, fragmentária e não consciente.


É precisamente nesse nível que aparece Sehnsucht.


Na passagem, Lukács a coloca em uma série significativa: Sehnsucht, unklarabstrakte Verneinung des Bestehenden (negação abstrata e obscura do existente), verworrene Ahnung eines Kommenden (pressentimento confuso de algo por vir). Essa série define o estatuto da Sehnsucht: ela não é conhecimento, nem conceito, nem consciência clara. Trata-se de uma forma de negatividade ainda não mediada, uma experiência afetiva e pré-reflexiva da inadequação do mundo existente. Aqui, o sentido de Sehnsucht se desloca decisivamente em relação à passagem anterior.


Não se trata de um anseio regressivo por um estágio superado, mas de uma tensão voltada — ainda que de modo confuso — para o futuro. Contudo, esse futuro não aparece como possibilidade objetiva claramente apreendida, mas como Ahnung, isto é, como pressentimento obscuro.


A expressão unklarabstrakte Verneinung des Bestehenden é central. Ela indica que a negatividade está presente, mas de forma abstrata e indeterminada. Os indivíduos sentem que o existente [das Bestehende] é insuficiente, inadequado, insatisfatório — Sehnsucht aparece como uma força motriz nas massas. É aquele sentimento coletivo de que "algo está errado" ou "falta algo" no presente, funcionando como um motor inconsciente para mudanças históricas e ações humanas.


Em síntese, se a "saudade" olha para trás, para algo que já foi, a Sehnsucht geralmente olha para frente ou para o horizonte, ansiando por algo que "deveria ser" - mas não conseguem determinar com clareza o quê, nem como superá-lo. A Sehnsucht, nesse contexto, é a forma afetiva dessa negação ainda indeterminada.


Temos, portanto, uma estrutura precisa: há uma contradição objetiva no desenvolvimento social; essa contradição é vivida subjetivamente como mal-estar, tensão, anseio; essa experiência assume a forma de Sehnsucht, mas também de negação abstrata e pressentimento confuso; apenas em níveis mais elevados de mediação  como na filosofia — essa negatividade pode ser elaborada conceitualmente.


O ponto decisivo é que Lukács recusa qualquer psicologização da Sehnsucht. Ela não é um estado interior contingente, mas uma forma socialmente mediada de experiência. Ela expressa — ainda que de modo deformado — a pressão real das contradições históricas sobre a subjetividade.


Ao mesmo tempo, Lukács insiste no caráter mediado de sua eficácia: dessen Wirkung — durch viele Vermittlungen — auch auf ihre Taten abfärbt. Ou seja, essa negatividade difusa não se traduz diretamente em ação. Ela influencia as práticas humanas apenas através de múltiplas mediações — instituições, ideologias, formas culturais, organizações sociais. Sem essas mediações, a Sehnsucht permanece no nível da inquietação difusa.


Isso nos permite compreender sua ambivalência ontológica. Por um lado, ela contém um momento progressivo: é um índice de que o existente não esgota as possibilidades da humanidade. Há nela um “excedente” de realidade — uma abertura para o novo. Por outro lado, enquanto permanece abstrata e confusa, ela pode ser capturada por formas ideológicas regressivas, desviada para ilusões, utopias abstratas ou mesmo para formas de acomodação.


Ressaltemos mais uma vez a comparação com a passagem anterior, vemos um contraste dialético fundamental: lá, a Sehnsucht voltava-se para o passado e era mediada pela particularidade (forma regressiva); aqui, ela se orienta para o futuro, mas permanece indeterminada (forma pré-conceitual da negatividade histórica). Em termos mais rigorosos, podemos dizer: a Sehnsucht aparece aqui como momento fenomenológico da relação entre possibilidade objetiva e consciência social ainda não desenvolvida. Ela é a forma sensível, afetiva e difusa pela qual os indivíduos participam — sem plena consciência — do movimento histórico da totalidade.


A força da análise de Lukács está em mostrar que a história não se move apenas por decisões conscientes ou teorias elaboradas. Antes disso, há um campo amplo de experiências afetivas, pressentimentos e negações obscuras — entre as quais a Sehnsucht ocupa um lugar central — que expressam, de maneira ainda não tematizada, a dinâmica real do ser social. Em última instância, portanto, a Sehnsucht é aqui a forma embrionária da consciência histórica: uma negatividade vivida, mas ainda não pensada; uma abertura ao novo, mas ainda sem forma; um índice de que o ser social ultrapassa, em suas possibilidades, aquilo que já é.


Ocorrência 3


Diz Lukács: "Nas “Troianas” de Eurípedes, a violação da dignidade humana nessa práxis já é o tema principal. Que elas devessem se tornar escravas dos vencedores, contudo, permanece um fato não alterável; isto, todavia, aparece simultaneamente com a — objetivamente, claro, impotente — indignação humana contra ele, na qual, apenas de tempos em tempos, resplandece o anseio, que permanece subjetivo, por uma resistência ativa. Na tragédia »Andrômaca«, do mesmo Eurípedes, essa resistência ganha já uma figura convertida em práxis individual: em uma situação agravada criticamente, age Andrômeda como se fosse um ser humano tão livre quanto seus adversários e força — na realidade estilizada da tragédia — um comportamento correspondente dos outros contra ela; contudo, também aqui com a tensão de fundo de que seu inexorável ser-escrava poderia levar, a todo instante, ao seu desaparecimento físico."


No original: In den »Troerinnen« von Euripides ist die Verletzung der Menschenwürde in dieser Praxis bereits das Hauptthema. Daß sie Sklavinnen der Sieger werden müssen, bleibt freilich eine nicht änderbare Tatsache, diese erscheint jedoch simultan mit der — objektivfreilich ohnmächtigen — menschlichen Empörung dagegen, in der nur ab und zu eine subjektiv verbleibende Sehnsucht nach aktiverem Widerstand aufleuchtet. In der Tragödie »Andromache« desselben Euripides gewinnt dieser Widerstand bereits eine sich in individuelle Praxis umsetzende Gestalt: In einer kritisch. zugespitzten Lage handelt Andromache so, als ob sie ein ebenso freier Mensch wäre wie ihre Widersacher und erzwingt — in der stilisierten Wirklichkeit der Tragödie — ein entsprechendes Verhalten der anderen ihr gegenüber, freilich auch hier mit dem Spannungshintergrund, daß ihr unaufhebbares Sklavinnendasein jeden Augenblick ihren physischen Untergang herbeiführen könnte. (p. 520)


Nesta passagem da Ontologia do Ser Social, de György Lukács, o termo Sehnsucht aparece em um contexto decisivo: a análise da tragédia grega como forma de expressão estética de contradições ontológicas do ser social, especialmente no que se refere à dignidade humana e aos limites da práxis sob condições de dominação.


O ponto de partida é a situação objetiva: nas Troianas, de Eurípides, a escravização das mulheres troianas após a guerra é apresentada como “um fato inelutável” — eine nicht änderbare Tatsache. Trata-se de uma necessidade objetiva inscrita nas relações sociais da época. A práxis dominante — a redução dos vencidos à condição de escravos — implica uma violação radical da dignidade humana, que Lukács identifica como o tema central da tragédia.


É nesse cenário que emerge Sehnsucht. Ela não se apresenta como categoria central, mas como um “lampejo” [aufleuchtet], isto é, como um instante fugaz no interior de uma experiência marcada pela impotência objetiva. Lukács a qualifica com precisão: eine subjektiv verbleibende Sehnsucht nach aktiverem Widerstand ["um anseio que permanece subjetivamente por uma resistência mais ativa"]. Cada elemento dessa formulação é teoricamente decisivo.


Em primeiro lugar, subjektiv verbleibende (“que permanece subjetivamente”) indica que a Sehnsucht permanece no plano da subjetividade. Isso significa que ela não encontra condições objetivas para se realizar. Não há, naquele contexto histórico, mediações sociais capazes de converter esse anseio em práxis efetiva. Trata-se, portanto, de uma negatividade destituída de potência prática imediata.


Em segundo lugar, nach aktiverem Widerstand [“busca de uma resistência mais ativa”) define o conteúdo desse anseio: trata-se de uma aspiração a uma forma mais ativa de resistência, isto é, à superação da passividade imposta pela condição de escravidão. Diferentemente de outras ocorrências, o objeto da Sehnsucht não é regressivo nem indeterminado; ele aponta para uma possibilidade concreta — a resistência — que, contudo, não é objetivamente realizável nas condições dadas.


Em terceiro lugar, o verbo aufleuchtet (resplandecer, cintilar) indica o caráter episódico e não estruturante dessa experiência. A Sehnsucht não organiza a ação; ela irrompe momentaneamente como índice de humanidade que não pode se realizar plenamente. Trata-se de uma centelha de negatividade que, por instantes, ilumina a inadequação do real. Tem-se, assim, uma determinação precisa: a Sehnsucht aparece como forma subjetiva de uma contradição entre a dignidade humana e as condições objetivas de sua negação. Ela constitui o resíduo afetivo de uma possibilidade histórica inexistente naquele momento — a resistência ativa —, mas que, ainda assim, se apresenta como exigência.


Na sequência, Lukács introduz um desenvolvimento significativo com a Andrômaca. Aqui, a resistência deixa de ser apenas objeto de Sehnsucht e assume a forma de práxis individual. Andrômaca age als ob sie ein ebenso freier Mensch wäre — “como se fosse livre”. Em “As Troianas” e na peça homônima “Andrômaca”, Eurípides explora o paradoxo de uma mulher que, outrora princesa, torna-se propriedade do filho do homem que destruiu sua vida. Ela encarna a dignidade que permanece mesmo na servidão, contrastando sua nobreza ética com a crueldade dos vencedores. Mas como dissemos, Andrômaca age “como se fosse livre”. Essa fórmula é decisiva: trata-se de uma antecipação prática de uma condição inexistente. A ação não corresponde à realidade objetiva, mas a ultrapassa performativamente.


Nesse sentido, mesmo sob condições de escravidão, a Sehnsucht atua como princípio de não-coincidência entre a condição objetiva e a autocompreensão subjetiva. Ela preserva a interioridade como instância não totalmente subsumida à ordem existente. A ação “como se” (als ob) indica a criação de um espaço subjetivo no qual a liberdade é antecipada, ainda que não realizada. Essa antecipação não suprime a contradição objetiva. Ao contrário, ela a intensifica. Andrômaca age como sujeito livre em uma situação que a define como escrava. Essa tensão entre intensidade subjetiva e impotência objetiva constitui o núcleo trágico da situação. A práxis individual, embora afirmativa, não altera a estrutura social que a condiciona.


Desse modo, a Sehnsucht pode ser compreendida como momento inicial de uma dinâmica que articula três níveis:


Primeiro, como anseio subjetivo destituído de eficácia prática;

Segundo, como antecipação prática em nível individual;

Terceiro, como limite estrutural que impede a realização dessa antecipação.


O resultado é a permanência de um horizonte trágico, no qual a possibilidade subjetiva não encontra correspondência objetiva.


A análise pode ser aprofundada ao se considerar a função da Sehnsucht como forma de resistência psíquica. Ela impede a completa identificação do indivíduo com sua condição objetiva. A escravidão, nesse sentido, é vivida como situação, mas não como essência. A Sehnsucht mantém aberta a distinção entre em que ele foi colocado o que o indivíduo é e aquilo.


Essa não-coincidência constitui o núcleo do humano sob condições de opressão. O sujeito não se esgota na forma social que o determina. Há sempre um excedente — uma dimensão que escapa à objetivação. A Sehnsucht nomeia esse excedente: a parte do sujeito que não pode ser plenamente capturada pelas relações sociais existentes.


Nesse sentido, ela pode ser interpretada como um “espaço de manobra” interno [Spielraum], isto é, como a abertura subjetiva que torna possível a ação. Não se trata de uma fuga da realidade, mas da recusa em ser integralmente definido por ela. Essa abertura permite a antecipação de possibilidades que não estão dadas empiricamente, mas que se tornam pensáveis e, eventualmente, realizáveis.


A analogia com a tensão de uma mola é elucidativa: a pressão objetiva tende a deformar o sujeito, mas a Sehnsucht atua como força de resistência interna, acumulando energia que pode, sob determinadas condições, converter-se em ação. Sem essa tensão, a adaptação seria completa; com ela, abre-se a possibilidade da resistência.


Esse mecanismo não se limita ao contexto da tragédia antiga. Ele pode ser generalizado para as condições modernas de dominação no capitalismo global. Em contextos marcados pela reificação e pela coisificação, a Sehnsucht manifesta-se como anseio por uma vida que ultrapasse a redução do indivíduo a função, número ou mercadoria.


Contudo, nas sociedades neoliberais, esse anseio tende a ser capturado e desviado. A indústria cultural e o consumo transformam a Sehnsucht em demanda por objetos finitos, incapazes de satisfazer um desejo estruturalmente infinito. O resultado é um ciclo de frustração permanente, que contribui para formas generalizadas de sofrimento psíquico. Nesse contexto, a perda do “espaço de manobra” interno manifesta-se como esgotamento, apatia ou depressão.


Quando a Sehnsucht é neutralizada — seja pela saturação consumista, seja pela impossibilidade de imaginar alternativas —, o sujeito tende a coincidir inteiramente com sua condição objetiva, aproximando-se da forma-objeto.


A análise de Lukács permite, assim, compreender o vínculo entre estrutura social e experiência subjetiva.


A saúde psíquica depende, em última instância, da manutenção dessa tensão entre o real e o possível. A Sehnsucht é a forma sensível dessa tensão característica da práxis trágica.

Por fim, Lukács sugere implicitamente que a superação dessa condição exige mediações coletivas. A arte, a filosofia e, sobretudo, a práxis política organizada constituem formas de reabrir esse “espaço de manobra” [Spielraum], transformando o anseio difuso em consciência e ação histórica.


Em síntese, a Sehnsucht pode ser definida, nesta passagem, como:


(1) forma subjetiva inicial de uma exigência prática;

(2) expressão da dignidade humana negada;

(3) índice de uma possibilidade não realizada;

4) antecipação limitada de uma práxis que permanece, nas condições dadas, estruturalmente bloqueada.


O que Lukács revela é que a Sehnsucht pode conter um conteúdo ontologicamente progressivo — o anseio por liberdade, resistência e dignidade —, mas sua eficácia depende inteiramente das condições históricas. Quando essas condições não estão presentes, ela permanece como centelha subjetiva ou se converte em ação isolada, incapaz de transformar a totalidade (a práxis trágica). A tensão entre impotência objetiva e intensidade subjetiva constitui, assim, o núcleo dialético da análise. É nela que se inscreve o problema fundamental da práxis emancipatória.

[continua]

 
 
 

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