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Dr. Jekyll. Mr. Hyde e o Trabalho Abstrato

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Introdução


O título da seção 2 do Capítulo 1 de “O Capital” — Der Doppelcharakter der in den Waren dargestellten Arbeit — traduzido habitualmente como “O duplo caráter do trabalho representado nas mercadorias”, constitui uma das formulações mais densas e decisivas de toda a crítica marxiana da economia política. Trata-se de uma expressão aparentemente simples, mas que contém, em sua própria estrutura linguística, toda uma arquitetura dialética acerca da natureza do trabalho, do valor, da mercadoria e das formas sociais de representação no capitalismo. Nada nela é casual. Cada termo foi cuidadosamente escolhido por Marx para expor a lógica contraditória da sociedade fundada na produção de mercadorias.


O aspecto decisivo da formulação encontra-se no particípio dargestellten, derivado do verbo alemão darstellen. Filologicamente, trata-se de um verbo de enorme riqueza semântica. Ele é formado por stellen — colocar, pôr, situar — precedido do prefixo dar- — diante, para fora, à vista. Literalmente, darstellen significa “colocar diante”, “fazer aparecer”, “apresentar”, “expor”, “manifestar objetivamente”.


Contudo, no contexto da tradição filosófica alemã — especialmente em Hegel e posteriormente em Marx — o termo adquire um significado muito mais profundo. Darstellung não é mera representação subjetiva, não significa simplesmente imagem mental, símbolo arbitrário ou cópia ideal de um objeto. Significa antes a exposição objetiva de uma essência através de uma forma concreta de manifestação. Algo torna-se socialmente presente. Algo assume existência fenomênica.


É precisamente isso que Marx quer indicar ao falar do “trabalho representado nas mercadorias”. O trabalho não aparece diretamente enquanto substância social. O que aparece imediatamente são coisas: roupas, alimentos, ferramentas, máquinas, livros, edifícios. Entretanto, nessas coisas encontra-se objetivado algo invisível: trabalho humano abstrato socialmente necessário. O valor não possui corpo próprio. Não pode ser visto, tocado ou percebido sensorialmente. Ele só existe socialmente ao representar-se em mercadorias. A mercadoria torna-se, assim, a forma objetiva de manifestação do trabalho social abstrato.


Por isso Marx não escreve simplesmente “o duplo caráter do trabalho”. O trabalho aparece desde o início mediado pela forma mercadoria. A duplicidade não pertence ao trabalho humano em geral enquanto atividade antropológica eterna. Ela pertence ao trabalho tal como ele assume uma forma social historicamente determinada no capitalismo. O trabalho concreto continua sendo a atividade útil que produz valores de uso.


Já o trabalho abstrato não é uma atividade específica; ele é uma abstração social real produzida pelo processo de troca generalizada de mercadorias. O capital reduz qualitativamente diferentes trabalhos humanos a uma mesma substância homogênea medida pelo tempo socialmente necessário.


Nesse sentido, a mercadoria funciona como forma fenomenal [Erscheinungsform] dessa duplicidade interna do trabalho. O trabalho concreto produz riqueza material; o trabalho abstrato produz valor. Ambos coexistem no mesmo ato laboral, mas pertencem a dimensões ontológicas distintas. O trabalho concreto pertence ao metabolismo humano com a natureza; o trabalho abstrato pertence ao metabolismo social do capital.


Aqui emerge a profunda importância dialética do conceito de representação em Marx. A representação não é neutra. Ela não é simples transparência da essência. A mercadoria representa o trabalho social, mas o representa de forma invertida e fetichizada.


As relações sociais entre pessoas aparecem como propriedades naturais das coisas. O valor parece ser atributo objetivo da mercadoria quando, na verdade, é expressão de relações sociais historicamente determinadas. O social assume forma coisal. O abstrato aparece como concreto. O histórico aparece como natural. A representação torna-se simultaneamente revelação e ocultamento.


Ela revela que existe trabalho humano objetivado nas mercadorias. Porém oculta o fato de que esse trabalho assume a forma específica de trabalho abstrato apenas numa sociedade baseada na produção generalizada de mercadorias.


O valor aparece como qualidade natural das coisas e não como relação social entre produtores. É precisamente nesse ponto que emerge toda a problemática do fetichismo da mercadoria. As formas sociais autonomizadas adquirem aparência de existência independente diante dos indivíduos que as produzem.


A relação entre essência e aparência torna-se, assim, profundamente contraditória.


A essência precisa aparecer — pois o valor não pode existir sem forma de manifestação —, mas ao aparecer ela se inverte parcialmente. A aparência não é simples ilusão subjetiva; ela é forma necessária de existência da essência. Entretanto, essa forma necessária é também mistificada.


Marx herda criticamente de Hegel a ideia de que “a essência deve aparecer” (Das Wesen muss erscheinen), mas transforma radicalmente seu significado. Em Hegel, trata-se do movimento lógico do conceito. Em Marx, trata-se das formas históricas concretas de objetivação e dominação social produzidas pelo capital.


Por isso, o problema da representação em Marx não é apenas epistemológico; ele é ontológico e histórico-social. O capitalismo é uma sociedade fundada em mediações abstratas invisíveis que precisam continuamente representar-se em coisas, signos e formas objetivadas.


 O valor representa-se na mercadoria; o dinheiro representa o valor; o capital representa valor que se valoriza; o salário representa o preço da força de trabalho; o lucro aparece como produtividade do capital; os juros aparecem como fecundidade do dinheiro. Toda a sociabilidade capitalista é estruturada por formas de representação autonomizadas e fetichizadas.


Nesse sentido, a crítica da economia política é inseparavelmente uma crítica das formas sociais de representação do capital. A tarefa da crítica dialética consiste justamente em atravessar essas formas aparentes para revelar as relações sociais históricas ocultas em seu interior.


Portanto, o título Der Doppelcharakter der in den Waren dargestellten Arbeit já contém, em miniatura, toda essa problemática. Nele estão condensadas a teoria do valor, a teoria do fetichismo, a teoria da reificação [Versachlichung], a inversão sujeito-objeto [Verkehrung], a autonomização das abstrações sociais e a crítica das formas de aparência do capitalismo. O trabalho abstrato, invisível enquanto substância social do valor, só existe representando-se em mercadorias. E é exatamente essa representação objetiva e fetichizada que organiza toda a vida social moderna sob o domínio do capital.


Esta foi apenas uma breve introdução à nossa formulação deliberadamente provocativa — inspirada na estética e na imaginação crítica do marxismo gótico — acerca das afinidades obscuras entre Dr. Jekyll, Mr. Hyde e o trabalho abstrato em Marx.


Longe de constituir mero exercício literário ou analogia superficial, essa correlação busca revelar a dimensão espectral, monstruosa e cindida da sociabilidade capitalista moderna, onde o trabalho abstrato emerge como o duplo fantasmagórico do trabalho vivo concreto, tal como Hyde emerge do interior reprimido e autonomizado de Jekyll. Trata-se, portanto, de explorar as formas pelas quais a modernidade do capital produz seus próprios monstros objetivos: abstrações sociais reais que, uma vez autonomizadas, retornam para dominar seus próprios criadores.


O Estranho Caso do Trabalho Concreto e do Trabalho Abstrato


A correlação entre Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde e a teoria marxiana do duplo caráter do trabalho em “O Capital” revela uma extraordinária afinidade crítica e dialética entre a literatura gótica moderna e a ontologia social do capitalismo desenvolvida por Marx. Trata-se de uma analogia profundamente fecunda porque permite visualizar, em forma narrativa e imagética, a estrutura espectral, clivada e monstruosa do trabalho abstrato e da mercadoria.


No romance de Robert Louis Stevenson, Dr. Jekyll é a figura socialmente integrada, racional, respeitável, civilizada, o homem concreto inserido na moralidade burguesa. Já Mr. Hyde constitui a exteriorização monstruosa de algo oculto, reprimido e subterrâneo. Hyde não é simplesmente “outra pessoa”; ele é a autonomização obscura de uma dimensão interna do próprio Jekyll. Ele é simultaneamente Jekyll e não-Jekyll. Trata-se de uma cisão interna do sujeito que produz um duplo monstruoso. O sujeito aparece dividido entre sua forma social concreta e sua verdade obscura autonomizada.


É precisamente essa estrutura dialética da duplicação interna que torna a analogia extremamente poderosa para pensar a mercadoria e o trabalho em Marx.


A mercadoria também possui um “duplo caráter”. Ela é simultaneamente valor de uso e valor; trabalho concreto objetivado e trabalho abstrato objetivado. Entretanto, essa dualidade não constitui uma coexistência pacífica de duas dimensões complementares. Trata-se de uma cisão contraditória.


O trabalho concreto pertence ao plano qualitativo da atividade humana viva: produzir coisas úteis, transformar a natureza, satisfazer necessidades humanas. Já o trabalho abstrato pertence a outra dimensão ontológica. Ele não é atividade concreta em sentido humano imediato. Ele é uma abstração social real produzida historicamente pela sociabilidade capitalista.


Eis o núcleo decisivo da analogia: Mr. Hyde corresponde ao trabalho abstrato.


O trabalhador acredita realizar atividades concretas determinadas — construir, cozinhar, ensinar, cultivar, escrever, costurar. Contudo, o capital reduz todas essas diferenças qualitativas a uma mesma substância homogênea: dispêndio de força de trabalho humana medido temporalmente. O trabalho vivo concreto torna-se mera quantidade abstrata de tempo socialmente necessário.


Assim como Hyde emerge da cisão interna de Jekyll como potência obscura autonomizada, o trabalho abstrato emerge da redução violenta do trabalho concreto a pura temporalidade quantitativa indiferenciada.


Mr. Hyde — a monstruosidade maléfica representada em Dr. Jekyll — não possui existência própria autônoma. Ele não pode ser visto, tocado ou percebido sensorialmente senão através da própria corporeidade e individualidade social de Dr. Jekyll. Hyde não existe como sujeito independente; ele só existe ao representar-se em Jekyll. É precisamente por isso que Dr. Jekyll, enquanto individualidade burguesa cindida, torna-se a forma objetiva de manifestação de Mr. Hyde.


A monstruosidade não vem de fora; ela emerge do interior do próprio sujeito moderno. Hyde é simultaneamente Jekyll e não-Jekyll: sua verdade reprimida autonomizada, sua negatividade interior convertida em figura objetiva.


Essa estrutura narrativa de Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde possui extraordinária afinidade com a crítica marxiana da mercadoria e do trabalho abstrato em “O Capital”.


Assim como Hyde só pode existir representado em Jekyll, o trabalho abstrato não possui corpo próprio nem existência sensível imediata. Ele não pode ser visto diretamente. Só pode aparecer representado nas mercadorias concretas e nas atividades humanas particulares.


O trabalho abstrato existe apenas ao representar-se socialmente no trabalho concreto. A mercadoria torna-se, então, a forma objetiva de manifestação dessa substância espectral invisível.


O trabalhador acredita realizar atividades concretas determinadas — construir, cozinhar, ensinar, cultivar, escrever —, mas o capital reduz toda essa riqueza qualitativa a uma massa homogênea de tempo abstrato socialmente necessário.


O trabalho abstrato é precisamente esse “Hyde” oculto no interior do trabalho concreto: uma potência espectral autonomizada que emerge da própria atividade humana e passa a dominá-la. Tal como Hyde constitui a exteriorização monstruosa dos impulsos reprimidos de Jekyll, o trabalho abstrato constitui a autonomização monstruosa da dimensão quantitativa da atividade humana sob o capital.


É exatamente nesse sentido que Marx fala da “objetividade fantasmagórica” [gespenstige Gegenständlichkeit] da mercadoria e da Gallerte unterschiedsloser menschlicher Arbeit — a “gelatina de trabalho humano indiferenciado”.


O termo Gallerte e a monstruosidade do trabalho abstrato


Façamos aqui um breve parêntese para expor a extraordinária riqueza filológica, crítica e dialética do termo Gallerte nesta célebre passagem em que Marx nos apresenta o trabalho abstrato — o verdadeiro Mr. Hyde de nossa analogia gótica acerca da monstruosidade espectral do capital.


O termo Gallerte utilizado por Marx designa uma massa amorfa, gelatinosa, sem forma qualitativa própria. O trabalho abstrato aparece como substância espectral indiferenciada, uma espécie de matéria social fantasmática que dissolve todas as determinações concretas do trabalho vivo. Não é carpintaria, agricultura ou tecelagem; é pura temporalidade abstrata autonomizada.


Diz Marx em “O Capital”:


"Consideremos agora o resíduo dos produtos do trabalho. Deles não restou nada senão a mesma objetividade fantasmagórica, uma simples gelatina de trabalho humano indiferenciado, isto é, do dispêndio de força de trabalho humana, sem consideração pela forma de seu dispêndio. Coisas que agora apenas nos dizem que em sua produção foi despendida força de trabalho humana, foi acumulado trabalho humano. Como cristais dessa substância social comum a todas elas, essas coisas são valores — valores de mercadorias."[1] (MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 116)[2].


Vejamos a frase  - talvez uma das mais célebres e perturbadoras de toda a obra – no original: “Es ist von ihnen nichts übriggeblieben als dieselbe gespenstige Gegenständlichkeit...” Isto é: “Deles não restou nada senão a mesma objetividade fantasmagórica”. 


O termo gespenstige deriva de Gespenst — “fantasma”, “espectro”, “assombração”. Não é casual. Marx caracteriza o valor como uma objetividade espectral. O valor não possui corporalidade natural; ele não pode ser tocado, visto ou pesado. Entretanto, ele possui eficácia social objetiva. É precisamente isso que torna o valor uma “abstração social real”. O valor é fantasmático porque existe objetivamente sem possuir materialidade própria. Ele é um espectro social autonomizado.


O segundo termo fundamental é Gegenständlichkeit. Traduzir simplesmente por “objetividade” empobrece enormemente o conceito. A palavra deriva de Gegenstand (“objeto”, mas literalmente “aquilo que está diante”). Gegenständlichkeit designa a qualidade de ser objetivado, de possuir objetividade social. Contudo, aqui Marx produz uma inversão extraordinária: trata-se de uma objetividade fantasmática — gespenstige Gegenständlichkeit.


Temos então uma espécie de paradoxo ontológico: algo ao mesmo tempo objetivo e espectral. O valor não é imaginário; ele organiza efetivamente a vida social. Porém sua objetividade é abstrata, impalpável, invisível. Trata-se de uma objetividade social autonomizada. Aqui encontramos o núcleo da crítica marxiana do fetichismo: as relações humanas aparecem como propriedades objetivas das coisas.


Em seguida Marx fala de “eine bloße Gallerte unterschiedsloser menschlicher Arbeit” -isto é: “[...] uma simples gelatina de trabalho humano indiferenciado, isto é, do dispêndio de força de trabalho humana”.


O termo alemão Gallerte, utilizado por Karl Marx na célebre passagem do primeiro capítulo de “O Capital”, é um dos vocábulos mais estranhos, expressivos e materialmente perturbadores de toda a crítica da economia política. Sua força filológica e imagética é extraordinária porque Marx abandona, nesse momento, a linguagem filosófica abstrata tradicional e recorre a uma metáfora corporal-orgânica quase grotesca para descrever a substância do valor.


Filologicamente, Gallerte significa “gelatina”, “massa gelatinosa”, “substância viscosa”, “matéria mole coagulado-viscosa”. O termo deriva de Gallert, ligado historicamente ao francês gelée e ao latim gelare (“gelar”, “solidificar”). Seu campo semântico remete a algo situado entre o líquido e o sólido: uma substância amorfa, sem forma própria definida, mas que adquiriu certa consistência por coagulação. É precisamente essa imagem que interessa a Marx quando escreve: eine bloße Gallerte unterschiedsloser menschlicher Arbeit — “uma mera gelatina de trabalho humano indiferenciado”.


Marx não está apenas afirmando que o valor é “trabalho humano abstrato”. Ele procura construir uma imagem sensível, quase tátil, da abstração social real. A Gallerte torna-se a figura ontológica de um trabalho humano tornado indiferenciado. Já não existem carpinteiro, tecelão, agricultor, professor ou mineiro. Todas as determinações qualitativas do trabalho concreto foram dissolvidas. O que resta é apenas uma massa homogênea de dispêndio abstrato de força humana. A escolha do termo é extraordinária porque sugere simultaneamente dissolução das diferenças qualitativas, perda da forma concreta, homogeneização social, coagulação abstrata, viscosidade espectral e materialidade degradada.


Marx poderia ter utilizado palavras filosóficas mais nobres e tradicionais como Substanz, Essenz ou Materie. No entanto, escolhe deliberadamente uma palavra quase orgânica, corporal e até repulsiva. Isso revela algo profundamente crítico: a substância do valor não é uma essência luminosa ou metafísica pura. O trabalho abstrato é uma espécie de matéria social degradada. Há aqui uma crítica implícita à metafísica clássica da substância. O valor não aparece como princípio racional elevado, mas como massa amorfa produzida pela redução violenta do trabalho vivo à pura quantidade abstrata.


A Gallerte constitui, portanto, a forma imagética da abstração social real. Ela expressa o processo histórico pelo qual o capitalismo dissolve qualitativamente os conteúdos concretos da atividade humana para transformá-los em puro quantum de valor. A imagem gelatinosa possui, nesse sentido, uma dimensão profundamente crítica. A gelatina não possui forma própria; ela assume a forma do recipiente que a contém. Analogamente, o trabalho abstrato não possui conteúdo qualitativo determinado. Ele é pura adaptabilidade quantitativa às necessidades da valorização do capital. O trabalhador abstrato torna-se também uma subjetividade gelatinosa: flexível, intercambiável, desqualificada enquanto singularidade concreta.


Há ainda uma dimensão quase cadavérica no termo.


Tradicionalmente, a gelatina deriva da decomposição de matéria orgânica animal — ossos, cartilagens, tecidos. Embora Marx não explicite isso diretamente, a imagem sugere uma espécie de matéria vital mortificada. O valor aparece então como trabalho vivo morto, dissolvido e coagulado numa massa social abstrata. Isso se articula diretamente com a crítica marxiana do capital como dominação do trabalho morto sobre o trabalho vivo. A Gallerte torna-se, assim, trabalho vivo decomposto em substância abstrata social.


A expressão unterschiedsloser menschlicher Arbeit — “trabalho humano sem diferenciação” — aprofunda ainda mais esse movimento conceitual. O termo unterschiedslos indica ausência de distinção qualitativa. Todas as particularidades concretas do trabalho — carpintaria, tecelagem, agricultura, escrita — foram abolidas. O que resta é apenas dispêndio humano abstrato.


Aqui aparece a categoria decisiva do trabalho abstrato. Não se trata de mera abstração mental. Marx descreve uma abstração real produzida pela própria sociabilidade mercantil. O mercado reduz efetivamente todos os trabalhos a uma mesma substância quantitativa homogênea. O trabalho abstrato é precisamente essa redução violenta da riqueza qualitativa do trabalho vivo à pura temporalidade indiferenciada.


Existe ainda uma dialética extremamente importante entre Gallerte e Kristalle, termo utilizado logo depois por Marx na mesma passagem: Als Kristalle dieser ihnen gemeinschaftlichen gesellschaftlichen Substanz... — “Como cristais dessa substância social comum a todas elas...”.


Primeiro o valor aparece como gelatina amorfa; depois, como cristalização sólida. Essa sequência contém uma verdadeira fenomenologia material do valor: dissolução das qualidades concretas do trabalho; formação da massa indiferenciada (Gallerte); coagulação objetiva em forma cristalizada (Kristalle); autonomização como valor.


A dialética entre gelatina e cristal é extraordinária. A Gallerte expressa a fluidez abstrata do trabalho humano indiferenciado; o Kristall expressa sua fixação objetiva na forma-mercadoria. Marx descreve aqui o metabolismo oculto da forma-valor. O trabalho vivo concreto dissolve-se numa substância social gelatinosa que depois se cristaliza objetivamente como valor autonomizado.


Além disso, toda a passagem possui forte efeito estético e quase expressionista. Ela produz estranhamento [Verfremdung]. O leitor sente que entrou num universo fantasmagórico em que as mercadorias parecem compostas de substâncias espectrais e gelatinosas. Trata-se praticamente de uma ontologia gótica do capitalismo. Nesse ponto, Marx antecipa dimensões que posteriormente Georg Lukács desenvolveria como reificação [Versachlichung] e que Theodor W. Adorno perceberia como fantasmagoria objetiva da modernidade capitalista.


Em última instância, a Gallerte é o “corpo viscoso” do valor. Ela constitui a figura material da redução violenta do humano ao abstrato. O aspecto decisivo é que Marx não está falando aqui de uma abstração puramente lógica ou mental. A Gallerte é uma abstração social real: ela existe efetivamente nas relações sociais capitalistas e organiza concretamente a vida humana. O mercado transforma a multiplicidade qualitativa dos trabalhos humanos — carpintaria, tecelagem, escrita, agricultura, ensino — numa massa homogênea de tempo abstrato de trabalho. Todas as diferenças vivas e concretas dissolvem-se numa substância social indiferenciada.


É precisamente por isso que o termo possui tamanha profundidade dialético-materialista. A Gallerte designa um estado intermediário e perturbador entre o vivo e o morto, entre o concreto e o abstrato, entre corporeidade e espectralidade. Ela é a matéria fantasmagórica produzida pela decomposição social do trabalho vivo. Nesse sentido, aproxima-se profundamente das grandes figuras monstruosas do horror moderno: Mr. Hyde, de Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde (1886); o inseto monstruoso em que Gregor Samsa se transforma em A Metamorfose (1915)[3]; o vampiro Drácula, em Dracula (1897); ou ainda os mortos-vivos da modernidade tardia inaugurados por Night of the Living Dead (1968), de George A. Romero. Todos eles expressam, em formas distintas, sujeitos cindidos, espectrais, degradados ou autonomizados, que encarnam forças sociais e psíquicas tornadas estranhas aos próprios seres humanos.


Tal como Mr. Hyde emerge como o duplo obscuro e monstruoso de Dr. Jekyll, o trabalho abstrato emerge como o duplo espectral do trabalho vivo concreto. Trata-se de uma substância sem rosto, sem qualidade própria, amorfa e gelatinosa, que se alimenta da dissolução das singularidades humanas. O valor aparece então como monstruosidade social autonomizada: uma potência abstrata criada pelos próprios seres humanos que retorna contra eles sob forma impessoal, espectral e dominadora.


O valor é precisamente isso: uma substância social espectral coagulado a partir da dissolução do trabalho vivo humano. A Gallerte é, portanto, a imagem ontológica da monstruosidade do capital — uma massa social viscosa e fantasmática produzida pela redução da riqueza concreta da vida humana à pura temporalidade abstrata da valorização.


Trabalho abstrato e a crise do sujeito burguês


O horror moderno em Robert Louis Stevenson revela, portanto, algo muito mais profundo do que um drama moral individual. Ele expressa a crise histórica do sujeito burguês cindido e fraturado pela própria lógica social do capital. O indivíduo moderno torna-se internamente dividido entre sua aparência social racional e as potências abstratas autonomizadas que o habitam e o dominam. A subjetividade burguesa converte-se numa forma de clivagem ontológica.


É precisamente essa mesma crise que reaparece de maneira ainda mais radical em "A Metamorfose", de Franz Kafka. Gregor Samsa também é uma figura da cisão moderna produzida pela abstração social do capital. Sua transformação monstruosa não deve ser compreendida apenas biologicamente ou psicologicamente. Ela expressa a decomposição da individualidade humana sob o domínio das formas abstratas da sociabilidade capitalista. Samsa torna-se corpo estranho para si mesmo. Sua humanidade concreta dissolve-se numa forma monstruosa indeterminada.


Marx utiliza exatamente imagens fantasmagóricas e monstruosas para descrever o processo de produção do capital. No primeiro capítulo de “O Capital”, ao analisar a mercadoria, ele afirma que, abstraídas todas as propriedades concretas dos produtos do trabalho, resta apenas - como vimos acima - “a mesma objetividade fantasmagórica” [dieselbe gespenstige Gegenständlichkeit] e “uma mera gelatina de trabalho humano indiferenciado” [eine bloße Gallerte unterschiedsloser menschlicher Arbeit]. Por isso, como tratamos acima, o termo Gallerte é extraordinariamente revelador. Ele designa uma massa amorfa, gelatinosa, sem forma qualitativa própria. O trabalho abstrato aparece como substância espectral e indiferenciada. Não é carpintaria, agricultura ou tecelagem; é pura massa homogênea de tempo abstrato.


Pode-se dizer que Gregor Samsa foi absorvido pela própria Gallerte social do trabalho abstrato. Sua subjetividade concreta entra em colapso sob o peso das determinações abstratas do capital. Ele deixa de ser indivíduo qualitativo para converter-se em pura massa amorfa, inútil, excedente, monstruosa. Seu corpo já não pertence à vida concreta, mas à lógica desumanizadora da abstração social real.


Tanto Stevenson quanto Kafka revelam, cada um à sua maneira, a dimensão gótica e espectral da modernidade capitalista. O horror moderno não provém mais de forças sobrenaturais externas, mas das próprias abstrações sociais produzidas pela sociedade burguesa. O monstro não vem de fora: ele emerge do interior da própria forma social moderna. Hyde e Samsa tornam-se figuras literárias da autonomização monstruosa das abstrações sociais do capital. Eles representam a crise do sujeito numa sociedade em que o abstrato domina o concreto, em que o valor domina a vida, em que as criações humanas retornam contra seus próprios criadores sob forma espectral, monstruosa e desumanizadora.


Concluindo podemos dizer que Hyde corresponde perfeitamente a essa substância monstruosa e amorfa. Ele é a autonomização sombria de algo que estava oculto sob a aparência concreta e racional de Jekyll. Hyde representa a redução monstruosa da individualidade humana a impulsos abstratos autonomizados.


Analogamente, o trabalho abstrato representa a autonomização da dimensão quantitativa do trabalho humano. O capital dissolve a riqueza concreta das atividades humanas numa substância espectral abstrata cuja única medida é o tempo.


Mas Hyde não existe autonomamente. Ele só existe representado em Jekyll, assim como o trabalho abstrato só existe representado na mercadoria concreta. É precisamente aqui que a problemática marxiana da representação adquire profundidade decisiva.


O trabalho abstrato não pode aparecer diretamente. Ele precisa encarnar-se numa forma concreta. A mercadoria torna-se o corpo fenomênico dessa substância invisível. Exteriormente ela aparece como objeto útil concreto; interiormente ela é cristalização de trabalho abstrato. A mercadoria é simultaneamente ela mesma e outra coisa. Ela possui uma estrutura clivada semelhante à relação Jekyll/Hyde.


Assim como Hyde é a verdade obscura autonomizada de Jekyll, o trabalho abstrato é o duplo espectral do trabalho vivo concreto.


O trabalhador realiza atividade concreta viva, mas o capital “vê” nessa atividade apenas valor em processo de valorização. O abstrato torna-se sujeito da vida social. A criação humana converte-se em potência estranha diante dos próprios criadores.


Neste momento, a analogia com o horror gótico revela toda sua potência crítica. O capitalismo em Marx possui uma estrutura profundamente espectral. O valor é invisível, mas domina concretamente a vida social. O trabalho abstrato não possui existência sensível imediata, mas organiza efetivamente o metabolismo social.


A abstração torna-se força objetiva real. Os indivíduos passam a subordinar suas vidas aos imperativos quantitativos da valorização: produtividade, eficiência, rentabilidade, aceleração temporal, competição.


O horror em Stevenson é subjetivo e moral; o horror em Marx é ontológico e social. Mas ambos revelam uma mesma estrutura profunda: a autonomização monstruosa de uma potência interna produzida pelos próprios sujeitos.


Assim como Jekyll perde progressivamente o controle sobre Hyde, a humanidade perde progressivamente o controle sobre o sistema abstrato de valorização que ela própria criou. O capital aparece então como uma gigantesca maquinaria gótica objetiva, onde o trabalho abstrato assume a forma de um “Mr. Hyde social”: espectral, invisível, quantitativo, amorfo, autonomizado e monstruosamente real.


É exatamente por isso que o trabalho abstrato não é “trabalho” no mesmo sentido que o trabalho concreto. O trabalho concreto pertence ao metabolismo vital humano com a natureza. O trabalho abstrato pertence ao metabolismo autonomizado do capital. O primeiro produz riqueza material; o segundo produz valor. O primeiro pertence à vida; o segundo pertence à autovalorização automática do capital.


Tal como Hyde não é simplesmente “uma pessoa” no mesmo sentido de Jekyll, o trabalho abstrato não é simplesmente “trabalho” no mesmo sentido da atividade humana viva concreta. Ele é o duplo monstruoso da própria atividade vital humana transformada em substância espectral de valorização.


A mercadoria torna-se então uma entidade clivada e fantasmagórica. Ela contém em si uma dualidade contraditória: concreto e abstrato, utilidade e valor, vida e espectro.


O capitalismo aparece, assim, como uma gigantesca narrativa gótica objetiva na qual a humanidade produz um duplo abstrato monstruoso que se autonomiza e passa a dominar seus próprios criadores.

 

 


[1] No original: "Sehen wir nun auf das Residuat der Arbeitsprodukte. Es ist von ihnen nichts übriggeblieben als dieselbe gespenstige Gegenständlichkeit, eine bloße Gallerte unterschiedsloser menschlicher Arbeit, d. h. des Verausgabung menschlicher Arbeitskraft ohne Rücksicht auf die Form ihrer Verausgabung. Diese Dinge stellen nur noch dar, daß in ihrer Produktion menschliche Arbeitskraft verausgabt, menschliche Arbeit aufgehäuft ist. Als Kristalle dieser ihnen gemeinschaftlichen gesellschaftlichen Substanz sind sie Werte – Warenwerte." MARX, Karl. Das Kapital: Kritik der politischen Ökonomie. Erster Band. Buch I: Der Produktionsprozeß des Kapitals. In: Marx-Engels-Werke (MEW). Band 23. Berlin: Dietz Verlag, 1962, S. 52.

 

 

[2] Em traduções mais antigas ou baseadas na edição francesa, como a pioneira da editora Civilização Brasileira, o termo Gallerte por vezes foi traduzido por sinônimos como "coágulo" ou "massa homogênea", mas a recepção contemporânea e rigorosa do texto em língua portuguesa consolidou a tradução literal por "gelatina", que preserva o rigor ontológico da metáfora marxiana sobre a reificação e a abstração do trabalho sob a égide do capital.

[3] A frase de abertura original em alemão do conto „A Metamorfose“ (1915) de Franz Kafka é: Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheueren Ungeziefer verwandelt. Tradução literal: “Quando Gregor Samsa, numa manhã, despertou de sonhos inquietos, encontrou‑se em sua cama transformado em um enorme Ungeziefer (verminoso/repugnante inseto)”. O termo usado por Kafka para caracterizar a transformação é ungeheures Ungeziefer — onde ungeheuer indica “enorme/monstruoso” e Ungeziefer: substantivo neutro que, no uso corrente alemão, significa “verminoso, praga, inseto nocivo”; traduzido frequentemente por verme, inseto monstruoso ou verminoso; sua filologia remonta ao alto‑alemão antigo zebar (opfertier), evoluindo semanticamente para “pequeno animal nocivo/parasita”. A forma prefixada (com un-) passou a designar, historicamente, animais “não próprios para sacrifício” — isto é, animais indesejáveis ou nocivos. Ao longo do tempo, o sentido deslocou‑se para “pequeno animal nocivo, praga, parasita”. O termo carrega uma carga pejorativa e coletiva (sammelbezeichnung) — não identifica uma espécie concreta, mas um tipo de criatura repulsiva e indesejada, o que contribui para a ambiguidade e o efeito fantástico do conto. Kafka não especifica a espécie; ao usar Ungeziefer, ele deixa a transformação deliberadamente vaga, ampliando o efeito de estranhamento e a leitura simbólica (alienação, desumanização, vergonha social).


 
 
 

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