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Estado neoliberal e envelhecimento-5

  • há 48 minutos
  • 17 min de leitura



A demografia está em rota de colisão com a economia política do Estado neoliberal, que tende a adotar políticas de austeridade e cortes nas áreas sociais — saúde, assistência e BPC.


Com o envelhecimento populacional em um país marcado por profunda desigualdade social, declínio da estrutura familiar e colapso do cuidado, o resultado é trágico. É o que podemos chamar de “privatização do sofrimento” ou crise de exaustão social”. É isso que estamos vendo no Brasil neoliberal — de Collor/FHC a Bolsonaro/Lula.


As tendências do desenvolvimento demográfico, que discutimos amplamente no livro O Gerontariado: O trabalho envelhecido no século XXI, tendem a se impor em razão da inexistência de forças contratendenciais à lógica do capitalismo neoliberal no Brasil. Neste artigo, que conclui nossa série sobre o cuidado no Brasil neoliberal, seremos bastante objetivos. Àqueles que desejarem se aprofundar na problemática mais ampla das contradições entre a demografia do século XXI e o Estado neoliberal, recomendamos o livro supracitado, de minha autoria.



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Descreverei, num primeiro momento, os elementos do que podemos denominar “privatização do sofrimento” ou “crise de exaustão social” e, em seguida, o impacto dessa combinação.

 

Privatização do Sofrimento

A expressão “privatização do sofrimento” designa um processo histórico e social no qual problemas produzidos estruturalmente pela organização da sociedade — desemprego, adoecimento, envelhecimento, solidão, precarização, endividamento, sobrecarga de cuidado — deixam de ser reconhecidos como questões coletivas e passam a ser tratados como responsabilidade individual ou familiar. O que antes era objeto de políticas públicas, solidariedade institucional e proteção social é deslocado para o interior dos lares e das biografias privadas.


Nesse modelo, o Estado se retira progressivamente de áreas centrais — saúde, assistência, moradia, cuidado, educação, previdência — e transfere implicitamente os riscos da vida para os indivíduos.


A doença vira “falta de autocuidado”, o desemprego vira “falta de esforço”, a pobreza vira “má gestão pessoal”, o envelhecimento dependente vira “problema da família”. O sofrimento social é, assim, despolitizado e psicologizado: deixa de ser interpretado como efeito de estruturas econômicas e passa a ser vivido como fracasso pessoal.


Na prática, isso significa que famílias e indivíduos passam a arcar sozinhos com custos materiais, emocionais e físicos que são produzidos socialmente. A falta de políticas de cuidado transforma o adoecimento em sobrecarga doméstica. A precarização do trabalho transforma a insegurança em ansiedade crônica. O desmonte da previdência transforma o envelhecimento em medo permanente. O que era risco coletivo torna-se drama privado.

Essa privatização não elimina o sofrimento — ela apenas o oculta, fragmenta e silencia. Em vez de aparecer como crise pública, aparece como milhões de histórias individuais de esgotamento, depressão, endividamento, burnout, abandono e solidão. O sistema se preserva justamente porque o custo humano não é contabilizado politicamente.

É nesse ponto que emerge a “crise de exaustão social”.


Crise de Exaustão Social

A crise de exaustão social é o estágio avançado desse processo. Ela ocorre quando uma sociedade atinge um nível estrutural de cansaço físico, psíquico e moral generalizado, resultante da combinação entre precariedade material, insegurança permanente e ausência de redes de proteção. Não se trata apenas de estresse individual, mas de um esgotamento coletivo das capacidades de viver, cuidar, cooperar e projetar o futuro.


Numa sociedade em exaustão, como é a sociedade neoliberal, as pessoas vivem em estado contínuo de sobrevivência. Trabalham mais para ganhar menos, cuidam sozinhas de doentes, idosos e crianças, lidam com dívidas, com medo do desemprego, com sistemas públicos degradados e com a pressão constante para “dar conta de tudo”. Não há tempo social para descanso, elaboração, convivência, participação política ou criação cultural. A vida é reduzida à gestão da própria precariedade.


Esse esgotamento se manifesta em indicadores objetivos: crescimento de transtornos mentais, uso massivo de antidepressivos, afastamentos por burnout, aumento de suicídios, queda da fecundidade, retraimento social, explosão de violência doméstica, radicalização política e desconfiança generalizada. Mas também se manifesta subjetivamente: sensação difusa de vazio, impotência, desamparo e falta de horizonte.


A privatização do sofrimento é o mecanismo. A exaustão social é o resultado. Quando cada indivíduo precisa resolver sozinho aquilo que é estruturalmente insolúvel — envelhecer sem rede, trabalhar sem segurança, cuidar sem apoio, sobreviver sem garantias —, a sociedade entra num regime de fadiga sistêmica. Ela continua funcionando formalmente, mas consome suas próprias bases humanas: saúde, vínculos, solidariedade, confiança, esperança.


Do ponto de vista político, isso produz um paradoxo perigoso. Sociedades exaustas são, ao mesmo tempo, mais frágeis e mais manipuláveis. Pessoas esgotadas têm menos energia para organização coletiva, reflexão crítica e ação pública. Tendem a buscar saídas imediatas, autoritárias ou messiânicas. O cansaço social abre espaço para populismos, moralismos punitivos, soluções simplistas e despolitização.


Do ponto de vista econômico, a exaustão também é irracional. Sistemas que não investem na reprodução social — saúde, cuidado, educação, moradia, tempo livre — corroem sua própria força de trabalho e ampliam custos futuros. Gastam menos hoje e pagam mais amanhã em doenças, violência, colapso institucional e perda de produtividade.


Em síntese, podemos dizer que:


A privatização do sofrimento é a transferência dos riscos e dores sociais para os indivíduos.

A crise de exaustão social é o colapso progressivo das capacidades humanas produzido por essa transferência.


Juntas, elas caracterizam uma forma de dominação do capitalismo neoliberal que não se exerce apenas pela exploração  ou extração do mais-valor, mas pela gestão permanente do desgaste da vida. Não é apenas um sistema que extrai valor da força de trabalho; é um sistema que consome a energia vital, os vínculos e o tempo das pessoas até o limite.


O impacto dessa combinação – privatização do sofrimento e crise de exaustão social - pode ser resumido em quatro pontos críticos:


1. A Sobrecarga e o Empobrecimento das Mulheres

O envelhecimento populacional no Brasil é uma das transformações demográficas mais profundas das últimas décadas, implicando um aumento expressivo da demanda por cuidados de longa duração para idosos com limitações funcionais e dependência nas atividades básicas da vida diária. Estima-se que homens com 80 anos ou mais podem viver em torno de 3,4 anos em situação de dependência, e mulheres da mesma faixa etária 4,7 anos nessa condição, exigindo cuidados intensivos e continuados no final da vida.


No contexto brasileiro, o apoio estatal formal para esses cuidados é ainda incipiente. O Sistema Único de Saúde (SUS) não dispõe de um programa universalizado de cuidado domiciliar profissionalizado para idosos dependentes, e a oferta de cuidadores profissionais é muito limitada tanto no setor público quanto no privado, o que reforça a dependência de cuidados exercidos pela família.


A assistência social, por meio de programas como o BPC (Benefício de Prestação Continuada), oferece um recurso econômico básico para idosos de baixa renda, representando um instrumento importante de inclusão social e redução da desigualdade na velhice. Pesquisas indicam que o BPC contribui para a melhoria das condições de vida de idosos vulneráveis e diminui a pobreza nessa população, embora sua cobertura e focalização enfrentem desafios.


Na ausência desse suporte estatal mais robusto — seja na forma de cuidadores remunerados, de políticas públicas específicas de cuidado domiciliar ou de serviços integrados de saúde e assistência — a responsabilidade pelos cuidados “recai novamente sobre a família”. 


Como já salientamos nas postagens anteriores do blog, esse padrão histórico de substituição do cuidado público pelo familiar era menos visível em sociedades com estruturas familiares amplas e redes comunitárias de apoio. Mas no Brasil contemporâneo, assim como em muitas outras sociedades, a estrutura familiar encolheu: famílias menores, menor coabitação entre gerações, maior mobilidade geográfica e diminuição do número de filhos reduzem a disponibilidade de cuidadores dentro dos domicílios.


Nesse cenário, o cuidado não remunerado no domicílio impõe um ônus significativo às famílias e, em especial, às suas integrantes do gênero feminino. Estudos que utilizam dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) mostram que cuidar de um idoso no domicílio reduz em cerca de 2,39 pontos percentuais a probabilidade de um adulto estar na força de trabalho e de estar empregado, demonstrando que a necessidade de cuidado doméstico está diretamente associada à saída do mercado de trabalho e à redução da inserção laboral de quem assume essa tarefa. Além disso, esses efeitos se concentram sobretudo entre as mulheres, que dedicam quatro a cinco horas a mais por semana do que os homens aos cuidados de idosos.


Esse padrão de divisão informal do cuidado — historicamente atribuído às mulheres — tem implicações econômicas profundas. Quando uma mulher sai do mercado de trabalho ou reduz sua jornada para cuidar de um idoso dependente, a renda familiar diminui, criando dificuldades imediatas de sustento, e a própria cuidadora vê sua contribuição previdenciária interrompida ou reduzida, o que compromete seus direitos futuros à aposentadoria ou à proteção social. Essa dinâmica pode gerar uma nova geração de idosos pobres: mulheres que dedicaram grande parte de sua vida ao cuidado familiar acabam com menor histórico de trabalho formal, menor remuneração acumulada e, consequentemente, menor proteção social na velhice.


Do ponto de vista social, a falta de políticas públicas estruturadas de cuidado — incluindo serviços de saúde domiciliar integrados, programas profissionais de cuidadores, oferta adequada de unidades de longa permanência e política de transferência de renda mais abrangente — transforma um problema coletivo, derivado do envelhecimento populacional e das desigualdades socioeconômicas, em um ônus individual e familiar. Essa privatização do cuidado, pautada pela responsabilidade familiar e pela ausência de suporte estatal adequado, agudiza desigualdades de gênero e de classe, precariza a vida das famílias cuidadoras e reforça a reprodução intergeracional da pobreza.


1.     O Colapso do Consumo e da Dignidade (Efeito do corte no BPC)

 

O Benefício de Prestação Continuada (BPC) não é apenas uma prestação assistencial: ele atua estruturalmente como um motor da economia em muitas cidades brasileiras, especialmente onde a renda é baixa e o consumo local depende de recursos mínimos regulares. O BPC assegura um valor mensal equivalente a um salário mínimo, destinado a idosos com 65 anos ou mais e pessoas com deficiência que não possuem meios de subsistência próprios nem por sua família. Esse valor, ainda que modesto, impulsiona gastos básicos essenciais como compra de alimentos, remédios, deslocamentos a consultas e, em locais menores, movimenta diretamente o comércio local — mercados, farmácias, mercearias, transporte coletivo, entre outros serviços.


Sem o BPC, o idoso dependente perde automaticamente essa capacidade de consumo regular. A ausência desse fluxo de renda significa que a família não terá recursos nem para adquirir medicamentos essenciais, nem para comprar alimentos de qualidade nem para pagar transportes e consultas médicas — despesas cruciais quando há fragilidades de saúde ou limitações funcionais envolvidas. Em contextos de cidades pequenas e médias, esse efeito propaga-se para além da família: o dinheiro deixa de circular em mercados, feiras e serviços e reduz o dinamismo da economia local, afetando comerciantes, entregadores, taxistas, pequenos fornecedores, gerando um efeito multiplicador negativo sobre o conjunto da economia regional.


A importância econômica do BPC pode ser medida por sua capilaridade: estima-se que milhões de beneficiários recebem esse suporte no país, injetando mensalmente valores equivalentes a um salário mínimo que, em áreas mais pobres, representa uma parcela significativa da renda familiar e comunitária. Essa renda constante chega a ser comparada a pequenas políticas de estímulo econômico regional, com impacto direto no consumo de bens e serviços básicos.


Além do impacto econômico, a retirada ou o enfraquecimento do BPC por políticas de ajuste fiscal - como tem ocorrido sob o governo Lula III -  acarreta consequências severas para o sistema de saúde pública. A ausência do benefício não apenas priva o idoso de comprar medicamentos e pagar transporte para consultas e tratamentos, como também o torna mais vulnerável ao agravamento de doenças crônicas e complicações de condições pré-existentes — hipertensão, diabetes, insuficiências funcionais, doenças respiratórias e outras que demandam controle constante.


Essa precarização da saúde do idoso tem efeitos diretos sobre o Sistema Único de Saúde (SUS): idosos desassistidos têm maior probabilidade de adoecer mais rapidamente, de sofrer complicações evitáveis e de ser internados em leitos hospitalares — unidades de cuidado que representam custos muito mais elevados para o sistema de saúde do que o próprio benefício mensal investido em manutenção da vida e autonomia do idoso em sua residência. Um leito de internação custa dezenas, às vezes centenas, de vezes mais do que o valor mensal de um salário mínimo; além disso, a ocupação de leitos por idosos em situação de adoecimento crônico pode gerar filas de espera, ampliar pressões sobre UTIs e serviços de urgência e desorganizar fluxos de atendimento.


Ou seja, um corte ostensivo no BPC como medida de ajuste fiscal é, de fato, uma falsa economia: ele pode reduzir gastos imediatos com uma transferência de renda, mas tenderá a aumentar os gastos públicos no SUS no médio prazo, devido ao agravamento da saúde da população idosa. Do ponto de vista econômico e sanitário, fortalecer o BPC e integrá-lo com políticas de cuidado domiciliar e de atenção básica à saúde é, ao contrário, uma estratégia de eficiência orçamentária e de promoção da saúde pública.


Por fim, a ausência do BPC agrava o círculo de desigualdade e de precarização vivido pelas famílias cuidadoras: sem renda mínima estável, as famílias ficam sem condições de contratar ajuda profissional de cuidadores, fisioterapeutas, enfermeiros ou mesmo auxiliares de cuidados básicos, o que onera ainda mais a rotina doméstica e reforça a responsabilização familiar — especialmente feminina — pelo cuidado cotidiano. A falta de apoio formal e renda mínima faz com que a família assuma integralmente o ônus material e emocional desse cuidado, promovendo exclusão social, precarização do mercado de trabalho das cuidadoras e retroalimentando a trajetória de desigualdade socioeconômica na velhice.



 

2.     Aumento da Mortalidade e da Negligência

 

Em uma sociedade marcada pelo crescimento acelerado de famílias unipessoais e domicílios pequenos, o corte em políticas de saúde e assistência social tem efeitos diretos e previsíveis sobre a vida dos idosos. Sem equipes da atenção básica, agentes comunitários de saúde, visitas domiciliares e serviços de apoio, o idoso dependente passa a viver em isolamento quase absoluto, muitas vezes sem monitoramento regular de sua condição física, mental e alimentar.


Nessas circunstâncias, aumentam os casos de morte solitária, abandono involuntário e negligência severa, sobretudo entre idosos pobres, com mobilidade reduzida ou doenças crônicas. A ausência de uma rede pública mínima faz com que situações de desnutrição, desidratação, quedas, depressão e agravamento de doenças passem despercebidas até atingirem estágios irreversíveis, resultando em internações tardias ou óbitos evitáveis.

Do ponto de vista social e sanitário, a chamada “austeridade” não representa racionalização de gastos, mas sim desorganização da proteção básica à vida. O desmonte da atenção primária e da assistência social transforma a velhice em uma experiência de solidão estrutural, na qual o indivíduo depende apenas de si mesmo — justamente no momento em que sua autonomia diminui.


Na prática, isso se traduz em perda de anos de vida funcional: menos tempo vivendo com autonomia, mais tempo em sofrimento, dependência ou hospitalização. A economia obtida com cortes no cuidado cotidiano reaparece, ampliada, na forma de doenças graves, internações prolongadas e mortalidade precoce. Trata-se, portanto, de uma política que reduz custos no papel, mas encurta vidas na realidade.

 

4. Inviabilidade do Modelo de "Geração sem Filhos"


As alternativas contemporâneas de moradia e cuidado na velhice — como co-housing, repúblicas intergeracionais e vilas do idoso — não se sustentam espontaneamente pelo mercado. Elas dependem, estruturalmente, ou de um Estado indutor, capaz de financiar, regular e organizar esses arranjos, ou de uma classe média com capacidade estável de poupança. Sem um desses dois pilares, tais modelos tornam-se privilégio de minorias e não soluções coletivas.


Quando há cortes sistemáticos em educação e saúde, esse duplo suporte se rompe. A precarização do ensino limita o acesso dos jovens a empregos qualificados e estáveis, bloqueando a mobilidade social. Ao mesmo tempo, o enfraquecimento da saúde pública obriga as famílias a recorrerem ao setor privado para cuidar dos pais idosos, transferindo para o orçamento doméstico um custo que deveria ser socialmente compartilhado.


Nesse contexto, o jovem trabalhador fica duplamente comprimido: recebe salários mais baixos devido à baixa qualificação e compromete grande parte da renda com despesas médicas familiares. Como resultado, não consegue poupar, não acumula patrimônio, não investe em previdência complementar e não constrói condições materiais para sua própria velhice — especialmente em um cenário de redução da fecundidade e ausência de filhos como rede futura de apoio.


Forma-se, assim, uma armadilha da pobreza geracional. A precariedade de uma geração se converte em limite estrutural da seguinte. Pais envelhecem sem proteção pública, filhos se endividam para sustentá-los, e ambos chegam à velhice em condições frágeis. O sistema, ao cortar políticas universais, transforma trajetórias individuais em ciclos hereditários de vulnerabilidade.


Desse modo, a ausência de investimento em educação e saúde não apenas empobrece o presente, mas hipoteca o futuro social. Ela bloqueia a formação de alternativas coletivas de cuidado, destrói a capacidade de poupança da classe trabalhadora e converte o envelhecimento em um processo marcado pela insegurança, pela dependência e pela reprodução ampliada da desigualdade.


O resumo do cenário é o seguinte: o ajuste fiscal — que tende a se aprofundar no Brasil neoliberal a partir de 2027 - com ou sem Lula - e que ignora a transição demográfica, é como tentar economizar combustível desligando os motores de um avião em pleno voo para reduzir custos. Em última análise, uma sociedade que envelhece enquanto o Estado se retira é uma sociedade que escolhe a institucionalização da precariedade. O cuidado, que deveria ser um direito, transforma-se em um luxo inacessível, e a solidão da geração sem filhos deixa de ser uma escolha de estilo de vida para se tornar um risco de morte.

 

A combinação desses fatores cria o que demógrafos chamam de "pressão de mortalidade". Embora a medicina avance, as barreiras socioeconômicas impostas por cortes de gastos e pela fragilidade das estruturas familiares tendem a elevar as taxas de mortalidade em diversos grupos e por diferentes causas. A contradição social do mundo do capital face – por um lado, o aumento da longevidade e por outro, a velhice precária (o gerontariado) – se traduz na imagem abaixo:

 

 

 

  1. Brasil: Elementos da Sociedade Neolibral 5.0


1. O Aumento da Mortalidade por Causas Evitáveis

Quando o Estado corta gastos em saúde e assistência (como o BPC), o impacto não é imediato em mortes por velhice, mas em mortes por falta de gestão de doenças crônicas. Hipertensão e Diabetes, sem o fornecimento regular de remédios e acompanhamento nas Unidades Básicas de Saúde, doenças controláveis geram complicações fatais, como AVCs e infartos. Quedas e Acidentes Domésticos, em casas com idosos sozinhos ou desassistidos, uma queda no banheiro pode ser fatal não pelo impacto, mas pela demora no socorro.

 

2. O Impacto na "Mortalidade por Desespero".

Em países que adotaram medidas de austeridade severas e viram o colapso do suporte social (como ocorreu em partes da Europa e nos EUA em certas décadas), observou-se o aumento das chamadas "mortes por desespero": Tem crescido assim o suicídio na Terceira Idade - O isolamento social aliado à falta de recursos básicos (comida e remédios) é um dos maiores preditores de suicídio em idosos. Um dado importante é o esgotamento do cuidador familiar: a taxa de mortalidade e adoecimento mental também sobe entre os cuidadores familiares que, sem apoio do Estado, entram em colapso físico.


3. Redução da Expectativa de Vida ao Nascer

Já tivemos um sinal de alerta recente: durante a pandemia e em crises econômicas subsequentes, a expectativa de vida no Brasil sofreu quedas ou estagnação. Se o ajuste fiscal corta na Educação e Saneamento, o impacto na mortalidade infantil e juvenil (por violência ou doenças infectocontagiosas) volta a pressionar os índices para baixo, anulando os ganhos de longevidade que tivemos nos últimos 30 anos.


4. O Cenário da Geração sem Filhos e a Mortalidade Solitária

Em sociedades com muitas famílias unipessoais e baixo suporte estatal, cresce o fenômeno do "Kodokushi" (termo japonês para "morte solitária"). São pessoas que morrem em casa e cujos corpos são encontrados dias ou semanas depois. Isso é o indicador máximo de uma sociedade onde a rede de proteção social (família + Estado) falhou totalmente. 

 

Se persistir a forma do Estado político no Brasil — o Estado neoliberal que domina o país há mais de trinta anos, de Collor/FHC a Bolsonaro/Lula, cujo interesse fundamental da oligarquia financeira é cortar gastos sociais para manter o pagamento da dívida pública nas mãos de investidores financeiros — o Brasil deverá enfrentar uma profunda crise social, silenciosa, mas persistente. A nova realidade demográfica será o gatilho para uma crise civilizatória de amplas proporções.


Caso o Estado brasileiro não adapte seu orçamento à realidade de uma população que envelhece rapidamente e tem menos filhos, a tendência é a estagnação ou mesmo o retrocesso nos indicadores de longevidade. O país corre o risco de “ficar velho antes de ficar rico” e, pior, de ver sua população morrer por causas que a tecnologia e a medicina de trinta anos atrás já haviam aprendido a evitar.

 

Á título de conclusão: A epidemia de solidão

 

Estamos vivendo hoje nas condições do capitalismo neoliberal, o que sociólogos chamam de "Epidemia de Solidão". A sociedade contemporânea, e especificamente a brasileira no contexto atual, está moldada de uma forma que não apenas permite, mas muitas vezes impulsiona o isolamento individual. Não se trata apenas de "estar sozinho", mas de uma mudança estrutural em como a vida é organizada.


Veja os fatores que ampliam essa solidão:

 

1. O Urbanismo do Isolamento

As cidades brasileiras mudaram seu perfil habitacional. Se há 30 anos a vida acontecia na calçada e nas vilas, hoje ela ocorre em Apartamentos Studio e Microflats, espaços projetados para apenas uma pessoa, muitas vezes com áreas comuns "gourmet" que são pouco utilizadas para interação real. Condomínios de Muros Altos aumentam a segurança contra a violência, mas destroem a rede de vizinhança. Você pode morar 10 anos ao lado de alguém e não saber o nome dessa pessoa.


2. A Digitalização das Relações Pessoais:  e laços fracos. O fetichismo virtual

A tecnologia criou um paradoxo: estamos hiperconectados, mas subinteragidos. Temos interações Funcionais: substituímos a ida à padaria ou ao mercado (onde havia interação humana) pelo delivery e pelos caixas eletrônicos. As redes sociais oferecem uma sensação de companhia que é superficial. Para um idoso ou alguém em crise, o "curtir" não substitui o "estar presente". A solidão digital é uma das mais dolorosas porque você vê a vida dos outros acontecendo enquanto está isolado.

 

3. A Redução da Família e o Trabalho Remoto

Estamos assistindo o fim da família multigeracional. Como discutimos nas postagens anteriores, a família de 1995 era barulhenta e aglomerada. Hoje, com a baixa natalidade, muitas pessoas passam o dia inteiro sem trocar uma palavra presencial com outro ser humano. Temos o home office permanente: para muitos jovens adultos, o trabalho era o único lugar de socialização. Sem o escritório, o círculo social encolhe drasticamente, limitando-se a telas.

 

4. A Solidão como "Subproduto" da Austeridade

Como o cenário de cortes de gastos sociais pelo Estado neoliberal, a solidão se torna ainda mais grave tendo em vista espaços públicos degradados. Quando o Estado corta investimentos em praças, centros culturais, bibliotecas e parques, ele retira os lugares onde as pessoas se encontram de graça. Em uma sociedade em crise, socializar fica caro (ir a um café, cinema ou clube). Sem dinheiro (com cortes no BPC ou salários baixos), a pessoa se retira para dentro de casa para economizar, o que gera o isolamento forçado pela pobreza.

5. O Impacto na Saúde (A Solidão que Mata)

A ciência já comprovou que a solidão não é apenas um sentimento, mas um fator de risco biológico pois pode tornar-se uma Inflamação Crônica. A solidão eleva os níveis de cortisol, aumentando o risco de doenças cardíacas e demência. Estudos indicam que a solidão persistente aumenta o risco de morte prematura em 26%, um impacto maior que o da obesidade.


Por fim, temos a perspectiva futura da Solidão Estrutural


Pela primeira vez na história demográfica, somos confrontados com a possibilidade real de uma massa significativa de idosos que não têm filhos, não têm cônjuges e não têm irmãos vivos — consequência de taxas de fecundidade persistentemente baixas, do aumento das uniões instáveis e altas taxas de divórcio ao longo das últimas décadas.


No Brasil, a taxa de fecundidade já se encontra abaixo do nível de reposição há muitos anos, situando-se em torno de 1,7 filhos por mulher em 2023, bem abaixo dos 2,1 necessários para repor gerações. Isso significa famílias menores ou unipessoais, e um estoque crescente de idosos sem laços familiares próximos.


Ao mesmo tempo, as uniões conjugais têm se fragmentado. Dados do IBGE mostram que as taxas de divórcio cresceram nas últimas décadas, e que uma proporção crescente de adultos vive em uniões sem casamento formal ou vive sozinho — tendência que se acentua entre os mais jovens.


A combinação de menos filhos, mais separações e maior sobrevivência individual cria um perfil social de envelhecimento sem as tradicionais redes familiares de cuidado que marcaram as sociedades anteriores.


Se o Estado político não assumir um compromisso efetivo com o bem-estar social na velhice, e se o mercado imobiliário não desenvolver alternativas acessíveis e colaborativas de moradia para idosos, a solidão deixará de ser apenas um problema individual — de sofrimento psicológico ou de isolamento de um único sujeito — e passará a ser um colapso de coesão social em larga escala.


A literatura sobre envelhecimento indica que pessoas que envelhecem sem apoio social próximo enfrentam maior risco de mortalidade precoce e piora de saúde física e mental. Estudos epidemiológicos em diversos países demonstram que a solidão e o isolamento social equivalem a fatores de risco comparáveis ao tabagismo pesado ou à obesidade para mortalidade e doenças crônicas. Idosos isolados têm taxas mais altas de depressão, ansiedade, demência e declínio funcional, e maiores índices de hospitalização.


Quando familiares próximos (filhos, cônjuges, irmãos) deixam de ser a principal rede de apoio, a ausência de políticas públicas eficazes de cuidado e acolhimento ampliado — como sistemas públicos de cuidadores domiciliares, centros de convivência diurnos, e modelos habitacionais colaborativos — transforma a velhice em um processo individual de vulnerabilidade extrema.


As alternativas modernas que mencionamos, como moradias colaborativas intergeracionais, vilas de idosos integradas e co-housing, podem mitigar esse risco ao reconstruir formas de laços sociais e suportes mútuos que substituem as tradições familiares. Esses modelos têm mostrado resultados positivos em países europeus e nos Estados Unidos, por exemplo, ao promover redes de cuidado que reduzem a solidão, melhoram a saúde mental e diminuem a pressão sobre os serviços hospitalares.


Mas a viabilização dessas alternativas depende de dois fatores estruturais: (1) políticas públicas que incentivem, financiem e regulem tais formas de moradia e cuidado; e (2) uma base socioeconômica que permita às pessoas — inclusive as classes médias e baixas — ter acesso a essas formas de vida colaborativa sem sobrecarga financeira. Sem isso, o envelhecimento solitário torna-se uma tendência de massa, e não um fenômeno marginal.


Uma sociedade composta majoritariamente por indivíduos isolados é, em termos de coesão social, intrinsecamente mais frágil. A ausência de laços sociais sólidos reduz a capacidade coletiva de responder a crises, diminui a confiança mútua, e amplia a vulnerabilidade a fenômenos como ansiedade social em massa, retraimento comunitário e desgaste dos vínculos civis. A pesquisa em ciências sociais correlaciona altos níveis de isolamento social com maior suscetibilidade à desinformação, maior polarização política e menor resiliência coletiva diante de choques econômicos ou sanitários.


Em suma, sem uma política estatal comprometida com o bem-estar social universal — especialmente na saúde pública, assistência social e moradias adaptadas às necessidades de um perfil demográfico singular — e sem modelos de habitação colaborativa acessíveis, a solidão deixará de ser um problema individual e se transformará em uma crise estrutural de coesão social, com impactos profundos sobre a saúde pública, a estabilidade comunitária e a própria sustentabilidade do pacto social.




Para entender como se constituiu, se afirmou e se consolidou o Estado neoliberal no Brasil recomendo:



 
 
 

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