A Era da Explosividade do Capital
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A era da explosividade do capital
Na célebre passagem do capítulo final do Livro I de “O Capital”, no Capítulo "A Assim Chamada Acumulação Primitiva“ na seção intitulada "A tendencia histórica da acumulação capitalista“, Karl Marx escreve:
“Essa expropriação realiza-se pelo jogo das próprias leis imanentes da produção capitalista, pela centralização dos capitais. Um capitalista mata muitos. De mãos dadas com essa centralização, ou com a expropriação de muitos capitalistas por poucos, desenvolve-se a forma cooperativa do processo de trabalho em escala cada vez maior, a aplicação consciente da ciência, a exploração planejada da terra, a transformação dos meios de trabalho em meios de trabalho apenas utilizáveis coletivamente, a economia de todos os meios de produção pelo seu uso como meios de produção do trabalho combinado, social, a ligação de todos os povos na rede do mercado mundial e, com isso, o caráter internacional do regime capitalista. Com o número sempre decrescente dos magnatas do capital, que usurpam e monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação, cresce a massa da miséria, da opressão, da servidão, da degeneração, da exploração, mas também a revolta da classe trabalhadora, sempre crescente, educada, unida e organizada pelo próprio mecanismo do processo de produção capitalista. O monopólio do capital torna-se uma algema para o modo de produção que floresceu com ele e sob ele. A centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho chegam a um ponto em que se tornam incompatíveis com sua forma capitalista. Ela é rompida. Soa a hora da propriedade privada capitalista. Os expropriadores são expropriados.”[1] [o grifo é nosso] Karl Marx. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I: O processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.
Nesta passagem Marx descreve o movimento contraditório do capitalismo: pela concorrência e centralização dos capitais, os grandes capitalistas expropriam os pequenos ("um capitalista mata muitos"), ao mesmo tempo que o processo produtivo se torna cada vez mais coletivo, cooperativo e dependente da ciência e do mercado mundial. Essa socialização das forças produtivas entra em choque com a propriedade privada dos meios de produção, mantida por um número decrescente de magnatas. Enquanto a riqueza se concentra nas mãos de poucos, crescem a miséria, a opressão e a exploração da classe trabalhadora — mas também sua organização, educação e revolta, fomentadas pelo próprio mecanismo capitalista. Chega um ponto em que o monopólio do capital se torna um entrave ao desenvolvimento produtivo: a centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho tornam-se incompatíveis com a forma capitalista. Esse rompimento inevitável soa a hora da propriedade privada capitalista, e os expropriadores (capitalistas) são, por fim, expropriados pela classe trabalhadora.
Vamos destacar a passagem do texto que diz: “A centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho atingem um ponto em que se tornam incompatíveis com seu invólucro capitalista. Ele é rompido.”
E a seguir:
“Soa a hora da propriedade privada capitalista. Os expropriadores são expropriados“.
No original em alemão: Die Zentralisation der Produktionsmittel und die Vergesellschaftung der Arbeit erreichen einen Punkt, wo sie unverträglich werden mit ihrer kapitalistischen Hülle. Sie wird gesprengt“. E a seguir: Die Stunde des kapitalistischen Privateigentums schlägt. Die Expropriateurs werden expropriiert.
O núcleo decisivo desta passagem encontra-se precisamente na expressão “Ele [o invólucro capitalista - kapitalistischen Hülle] – é rompido”. Em alemão: Sie wird gesprengt, cuja densidade filológica e dialética é muito mais rica do que geralmente aparece nas traduções correntes.
O verbo alemão utilizado por Marx é sprengen, cujo particípio passado é gesprengt. Trata-se de um termo extremamente forte no idioma alemão. Seu campo semântico remete a “fazer explodir”, “arrebentar”, “despedaçar”, “romper violentamente”, “fazer saltar pelos ares” ou “estourar uma estrutura sob pressão”.
O verbo sprengen é empregado tanto em contextos militares — por exemplo, explodir uma ponte, uma muralha ou uma fortificação — quanto em contextos mecânicos ou materiais, quando uma estrutura não suporta mais a pressão interna e se rompe de forma explosiva. Não se trata, portanto, de uma simples dissolução gradual ou de uma superação abstrata. O termo contém a ideia de ruptura material violenta produzida por tensões imanentes à própria estrutura.
É justamente por isso que a escolha de Marx possui enorme importância teórica.
Marx não escreve que a forma capitalista será simplesmente aufgelöst (dissolvida), überwunden (superada), zerstört (destruída) ou gebrochen (quebrada). Cada um desses termos teria uma tonalidade distinta. Aufgelöst indicaria uma dissolução; überwunden, uma superação histórica; zerstört, uma destruição exterior; gebrochen, uma quebra ou fratura.
Marx escolhe deliberadamente gesprengt porque deseja expressar a ideia de uma estrutura que explode devido às próprias contradições internas que amadureceram historicamente.
Além disso, a palavra utilizada imediatamente antes — Hülle — é igualmente decisiva. Hülle significa “casca”, “invólucro”, “envoltório”, algo que contém um conteúdo interior.
A metáfora marxiana é extremamente poderosa: o capitalismo aparece como uma forma histórica que inicialmente impulsiona o desenvolvimento das forças produtivas e da socialização do trabalho, mas que, em determinado momento, transforma-se num limite para esse próprio desenvolvimento.
O conteúdo social produzido historicamente cresce dentro da forma-capital até o ponto em que esta já não consegue mais contê-lo. A “casca” capitalista torna-se estreita demais para as forças sociais que ela própria engendrou.
A sequência lógica da passagem de Marx é reveladora.
Primeiro ocorre a centralização dos meios de produção; depois, a socialização crescente do trabalho; em seguida, surge a incompatibilidade entre essas forças produtivas socializadas e a forma privada-capitalista de apropriação; finalmente, o invólucro capitalista “explode” — wird gesprengt.
Interessa-nos expor a fulgurante dialética do desenvolvimento capitalista contida nesta passagem de "O Capital". Marx nos revela a essência da era do capital: a explosividade. É o que queremos destacar.
Temos aqui uma autêntica imagem dialética da história: a própria dinâmica interna do capital produz as condições objetivas que tornam sua forma histórica insustentável. Esta é a verdade essencial do nosso tempo histórico: não a revolução social - que depende da praxis necessária, possivel e contingente da classe do proletariado, mas a insustentabilidade do capital como forma social no interior da qual se desenvolve a riqueza do processo civilizatório.
A imagem sugerida por Marx é quase orgânica, geológica ou física. Pode-se imaginar uma casca que se rompe porque algo cresceu demais dentro dela; ou uma represa que estoura devido à pressão acumulada; ou ainda uma estrutura que implode por excesso de tensão interna.
O capitalismo cria produção social, cooperação ampliada, maquinaria, ciência aplicada à produção, interdependência global, trabalho associado e forças produtivas gigantescas. Contudo, tudo isso permanece aprisionado dentro da forma da propriedade privada capitalista e da valorização do valor. Em determinado estágio histórico, essa contradição torna-se unverträglich — incompatível.
A palavra unverträglich também merece atenção: ela não significa apenas “difícil”, mas literalmente “incompatível”, “inconciliável”, algo que não pode mais coexistir sem gerar ruptura.
Desse modo, a explosão da forma-capital não aparece como resultado meramente subjetivo da vontade revolucionária. Marx não descreve aqui um ato puramente político voluntarista. A ruptura emerge da própria objetividade histórica do capital. É a própria dinâmica contraditória do sistema que gera as pressões internas responsáveis pela explosão da “casca” capitalista.
A revolução – processual, ou a processualidade explosiva - surge, portanto, como expressão histórica de contradições objetivas amadurecidas no interior do próprio metabolismo social do capital.
Essa passagem de "O Capital" contém, em forma condensada, uma das intuições mais profundas da crítica marxiana da economia política: o capital desenvolve forças produtivas cada vez mais socializadas, mas as mantém subordinadas à apropriação privada e à valorização abstrata do valor.
O resultado é uma tensão estrutural crescente entre o conteúdo social da produção e a forma privada-capitalista que o organiza.
Em termos posteriores do marxismo, poderíamos dizer que Marx antecipa aqui temas como crise estrutural do capital, contradição entre forças produtivas e relações de produção, desmedida do desenvolvimento produtivo, autonomização das formas sociais e ruptura entre socialização da produção e apropriação privada.
Filologicamente, portanto, gesprengt não é apenas “rompido”. O termo carrega a ideia de explosão estrutural produzida pela maturação contraditória do próprio capital.
A forma-capital não desaparece passivamente; ela é feita “saltar pelos ares” pelas forças históricas que ela mesma gerou e que já não consegue conter. Eis a inauguração da era da explosividade "em câmera lenta" – processualidade explosiva de contradições vivas do capital.
Na sequência imediata da célebre passagem de “O Capital” em que Marx afirma que o invólucro capitalista “explode” — Sie wird gesprengt — aparece uma das formulações mais densas, dramáticas e historicamente carregadas de toda a crítica marxiana da economia política: Die Stunde des kapitalistischen Privateigentums schlägt. Die Expropriateurs werden expropriiert. Em tradução corrente: “Soa a hora da propriedade privada capitalista. Os expropriadores são expropriados.”
Trata-se de uma formulação extraordinária não apenas do ponto de vista político-econômico, mas também filológico, retórico e dialético. Cada palavra da frase foi cuidadosamente escolhida por Marx para condensar uma concepção histórica da crise e superação do capitalismo.
A primeira expressão decisiva é Die Stunde … schlägt. Literalmente, significa: “A hora bate”, “a hora soa”, “a hora chega”.
O substantivo alemão Stunde significa “hora”, mas seu sentido ultrapassa largamente a mera indicação cronológica. No alemão filosófico, histórico e até bíblico, die Stunde designa o momento decisivo, o instante crítico em que um processo amadurecido chega ao seu desfecho inevitável. Há uma tonalidade histórica fatal, quase escatológica secularizada.
Não é simplesmente uma hora qualquer; é “a hora histórica”.
O verbo schlagen reforça ainda mais essa densidade semântica. Trata-se do verbo utilizado para o soar dos sinos, o badalar dos relógios, o anúncio de acontecimentos decisivos ou mesmo golpes fatais. Quando Marx escreve Die Stunde des kapitalistischen Privateigentums schlägt, a frase possui quase a sonoridade de um relógio histórico anunciando o fim de uma época.
A propriedade privada capitalista chega ao seu momento terminal. O capitalismo aparece, assim, como uma forma histórica finita, cuja temporalidade interna amadurece até alcançar o ponto de ruptura.
O termo seguinte é igualmente decisivo: des kapitalistischen Privateigentums.
Marx não escreve simplesmente Privateigentum — propriedade privada em geral — mas kapitalistischen Privateigentums, isto é, “propriedade privada capitalista”. Essa especificação é teoricamente fundamental. Marx não está propondo a abolição abstrata de toda forma de propriedade, mas da forma historicamente específica da propriedade capitalista.
Para Marx, existem formas históricas distintas de propriedade: formas comunais, propriedade individual baseada no próprio trabalho e, sobretudo, a propriedade privada capitalista fundada na expropriação dos produtores e na exploração do trabalho assalariado.
A propriedade capitalista não é apenas posse jurídica de objetos; ela constitui uma relação social específica baseada na separação entre os produtores e seus meios de produção. O capital só existe porque os trabalhadores foram historicamente expropriados de suas condições objetivas de vida e obrigados a vender sua força de trabalho.
Portanto, quando “soa a hora” da propriedade privada capitalista, trata-se do amadurecimento histórico da contradição entre a socialização crescente da produção e a apropriação privada do produto social.
A frase seguinte — Die Expropriateurs werden expropriiert — possui talvez uma das construções dialéticas mais poderosas de toda a obra marxiana. Em tradução literal: “Os expropriadores são expropriados.”
A força filológica da formulação é extraordinária. O termo Expropriateurs é um latinismo germanizado derivado de Expropriation. Marx utiliza deliberadamente um vocabulário jurídico-político moderno para remeter ao processo histórico de desapossamento violento que constituiu a gênese do capitalismo. O verbo expropriieren deriva do latim ex (“fora”) e proprius (“próprio”).
Expropriar significa literalmente retirar de alguém aquilo que lhe é próprio.
Em Marx, esse conceito está ligado ao processo histórico da acumulação primitiva: a expulsão dos camponeses da terra, a destruição das formas comunais de produção, a separação violenta entre produtores e meios de produção e a constituição do proletariado moderno. A profundidade dialética da frase aparece precisamente porque Marx inverte historicamente o sujeito da expropriação.
Os capitalistas foram historicamente os agentes da expropriação originária. Foram eles — enquanto classe histórica — que concentraram a propriedade, separaram os trabalhadores de seus meios de vida e converteram o trabalho em mercadoria.
Agora, porém, “os expropriadores são expropriados”. O sujeito histórico do processo torna-se objeto do próprio movimento histórico que desencadeou. Temos aqui uma inversão dialética da inversão originária.
A história retorna sobre si mesma. A propriedade capitalista, nascida da expropriação, é negada por um processo histórico que leva à expropriação dos próprios expropriadores.
É importante perceber que Marx não formula isso primariamente em termos morais. Não se trata simplesmente de vingança social ou punição ética dos capitalistas. A frase possui uma lógica histórico-dialética objetiva. A expropriação dos expropriadores aparece como resultado necessário do próprio desenvolvimento contraditório do capital.
Isto é fato histórico indiscutivel no século XXI: o capitalismo centraliza os meios de produção, concentra riqueza, amplia a cooperação social, socializa o trabalho em escala gigantesca e desenvolve forças produtivas cada vez mais incompatíveis com a forma privada-capitalista de apropriação.
O próprio desenvolvimento do capital cria as condições históricas de sua negação. É nesse sentido que a expropriação dos expropriadores surge como necessidade imanente do processo histórico.
Há ainda uma nuance filológica importante: Marx utiliza Expropriation e não simplesmente Enteignung. Embora ambos possam ser traduzidos como “desapropriação”, os termos possuem diferenças relevantes. Enteignung é um termo alemão mais jurídico-estatal, associado ao confisco legal ou à retirada formal da propriedade. Já Expropriation possui uma ressonância histórico-econômica mais ampla, ligada ao processo estrutural de desapossamento social constitutivo do capitalismo. Ao utilizar Expropriateurs e expropriiert, Marx enfatiza precisamente a dimensão histórica e estrutural da expropriação capitalista.
Além disso, existe uma força retórica notável na própria construção sintática da frase. O paralelismo entre Expropriateurs e expropriiert produz linguisticamente o efeito de reversão dialética do processo histórico. A frase quase encena, no plano sonoro, a inversão objetiva do movimento histórico do capital.
A própria linguagem reproduz a dialética da história.
Vista em conjunto com a passagem anterior — Sie wird gesprengt — a sequência inteira forma uma das culminâncias conceituais e literárias da escrita marxiana.
Primeiro, o invólucro capitalista explode sob a pressão das contradições internas do desenvolvimento das forças produtivas.
Em seguida, soa a hora histórica da propriedade privada capitalista.
Finalmente, os próprios agentes históricos da expropriação tornam-se objeto da expropriação histórica. O capital aparece, assim, como uma forma social que produz dentro de si as condições objetivas de sua própria negação histórica.
É plenamente possível conceber a contemporaneidade histórica do capital – a era do capitalismo quântico - como uma temporalidade da explosividade do capital, porém entendida não como uma explosão instantânea e conclusiva, mas como uma explosão dilatada, prolongada e cronicizada no tempo histórico.
Em vez do colapso súbito imaginado por certas interpretações catastrofistas do marxismo, estaríamos diante de uma espécie de “explosão em câmera lenta” das contradições internas do capital.
Essa hipótese possui profunda coerência com a própria lógica da crítica marxiana da economia política, especialmente com a célebre formulação de “O Capital”: Sie wird gesprengt — “ela explode”, “ela é arrebentada”, referindo-se à “casca” ou “invólucro” capitalista incapaz de conter as forças produtivas sociais que o próprio capital desenvolveu historicamente.
Entretanto, talvez a grande questão do capitalismo global, a forma senilizada da relação-valor, seja precisamente esta: a explosão da forma-capital não conduz automaticamente ao nascimento positivo de uma nova forma social. A explosão torna-se duração histórica.
O capital entra numa temporalidade contraditória em que sua forma histórica perdeu organicidade plena, mas continua existindo porque as forças sociais capazes de constituir uma nova objetividade histórica ainda não conseguiram produzir uma práxis emancipatória suficientemente organizada e universal.
Surge, assim, uma dialética histórica tragicamente peculiar: o conteúdo histórico-social desenvolvido pelo capital tornou-se incompatível com a forma-capital, mas permanece incapaz de constituir sua própria forma social superior.
Essa contradição é profundamente hegeliano-marxiana: há um antagonismo entre conteúdo e forma. O conteúdo social desenvolvido historicamente pelo capital — produção socializada, ciência, tecnologia, intelecto geral, cooperação mundial, trabalho combinado, potencial de abundância material — já aponta objetivamente para além da forma privada-capitalista da valorização do valor. Contudo, a nova forma histórica capaz de organizar conscientemente esse conteúdo ainda não emergiu. O resultado é uma condição histórica de suspensão contraditória.
A explosividade do capital manifesta-se, então, não como resolução, mas como impasse histórico prolongado.
O capitalismo continua existindo precisamente porque sua superação ainda não adquiriu forma objetiva efetiva. A crise deixa de ser meramente cíclica e assume o caráter de crise estrutural permanente. A explosão converte-se em decomposição contínua.
O sistema já não consegue reproduzir organicamente a totalidade social sem produzir simultaneamente financeirização extrema, hiperfetichismo, precarização do trabalho, guerras, destruição ecológica, dissolução das mediações simbólicas e políticas, massas humanas supérfluas, desindustrialização, sociabilidades fragmentadas e crescente incapacidade de integração social.
Nesse sentido, a explosividade torna-se a própria forma temporal da crise estrutural do capital. A negatividade histórica não se resolve; ela se prolonga.
A forma-capital permanece dominante mesmo depois de ter perdido sua capacidade histórica de organizar racionalmente as forças produtivas sociais que ela própria criou.
Surge uma espécie de "totalidade explodida" — gesprengte Totalität — isto é, uma totalidade social que continua existindo, mas internamente fissurada, rompida e incapaz de recompor unidade orgânica.
É justamente por isso que alguns termos alemães podem expressar de maneira particularmente rica essa nova condição histórica.
Uma formulação conceitualmente poderosa seria Zeitalter der permanenten Sprengung — “era da explosão permanente”.
O termo Sprengung, derivado diretamente do verbo marxiano sprengen, transforma a explosão em categoria histórica duradoura. Não se trata mais do instante singular da ruptura, mas de uma explosividade que se converte em estrutura temporal do próprio capitalismo tardio.
Outra expressão extremamente fecunda seria Zeitalter der gedehnten Explosion — “era da explosão dilatada” ou “alongada”.
O verbo dehnen significa estender, alongar, dilatar. A explosão não desaparece; ela se estende indefinidamente no espaço-tempo histórico. Em vez da resolução revolucionária imediata, temos uma longa decomposição contraditória da forma-capital.
Talvez ainda mais precisa seja a expressão Zeitalter der blockierten Sprengung — “era da explosão bloqueada”. Aqui aparece com clareza a dialética positiva-negativa do capitalismo contemporâneo. A explosão tornou-se objetivamente necessária, mas subjetivamente bloqueada.
A superação histórica do capital encontra-se inscrita nas próprias contradições do sistema, mas - tragicamente - não consegue realizar-se plenamente por ausência de uma práxis social capaz de instituir uma nova forma histórica de metabolismo social.
Nesse contexto, torna-se particularmente importante a ideia de blockierte Aufhebung — “superação bloqueada”.
A palavra hegeliana Aufhebung designa simultaneamente negação, conservação e superação dialética. No capitalismo global, a negação da forma-capital parece objetivamente em curso, mas sua superação positiva permanece interrompida. Surge então uma espécie de negative Aufhebung — uma superação negativa. O capital entra em processo de autonegação sem conseguir produzir positivamente a nova totalidade histórica reconciliada.
Soa a hora do sociometabolismo da barbárie. E o triunfo de Tanatos.
A contradição histórica assume assim a forma de uma suspensão prolongada.
Um termo alemão particularmente expressivo para isso seria schwebender Widerspruch — “contradição suspensa” ou “contradição flutuante”.
O verbo schweben significa pairar, permanecer suspenso sem resolução definitiva. O capitalismo global parece precisamente viver nessa condição: a velha forma histórica perdeu legitimidade e organicidade, mas a nova forma social ainda não nasceu.
Essa hipótese aproxima-se profundamente da famosa formulação de Antonio Gramsci sobre o interregno histórico: “o velho morre e o novo não pode nascer”.
Contudo, na contemporaneidade, talvez seja necessário radicalizar essa intuição. O velho continua morrendo indefinidamente sem conseguir morrer completamente, enquanto o novo permanece incapaz de adquirir objetividade histórica.
A explosão torna-se permanente, mas sem resolução. O capital permanece existindo como forma espectral, sustentado justamente pela ausência de uma práxis emancipatória universal capaz de reorganizar conscientemente o metabolismo social para além da forma-valor.
Desse modo, a “era da explosividade” do capital seria simultaneamente a era do impasse histórico do capital.
O conteúdo histórico-social produzido pelo próprio capitalismo já ultrapassou a forma-capital que o contém, mas ainda não encontrou sua própria forma histórica emancipatória. A explosão existe, mas ela se alonga indefinidamente no tempo histórico como crise estrutural permanente.
Para entender o metabolismo social do capital, leia a trilogia de Giovanni Alves disponivel para venda no Amazon.com.br:

[1] No original: „Diese Expropriation vollzieht sich durch das Spiel der immanenten Gesetze der kapitalistischen Produktion selbst, durch die Zentralisation der Kapitale. Je ein Kapitalist schlägt viele tot. Hand in Hand mit dieser Zentralisation oder der Expropriation vieler Kapitalisten durch wenige entwickelt sich die kooperative Form des Arbeitsprozesses auf stets wachsender Stufenleiter, die bewußte technische Anwendung der Wissenschaft, die planmäßige Ausbeutung der Erde, die Verwandlung der Arbeitsmittel in nur gemeinsam verwendbare Arbeitsmittel, die Ökonomisierung aller Produktionsmittel durch ihren Gebrauch als Produktionsmittel kombinierter, gesellschaftlicher Arbeit, die Verschlingung aller Völker in das Netz des Weltmarkts und damit der internationale Charakter des kapitalistischen Regimes. Mit der beständig abnehmenden Zahl der Kapitalmagnaten, welche alle Vorteile dieses Umwandlungsprozesses usurpieren und monopolisieren, wächst die Masse des Elends, des Drucks, der Knechtschaft, der Entartung, der Ausbeutung, aber auch die Empörung der stets anschwellenden und durch den Mechanismus des kapitalistischen Produktionsprozesses selbst geschulten, vereinten und organisierten Arbeiterklasse. Das Kapitalmonopol wird zur Fessel der Produktionsweise, die mit und unter ihm aufgeblüht ist. Die Zentralisation der Produktionsmittel und die Vergesellschaftung der Arbeit erreichen einen Punkt, wo sie unverträglich werden mit ihrer kapitalistischen Hülle. Sie wird gesprengt. Die Stunde des kapitalistischen Privateigentums schlägt. Die Expropriateurs werden expropriiert. (Das Kapital, MEW 23, Dietz Verlag, Berlim, p. 791).[o grifo é nosso]



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