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Lukács e a expressão “Não sabem, mas o fazem”-2

  • há 2 dias
  • 23 min de leitura


Nesta segunda postagem da série, analisamos as primeiras ocorrências da célebre frase "Sie wissen das nicht, aber sie tun es" na "Ontologia do Ser Social", de György Lukács, tomando como referência a edição bilíngue publicada pelo Coletivo Veredas. A partir do levantamento realizado diretamente sobre o texto original em alemão, identificamos doze passagens na "Ontologia" em que Lukács retoma ou faz menção explícita a essa conhecida formulação de Marx. Nos "Prolegomenos" Lukács faz menção explicita à frase seis vezes.


Nosso objetivo é examinar essas ocorrências uma a uma, procurando evidenciar como Lukács amplia progressivamente o alcance da fórmula marxiana e, a partir dela, elabora categorias fundamentais para uma ontologia da práxis e do ser social.


Ao contrário do procedimento adotado em nossa análise do termo Sehnsucht, na qual cotejamos sistematicamente a tradução portuguesa com o texto original em alemão, nesta série dedicada à expressão "Sie wissen das nicht, aber sie tun es" optamos por reproduzir, na versão publicada das postagens, apenas a tradução de Sérgio Lessa. Essa opção decorre, em parte, do próprio objeto da análise. Enquanto um termo isolado admite um tratamento filológico mais concentrado, a interpretação de uma frase exige considerar um conjunto muito mais amplo de determinações sintáticas, semânticas e contextuais presentes no original alemão, cuja exposição integral tornaria a leitura desnecessariamente extensa e desviaria o foco da discussão filosófica. Ainda assim, toda a análise foi elaborada a partir do confronto sistemático com o texto alemão da "Ontologia do Ser Social". As observações filológicas dele derivadas permanecem como fundamento interpretativo de nossas leituras, embora não sejam reproduzidas integralmente no texto aqui publicado.


Como mostramos na postagem inaugural desta série, trata-se de uma das fórmulas mais fecundas de toda a reflexão lukacsiana. Embora tenha sido formulada por Marx no contexto específico da crítica ao fetichismo da mercadoria, Lukács lhe confere um alcance ontológico muito mais amplo. A sentença deixa de designar apenas um mecanismo característico da sociedade capitalista para tornar-se uma chave de compreensão da própria natureza da práxis humana e da constituição do ser social.


1

Diz Lukács: “Essa unidade de capacidade de desenvolvimento e de insistência nas determinações fundamentais, de elasticidade e solidez, torna esse caso de apreensão ontológica do mundo na linguagem adequado para também acompanhar as variações essenciais que esse tipo de relação dos objetos com o sujeito no ser social pode assumir — como formas de expressão, como órgãos de conscientização, como capacidade de preparação e realização das colocações e decisões necessárias à prática. É claro que nossa formulação não é realmente exata, na medida em que as fixações linguísticas dos momentos do metabolismo da sociedade com a natureza, consideradas acima, já eram de caráter social em sua essência. Em cada ato de trabalho, objetivamente, já está contida a transição realizada do mero conhecido para o reconhecido, mesmo que não receba necessariamente um reflexo consciente e pensado. Para o trabalho, e sobretudo para ele, vale a afirmação fundamental de Marx sobre a prática humana: “Eles não sabem disso, mas o fazem.” O conhecimento que se desenvolve a partir do mero estar familiarizado pode, na prática do trabalho, tornar-se rotina, tornar-se fixação reflexa, tornar-se algo evidente, sem que os atos de conscientização que fixam e concretizam sua objetividade precisem ser diretamente retidos pelos homens como tais em pensamento. Na objetividade da prática, porém, esse processo — do signo à linguagem, do mero conhecido ao mais ou menos reconhecido, da reação imediata a eventos ao “comportamento” diante de complexos e processos objetivos — já deve estar realizado, para poder ser fixado como fundamento da prática do trabalho. Pois só assim o homem se torna capaz de se comportar de modo adequado diante de complexos de ser que, em sua objetividade, já são exclusivamente ou predominantemente produtos do ser social surgido. A forma qualitativamente nova de ser da genericidade na sociedade mostra-se logo de início no fato de que ela é pluralista, isto é, de que justamente na prática imediata se diferencia desde o começo em grupos unitários menores de caráter genérico, diante dos quais a genericidade humana geral parece existir imediatamente apenas como abstração, embora — em última instância — seja essa força que determina a direção das tendências principais” [p.48]


Nessa longa passagem da "Ontologia do Ser Social", György Lukács procura explicar a gênese da consciência humana, da linguagem e da genericidade social a partir da categoria fundante do trabalho. Seu objetivo é demonstrar que a constituição do ser social não pode ser compreendida nem como simples prolongamento da natureza biológica nem como resultado exclusivo da consciência. Ao contrário, o ser social emerge por meio de um processo histórico em que trabalho, linguagem, consciência e vida coletiva se desenvolvem conjuntamente, formando uma totalidade orgânica.


O ponto de partida da análise é a linguagem. Lukács observa que a linguagem possui uma característica singular: ela combina, ao mesmo tempo, capacidade de transformação e permanência estrutural. É suficientemente flexível para acompanhar as mudanças históricas da sociedade, mas suficientemente estável para conservar e transmitir experiências acumuladas ao longo das gerações.


Essa unidade entre elasticidade e solidez faz da linguagem um instrumento privilegiado para expressar e acompanhar as múltiplas formas que a relação entre sujeito e objeto assume no interior do ser social. A linguagem não é apenas um meio de comunicação; ela é um órgão da consciência social, um instrumento por meio do qual os homens tornam o mundo consciente para si mesmos, preparam suas ações práticas e realizam as decisões necessárias à reprodução da vida social.


Entretanto, Lukács faz uma importante correção metodológica.


Quando fala da passagem do signo à linguagem ou do conhecido ao reconhecido, ele adverte que essa formulação pode ser imprecisa caso sugira a existência de uma etapa puramente natural anterior à dimensão social. Desde o início, afirma ele, as fixações linguísticas relacionadas ao metabolismo entre sociedade e natureza já possuem caráter social. Isso ocorre porque o próprio trabalho, mesmo em suas formas mais elementares, já constitui uma atividade social em sua essência. Não existe um trabalho puramente natural que depois se torne social; o trabalho é, desde sua origem, um processo mediado socialmente.


É nesse contexto que Lukács recorre à frase que estamos analisando, uma das formulações mais célebres de Marx. Referindo-se ao trabalho, ele afirma que vale para ele, mais do que para qualquer outra esfera da vida humana, a observação marxiana: “Sie wissen das nicht, aber sie tun es” — “Eles não sabem disso, mas o fazem.”


Como vimos na postagem 1, a frase aparece originalmente em O Capital, no capítulo sobre o fetichismo da mercadoria, mas Lukács lhe atribui um alcance ontológico muito mais amplo. Ela expressa a prioridade da prática sobre a consciência.


Os homens realizam inúmeras operações corretas, eficazes e objetivamente adequadas muito antes de possuírem uma compreensão teórica dos fundamentos dessas operações. O agricultor cultivava a terra muito antes do surgimento da agronomia; o artesão manipulava materiais antes da existência da física; o curandeiro utilizava plantas medicinais antes da química ou da farmacologia. Em todos esses casos existe um conhecimento objetivo incorporado à prática, embora ainda não plenamente tematizado pela consciência.


Por isso Lukács distingue entre o que é simplesmente conhecido e aquilo que é efetivamente reconhecido. O conhecido corresponde àquilo com que os homens convivem e que dominam praticamente. O reconhecido, por sua vez, é aquilo que foi elevado ao nível da consciência explícita e da compreensão conceitual. Entre uma condição e outra existe um vasto processo histórico.


Durante longos períodos, os seres humanos operam adequadamente sobre a realidade sem possuir uma teoria que explique suas próprias ações. A prática produz um saber objetivo que pode cristalizar-se em hábitos, rotinas, tradições e reflexos. Esses conhecimentos funcionam eficazmente no interior da vida social mesmo sem serem continuamente tematizados ou refletidos pelos indivíduos. A objetividade social, portanto, é sempre mais rica do que a consciência imediata que os homens possuem dela.


Essa tese possui enorme importância para a ontologia lukacsiana. Ela significa que a realidade social não depende da consciência subjetiva para existir. As relações sociais objetivas constituem-se e reproduzem-se por meio da prática humana, mesmo quando os indivíduos não compreendem plenamente sua natureza.


Em outras palavras, a sociedade produz formas objetivas que transcendem o nível da consciência imediata dos sujeitos. Isso vale tanto para as categorias econômicas analisadas por Marx quanto para a linguagem, os costumes, as instituições e os modos de vida.


Lukács prossegue afirmando que, para que o trabalho possa existir enquanto atividade especificamente humana, já deve ter ocorrido uma transformação decisiva. É necessário que se realize a passagem do signo à linguagem, do conhecido ao reconhecido e da reação imediata ao comportamento consciente. Aqui emerge uma distinção fundamental entre o ser biológico e o ser social. O animal reage aos estímulos do ambiente. O homem, ao contrário, desenvolve a capacidade de orientar sua ação em função de representações do objeto e de finalidades previamente concebidas. Em vez de responder apenas a estímulos imediatos, ele passa a comportar-se diante da realidade. Essa capacidade de comportamento mediado por representações conscientes constitui uma das bases do trabalho humano.


A referência implícita é o famoso exemplo de Marx que compara o arquiteto à abelha. Antes de construir, o arquiteto já possui idealmente a forma daquilo que pretende produzir. A finalidade existe primeiro na consciência para depois realizar-se objetivamente. Essa antecipação ideal do resultado é inseparável do desenvolvimento da linguagem e da consciência. Trabalho, linguagem e pensamento constituem, portanto, momentos de um mesmo processo ontológico.


A partir daí, nesta passagem, Lukács introduz uma reflexão sobre a genericidade humana [Gattungsmäßigkeit], categoria herdada dos escritos de Marx sobre o homem como Gattungswesen, isto é, ser genérico. O homem é um ser cuja existência individual está ligada à totalidade da espécie. Contudo, essa genericidade não aparece imediatamente à consciência. Na natureza orgânica, cada indivíduo é diretamente um exemplar de sua espécie. Um lobo é imediatamente um lobo; uma onça é imediatamente uma onça. A situação humana é inteiramente distinta. Com o surgimento da sociedade, a humanidade fragmenta-se em tribos, clãs, comunidades locais, povos e grupos particulares. O indivíduo não se reconhece inicialmente como membro da humanidade em geral, mas como integrante de uma dessas formações sociais específicas.


É por isso que Lukács afirma que a genericidade humana assume desde o início um caráter pluralista. Diferentemente do que ocorre na natureza, a humanidade não aparece como uma unidade imediata. Ela surge historicamente dividida em múltiplas formas particulares de vida coletiva. A consciência genérica do indivíduo desenvolve-se primeiro através dessas formas parciais. O homem toma consciência de si como membro de sua tribo, de seu clã ou de seu povo muito antes de reconhecer sua pertença ao gênero humano universal.

Essa fragmentação possui consequências profundas.


Os membros de diferentes comunidades frequentemente não se reconhecem mutuamente como pertencentes à mesma humanidade. Daí a referência de Lukács a fenômenos como o canibalismo e as guerras tribais. Do ponto de vista da consciência imediata, o outro pode aparecer como um ser estranho, hostil ou mesmo não humano. Ontologicamente, porém, todos pertencem à mesma genericidade humana. Surge assim uma contradição entre o ser e a consciência. Objetivamente existe uma humanidade comum; subjetivamente essa unidade ainda não é reconhecida.


Esse aspecto revela um dos núcleos mais importantes da ontologia de Lukács.


A universalidade humana não é um dado imediato nem uma essência abstrata presente na consciência desde o início. Ela é uma conquista histórica. A humanidade só se torna consciente de si mesma como gênero universal através de um longo e contraditório processo de desenvolvimento social. A história humana pode ser vista, em grande medida, como o movimento pelo qual essa genericidade inicialmente fragmentada busca formas cada vez mais amplas de universalização.


É nesse contexto que Lukács retorna à linguagem.


A linguagem expressa exatamente a mesma estrutura ontológica da genericidade humana. Assim como a humanidade surge dividida em múltiplos grupos, também a linguagem aparece desde o início sob formas plurais. Não existe uma língua humana originária única. Existem inúmeras línguas, cada uma vinculada às formas concretas de vida das comunidades históricas particulares. O pluralismo linguístico reflete diretamente o pluralismo da própria genericidade humana. Contudo, por trás da multiplicidade das línguas existe uma capacidade universal de linguagem, assim como por trás da multiplicidade dos povos existe a unidade ontológica da humanidade.


A conclusão de Lukács é profundamente dialética. O trabalho produz uma objetividade social que ultrapassa continuamente a consciência imediata dos indivíduos. Os homens fazem antes de compreenderem plenamente aquilo que fazem. A partir dessa prática surgem a linguagem, a consciência e a genericidade humana.


Entretanto, essa genericidade aparece inicialmente de forma fragmentada, mediada por comunidades particulares e por múltiplas formas linguísticas. A história do ser social é, portanto, o processo contraditório pelo qual a humanidade transforma progressivamente essa unidade objetiva ainda inconsciente em uma autoconsciência cada vez mais universal de seu próprio ser genérico.


A fórmula de Marx — “Eles não sabem disso, mas o fazem” — adquire, assim, um significado ontológico profundo: a prática constitui o fundamento da vida social e cria incessantemente determinações objetivas que antecedem sua compreensão consciente, mas que ao mesmo tempo produzem as condições históricas para que essa compreensão venha a surgir.


2

Diz Lukács: “Crítica significa aqui: crítica ontológica das tentativas logicistas (mesmo que não explicitamente em Hegel), epistemológicas, metodológicas abstratas etc., de tomar decisões essenciais sobre o ser e sobre a própria coisa, em vez de buscar seus fundamentos no próprio ser em processo. A já repetidamente citada constatação de Marx, de que as categorias não são primariamente abstrações realizadas no pensamento, mas formas de existência, determinações do ser, pode neste nível de nossa compreensão do problema fundamental ser organicamente vinculada à outra determinação igualmente fundamental sobre a atividade social e histórica dos homens: “Eles não sabem disso, mas o fazem.” Já mostramos em contextos anteriores que a influência real das categorias é muito mais antiga do que qualquer intuição de sua verdadeira essência. Ao agir na vida, os homens só podem realizar seus objetivos e percorrer os caminhos escolhidos para alcançá-los dentro das determinações de objetividade existentes e em formação. A elementaridade da prática real exige (“sob pena de ruína”, como Marx descreve a necessidade socialmente eficaz) uma permanente confrontação prática e, por isso, também de consciência — às vezes formulada em pensamento, e em determinadas situações histórico-sociais até mesmo teoricamente — com as determinações objetivas dadas. Quer os homens estejam conscientes disso ou não (na esmagadora maioria dos casos não estão), isso significa ao mesmo tempo um efeito das categorias sobre as atividades humanas no sentido mais amplo da vida social. Já observamos anteriormente como uma reação prática correta, por exemplo, à relação categorial entre gênero e exemplar de gênero era inevitável até mesmo para a vida dos animais, e mostramos em nossas análises anteriores que esse cálculo ativo imediato com tais complexos categoriais podia levar a ações praticamente corretas, até mesmo a formulações mentais no nível cotidiano, como na criação de animais domésticos. Esses exemplos poderiam ser facilmente multiplicados. Eles mostram que a confrontação prática — e muitas vezes também teórica — do homem com a objetividade e, portanto, com a constituição categorial de seu ambiente é inevitável. Também demonstram que, em muitos casos em que o sucesso prático das atividades humanas depende diretamente de uma avaliação relativamente correta de certas relações concretas objetivas-categoriais, a própria prática força determinadas generalizações. Mas apenas dentro de certos limites.” [p. 220]


A passagem em questão ocupa um lugar decisivo na Ontologia do Ser Social, pois é nela que Lukács explicita o significado da crítica ontológica e, simultaneamente, demarca sua posição filosófica em relação às correntes que pretendem fundamentar a realidade a partir da lógica, da epistemologia ou de construções metodológicas abstratas.


O trecho condensa um dos núcleos mais profundos da leitura lukacsiana de Marx: as categorias não constituem produtos da atividade subjetiva do pensamento, mas determinações objetivas do ser, operantes na realidade muito antes de se converterem em objeto de consciência ou elaboração conceitual.


Quando Lukács afirma que a crítica em questão é uma crítica ontológica, ele dirige sua argumentação contra todas as formas de filosofia que procuram resolver os problemas do ser recorrendo exclusivamente à coerência lógica dos conceitos ou aos pressupostos do conhecimento.


O alvo imediato dessa objeção não se restringe ao neokantismo, ao positivismo ou ao empirismo moderno. Ela alcança igualmente aspectos da tradição idealista alemã, inclusive determinados momentos da filosofia hegeliana. O equívoco comum a essas correntes consiste em inverter a relação entre pensamento e realidade: procuram deduzir o ser a partir das categorias do pensamento, quando, para Marx e Lukács, o procedimento rigorosamente materialista exige reconstruir as categorias do pensamento a partir das determinações objetivas do próprio ser.


A expressão empregada por Lukács — "o próprio ser em processo" [im prozessierenden Sein selbst] — remete precisamente ao caráter histórico e dinâmico da realidade social. O ser não designa uma substância imóvel nem um conjunto de objetos acabados. Sua própria estrutura é processual. Ele se constitui como Prozess, como Werden, como movimento permanente de transformação.


Em consequência, nenhuma categoria pode ser compreendida fora de sua gênese histórica e de seu desenvolvimento concreto. Seu significado emerge apenas quando acompanhamos a maneira pela qual ela se forma, se modifica e adquire eficácia objetiva no interior da reprodução social.


É nesse horizonte que Lukács recupera uma das formulações mais decisivas de Marx nos Grundrisse: as categorias são Daseinsformen e Seinsbestimmungen, isto é, formas de existência e determinações do ser. Essa proposição, formulada na Introdução de 1857, rompe de maneira radical com a tradição idealista.


Trabalho, valor, dinheiro, capital, propriedade, Estado ou linguagem não existem porque o pensamento os produziu conceitualmente. Ao contrário, possuem existência objetiva nas relações sociais antes mesmo de serem apreendidos teoricamente. O conhecimento não cria essas categorias; procura apenas reproduzi-las idealmente enquanto determinações efetivas da realidade.


É precisamente nesse ponto que Lukács estabelece uma conexão imediata com a célebre passagem de Marx: "Sie wissen das nicht, aber sie tun es." A referência está longe de possuir apenas um valor ilustrativo. Ela introduz um princípio ontológico de alcance muito mais amplo do que aquele geralmente associado ao fetichismo da mercadoria.


Embora a frase apareça originalmente no contexto da análise da forma mercadoria, Lukács identifica nela uma característica constitutiva da própria práxis social.


Os humanos vivem, trabalham, produzem, trocam, educam seus filhos, instituem formas políticas e organizam a vida coletiva muito antes de possuírem um conhecimento teórico das determinações objetivas que estruturam essas atividades. A eficácia das categorias antecede sua tematização consciente. Elas atuam na prática social independentemente de serem reconhecidas como tais. Trata-se de uma das teses centrais de toda a ontologia lukacsiana.


Quando um agricultor seleciona sementes para o cultivo, quando um criador escolhe animais destinados à reprodução ou quando um artesão distingue a matéria-prima adequada ao seu ofício, cada um deles opera praticamente com determinações objetivas do ser, ainda que jamais tenha formulado qualquer teoria a respeito delas. A relação prática com essas determinações precede sua elaboração conceitual. Por isso Lukács observa que a influência efetiva das categorias é incomparavelmente mais antiga do que qualquer conhecimento consciente de sua essência.


Não é a categoria que nasce do pensamento, mas o pensamento que surge como tentativa de apreender categorias cuja eficácia objetiva já se manifesta na realidade. Em outras palavras, a atividade teórica constitui um momento derivado de um processo ontológico anterior.


É a própria prática que obriga os indivíduos a reconhecer determinadas regularidades do ser. Quando Marx afirma que os homens agem "sob pena de ruína" [bei Strafe des Untergangs], não está formulando uma metáfora retórica, mas indicando o caráter coercitivo da objetividade.


Um agricultor pode desconhecer a biologia vegetal, porém não pode escapar indefinidamente às consequências objetivas das leis que regem o crescimento das plantas. Um caçador pode ignorar qualquer sistematização zoológica e, ainda assim, será constrangido a aprender o comportamento efetivo dos animais se quiser sobreviver. De modo semelhante, um comerciante pode jamais ter lido uma teoria do valor, mas não pode permanecer completamente indiferente aos movimentos objetivos do mercado. A realidade impõe continuamente correções à ação humana. A objetividade resiste às ilusões subjetivas, e a reprodução da vida exige um confronto incessante com suas determinações.


É justamente esse o significado da afirmação lukacsiana de que os homens somente realizam seus fins dentro das determinações objetivas existentes.


O termo Bestimmung adquire aqui um papel decisivo. A liberdade não consiste na suspensão ou negação dessas determinações, tampouco em sua simples aceitação passiva. Ela se realiza na medida em que tais determinações são conhecidas e incorporadas conscientemente à práxis.


A objetividade não elimina a liberdade; constitui a condição de sua efetivação.


É nesse contexto que Lukács introduz a relação entre gênero e exemplar de gênero.


A referência não possui caráter meramente lógico ou classificatório. Ela evidencia que mesmo o mundo animal exige uma forma elementar de apreensão categorial da realidade. Um predador distingue sua presa dos demais objetos presentes no ambiente; um animal doméstico reconhece indivíduos pertencentes à sua própria espécie. Essas operações práticas já pressupõem relações categoriais objetivas.


No ser social, entretanto, ocorre um salto qualitativo. O homem não apenas responde praticamente a essas determinações, mas pode transformá-las em objeto de reflexão consciente. A domesticação de animais constitui um exemplo particularmente expressivo. Muito antes do surgimento da genética moderna, criadores desenvolveram procedimentos empiricamente eficazes para lidar com relações de espécie, reprodução, hereditariedade e seleção. A ausência de fundamentação científica não impedia que essas determinações objetivas fossem praticamente reconhecidas e utilizadas.


A própria prática produz formas de universalização. Nenhuma sociedade pode reproduzir-se limitando-se ao acúmulo de experiências absolutamente singulares. Toda ação bem-sucedida exige algum grau de generalização. A repetição de situações semelhantes permite identificar regularidades, formular regras práticas e construir conceitos cotidianos.


É desse processo que emerge aquilo que Lukács denomina pensamento cotidiano.


Longe de representar uma forma inferior de conhecimento simplesmente destinada a ser descartada, o pensamento cotidiano possui plena legitimidade ontológica. Ele nasce diretamente da prática social e desempenha uma função indispensável na orientação da vida ordinária. Sua validade, entretanto, permanece circunscrita ao horizonte da experiência imediata.


À medida que a complexidade histórica da sociedade aumenta, essa forma espontânea de conhecimento revela seus limites. Chega um momento em que as conexões essenciais da realidade deixam de ser imediatamente perceptíveis. As mediações tornam-se demasiado numerosas e complexas para serem apreendidas apenas pela experiência direta. É precisamente nesse ponto que, novamente "sob pena de ruína", a própria reprodução da vida social exige uma ultrapassagem do pensamento cotidiano.


Abre-se então um dos grandes temas da “Ontologia do Ser Social”. O desenvolvimento histórico impulsiona progressivamente a passagem da experiência imediata para formas cada vez mais mediadas de conhecimento. É desse movimento que surgem a matemática, a geometria, a astronomia e, posteriormente, o conjunto das ciências modernas.


Nesse contexto, Lukács introduz uma categoria decisiva: a Entanthropomorphisierung.


O conceito designa o processo de desantropomorfização do conhecimento, isto é, a progressiva libertação da compreensão da realidade em relação às projeções espontâneas derivadas da experiência humana imediata. O pensamento cotidiano tende naturalmente a interpretar o mundo segundo analogias antropomórficas, tomando a experiência subjetiva como medida universal dos fenômenos. A ciência realiza precisamente o movimento inverso. Ela busca apreender os objetos segundo suas determinações próprias, independentemente das aparências oferecidas à percepção imediata.


A geometria não descreve o espaço tal como ele simplesmente se apresenta aos sentidos. A astronomia ultrapassa a aparência do céu observada da Terra. A física não se limita às impressões subjetivas produzidas pelos fenômenos naturais. Em todos esses casos, o conhecimento científico procura reconstruir estruturas objetivas cuja existência transcende a experiência ordinária.


Por essa razão, Lukács sustenta que o próprio desenvolvimento das forças produtivas, a ampliação da divisão social do trabalho e o aprofundamento da socialização da existência reduzem continuamente o alcance cognitivo da experiência imediata.


Quanto mais complexa se torna a sociedade, menos suficiente se revela a observação direta como fundamento da prática. As conexões essenciais da realidade afastam-se progressivamente da esfera da evidência cotidiana. A economia moderna não pode ser compreendida pela observação de um mercado local; o mesmo ocorre com a física moderna, a biologia molecular ou os sistemas tecnológicos altamente integrados.


A consequência ontológica desse processo é profunda. O desenvolvimento histórico converte a mediação teórica em condição objetiva da própria reprodução social. A ciência deixa, assim, de constituir um empreendimento reservado à curiosidade intelectual para tornar-se uma exigência inscrita no metabolismo do ser social.


A tese que percorre toda essa passagem pode, então, ser formulada com precisão:


A práxis humana desenrola-se sempre no interior de estruturas categoriais objetivas que antecedem a consciência e condicionam a ação dos indivíduos. Os homens operam continuamente com essas categorias antes de conhecê-las teoricamente, sendo permanentemente constrangidos pela objetividade a confrontar-se com elas. O pensamento cotidiano emerge desse enfrentamento prático, mas a crescente complexidade histórica do ser social torna inevitável a formação de modalidades superiores de conhecimento, capazes de apreender mediações que escapam à experiência imediata.


Toda teoria verdadeiramente materialista deve, por conseguinte, partir da ontologia. As categorias não constituem formas subjetivas que organizam ou produzem a realidade; são formas objetivas do próprio ser, cuja reprodução conceitual representa a tarefa específica do pensamento. É precisamente essa inversão radical — herdada diretamente de Marx e desenvolvida por Lukács — que confere fundamento à crítica ontológica e a coloca em oposição a todas as filosofias que procuram derivar o ser da lógica, da epistemologia ou da metodologia, em vez de compreender o pensamento como expressão das determinações efetivas da realidade objetiva.


3

Diz Lukács: “A frequentemente por nós citada caracterização das atividades sociais dos seres humanos, »não sabem, mas fazem«, significa, em uma observação mais próxima, que os seres humanos que agem podem não ter uma consciência apropriada tanto das causas, quanto das consequências e, menos ainda, da essência que formam o objeto ou instrumento (ou ambos) de suas atividades, do verdadeiro ser; todavia, aqueles momentos do seu complexo ontológico que são, antes de tudo, relevantes para sua atividade em questão, certamente — em correspondência com as respectivas situações sociais concretas — são capazes de ser elevados a momentos conscientes de sua práxis. O decisivamente novo com isso não é que a partir de agora o ser atualmente dado, uma vez que se torna uma questão imediata para a práxis (no sentido mais amplo), tenha de incondicionalmente, sob pena de ruína, ser corretamente dominado pela teoria, mas apenas que, ao este recorte do ser como um todo ser incorporado em uma »imagem de mundo« da práxis, cuja verdade ontológica pode, de fato, permanecer objetivamente extremamente problemática, esses falsos reflexos [Spiegelungen], contudo, podem -- e de fato, enquanto ser, mesmo com frequência como um ser mais elevado, reconhecido e dominado -- figurar na consciência, com a qual o processo de reprodução da sociedade é, na prática, levado adiante.298 Assim, no ser social, algo de todo não existente, mas cujas representações (Vorstellungen) dirigem e determinam praticamente as atividades sociais, pode desempenhar importante papel como momento do ser. Essa situação paradoxal já foi claramente reconhecida por Marx bem no início de sua atividade literária. Na Dissertação, precisamente lá onde a existência de Deus é o mais decisivamente refutada, como parte orgânica de sua linha de pensamento, encontra-se: »O velho Moloch não reinou? O Apolo de Delfos não era uma força real na vida dos gregos?«” [p. 224]


A sentença "Sie wissen das nicht, aber sie tun es" converte-se em Lukács numa chave interpretativa para compreender a própria estrutura da práxis social, a relação entre consciência e objetividade e, finalmente, o estatuto ontológico da ideologia.


A própria abertura do trecho anuncia esse deslocamento. Lukács não apresenta a fórmula como uma lei particular do modo de produção capitalista, tampouco como uma característica exclusiva da circulação mercantil. Ele a define como uma Charakteristik der gesellschaftlichen Aktivitäten der Menschen, isto é, como uma caracterização das atividades sociais dos homens enquanto tais.


A escolha do termo Charakteristik merece atenção. Não se trata de um conceito ocasional, mas de uma determinação estrutural da existência social. A fórmula de Marx passa, assim, a designar um traço constitutivo da práxis humana: os indivíduos realizam incessantemente atividades cujo fundamento ontológico ultrapassa amplamente aquilo de que têm consciência.


Essa universalização, entretanto, não significa que Lukács dissolva a especificidade histórica da análise marxiana. Ao contrário, ele a aprofunda por meio de uma diferenciação rigorosa entre diversos níveis de desconhecimento.


Ao afirmar que os homens atuantes [die handelnden Menschen] não podem tornar conscientes "weder die Ursachen, noch die Folgen und erst recht nicht das Wesen" ("nem as causas, nem as consequências e muito menos a essência") daquilo que constitui objeto ou instrumento de suas atividades, Lukács introduz uma gradação cuidadosamente construída.


Em primeiro lugar, o sujeito ignora as causas profundas dos processos nos quais intervém; em seguida, desconhece a totalidade de suas consequências; por fim — e esse é o aspecto decisivo — permanece distante do próprio Wesen dessas determinações. A ignorância prática não é apenas causal ou empírica. Ela alcança o plano da essência.


A formulação seguinte aprofunda ainda mais essa perspectiva ao afirmar que os indivíduos não conseguem tornar consciente o objeto "seinem wahren Sein angemessen" {“adequado ao seu verdadeiro ser”).


A escolha das palavras é reveladora. Lukács não emprega termos como realidade [Realität], objeto [Objekt] ou fato [Tatsache], mas recorre novamente ao conceito de Sein. O problema deixa, assim, de pertencer exclusivamente ao domínio da teoria do conhecimento. A dificuldade consiste em apreender o objeto conforme o seu verdadeiro ser, isto é, segundo sua constituição ontológica efetiva.


O adjetivo angemessen — adequado, correspondente, conforme — indica precisamente essa relação de correspondência entre conhecimento e ser. O conhecimento cotidiano, portanto, não fracassa porque seja simplesmente falso, mas porque permanece necessariamente inadequado à complexidade do wahren Sein (verdadeiro ser).


Seria um equívoco, contudo, concluir daí que a práxis cotidiana se torna impossível ou arbitrária. É exatamente nesse ponto que Lukács introduz uma mediação decisiva. Embora os homens não apreendam o complexo objetivo em sua totalidade, eles conseguem elevar à consciência [in bewußte Momente ihrer Praxis zu erheben] aqueles momentos do Seinskomplex (complexo do ser) que são relevantes para a atividade concreta em questão.


A categoria de Seinskomplex desempenha aqui um papel fundamental. O ser nunca aparece como uma unidade simples ou imediatamente transparente; ele constitui um complexo articulado de determinações. Nenhuma prática exige o domínio integral desse complexo. Basta que determinados momentos, historicamente condicionados e funcionalmente necessários, sejam incorporados à consciência prática.


O verbo erheben (elevar) torna particularmente visível essa dinâmica. Lukács não escreve simplesmente que esses momentos "se tornam conscientes". Eles são "elevados" à consciência. O movimento é significativo porque preserva a anterioridade ontológica do ser em relação ao pensamento.


Não é a consciência que produz as determinações objetivas; é a própria práxis que, sob determinadas condições históricas, eleva certos aspectos do ser à esfera da consciência. A relação entre ser e conhecimento permanece rigorosamente materialista: a consciência aparece como um momento derivado da reprodução prática da vida social.


É precisamente nesse contexto que Lukács introduz uma das formulações mais originais de toda a passagem. O decisivo — escreve ele — não consiste no fato de que o fragmento da realidade imediatamente implicado na prática deva ser teoricamente dominado de maneira correta "bei Strafe des Untergangs" (sob pena de ruína). A expressão marxiana, utilizada em outras passagens da Ontologia, continua presente como pano de fundo: a realidade objetiva impõe-se coercitivamente à atividade humana.


Entretanto, Lukács desloca o eixo da argumentação. O elemento verdadeiramente novo não reside na posse de um conhecimento ontologicamente verdadeiro, mas na incorporação desse recorte do ser a um determinado Weltbild der Praxis (cosmovisão da prática). Essa expressão possui extraordinária riqueza conceitual. Lukács não fala simplesmente em Weltbild, mas em um "imagem de mundo da prática". Toda sociedade organiza sua reprodução mediante imagens de mundo que permitem orientar a ação coletiva. A questão decisiva consiste em que a eficácia prática dessas representações não depende necessariamente de sua verdade ontológica. Elas podem integrar adequadamente a práxis mesmo quando permanecem profundamente problemáticas do ponto de vista do ser.


É exatamente aí que a análise ultrapassa definitivamente o terreno da teoria do conhecimento e ingressa numa teoria ontológica da ideologia. Lukács afirma que a Seinswahrheit – a verdade do ser - dessas representações pode permanecer objetivamente extremamente problemática. A expressão Seinswahrheit merece atenção especial. Não se trata apenas de verdade em sentido lógico ou epistemológico, mas de verdade do ser, isto é, da correspondência efetiva entre representação e estrutura ontológica da realidade.


Ainda assim, mesmo representações destituídas dessa correspondência podem exercer uma função prática decisiva.


Daí decorre a importância da noção de falsche Spiegelungen [reflexos falsos]. As falsas reflexões da realidade não constituem simples ilusões privadas ou erros intelectuais sem consequências objetivas. Elas podem organizar efetivamente a reprodução social. A ideologia, nessa perspectiva, não é reduzida a mera falsidade. Ela adquire eficácia histórica precisamente porque participa da organização prática da vida coletiva. A reprodução do ser social pode realizar-se mediante formas de consciência que permanecem ontologicamente inadequadas e, não obstante, funcionalmente eficazes.


Essa concepção alcança seu ponto culminante quando Lukács afirma que tais representações podem "als Sein figurieren" (figurar como ser). A escolha do verbo figurieren é filologicamente reveladora. Não significa "ser", mas figurar como ser, desempenhar o papel de ser, apresentar-se como realidade efetiva. Trata-se de uma distinção extremamente sutil.


A representação falsa não adquire existência ontológica simplesmente porque é acreditada; ela passa a exercer funções reais no interior da reprodução social. A eficácia prática não elimina sua falsidade, mas tampouco é anulada por ela.


É justamente por isso que Lukács pode formular, logo em seguida, uma das proposições mais paradoxais de toda a Ontologia: "So kann im gesellschaftlichen Sein etwas gar nicht Seiendes... als Moment des Seins eine wichtige Rolle spielen." ("Assim, no ser social, algo que de modo algum é ente... pode desempenhar um papel importante como momento do ser.")


 À primeira vista, a afirmação parece contraditória. Como pode algo absolutamente inexistente [gar nicht Seiendes] desempenhar um papel no próprio ser?

A dificuldade desaparece quando se compreende a especificidade ontológica do ser social. Aquilo que não possui existência natural pode adquirir plena objetividade histórica na medida em que orienta práticas sociais efetivas.


Essa formulação prolonga e radicaliza uma das intuições mais profundas já presentes em Marx. Certas objetivações não existem como entidades naturais, mas existem enquanto objetivações sociais. Sua eficácia decorre precisamente da prática coletiva que as reproduz.

É por essa razão que Lukács recorre, de maneira extremamente significativa, à tese de doutorado de Marx sobre Demócrito e Epicuro. A citação — "Hat nicht der alte Moloch geherrscht? War nicht der delphische Apollo eine wirkliche Macht im Leben der Griechen?" ("Não reinou o velho Moloch? Não foi o Apolo délfico uma verdadeira força na vida dos gregos?") — não possui caráter ilustrativo. Ela demonstra que Moloch e Apolo, embora destituídos de existência objetiva enquanto seres naturais, exerceram efetivamente poder histórico.


O verbo utilizado por Marx, geherrscht, não poderia ser mais expressivo. Essas divindades governaram sociedades inteiras, organizaram comportamentos, legitimaram instituições e orientaram práticas concretas. Sua inexistência ontológica natural não impediu sua realidade histórica enquanto objetivações do ser social.


É nesse ponto que a célebre fórmula "Sie wissen das nicht, aber sie tun es" alcança sua significação mais ampla. Em “O Capital”, ela descrevia a situação dos produtores de mercadorias que realizam objetivamente trabalho abstrato sem conhecer essa determinação. Na “Ontologia do Ser Social”, Lukács conserva integralmente esse significado, mas o reinscreve numa teoria muito mais abrangente da práxis.


O desconhecimento deixa de referir-se apenas ao funcionamento da economia mercantil e passa a caracterizar a relação constitutiva entre consciência e ser social. Os indivíduos jamais atuam apoiados numa apreensão exaustiva das determinações objetivas que estruturam sua existência. Operam sempre a partir de um conhecimento parcial, seletivo e historicamente condicionado dos Seinskomplexe nos quais estão inseridos.


Mais do que isso, Lukács demonstra que a reprodução da sociedade não depende exclusivamente de representações verdadeiras. Ela pode desenvolver-se sob a orientação de Spiegelungen (reflexos) ontologicamente falsas que, incorporadas a um determinado Weltbild der Praxis, adquirem plena eficácia histórica.


A consciência, portanto, não constitui o fundamento da práxis, mas um de seus momentos derivados. O ser social revela-se suficientemente complexo para integrar, como componentes efetivos de sua própria dinâmica, formas simbólicas, religiosas, jurídicas, políticas e ideológicas que não correspondem ao wahren Sein (verdadeiro ser) e, ainda assim, exercem um papel constitutivo na reprodução da vida social.


O "não saber" presente na sentença de Marx deixa, assim, de designar uma deficiência meramente cognitiva. Ele exprime uma condição ontológica da existência histórica. Os homens produzem e reproduzem continuamente o mundo social mediante categorias cuja essência desconhecem integralmente e, ao mesmo tempo, são orientados por objetivações que podem carecer de fundamento ontológico sem perder, por isso, sua eficácia prática. 


É precisamente nessa articulação entre Sein, Bewußtsein, Praxis, Spiegelung, Ideologie e Weltbild der Praxis que Lukács oferece uma das interpretações filosoficamente mais fecundas da fórmula marxiana, elevando-a da crítica do fetichismo da mercadoria ao estatuto de princípio fundamental para a compreensão da ontologia do ser social.

Na próxima postagem daremos prosseguimento à análise de ocorrências na “Ontologia do Ser Social” da frase “Não sabem, mas o fazem”.


[continua]

 

 

 


 
 
 

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