top of page
Buscar

Lukács e a expressão “Não sabem, mas o fazem” - 3

  • há 1 dia
  • 22 min de leitura

Nesta terceira postagem da série, analisamos as últimas ocorrências da célebre frase "Sie wissen das nicht, aber sie tun es" no primeiro volume da Ontologia do Ser Social, de György Lukács. O levantamento realizado diretamente sobre o texto original em alemão da edição bilíngue publicada pelo Coletivo Veredas permitiu identificar doze passagens da Ontologia nas quais Lukács retoma ou faz referência explícita a essa conhecida formulação de Marx. Destas, seis encontram-se no volume 1 e as outras seis no volume 2.


Na postagem anterior examinamos as três primeiras ocorrências presentes no primeiro volume. Nesta, analisaremos as três restantes, concluindo, assim, o estudo das referências à fórmula marxiana nessa parte da obra. A quarta postagem será dedicada às três primeiras ocorrências da frase no volume 2 da Ontologia do Ser Social, enquanto a quinta – a seguinte a próxima - abordará as passagens finais desse mesmo volume.


Esse é, por enquanto, o itinerário previsto para a série. Concluída essa etapa, adotaremos procedimento semelhante na análise das ocorrências da fórmula nos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social, trabalho que deverá se desdobrar em mais duas postagens.


Ao longo desse percurso, nosso objetivo permanece o mesmo: examinar cada uma dessas ocorrências, procurando mostrar de que maneira Lukács amplia progressivamente o alcance da sentença marxiana e a transforma em uma categoria decisiva para a compreensão da ontologia da práxis e do ser social.


Nosso objetivo, convém reiterar, é examinar essas ocorrências uma a uma, procurando evidenciar como Lukács amplia progressivamente o alcance da fórmula marxiana e, a partir dela, elabora categorias fundamentais para uma ontologia da práxis e do ser social.


Esta frase "Sie wissen das nicht, aber sie tun es" é uma das fórmulas mais fecundas de toda a reflexão lukacsiana. Embora tenha sido formulada por Marx no contexto específico da crítica ao fetichismo da mercadoria, Lukács lhe confere um alcance ontológico muito mais amplo. A sentença deixa de designar apenas um mecanismo característico da sociedade capitalista para tornar-se uma chave de compreensão da própria natureza da práxis humana e da constituição do ser social.


4


Diz Lukács: “Questões ontológicas desse tipo podem ser colocadas e mesmo adequadamente respondidas sem um acurado exame científico de se os elementos das formas de ser mais simples, inseridos nas formas de ser mais complicadas, foram submetidos, nessa transação, a um rearranjo interno ou se se submetem, como elementos da nova conexão, a uma mera mudança de função. A sua nova existência na nova conexão ontológica resulta, em ambos os casos, em um mesmo quadro. Todavia, precisamente do ponto de vista do modo de consideração ontológico, não parece inessencial qual das duas possibilidades, a depender do caso, é real. Pois sua constatação pode concretamente lançar luz sobre qual alteração ontológica o ser mais simples, fundante, tem de sofrer ao se tornar um elemento estrutural indispensável, mas subordinado, do complexo ontológico mais complicado. Os próprios fatos aparecem tão frequentes, tão conspícuos nos processos históricos concretos, que seu destino geral pode ser claramente visível sem um detalhado, preciso desvelamento de seus momentos. Pense-se, para mencionar um exemplo relativamente simples, na criação dos animais domésticos, cujo início remonta à Idade da Pedra e cujo percurso puramente biológico está, ainda, amplamente não pesquisado. “Eles não sabem, mas fazem”, disse Marx certa vez sobre a atividade social dos seres humanos. Também aqui os seres humanos não sabiam, no sentido de uma cientificidade autêntica e, todavia, na prática, realizaram em sua atividade o autêntico princípio de transformação: mudaram e reordenaram radicalmente as condições de vida dos animais em correspondência às suas finalidades postas socialmente, favoreceram o acasalamento daqueles exemplares que, relativamente, mais pronta e fundamentalmente, haviam se transformado segundo as novas posições de finalidade. Assim emergiram novas espécies, fundamentalmente diferentes das “originárias”. São, além disso, amplamente diferenciadas em correspondência às finalidades socialmente postas a partir das necessidades socialmente surgidas: do cavalo inglês de corrida ao cavalo de tração, do cão de caça ao cão de companhia, produziram-se escalas altamente graduais, ricas. Que os tipos aqui surgidos corporifiquem desvios, no sentido biológico, seria muito difícil de ser duvidado: o motor concreto da diferenciação foi, todavia, a mudança do mundo ambiente, das condições de vida, um motivo tão autenticamente tomado deste ser que, a partir dele, Darwin foi capaz de desenvolver o método para a pesquisa científica da origem das espécies.” [p. 216]

 

Essa passagem é particularmente relevante porque assinala uma inflexão significativa no modo como Lukács mobiliza a célebre fórmula marxiana "Sie wissen das nicht, aber sie tun es".


Em ocorrências anteriores da “Ontologia do Ser Social”, a frase aparecia vinculada sobretudo à relação entre práxis, consciência, categorias do ser e conhecimento. Aqui, porém, ela desempenha uma função distinta. Lukács a utiliza para explicitar como a práxis humana pode produzir transformações ontológicas reais muito antes que a ciência seja capaz de apreendê-las conceitualmente. A sentença deixa, assim, de designar apenas o descompasso entre consciência e objetividade social para iluminar o próprio mecanismo histórico por meio do qual novas formas de ser emergem da atividade prática.


O problema central do trecho não é epistemológico, embora possa parecer, à primeira vista, uma reflexão metodológica sobre os limites do conhecimento científico. Lukács está interessado em algo mais fundamental: compreender o que ocorre quando uma forma de ser mais simples passa a integrar uma forma de ser mais complexa.


Em outras palavras, pergunta-se que tipo de alteração ontológica sofre o ser mais simples quando se converte em elemento estrutural, indispensável mas subordinado, de um complexo ontológico superior. É por isso que aparecem expressões como Formen des Seins [formas do ser] e ontologische Veränderung [mudança ontológica].


A questão não é apenas saber como conhecemos tais processos, mas como o próprio ser se transforma ao ingressar em uma nova conexão objetiva.


A categoria decisiva, nesse ponto, é a de nova conexão ontológica. Nenhum ente existe isoladamente, como unidade abstrata e autossuficiente. Tudo aquilo que existe encontra-se inserido em um complexo de relações. Quando essa conexão se altera, modifica-se também o modo de ser do elemento nela integrado. Essa transformação pode ou não implicar uma reorganização interna de sua estrutura; em certos casos, pode consistir sobretudo em uma mudança de função.


Para Lukács, entretanto, mesmo quando o resultado aparente é semelhante, a diferença não é irrelevante do ponto de vista ontológico. Saber se houve rearranjo interno ou simples deslocamento funcional permite compreender com maior precisão a natureza da transformação sofrida pelo ser mais simples ao tornar-se momento subordinado de uma totalidade mais complexa.


É nesse horizonte que se insere o exemplo da domesticação dos animais.


A escolha é notável. Lukács não recorre aqui ao trabalho em sua forma mais geral, nem à mercadoria, nem à linguagem, mas a um processo histórico no qual a práxis humana transformou objetivamente a natureza durante milênios sem dispor de uma ciência capaz de explicar conceitualmente o que estava realizando. A domesticação torna-se, assim, uma espécie de laboratório ontológico da práxis: nela, os homens modificaram formas naturais de existência orientando-se por finalidades socialmente postas, sem conhecer cientificamente os mecanismos biológicos implicados nesse processo.


É precisamente nesse ponto que reaparece a frase de Marx: "Sie wissen das nicht, aber sie tun es." Nas passagens anteriores, ela indicava sobretudo que os homens produzem e reproduzem categorias sociais cuja essência desconhecem. Aqui, sua função é mais ampla. Ela significa que os homens podem produzir transformações ontológicas efetivas sem possuir consciência científica daquilo que fazem.


O “não saber” não designa ignorância absoluta. Lukács faz questão de delimitar seu alcance: os homens não sabiam “no sentido de uma cientificidade autêntica”. Sabiam empiricamente criar animais, selecionar exemplares, favorecer cruzamentos, reconhecer traços úteis e adequar comportamentos às necessidades humanas. Não possuíam, contudo, biologia, genética ou teoria da evolução. Agiam corretamente no plano prático sem compreender teoricamente o princípio objetivo de sua ação.


Daí a força da formulação segundo a qual, em sua prática, eles realizaram o autêntico princípio da transformação. A expressão é decisiva. Os homens não apenas modificaram animais de maneira externa ou acidental; realizaram praticamente um princípio objetivo que apenas muito mais tarde seria reconstruído pela ciência.


A práxis, nesse caso, descobre antes da teoria. Ou melhor: opera segundo determinações reais do ser antes que essas determinações possam ser formuladas conceitualmente. A ciência não inaugura o processo; ela o explicita retrospectivamente.


Esse é o núcleo ontológico da passagem. A prática não espera a ciência para transformar o mundo. Ao contrário, a ciência surge porque a prática já transformou o mundo e acumulou, no próprio movimento histórico da atividade humana, problemas, resultados e regularidades que exigem elaboração teórica.


Os criadores de animais não conheciam as leis biológicas da hereditariedade ou da seleção, mas atuavam dentro delas e, mais ainda, produziam novas configurações objetivas que a ciência posterior viria a explicar.


A escolha lexical de Lukács reforça essa interpretação. Os homens não apenas mudaram as condições de vida dos animais; eles as reordenaram, as reconfiguraram, as transformaram estruturalmente.


O verbo umgestalten [reconfigurar] sugere precisamente uma modificação da forma, uma reorganização do modo de existência. Não se trata, portanto, de mera alteração quantitativa ou de simples adaptação exterior. Ao submeterem os animais a novas condições de vida, correspondentes às finalidades socialmente postas, os homens produziram novas linhas de diferenciação e, finalmente, novos tipos, profundamente distintos daqueles originários.


A referência às finalidades socialmente postas remete diretamente à categoria da teleologische Setzung [pôr teleológico]. A domesticação é uma transformação da natureza mediada pela teleologia humana. Os homens estabelecem fins — animais mais dóceis, mais fortes, mais velozes, mais aptos à caça, à tração, à companhia ou à alimentação — e reorganizam as condições de vida dos animais em função desses fins. Mas o resultado ultrapassa o horizonte imediato da intenção. Eles queriam obter animais mais adequados a determinadas necessidades sociais; acabaram produzindo novas formas biológicas, escalas diferenciadas de tipos e raças, do cavalo inglês de corrida ao cavalo de tração, do cão de caça ao cão de companhia.


 A finalidade consciente desencadeia uma cadeia causal que excede a consciência dos agentes.


Reaparece aqui uma das distinções centrais da “Ontologia”: a diferença entre teleologia e causalidade. A teleologia é posta conscientemente; a causalidade, uma vez desencadeada, desenvolve-se segundo nexos objetivos que não podem ser integralmente dominados pelos sujeitos. Os criadores selecionavam os exemplares mais adequados às suas finalidades imediatas, mas a interação entre seleção, reprodução, ambiente, hereditariedade e condições de vida produziu resultados de alcance muito superior.


 A práxis humana, ao intervir na natureza, mobiliza causalidades reais que não são criadas pela consciência, embora sejam postas em movimento por ela.


A referência final a Darwin confirma a amplitude desse raciocínio. Lukács observa que o motor concreto da diferenciação dos animais domésticos foi a mudança do ambiente e das condições de vida, um motivo tão autenticamente pertencente ao próprio ser que Darwin pôde, a partir dele, desenvolver o método científico para investigar a origem das espécies. A formulação é notável: a ciência darwiniana não inventa o mecanismo da transformação; ela o reconstrói teoricamente a partir de processos que a prática humana já havia produzido e evidenciado historicamente.


Primeiro a humanidade atua; depois a ciência compreende, sistematiza e generaliza o princípio objetivo inscrito nessa atuação.


A partir dessa passagem, torna-se claro que Lukács atribui à fórmula Sie wissen das nicht, aber sie tun es um alcance muito mais amplo do que aquele geralmente associado à análise do fetichismo da mercadoria em “O Capital”. A frase não se limita a designar a inconsciência dos produtores diante das determinações do valor. Ela exprime uma característica geral da constituição do ser social: os homens produzem transformações objetivas cuja significação ontológica excede sistematicamente a consciência que possuem de seus próprios atos.


É por isso que a domesticação dos animais ocupa lugar tão expressivo na argumentação. Durante milênios, a humanidade realizou um vasto experimento histórico sem possuir teoria científica de seu significado. Os criadores desconheciam genética, hereditariedade e evolução, mas modificaram profundamente o patrimônio biológico de diversas espécies ao reorganizar suas condições de existência segundo necessidades e finalidades socialmente constituídas.


A prática revelou-se mais rica do que a consciência de seus agentes.


Essa passagem amplia decisivamente o sentido da sentença marxiana. Nas ocorrências anteriores da Ontologia, ela servia sobretudo para mostrar que os homens reproduzem categorias sociais sem conhecer sua essência. Aqui, Lukács dá um passo além: os homens produzem novas determinações ontológicas do próprio ser antes que a ciência seja capaz de apreendê-las. Sie wissen das nicht, aber sie tun es converte-se, assim, numa formulação da prioridade ontológica da práxis.


O fazer humano antecede o saber não apenas em sentido cronológico, mas estrutural. É na atividade prática que emergem transformações reais do mundo; somente depois a ciência e a filosofia podem reconstruir conceitualmente as determinações objetivas que já estavam atuando no processo histórico. Essa é uma das expressões mais fortes da tese lukacsiana segundo a qual o ser precede o conhecimento, e a práxis precede a teoria porque é nela que o ser social produz continuamente novas formas de realidade.


5

Diz Lukács: “Esse discernimento tem, todavia, uma prolongada pré-história. Também seu conhecimento pressupõe a já bem conhecida característica das atividades humanas: “Não sabem, mas fazem.” Correspondentemente, a práxis humana, de fato, em suas posições de finalidade e modos de implementação real-concretos, é uma práxis consciente. Se o ser humano da Idade da Pedra deseja produzir um machado, então tem de se fazer consciente das funções, das formas possíveis, etc., do machado, de determinados gestos para burilar, etc. Esse, precisamente, já é o salto da esfera ontológica determinada biologicamente para a esfera da socialidade. Do que amplamente não decorre, todavia, que, enquanto tal, a conscienciosidade imperativa para uma tal práxis para os seres humanos nesse estágio de desenvolvimento igualmente tenha de tornar-se consciente. As concretas experiências de trabalho que devem já ter, também, um caráter consciente na prática para poderem funcionar e, eventualmente, na prática se ampliar, possuem essa conscienciosidade apenas em relação ao próprio processo concreto da práxis, não em relação à gênese e qualidade daquela consciência, da qual são, de fato, modos prático-concretos de manifestação[p. 247].


Essa passagem ocupa um lugar estratégico na “Ontologia do Ser Social” porque nela Lukács procura demonstrar que a inovação metodológica introduzida por Marx não se reduz à elaboração de uma nova teoria da sociedade ou da economia política. O alcance de sua ruptura é mais profundo. Marx inaugura uma nova compreensão da relação entre ser, práxis, conhecimento, ciência e filosofia, desfazendo uma cisão que atravessou grande parte da história da tradição filosófica ocidental: a separação entre a investigação filosófica das determinações mais universais do ser e a investigação científica das determinações particulares dos fenômenos.


Quando Lukács afirma que "o grande feito metodológico de Marx" consistiu em colocar no centro da metodologia de toda práxis a cooperação entre ciência e filosofia, ele está longe de defender uma simples complementaridade entre disciplinas. A cooperação de que fala possui fundamento ontológico.


Ciência e filosofia não se encontram apenas porque seus objetos ocasionalmente convergem; elas pertencem ao mesmo processo de constituição do conhecimento, pois ambas emergem da práxis social dos homens e se dirigem, por caminhos distintos, ao mesmo objeto: o ser em seu movimento histórico efetivo.


A crítica implícita de Lukács dirige-se simultaneamente a duas tradições que, embora antagônicas em muitos aspectos, compartilham uma mesma limitação.


O positivismo tende a autonomizar a ciência, reduzindo o conhecimento à descrição e à sistematização empírica dos fatos particulares.


A metafísica tradicional, em sentido inverso, afasta-se da realidade concreta para construir sistemas conceituais que frequentemente passam a existir apenas no interior da própria especulação filosófica.


A ruptura marxiana opera justamente pela superação simultânea dessas duas unilateralidades. As categorias filosóficas deixam de ser concebidas como produtos autônomos da razão e passam a ser entendidas como determinações objetivas do ser; inversamente, os fatos investigados pelas ciências deixam de aparecer como simples dados empíricos isolados e revelam-se expressões concretas dessas determinações mais profundas.


Ciência e filosofia tornam-se, assim, momentos diferenciados de um único processo de apropriação cognitiva da realidade.


É por isso que Lukács afirma que Marx reconduz ambas à sua prozessuale Zugehörigkeit [pertencimento processual], isto é, à sua pertença processual comum ao ser, às categorias, à práxis e ao conhecimento. A escolha dessa expressão possui enorme densidade conceitual. Ela indica que nenhuma dessas dimensões pode ser compreendida isoladamente.


O ser não constitui uma substância imóvel nem um fundamento metafísico situado para além da história; ele existe enquanto processo.


As categorias, por sua vez, não são formas lógicas exteriores ao mundo, mas formas históricas de existência, inseparáveis do movimento objetivo da realidade. A práxis tampouco deve ser entendida como simples aplicação de conhecimentos previamente constituídos. Ela representa o fundamento originário tanto da vida social quanto da produção do próprio conhecimento. Este último, finalmente, não ocupa uma posição exterior ao mundo, mas nasce do desenvolvimento contraditório da atividade prática mediante a qual os homens reproduzem sua existência.


No interior dessa concepção, uma categoria adquire papel decisivo: a Geschichtlichkeit. [historicidade]. Seguindo Marx, Lukács compreende a historicidade não como um atributo particular de determinados fenômenos, mas como a própria forma de ser da realidade social.


Tudo aquilo que existe possui uma história. O ser é histórico; as categorias são históricas; a práxis é histórica; o conhecimento também o é. Desaparece, assim, qualquer possibilidade de admitir um reino eterno de ideias situado acima do movimento efetivo da realidade. É precisamente essa historicidade universal que fornece o terreno comum sobre o qual ciência e filosofia reencontram sua unidade.


Desse ponto de vista, a antiga oposição entre ambas deixa de possuir fundamento objetivo. Suas diferenças específicas permanecem, mas já não autorizam uma separação absoluta. A ciência pode iniciar seu percurso pelos fenômenos empíricos e, através deles, alcançar determinações categoriais cada vez mais profundas.


A filosofia, por sua vez, pode partir das determinações mais universais do ser e reencontrá-las objetivadas nas formas concretas da experiência histórica. Em ambos os casos trata-se de acompanhar diferentes momentos do mesmo movimento ontológico.


Toda a arquitetura de “O Capital” oferece uma demonstração exemplar desse procedimento. Marx inicia sua investigação pela mercadoria, forma aparentemente simples da vida cotidiana, e, por meio de sucessivas mediações, alcança categorias como valor, trabalho abstrato, capital, mais-valia e acumulação. Entretanto, essas determinações essenciais não existem em um plano separado dos fenômenos. Elas somente se realizam por intermédio das próprias formas aparentes da circulação mercantil, dos preços, dos salários, dos lucros e das relações efetivas de produção.


Não existe um abismo intransponível entre essência e Erscheinung [fenômeno]. Existe uma unidade contraditória na qual essência e manifestação pertencem ao mesmo processo de constituição do ser social.


É justamente isso que Lukács pretende afirmar quando sustenta que não existem barreiras objetivas capazes de separar o ser de sua constituição categorial. As categorias não são acrescentadas ao mundo pelo pensamento; constituem as próprias determinações objetivas do ser. Em consequência, o conhecimento pode mover-se da aparência à essência e retornar desta às formas fenomênicas sem jamais abandonar o mesmo processo real que procura compreender.


Essa concepção recebe uma formulação particularmente expressiva quando Lukács evoca a imagem das "Muralhas da China" que, ao longo da história do pensamento, separaram ciência e filosofia. A metáfora designa aquelas fronteiras rígidas construídas sempre que a filosofia se converte em especulação desligada da realidade objetiva ou quando a ciência limita sua tarefa à descrição empírica de fatos isolados. Marx demonstra que tais muralhas são artificiais. Ambas as formas de conhecimento permanecem referidas ao mesmo ser histórico-social, diferenciando-se apenas quanto ao modo pelo qual apreendem suas determinações.


Lukács acrescenta, porém, uma observação decisiva. A descoberta teórica dessa unidade não surgiu de maneira imediata. Ela pressupõe um longo desenvolvimento histórico e repousa sobre uma característica constitutiva da própria atividade humana, condensada na célebre fórmula de Marx: Sie wissen das nicht, aber sie tun es. A reaparição dessa sentença nesse contexto não é casual. Ela introduz novamente uma das categorias fundamentais da ontologia lukacsiana: a prioridade ontológica da práxis em relação à consciência teórica.

Os homens realizam objetivamente atividades corretas muito antes de compreenderem as determinações que tornam tais atividades possíveis.


A consciência prática antecede necessariamente a reflexão filosófica sobre a própria consciência. Lukács recorre ao exemplo do homem da Idade da Pedra fabricando um machado porque ele permite visualizar de maneira particularmente clara essa anterioridade da práxis. A produção de um machado exige muito mais do que simples manipulação material. O indivíduo precisa antecipar mentalmente o resultado de sua ação, selecionar uma pedra apropriada, imaginar a forma que o instrumento deverá assumir e dominar uma sequência de operações técnicas capazes de transformar a matéria-prima no objeto desejado. Tudo isso pressupõe consciência. Trata-se, contudo, de uma consciência imediatamente vinculada à realização prática da atividade.


O homem pré-histórico sabe fabricar o machado. O que ele não possui é uma teoria acerca das condições que tornam possível esse saber. Ele domina procedimentos técnicos sem dispor de uma teoria do conhecimento; exerce uma atividade teleológica sem possuir uma ontologia da teleologia; utiliza instrumentos eficazmente sem refletir filosoficamente sobre a estrutura da consciência que orienta sua ação. Em outras palavras, mobiliza capacidades especificamente humanas sem compreender sua gênese nem sua constituição objetiva.


Essa distinção possui consequências metodológicas profundas. Ela significa que a consciência surge originariamente como momento funcional da práxis. O homem torna-se consciente dos objetos porque necessita agir sobre eles. A reflexão acerca da própria consciência constitui um desenvolvimento muito posterior.


Primeiro existe o trabalho enquanto forma fundamental de intercâmbio metabólico com a natureza; em seguida forma-se a consciência prática que acompanha essa atividade; somente depois aparecem a investigação filosófica, a ciência e a ontologia como formas de autorreflexão sobre a própria práxis.


É precisamente por isso que Lukács pode afirmar que ciência e filosofia possuem uma raiz comum. Ambas emergem de uma atividade prática que já opera objetivamente com as categorias do ser antes que estas sejam reconhecidas conceitualmente. A teoria não cria essas categorias; limita-se a descobri-las retrospectivamente no interior da própria estrutura objetiva da práxis social.


Encontra-se aqui uma das formulações mais profundas de toda a “Ontologia do Ser Social”. A humanidade não inicia sua história especulando sobre o ser nem elaborando sistemas científicos. Ela começa trabalhando. É no trabalho que os homens são constrangidos a confrontar-se com as determinações objetivas da realidade e a agir de acordo com elas para assegurar sua própria reprodução. Somente num momento histórico posterior essa experiência prática torna-se objeto de reflexão sistemática, dando origem à filosofia, à ciência e à ontologia.


A célebre frase de Marx adquire, desse modo, um alcance que ultrapassa em muito seu contexto original. Sie wissen das nicht, aber sie tun es deixa de expressar apenas a inconsciência característica da produção mercantil e passa a formular uma determinação universal da ontologia do ser social.


Os homens fazem antes de saber plenamente o que fazem; a práxis antecede a teoria; o ser antecede o conhecimento; e as categorias exercem eficácia objetiva na vida social muito antes de se tornarem objeto da consciência filosófica ou científica.


É precisamente essa prioridade ontológica da práxis que permite a Marx dissolver a oposição tradicional entre ciência e filosofia, reconduzindo ambas ao terreno comum do ser histórico-social concebido como processo. A unidade entre conhecimento científico e reflexão filosófica deixa, assim, de ser um ideal metodológico exterior à realidade para tornar-se expressão da própria estrutura ontológica do mundo histórico produzido pela atividade humana.


6

Diz Lukács: “Naturalmente, isso não se refere apenas ao dinheiro. O que se revela aqui é a estrutura fundamental da relação entre teoria e prática social. Um mérito revolucionário da doutrina de Marx consiste em ter descoberto a prioridade da prática, sua função orientadora e controladora para o conhecimento. Mas ele não se contentou em esclarecer esse vínculo fundamental em termos gerais; mostrou também o método para iluminar o caminho pelo qual essa relação adequada entre teoria e prática se realiza socialmente. E nisso se evidencia que toda prática, mesmo a mais imediata e cotidiana, possui em si essa relação com a compreensão, com a consciência etc., porque é sempre um ato teleológico, no qual a definição do objetivo precede, em termos materiais e temporais, sua realização. No entanto, disso não decorre de modo algum que seja possível conhecer as consequências sociais de cada ato isolado, sobretudo quando ele constitui parte causal de uma transformação do ser social em sua totalidade (ou parcialidade). O agir social e econômico dos homens libera forças, tendências, objetividades, estruturas etc., que surgem exclusivamente da prática humana, mas cuja essência permanece totalmente ou em grande parte incompreensível para seus próprios criadores. Assim, Marx diz sobre um fato tão elementar e cotidiano como o simples ato de troca, do qual nasce a relação dos produtos do trabalho como valores: “Eles não sabem disso, mas o fazem.” Essa situação não ocorre apenas no nível da prática imediata, mas também quando a teoria busca apreender intelectualmente a essência dessa prática. Marx mostra, por exemplo, nos esforços de Franklin para descobrir o valor no trabalho: “O que ele não sabe, ele diz, no entanto.” Constatações como essas são fundamentais para a economia e sua história, para a teoria econômica e sua história, mas — na transição gradual da ciência para a filosofia — vão além da esfera da economia e abrangem tudo o que acontece no ser social e na consciência nesse sentido. Aqui, a gênese ontológica mostra novamente seu poder abrangente: quando essa relação entre prática e consciência é constatada nos fatos elementares da vida prática cotidiana, os fenômenos da reificação, da alienação e da fetichização aparecem como imagens secundárias criadas de uma realidade não compreendida — não mais como expressões enigmáticas de forças desconhecidas e inconscientes dentro ou fora do homem, mas como mediações, às vezes muito extensas, presentes já na própria prática elementar. (Os problemas que surgem aqui só poderão ser tratados em detalhe na segunda parte.) [p. 592]


Essa passagem representa um dos pontos de maior densidade teórica da “Ontologia do Ser Social”. Nela, Lukács desenvolve uma das consequências mais profundas da prioridade ontológica da práxis e aproxima sua reflexão do núcleo metodológico da crítica marxiana da economia política.


O problema já não consiste apenas em determinar a relação entre teoria e prática, mas em compreender como a própria objetividade do ser social engendra formas específicas de consciência que, embora inadequadas à essência das relações que exprimem, são constitutivas da reprodução histórica da sociedade. É precisamente nesse horizonte que categorias como fetichismo, reificação [Versachlichung], coisificação [Verdinglichung] e alienação [Entfremdung] deixam de ser concebidas como fenômenos exclusivamente ideológicos ou psicológicos para serem reconduzidas às determinações ontológicas da própria práxis social.


A reaparição da fórmula marxiana Sie wissen das nicht, aber sie tun es possui, nesse contexto, um significado muito mais amplo do que aquele que lhe é atribuído na análise da forma-mercadoria em “O Capital”. Lukács não elimina esse significado originário; ao contrário, procura universalizá-lo. A frase deixa de referir-se exclusivamente ao fato de que os produtores de mercadorias realizam objetivamente trabalho abstrato sem possuírem consciência dessa determinação e passa a exprimir uma característica constitutiva da própria vida social. Ela designa uma estrutura permanente da relação entre consciência e práxis: os homens produzem objetividades que ultrapassam sistematicamente aquilo que sabem acerca de sua própria atividade.


É justamente nesse sentido que Lukács retoma uma das descobertas fundamentais de Marx: a prioridade ontológica da práxis sobre a teoria. A atividade humana não pressupõe um conhecimento acabado da realidade para então intervir sobre ela. O movimento efetivo ocorre na direção oposta. Os homens agem antes de compreender plenamente as determinações objetivas que estruturam sua ação. É a própria prática que produz os problemas, constitui os objetos, estabelece mediações sociais e cria, retrospectivamente, a necessidade de sua explicação teórica.


Entretanto, Lukács está longe de formular essa prioridade em termos abstratos. O que distingue a concepção marxiana tanto do pragmatismo quanto das diferentes modalidades de idealismo é precisamente a reconstrução concreta das mediações pelas quais a práxis produz conhecimento e pelas quais esse conhecimento retorna posteriormente à própria práxis, transformando-a.


Não existe identidade imediata entre agir e conhecer. Tampouco existe exterioridade absoluta entre ambos. Há um processo histórico no qual a atividade prática constitui continuamente novas objetivações, enquanto o conhecimento procura reconstruir conceitualmente determinações que já operam objetivamente na realidade.

O fundamento ontológico dessa prioridade encontra-se no caráter teleológico de toda atividade especificamente humana.


Reaparece aqui uma das categorias decisivas da “Ontologia”: a teleologische Setzung. Toda práxis implica a antecipação ideal de um resultado futuro. Antes de transformar materialmente a realidade, o homem projeta um fim, representa idealmente aquilo que pretende produzir e organiza os meios adequados à sua realização.


Quando um artesão fabrica um instrumento, quando um agricultor prepara a terra para o cultivo ou quando um engenheiro projeta uma ponte, a finalidade existe idealmente antes de adquirir existência objetiva. O momento ideal antecede a execução material.


Essa anterioridade da finalidade explica por que Lukács afirma que não existe práxis humana destituída de consciência. Mesmo a atividade mais elementar pressupõe alguma forma de antecipação ideal. O homem sabe o que pretende fazer e orienta conscientemente sua ação para alcançar esse objetivo. Contudo, seria um grave equívoco concluir daí que ele domina integralmente o significado de sua própria atividade.


É precisamente nesse ponto que Lukács introduz uma distinção decisiva entre teleologia e causalidade. A teleologia refere-se ao fim conscientemente posto pelo sujeito; a causalidade designa o conjunto dos nexos objetivos que se desencadeiam quando a ação humana se incorpora ao complexo das relações reais.


O indivíduo controla apenas o primeiro momento. O segundo escapa necessariamente ao horizonte imediato de sua consciência.


Um comerciante sabe que pretende vender sua mercadoria. Não sabe, porém, quais serão todas as consequências produzidas pela articulação de seu ato com milhões de outros atos semelhantes. Um capitalista sabe que investe para obter lucro. Não possui, entretanto, domínio consciente sobre as tendências históricas produzidas pela acumulação ampliada do capital, pela concorrência ou pelas crises que emergem desse processo. Em ambos os casos, os fins conscientemente postos permanecem inscritos num complexo causal muito mais amplo, cuja dinâmica objetiva excede a intenção subjetiva dos agentes.


É justamente aqui que a análise marxiana da troca mercantil adquire sua força metodológica. Quando dois produtores trocam seus produtos, realizam um ato inteiramente consciente do ponto de vista de seus objetivos imediatos. Ambos sabem o que desejam obter e conhecem o sentido prático da troca.


Contudo, ignoram que, ao realizar esse ato aparentemente simples, reproduzem uma forma historicamente determinada de sociabilidade. Não sabem que seus produtos são postos em relação enquanto quantidades de trabalho abstrato; não sabem que reproduzem objetivamente a forma do valor; não sabem que participam da constituição de um sistema social cujas determinações essenciais permanecem invisíveis à experiência imediata. Ainda assim, tudo isso é efetivamente realizado.


É exatamente essa contradição que Marx sintetiza na fórmula: Sie wissen das nicht, aber sie tun es.


A consequência ontológica é decisiva.


A objetividade social produz resultados que ultrapassam estruturalmente a consciência daqueles que a produzem. A sociedade é obra dos homens, mas nunca corresponde simplesmente às intenções conscientes dos indivíduos.


A práxis libera tendências, estruturas e objetivações que, embora produzidas historicamente pelos próprios homens, adquirem uma dinâmica relativamente autônoma diante de seus criadores.


É nesse ponto que Lukács localiza o fundamento ontológico do fetichismo.


As relações sociais criadas pelos homens aparecem diante deles como poderes independentes de sua própria atividade. Essa autonomia aparente não decorre de qualquer mistificação subjetiva originalmente presente na consciência, nem da intervenção de forças exteriores ao processo social. Ela nasce da própria objetividade das relações historicamente constituídas.


Quanto mais complexas se tornam as mediações da reprodução social, mais difícil se torna apreender imediatamente o nexo entre a atividade singular e a totalidade objetiva que ela contribui para produzir.


A referência seguinte a Benjamin Franklin aprofunda ainda mais essa problemática. Marx observa que Franklin procurou derivar o valor do trabalho, embora permanecesse incapaz de compreender plenamente a especificidade histórica do trabalho abstrato. Ainda assim, afirma Marx: Was er nicht weiß, sagt er dennoch. [ "Ele fala mesmo do que não sabe."]


A observação é notável porque revela que o descompasso entre consciência e objetividade não caracteriza apenas a práxis imediata; ele pode manifestar-se igualmente na elaboração teórica. Franklin diz mais do que sabe. Sua formulação contém determinações objetivas cujo alcance ultrapassa a consciência de seu próprio autor. Assim como os homens realizam praticamente mais do que compreendem, também podem formular teoricamente verdades que excedem o horizonte de sua própria reflexão.


Essa observação permite compreender um aspecto frequentemente negligenciado da ontologia lukacsiana. A objetividade do ser atua tanto na práxis quanto na teoria. O pensamento não constitui uma esfera autônoma capaz de produzir arbitrariamente suas categorias. Ele próprio permanece atravessado por determinações objetivas cuja significação pode exceder a consciência dos indivíduos que as formulam.


É a partir dessa perspectiva que Lukács reconstrói o estatuto ontológico da reificação, do fetichismo e da alienação. Esses fenômenos não devem ser concebidos como ilusões puramente subjetivas nem como forças misteriosas que se impõem exteriormente à sociedade. Tal interpretação permaneceria prisioneira, ora de um psicologismo, ora de uma metafísica. Sua origem deve ser buscada na própria estrutura objetiva da práxis social.


A reificação, o fetichismo e a alienação surgem quando os resultados da atividade humana retornam aos próprios indivíduos sob a forma de poderes aparentemente independentes de sua vontade.


Essa aparência, contudo, não constitui uma ficção arbitrária. Ela corresponde objetivamente à forma assumida pelas mediações sociais.


As formas fetichizadas são aquilo que Lukács denomina sekundäre Spiegelbilder: ["reflexos secundários"] reflexos secundários de uma realidade objetiva cuja essência permanece velada.


O fetichismo não cria essa realidade; limita-se a reproduzi-la de maneira invertida.


A reificação não inventa as relações sociais; exprime-as segundo a forma que elas assumem na experiência imediata dos indivíduos. A alienação tampouco deriva de um erro intelectual suscetível de ser corrigido apenas pelo conhecimento; ela emerge das formas historicamente determinadas pelas quais a própria práxis organiza a reprodução da vida social.


É precisamente aqui que se revela a profunda unidade entre a ontologia da práxis e a teoria lukacsiana da Versachlichung [reificação], da Verdinglichung [coisificação] e do fetichismo. Essas categorias não designam apenas modalidades ideológicas da consciência, mas momentos objetivos do ser social.


Os homens produzem relações que escapam à sua compreensão imediata; essas relações retornam posteriormente à consciência sob formas autonomizadas, invertidas e aparentemente independentes. A consciência fetichizada constitui, assim, a forma subjetiva correspondente a uma objetividade que produz mais determinações do que aquelas que seus próprios agentes conseguem apreender.


Sob essa perspectiva, a fórmula Sie wissen das nicht, aber sie tun es deixa definitivamente de pertencer apenas ao contexto da análise da mercadoria. Ela converte-se numa categoria ontológica de alcance geral.


Os homens produzem coletivamente estruturas sociais que governam sua existência sem que possuam consciência adequada de sua constituição essencial. Sua atividade permanece consciente quanto aos fins imediatos que orientam a ação singular, mas inconsciente quanto às determinações históricas universais que ela simultaneamente reproduz.


É justamente essa dissociação constitutiva entre a consciência teleológica dos agentes e a objetividade causal da totalidade social que fornece o fundamento ontológico para compreender a gênese do fetichismo, da alienação, da reificação e da coisificação no interior do ser social.


[continua]


 
 
 

Comentários


bottom of page