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Reificação, coisificação e fetichismo



Irei explicar nesta postagem, os conceitos de "reificação", "coisificação" (ou "personificação das coisas") e "fetichismo" utilizando a perspectiva da crítica da economia política de Karl Marx. Tais conceitos são fundamentais para esclarecermos as formas do estranhamento capitalista na era da barbárie social.


Minhas reflexões partem das ideias de Tomonaga Tairako, Makoto Itoh e de Samezo Kuruma - além de uma nova geração de marxistas japoneses (Ryuji Sasaki e Kohei Saito). O Japão tem uma tradição marxista muito rica no entendimento de "O Capital", de K. Marx. Fiz também elaborações teóricas por conta própria. Meu objetivo é salientar a necessidade da elaboração de uma economia psíquica do capital visando entender o fenômeno da barbárie social .


A crítica da barbárie social é a tarefa politica crucial no século XXI. Tão importante quanto a crítica da economia política foi no século XIX. Fazer a verdadeira crítica do capital no século XXI requer a crítica do sociometabolismo da barbárie - e para que isso seja bem-sucedido, é necessário a crítica da economia psíquica do capital.


A crítica da economia política em si, é insuficiente para uma verdadeira crítica do capital enquanto sistema de controle estranhado do sociometabolismo. Alguns autores tentaram elaborar uma teoria do poder economico do capital a partir da critica da economia política e da teoria da forma-valor (como Soren Mau), mas penso eu, sem sucesso, pois a chave-analítica da empreitada teórica não se reduz à crítica marxiana da economia política. Enfim, torna-se necessário um diálogo fecundo com a psicanálise freudista e com a psicologia histórico-crítica visando apreender o determinado processo de subjetivação e de organização das energias pulsionais dos indivíduos nas novas condições históricas da crise estrutural do capital.


Como fundamentar ontologicamente a necessidade de requisição da crítica da economia psíquica a partir da crítica da economia politica feta por Marx?


Ao tratar nos “Manuscritos econômico-filosóficos” (1844), da “alienação- autoalienação”, Marx expõe a necessidade do tratamento dialético (e materialista) dos processos de subjetivação das individualidades alienadas. Diz Marx e Engels (1985) na "Ideologia Alemã" que "o ser social determina a consciência [bewusstsein] - entendendo-se "consciência" como "consciência do ser". Mas mesmo sendo "consciencia do ser" não deixam de ser consciência - e mais ainda: pré-consciencia e o inconsciente. Enfim, subjetividade.


O que significa que:


(1) A determinação histórica, materialista e dialética é uma determinação complexa ou “determinação determinada”. As determinações reflexivas “ser social-consciência”, “alienação-autoalienação”, “objetividade-subjetividade” são pares dialéticos.


(2) Por ser historicamente determinada, ela é complexa, evoluindo no tempo-espaço de forma desigual e de modo cumulativo, estando sujeita portanto, à passagem da quantidade à qualidade (saltos qualitativos); e ao desenvolvimento desigual e combinado.


O que significa:


(1) O capitalismo historicamente mais desenvolvido produziu enquanto processo civilizatório, um maior desenvolvimento da subjetividade humana por conta do desenvolvimento das forças produtivas. O processo de desenvolvimento do ser social determina - intensa e extensivamente - o desenvolvimento complexo da consciência do ser;


(2) O capitalismo historicamente mais desenvolvido significa ontologicamente o capitalismo exposto à crise de seus fundamentos (a lei de tendencia da queda da taxa de lucros) e às suas contradições fundamentais (e metabólicas);


(3) Para que o sistema sobreviva a elas (crises e contradições cumulativas), a manipulação ( e a mais-manipulação) da subjetividade (contingente) das massas, tornou-se efetivamente necessidade sistêmica. Na verdade, a manutenção funcional do capitalismo tardio tem como elemento axial, a reificação – o que explica a resistência histórica do sistema capitalista cuja falência histórica a crítica teórica vem anunciando há muito. Mas com a crise estrutural do capital, a reificação, coisificação e fetichismo se exacerbaram em termos diretamente proporcionais às manifestações das crises globais e suas contradições.

Encontramos em Karl Marx uma teoria da reificação [Versachlichung] e da coisificação [Verdinglichung].


A língua alemã tem duas palavras que representam a “coisa” [la chose em francês]: Sache e Ding, que possuem significados diferentes, mesmo no alemão comum. Sache significa negócio, caso, causa (política ou social), resumidamente algo que deve sua existência a complicadas relações sociais como pano de fundo; enquanto Ding representa uma coisa natural ou material. Marx considera que a essência comum da mercadoria, do dinheiro e do capital é serem relações entre as pessoas convertidas em relações entre as coisas.


Existem dois níveis diferentes de conversão de Sache em Ding.


Na primeira fase (1) , as relações entre os produtores de mercadorias se convertem em relações entre coisas [Sachen]. A mistificação das relações econômicas dá o primeiro passo com a coisa [Sache] representando uma relação social. A passagem das relações entre pessoas para relações entre coisas é a reificação (as coisas se interpõem entre as pessoas). A reificação é um processo da objetividade (e subjetividade) do ser social capitalista.


Na segunda fase (2), a conversão dá mais um passo (de Sache para Ding). A dimensão das relações entre as coisas [Sachen] é “removida”; e uma coisa [Ding] “se mostra” como portadora de propriedades diferentes. Por exemplo, lucro, juros e a renda da terra são em essência, nada mais do que fenômenos que expressam diferentes formas de sobretrabalho objetificado que o capital industrial extrai gratuitamente dos trabalhadores assalariados. No entanto, no nível fenomenal, suas relações com o trabalho excedente dos trabalhadores são completamente removidas: os meios de produção, o dinheiro e a terra “parecem ser” dotados pela natureza com a capacidade de gerar espontaneamente lucro, juros e renda da terra como seus frutos. Este tipo de mistificação das relações econômicas na fase final é denominado “coisificação” [Verdinglichung], que significa a conversão de Sache em Ding, e é conceitualmente diferente da “reificação” [Versachlichung], que significa a conversão da pessoa em coisa [Sache].


Na primeira fase de conversão, as relações sociais dos sujeitos “aparecem” como relações entre coisas [Versachlichung der Person]. Quando as coisas [Sache] adquirem o poder social para decidir o destino dos sujeitos produtivos, irrompe outra categoria: o conceito de Personifizierung der Sachen ou a “personificação das coisas”. As coisas se interpõem entre as pessoas; e as pessoas as representam tendo em vista que as coisas (como mercadoria e dinheiro – por exemplo), não podem se movimentar no mercado por sua própria vontade. Para que possam funcionar socialmente como coisas, elas requerem agentes que as movimentem as coisas ou sujeitos que representem subjetivamente as funções das coisas.


Observemos que a fenomenologia de Sache e Ding são sempre operadas – a todo momento – pelas pessoas concretas tendo em vista que elas (as coisas) não podem se movimentar no mercado por sua própria vontade. A vontade (e o desejo) é das pessoas que as conduzem (ou são conduzidas). Inapelavelmente se põem a dimensão da subjetividade dos indivíduos (produtores). É nesse sentido que a “personificação das coisas” [Personifizierung der Sachen] faz com que elas se tornem coisas [Ding]. Assim, este tipo de mistificação das relações econômicas em que Sache se converte em Ding é denominado “coisificação” [Verdinglichung]. Isto é um processo de subjetivação fetichizado do capital (logo veremos, o que é o fetichismo).


Assim, o capitalismo só funciona como sistema econômico porque os produtores aceitam e satisfazem (consentimento e coerção, hegemonia), as funções das coisas e seus requisitos de funcionalidades. Reiteremos: o funcionamento da produção e reprodução do sistema é mediada pela subjetividade dos agentes sociais. Existe um gozo (vide o psicanalista Lacan) nesta operação de funcionalidade. Os sujeitos - por sua própria vontade subjetiva – agem ativamente como agentes fiéis das coisas.


Assim, um produtor de mercadorias opera como sendo uma "mercadoria personificada"; e um detentor de dinheiro, opera como sendo "dinheiro personificado". Esta é a dimensão estrutural do sistema propriamente dito. A posição do capital enquanto modo de metabolismo social não exclui a luta de classe (contingencia) posto que os agentes sociais podem ser infiéis às coisas (o campo da subjetivição da negatividade).


Entretanto, deixados por si só, a estrutura funciona: eis a função da manipulação e da “mais-manipulação”, ou seja, fazer funcionar a estrutura (o poer da positividade e da normalidade).

A “personificação das coisas” [Personifizierung der Sachen] nos mostra que a ação realizada pelas pessoas de acordo com sua livre vontade, nada mais são do que a função das coisas. Mesmo com vontade e consciência, as pessoas podem - e na maior parte das vezes são - meras portadoras das coisas. É neste momento que as coisas [Sachen] se convertem em coisas [Ding]. Deixados de acordo com a livre contingencia (a consciência contingencia) ou de acordo com sua “livre vontade” (o desejo de liberdade), os sujeitos nada mais são (e podem ser) agentes de funcionamento das coisas [Ding] – que lhes parecem irremediavelmente como coisas sócio-naturais.


A subjetivação independente das coisas [Subjektivierung] é baseada na atividade subjetiva por parte dos sujeitos. A troca de mercadorias só é possível porque os sujeitos portadores de mercadorias têm um desejo concreto de mercadorias e se reconhecem como detentores livres e iguais de mercadorias (a consciência contingente). O capitalista e o trabalhador assalariado se comportam ativamente como capital personificado e trabalho assalariado personificado. Embora os sujeitos atuem com vontade própria, eles agem de tal forma que o capital – como valor independente e auto-valorizante – é transformado em sujeito dominante no processo de produção.


A Personifizierung der Sachen converte Sachen em Ding. Isto é – como dissemos - a coisificação. Ela diz respeito – ressaltemos – a um processo de subjetivação. Como vimos, a vontade e o desejo operam em si e para si, a coisificação (o que quer dizer: o capital os manipula à exaustão!).


O sujeito econômico reificado (o capital, valor em movimento) é mantido pela ação de sujeitos humanos com a consciência fetichizada sob o domínio do sistema reificado.

Ressala-se a importancia do espaço da subjetividade (e da subjetivação) de classe – em si.

Na medida em que a reificação se amplia no ser social, tal como ocorreu com o capitaismo histórico, ela “conduz” à coisificação (ou a personificação das coisas). As coisas se interpõem entre os humanos e os humanos se identificam com elas (como vimos na teoria do estranhamento de Lukács, objetificação e exteriorização estranhada).


É a coisificação (a vontade livre ou o desejo concreto dos agentes portadores das coisas [Sachen]) que faz com que o sistema econômico funcione e se reproduza. “Vontade livre” e “desejo concreto” – no plano da contingencia, estão á serviço da ordem metabólica do capital (o que torna verdadeiramente sintomático que de acordo com Michel Maffesoli, a “tribalização do mundo” se opere por meio da “cultura dos sentimentos”. A manipulação da era neoliberal é fundamentalmente (res)sentimento e afeto.


O entendimento conceitual acima coloca como elemento fundamental (e fundante) para a crítica do capital, o processo de subjetivação fetichizado do capital (o poder das coisas [Ding]). Ele ocorre no plano de uma economia política que é fundamentalmente – embora não exclusivamente - economia psíquica do capital.


A economia psiquica do capital expõe o nódulo racional da “coisificação”. Na verdade, trata-se de uma economia-politica-e-psíquica que tem, no conceito de “hegemonia” – isento do viés políticista - a condensação conceitual adequada.


Deste modo, nas sociedades produtoras de mercadorias, as relações sociais de produção aparecem como relações de coisas [Sachen] equipadas com propriedades sócio-naturais (“coisas sociais” que aparecem como sendo naturais). A coisa [Ding] equipada com o poder social de governar sobre pessoas é o “fetiche” (lembremos que a coisificação ou o poder social das coisas decorre do processo de subjetivação fetichizado, isto é, a subjetivação que opera a coisificação produz o fetiche).


Por fetichismo [Fetichismus] deve-se entender a consciência de produtores e outros agentes econômicos que “aceitam” a coisa [Ding] - o fetiche como fato social - externo, geral e coercitivo, como diria Émile Durkheim.


O fetichismo é a consciência invertida da reificação (e da coisificação). O conceito de fetichismo implica efetivamente o plano da consciência do ser [Bewusstein]. Fetichismo diz respeito fundamentalmente à consciência contingente. O processo de subjetivação fetichizado significa a formação da forma-indivíduo adequada para conduzir as coisas (Ding) ou o fetiche (o sistema, o aparato, a vurocracia, etc) O fetichismo é a consciência positiva das coisas que se inscreve na sociedade das mercadorias.


Mas o fetichismo é inevitavelmente a consciência “natural” das sociedades produtoras de mercadorias. Inevitavelmente no sentido da consciência contingente das pessoas. Faz parte "natural" da contingencia das sociedades monetárias. Deixadas por si só, o fetichismo se impõe, constituindo a objetividade enquanto subjetividade social. Podemos trata-lo como forma de consciência reificada. Mas na medida em que é produto da “coisificação”, o fetichismo não é apenas consciência, mas diz respeito à pré-consciência e ao inconsciente dos sujeitos psíquicos (o território da “captura da subjetividade”).


A discussão da barbárie social remete, portanto,, à discussão do que denominamos particularismo enquanto construção ideológico-moral (hegemônica) do capital enquanto processo de subjetivação fetichizado.


Enquanto modo de operação da coisificação, o particularismo produz o regime do neoconformismo moral que faz com os indivíduos com o "ego enfraquecido" [Herbert Marcuse], se rendam, por exemplo, às políticas do afeto - politicas identitarista; à ideologia do “politicamente correto” e a sacralização das vítimas.


Mas existe uma situação histórica que explica a dominância do particularismo e da subjetivação fetichizada no capitalismo neoliberal: a crise crise e a reestruturação capitalista a partir da década de 1970, a verdadeira ofensiva do capital na produção e reprodução social (a organização do trabalho e novas tecnologias), o debilitamento dos institutos de defesa da classe (partidos e sindicatos) ou instâncias de produção da “consciência necessária”; e a derrota do movimento operário e a crise da ideologia socialista e das representações coletivas.

A ofensiva do capital foi não apenas social e política, mas fundamentalmente cultural e psicológica: a “revolução do pós-modernismo” e da neocolonização da linguagem na década de 1980, operou a fragmentação ético-política da perspectiva de classe e da luta de classe, reduzindo os indivíduos aos seus interesses particularistas e ensimesmados (o fechamento na esfera dos sentimentos e a derrocada da razão histórica).


Portanto, é a história da luta de classes que explica porque as determinações reificadas, coisificadas e fetichizadas da ordem do capital tornaram-se exacerbadas na cena social.


Não se tratou do processo sócio-natural da ordem das coisas, mas do produto da luta de classes sob as condições materiais adversas do capitalismo do século XX.


Fomos derrotados historicamente pelas coisas e o neoliberalismo e a barbárie social são resultados históricos disso.


O poder do fetichismo que provocou a “ruptura do fluxo social do fazer” – o “fazer coletivo” na perspectiva de classe – foi resultado histórico objetivo e subjetivo da rendição das forças sociais e políticas de esquerda comunista e socialista ao corporativismo social e à politicidade estranhada, perdendo deste modo, a capacidade ideológica do enfrentamento da concorrência (o explica a generalização da lei do valor).


Na medida em que a totalidade social é constituída em si e para si, pela concorrência dos múltiplos capitais e pela concorrência entre os próprios proletários, sua forma de sociabilidade incorporou o espírito do particularismo.


Ao Estado neoliberal não interessa a coesão social. Pelo contrário, a fábrica da barbárie social é produto legítimo do Estado neoliberal – sociedade política e sociedade civil. Interessa à sua reprodução a fragmentação social, o “tribalismo” do mundo e a cultura do narcisismo que se tornaram-se o modus operandi da ordem neoliberal.


A subjetivação neoliberal organiza a “desagregação da humanidade” que tem como resultado efetivo, a ultraviolência ou as formas de predação do outro. O que nos resta é ir além da economia politica e desvelar a nova economia psíquica do capital tratando-a não apenas enquanto modo de subjetivação exposto acima, mas enquanto forma de organização das energias pulsionais – os investimentos libidinais que sustentam a fábrica da barbárie social.

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