Lukács e a categoria de “Sehnsucht” - 1
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“A nostalgia [Sehnsucht] da humanidade por uma vida já não dominada pelo estranhamento, portanto, segundo uma generidade que não traz à vida nenhum estranhamento, que atribui ao indivíduo humano tarefas que podem conduzir a uma vida – também pessoal – capaz de trazer verdadeira e duradoura satisfação, permanece inarredável do pensamento e da emoção dos seres humanos.”
Gyorgy Lukács, Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social,
Boitempo editorial, p. 261
[o grifo é nosso]
Introdução
A palavra alemã Sehnsucht é uma das mais densas e intraduzíveis do léxico germânico, carregando uma espessura histórica, literária e filosófica que atravessa desde a mística medieval até o romantismo e a filosofia moderna. Uma análise filológica rigorosa exige decompor o termo em seus elementos constitutivos, rastrear sua evolução semântica e situá-lo no campo das formas de experiência histórica.
Comecemos pela decomposição morfológica. Sehnsucht é um substantivo composto por dois elementos: Sehnen (ou sehnen sich) e Sucht. O verbo reflexivo sich sehnen significa “ansiar”, “desejar intensamente”, “ter saudade profunda”. Sua raiz remonta ao alto-alemão antigo sēnōn, que está ligado à ideia de uma tensão interior, de um impulso que estica o sujeito em direção a algo ausente. Há, portanto, um primeiro elemento de tensão temporal e afetiva, uma espécie de distensão do ser em direção ao que não está presente.
O segundo elemento, Sucht, é ainda mais revelador. Hoje significa “vício”, “dependência” (como em Suchtkrankheit, doença aditiva), mas sua origem é mais ampla: deriva do verbo suchen (procurar, buscar). No alto-alemão antigo (suht), indicava tanto doença quanto busca compulsiva — isto é, uma condição em que o sujeito é dominado por uma força que o impele.
Assim, Sehnsucht articula dois vetores: uma tensão desejante (sehnen) e uma busca compulsiva ou estado de carência estrutural (Sucht). Filologicamente, portanto, Sehnsucht não é apenas “saudade” ou “nostalgia”. É algo mais radical: trata-se de um desejo que se torna condição existencial, quase patológica, um impulso que não se satisfaz porque seu objeto é, em certo sentido, impossível ou indeterminado.
No plano histórico-semântico, o termo ganha densidade sobretudo no romantismo alemão. Em autores como Novalis e Johann Wolfgang von Goethe, Sehnsucht designa uma relação com o infinito, com o absoluto, com aquilo que transcende a experiência imediata. Não é um desejo por algo determinado, mas um anseio pelo que está além de qualquer determinação. É, por assim dizer, um desejo sem objeto fixo, ou cujo objeto é sempre deslocado.
Em Os Sofrimentos do Jovem Werther, por exemplo, a Sehnsucht aparece como forma de sofrimento subjetivo ligado à impossibilidade de realizar plenamente o desejo no mundo social existente. Aqui já se anuncia uma dimensão que interessa à crítica social: a tensão entre subjetividade e mundo objetivo. Na tradição filosófica, especialmente em G. W. F. Hegel, essa estrutura pode ser reinterpretada como momento da negatividade: o sujeito é aquilo que se relaciona com o que lhe falta. A Sehnsucht pode ser vista, nesse sentido, como uma forma imediata e ainda não mediada da negatividade — uma consciência de carência que ainda não encontrou sua forma racional.
Já em Arthur Schopenhauer, o termo se aproxima da ideia de vontade como falta permanente: o desejar é sofrimento porque nunca se satisfaz plenamente. Aqui, a dimensão de Sucht (quase como vício) se torna mais evidente: o querer é estruturalmente insaciável. Se deslocarmos essa análise para uma perspectiva materialista — que dialoga com o campo teórico de Lukács — podemos interpretar Sehnsucht como uma forma subjetiva historicamente determinada.
No capitalismo, o desejo tende a assumir a forma de carência permanente produzida socialmente. Nesse sentido, a Sehnsucht pode ser lida como expressão afetiva daquilo que, em Marx, aparece como estranhamento [Entfremdung]: o sujeito deseja algo que ele próprio produziu socialmente, mas que lhe aparece como externo, inacessível, separado. Assim, a Sehnsucht moderna poderia ser compreendida como uma estrutura afetiva do estranhamento, uma tensão entre indivíduo e totalidade social e uma forma subjetiva correspondente à autonomização das relações sociais [Verselbständigung].
Do ponto de vista filológico-conceitual, portanto, podemos sintetizar: Sehnsucht não é simplesmente saudade, nem apenas desejo. É a unidade contraditória entre desejo, falta e busca compulsiva, marcada por uma orientação ao ausente — muitas vezes ao irrealizável — e historicamente mediada pelas formas sociais em que o sujeito está inserido. Em termos mais rigorosos: trata-se de uma categoria que condensa, na linguagem, a experiência de um sujeito tensionado entre o que é e o que não pode plenamente ser — uma forma afetiva da negatividade ainda não resolvida.
É nesse horizonte semântico que o termo pode ser compreendido no interior da obra de György Lukács, particularmente na Ontologia do Ser Social e nos Prolegômenos como veremos adiante. Embora Lukács não o eleve à condição de categoria sistemática central, sua mobilização é teoricamente significativa quando situada no contexto da ontologia do ser social.
Como é sabido, a ontologia lukacsiana parte da centralidade do trabalho como forma originária de teleologia prática: o ser humano distingue-se por sua capacidade de pôr fins [Zwecksetzung] e realizá-los mediante a transformação consciente da realidade. No entanto, essa estrutura teleológica não suprime a negatividade; ao contrário, ela a pressupõe e a reproduz continuamente.
É precisamente nesse espaço de tensão que Sehnsucht adquire sentido. Com efeito, pode-se compreender Sehnsucht, em chave lukacsiana, como a expressão subjetiva da distância entre o ser efetivo e suas possibilidades objetivas não realizadas. Não se trata de um estado meramente psicológico, mas de um fenômeno enraizado na própria estrutura ontológica do ser social: o sujeito projeta fins, confronta-se com a resistência da realidade objetiva e, nesse confronto, emerge uma fenda entre o que é e o que poderia ser. Sehnsucht nomeia, por assim dizer, a dimensão afetiva dessa fenda — a tensão vivida entre atualidade e possibilidade.
A inflexão materialista de Lukács, entretanto, afasta essa noção de qualquer romantização abstrata. Diferentemente da tradição romântica, na qual Sehnsucht frequentemente aponta para um absoluto indeterminado, em Lukács seu conteúdo é sempre histórica e socialmente mediado. Ou seja, o objeto desse anseio não é metafísico, mas determinado pelas condições concretas de existência.
Em uma sociedade estruturada pela reificação [Versachlichung] e pela coisificação [Verdinglichung], essa tensão pode assumir formas alienadas: nostalgia difusa por uma totalidade perdida, idealizações abstratas de ordem religiosa, estética ou política, ou ainda formas de fuga da práxis concreta. Nesses casos, Sehnsucht aproxima-se de modalidades de consciência deformada, nas quais a negatividade não se traduz em ação transformadora, mas em evasão.
Todavia, seria unilateral reduzir Sehnsucht a uma forma de estranhamento. Em Lukács, ela pode conter um momento ontologicamente progressivo. Quando articulada à práxis, essa tensão expressa uma intuição — ainda não plenamente conceitual — da inadequação do mundo existente, bem como uma abertura para possibilidades objetivas inscritas na própria realidade social.
Trata-se, nesse sentido, de uma antecipação afetiva da transformação histórica, um indício de que o ser social não se esgota em sua forma presente. A negatividade que atravessa Sehnsucht pode, assim, converter-se em mediação para a consciência crítica, desde que vinculada às contradições reais e às possibilidades efetivas de superação.
Desse modo, Sehnsucht aparece como uma categoria liminar, situada na interseção entre afeto e ontologia, entre subjetividade e totalidade social, entre o dado e o possível. Sob o capitalismo, essa tensão tende a ser capturada, desviada ou mercantilizada, convertendo-se em forma ideológica ou em consumo simbólico. No entanto, é precisamente nessa inquietação persistente — nesse anseio que não se deixa pacificar — que pode residir um momento pré-reflexivo da práxis transformadora, uma espécie de índice sensível da contradição entre o desenvolvimento das forças sociais e os limites das formas sociais existentes.
Sehnsucht e generidade
Para György Lukács, especialmente em sua obra tardia Prolegômenos a uma Ontologia do Ser Social, a questão da nostalgia humana não é um sentimento romântico ou melancólico pelo passado, mas uma categoria ontológica profunda. Lukács argumenta que o ser humano possui uma generidade [Gattungsmäßigkeit], que é a nossa essência enquanto espécie social.
A generidade em-si é a nossa existência biológica e social imediata, muitas vezes fragmentada pelo estranhamento no capitalismo.
A generidade para-si é a consciência plena e autêntica de pertencimento à humanidade, onde o indivíduo se realiza através de atividades que elevam a espécie (arte, ciência, ética).
A "nostalgia" [Sehnsucht] surge porque, sob o sistema do capital, a vida cotidiana é "muda" e estranhada. O homem sente a falta de uma conexão real com a essência humana universal. Essa nostalgia é o impulso para superar a mudez da cotidianidade e buscar uma vida que não seja apenas sobrevivência, mas expressão da riqueza humana.
Portanto, o termo central que Lukács utiliza para se referir a essa "nostalgia" ou "anseio" por uma condição humana plena é Sehnsucht. Embora Sehnsucht seja frequentemente traduzido como "nostalgia", "anseio" ou "desejo", no contexto de Lukács ele representa a tensão dialética entre o indivíduo particular (preso às suas necessidades imediatas) e o ser genérico (a potencialidade total da humanidade).
Enquanto a Gattungsmäßigkeit é a generidade (a qualidade de pertencer à espécie humana), o Stumme Gattungsmäßigkeit é a generidade muda, quando o humano ainda não tem consciência de sua universalidade).
Menschliche Sehnsucht significa a nostalgia/anseio humano que funciona como um motor para a busca da autenticidade contra a alienação.
Para Lukács, essa nostalgia - Menschliche Sehnsucht - é a prova de que o estranhamento nunca é total; existe sempre um "resto" de humanidade que busca retornar a uma forma de vida onde o homem não seja um objeto, mas o sujeito de sua própria história.
A investigação filológica rigorosa do termo alemão Sehnsucht na obra tardia de György Lukács, particularmente na Ontologia do Ser Social e nos Prolegômenos, conduz a um resultado que, à primeira vista, pode parecer paradoxal, mas que é teoricamente decisivo: o termo praticamente não aparece como categoria explícita sistemática nesses textos. Essa ausência, longe de ser um acaso ou uma lacuna, constitui um gesto teórico fundamental.
Diferentemente do jovem Lukács — por exemplo, em A Teoria do Romance, onde Sehnsucht desempenha um papel central como categoria existencial-estética —, o Lukács tardio abandona esse vocabulário em favor de um aparato conceitual ontológico rigorosamente materialista. O que antes era tematizado como anseio, nostalgia ou aspiração difusa é agora reconstruído em termos de mediações objetivas, como teleologia, possibilidade, estranhamento e ideologia.
Nos Prolegômenos — tal como apresentados na edição alemã das obras completas (GLW, volume 13) e em sua correspondente tradução brasileira —, o campo categorial dominante é inequívoco: trabalho, reprodução social, ideologia, alienação.
Não há lugar sistemático para categorias de tonalidade existencial como Sehnsucht. Isso indica que Lukács está operando uma crítica implícita à tradição romântica e idealista alemã, na qual o termo ocupava posição de destaque, deslocando o problema do plano subjetivo-afetivo para o plano ontológico-objetivo.
Contudo, se o termo não aparece, o fenômeno que ele designa não desaparece. Ao contrário, ele é incorporado de maneira mais rigorosa no interior da ontologia do ser social. Aquilo que, no plano fenomenológico, poderíamos chamar de Sehnsucht — isto é, a experiência de uma tensão entre o que é e o que poderia ser — encontra sua tradução conceitual em três núcleos fundamentais da análise lukacsiana.
O primeiro deles é a categoria de teleologia (Zwecksetzung), tal como desenvolvida na análise do trabalho. O ser humano, enquanto ser social, distingue-se por sua capacidade de pôr fins e realizá-los por meio da atividade prática. Essa projeção de fins implica necessariamente uma orientação para algo que ainda não existe. No plano da experiência subjetiva, essa antecipação pode aparecer como desejo, aspiração ou anseio; mas, para Lukács, trata-se antes de uma determinação ontológica: a relação entre o presente e a possibilidade objetiva. O que o romantismo designava como Sehnsucht pelo não-ser-ainda é, aqui, reconstruído como objektive Möglichkeit, isto é, como possibilidade inscrita nas próprias condições materiais da realidade.
O segundo núcleo é a análise do estranhamento [Entfremdung], particularmente na forma da cisão entre o desenvolvimento social e o desenvolvimento individual. Lukács mostra que, no capitalismo, as forças produtivas se desenvolvem de modo extraordinário, ampliando as possibilidades objetivas da humanidade, enquanto os indivíduos permanecem limitados em sua realização concreta. Surge, assim, uma tensão estrutural entre o ser efetivo dos indivíduos e o horizonte de possibilidades aberto pelo desenvolvimento social. Essa tensão, que no plano fenomenológico poderia ser vivida como Sehnsucht, é tratada por Lukács como uma contradição objetiva: o descompasso entre a totalidade social e a existência individual. Eis a raiz do estranhamento – na perspectiva de Lukács.
O terceiro núcleo aparece na análise da ideologia. Nos Prolegômenos, Lukács examina as formas pelas quais a consciência antecipa, de maneira muitas vezes distorcida, possibilidades reais. Religiões, utopias abstratas e idealizações diversas podem ser compreendidas como formas de antecipação que, embora contenham um momento de verdade, permanecem desligadas da práxis concreta. Nesse contexto, aquilo que poderíamos chamar de Sehnsucht alienada manifesta-se como uma orientação para além do presente que, no entanto, não se enraíza nas mediações reais da transformação social. Trata-se de uma negatividade que não se converte em prática, permanecendo no nível da representação.
Há ainda um quarto aspecto, mais indireto, ligado à categoria de totalidade. Em certas formulações da tradição lukacsiana, a emergência da consciência da totalidade é associada a uma espécie de tensão latente, uma busca ainda não tematizada conceitualmente. Em alguns contextos interpretativos, fala-se mesmo de uma Sehnsucht obscura pela totalidade, que precede sua elaboração teórica. No entanto, para o Lukács maduro, essa dimensão pré-conceitual deve ser superada por meio da análise ontológica rigorosa.
Desse modo, o que se observa é um deslocamento decisivo: Sehnsucht deixa de ser uma categoria explicativa e torna-se um fenômeno a ser explicado. Ela não é mais tomada como ponto de partida, mas como expressão subjetiva de determinações objetivas mais profundas. A ontologia do ser social não se ocupa de descrever o anseio, mas de elucidar as condições que o produzem.
Podemos, então, sintetizar a operação teórica de Lukács da seguinte maneira: o que na tradição alemã aparecia como um anseio pelo infinito, uma nostalgia da totalidade ou um desejo do absoluto, é reconstruído como a tensão real entre o ser social existente e suas possibilidades históricas. Essa tensão se manifesta subjetivamente como falta, inquietação ou aspiração, mas sua base não é psicológica nem metafísica: é ontológica e social.
Em última instância, a ausência de Sehnsucht na Ontologia e nos Prolegômenos revela a passagem de uma problemática existencial para uma problemática ontológica. Lukács não nega a experiência que o termo designa, mas a reinscreve em um nível mais profundo de análise. O anseio não é eliminado, mas desmistificado. Ele aparece agora como forma fenomenológica de uma contradição real: a discrepância entre o desenvolvimento das capacidades sociais da humanidade e as formas sociais que limitam sua realização. É essa contradição — e não o anseio em si — que constitui o verdadeiro objeto da crítica ontológica.
Nas próximas postagens vamos analisar criticamente todos os aparecimento do termo Sehnsucht tanto nos Prolegomenos para uma Ontologia do Ser Social quanto na Para uma Ontologia do Ser Social. de Gyorgy Lukács.
[continua]



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