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Os Titãs do Capital - Parte 7

há 4 minutos
17 min de leitura

Nesta penúltima postagem da série “Os titãs do capital”, daremos continuidade à apresentação das grandes corporações que organizam e comandam a acumulação em escala mundial. Trataremos de quatro conjuntos de atividades estreitamente articulados: energia e recursos naturais; infraestrutura, eletricidade e redes; comércio, distribuição e logística; e indústria manufatureira. São setores que sustentam as condições materiais da produção e da circulação de mercadorias, conectando a extração de matérias-primas e o abastecimento energético às fábricas, aos sistemas de transporte e aos mercados consumidores.


Por trás da aparente dispersão dessas atividades, encontramos uma extensa divisão social e territorial do trabalho, coordenada por corporações capazes de mobilizar recursos naturais, tecnologias, infraestruturas e enormes contingentes de trabalhadores. Seu poder ultrapassa os limites de cada empresa: alcança cadeias de fornecedores, condiciona economias nacionais e interfere nas relações entre Estados. A reprodução cotidiana da sociedade depende dessas estruturas, embora as decisões sobre seu funcionamento permaneçam subordinadas, em grande medida, às exigências da valorização do capital.


Esses titãs mantêm vínculos profundos com os bancos, as gestoras de ativos e as corporações tecnológicas examinados nas postagens anteriores. Produção, circulação e finanças constituem momentos articulados de uma mesma totalidade, ainda que cada setor ocupe uma posição específica na produção e na apropriação do mais-valor. Examinar essas conexões permitirá compreender como o comando sobre a energia, os recursos naturais, as redes, a logística e a manufatura se converte em poder econômico e político — e como esse poder incide sobre o trabalho, os territórios e as condições de continuidade da vida.


1


O núcleo energia e recursos naturais dos Titãs do Capital ocupa uma posição estratégica porque concentra o controle sobre condições materiais indispensáveis à reprodução social. Petróleo, gás, minérios e metais entram na produção dos meios de transporte, das máquinas, das redes elétricas, dos equipamentos militares e das infraestruturas digitais. Também sustentam atividades cotidianas: alimentação, habitação, mobilidade e abastecimento. O poder dessas corporações consiste em converter o acesso a condições materiais da vida em um momento da acumulação e da disputa pelo poder mundial.


Esse controle, entretanto, deve ser entendido como uma capacidade concentrada de exploração, processamento e comercialização, mediada por Estados, concessões e infraestruturas. Nenhuma dessas empresas determina isoladamente o abastecimento mundial. Elas concorrem, estabelecem associações e dependem de territórios, trabalhadores, tecnologias e decisões políticas.


A imagem dos titãs designa, portanto, uma concentração de poder atravessada por rivalidades e vulnerabilidades.


Há também uma precisão necessária na composição desse núcleo: a PetroChina é controlada pela CNPC, de modo que ambas representam níveis distintos de um mesmo complexo empresarial. Podem aparecer separadamente numa exposição de suas funções, mas somar seus ativos ou receitas sem considerar essa relação produziria dupla contagem. Além disso, o conjunto apresentado reúne dois segmentos articulados: os grandes grupos de petróleo e gás e as corporações de mineração.


A Saudi Aramco expressa de maneira particularmente nítida a associação entre recursos naturais, capacidade industrial e soberania estatal. Sua força combina acesso a extensas reservas, infraestrutura integrada e custos de extração muito baixos. O relatório de 2025 informa um custo médio operacional de extração de US$ 3,51 por barril de óleo equivalente — indicador que não corresponde ao custo total de produção, mas evidencia uma importante vantagem competitiva. O mesmo documento explicita a prerrogativa do governo saudita de estabelecer o nível máximo de produção de petróleo do país. A decisão empresarial sobre a oferta está, assim, diretamente articulada à decisão soberana. aramco.


Numa leitura marxista, essa configuração exige distinguir a produção de valor da apropriação de renda.


O petróleo no subsolo não é valor produzido pelo trabalho; constitui uma riqueza natural cuja exploração mobiliza trabalho, equipamentos e infraestrutura. Entretanto, o acesso exclusivo a jazidas especialmente favoráveis permite apropriar ganhos associados às diferenças de produtividade e às condições de propriedade.


A renda petrolífera articula-se ao lucro industrial, à tributação e às decisões sobre a oferta. Por isso, os resultados extraordinários de uma companhia desse tipo não podem ser explicados apenas por sua eficiência administrativa: envolvem a apropriação econômica de vantagens naturais e o poder político que regula seu acesso.


A CNPC e a Sinopec apresentam outra configuração da relação entre empresa e Estado.


A primeira articula exploração, produção e outras atividades do circuito petrolífero, tendo a PetroChina como importante braço empresarial listado, embora sob controle estatal majoritário; a segunda reúne operações de petróleo e gás com expressiva presença no refino e na petroquímica. Em ambos os casos, a vinculação estatal é constitutiva de sua organização, e não um atributo acessório.


Na interpretação aqui proposta, sua atuação deve ser compreendida pela combinação — hierarquizada e não isenta de tensões — entre lucratividade empresarial, entendida menos como maximização de lucro no sentido neoclássico e mais como resultado subordinado a metas estratégicas e a indicadores definidos no âmbito da tutela estatal; continuidade do abastecimento; e estratégia industrial chinesa, aqui entendida como o conjunto de objetivos de segurança energética, fortalecimento da cadeia de valor, transição energética e inserção internacional.


Quando esses objetivos entram em conflito, sua arbitragem não se dá primordialmente pelo mercado, mas por mecanismos de coordenação estatal, política industrial e instrumentos de governança corporativa.


Isso impede equipará-las automaticamente às corporações privadas ocidentais — e também às estatais ocidentais, que possuem configurações próprias —, pois a posição ocupada na reprodução econômica depende também de quem controla a empresa, de quais objetivos orientam seus investimentos e de como seus resultados são apropriados.


ExxonMobil, Chevron, Shell e TotalEnergies, por sua vez, permitem examinar a articulação entre grandes capitais privados e poder estatal. A propriedade privada não elimina a dependência de concessões, proteção jurídica, diplomacia e segurança das rotas comerciais. Tampouco significa que cada empresa seja uma extensão obediente do governo de seu país de origem. Seus interesses podem convergir ou entrar em conflito com orientações estatais. O que importa, analiticamente, é apreender essa relação concreta: o capital energético opera internacionalmente, mas as condições políticas de sua operação continuam territorializadas.


BHP e Rio Tinto ampliam o quadro para a base mineral da reprodução. A BHP concentra seu portfólio em minério de ferro, cobre, carvão siderúrgico e desenvolvimento de potássio; a Rio Tinto tem presença em minério de ferro, cobre, alumínio e lítio, entre outros produtos. Essas posições conectam as mineradoras à construção civil, à siderurgia, à eletrificação, às baterias e, no caso do potássio, à produção de fertilizantes. BHP Sua importância mostra que a transformação das tecnologias energéticas modifica a composição da dependência material, sem eliminar a necessidade de extração e processamento.


É nesse ponto que a aparente imaterialidade do capitalismo digital revela seus pressupostos. A inteligência artificial, as plataformas e os serviços de nuvem dependem de instalações físicas, redes elétricas, sistemas de refrigeração e equipamentos produzidos com metais e minerais. A abstração das operações financeiras e informacionais repousa sobre uma materialidade densa. 


Na perspectiva da crítica do capital, essa relação permite compreender por que a expansão tecnológica pode intensificar simultaneamente a produtividade, a demanda por infraestrutura e a pressão sobre territórios e recursos.


A transição energética abre, portanto, uma nova frente de disputa. Redes elétricas, veículos elétricos e sistemas de armazenamento deslocam parte da importância estratégica para cadeias minerais e industriais específicas.


Mas possuir uma jazida é apenas um momento: capacidade de refino, processamento, fabricação de componentes e transporte também define o poder de uma economia.


A Agência Internacional de Energia advertiu, em seu relatório de 2025, que a concentração geográfica do processamento e as restrições às exportações ampliam os riscos de interrupção do abastecimento. A dependência pode diminuir em determinado combustível e reaparecer em outra etapa da cadeia produtiva.


Os conflitos geopolíticos atingem esse núcleo porque ameaçam tanto os locais de produção quanto os caminhos pelos quais seus produtos circulam. Uma reserva petrolífera perde parte de sua utilidade econômica imediata quando não pode ser explorada, transportada, segurada ou comercializada. Estreitos como Ormuz constituem pontos de vulnerabilidade justamente por concentrarem fluxos energéticos de grande importância internacional.


Sanções, bloqueios, ataques à infraestrutura e restrições tecnológicas podem converter uma dependência comercial em instrumento de coerção. Por isso, seria mais preciso dizer que esse núcleo constitui simultaneamente um alvo, um instrumento e um terreno dos conflitos geopolíticos. As consequências econômicas dessas rupturas são desiguais.


Uma elevação dos preços pode favorecer determinados produtores enquanto aumenta os custos de indústrias, transportadores e consumidores. Pode também agravar as dificuldades externas de países importadores. Não existe, assim, um interesse homogêneo do “capital global” diante de toda crise energética: aquilo que amplia a renda de um segmento pode comprimir o lucro de outro e deteriorar as condições de reprodução da força de trabalho.


A unidade do sistema realiza-se por meio dessas contradições, com frequente intervenção estatal para administrar seus efeitos.


Esse núcleo também conecta a materialidade da produção ao capital financeiro.


Reservas e projetos de extração sustentam expectativas de receitas futuras, que entram na avaliação de ações, no financiamento de investimentos e na contratação de dívidas. A riqueza subterrânea torna-se suporte de direitos sobre rendimentos ainda não realizados. Entretanto, essa antecipação permanece dependente de condições materiais e políticas: custos, preços, acesso ao território, infraestrutura, conflitos sociais e limites ambientais.


A capitalização financeira dos recursos naturais projeta para o presente uma apropriação futura cuja realização permanece incerta.


A contradição socioecológica atravessa todo esse processo. A lucratividade de um empreendimento não mede sua contribuição à continuidade da vida, nem incorpora automaticamente os danos impostos a trabalhadores, comunidades e ecossistemas.


Sob o comando da valorização, recursos indispensáveis à existência coletiva são explorados segundo critérios que podem comprometer suas próprias condições de reprodução.


Isso recoloca a questão política decisiva: quem determina o que extrair, em qual quantidade, mediante quais técnicas e para atender a quais necessidades?


Na alegoria dos “Titãs do Capital”, esse núcleo pode ser compreendido como o núcleo do comando energético e mineral. Seu poder alcança os pressupostos físicos sobre os quais os demais capitais operam. A disputa por esses pressupostos ajuda a explicar a intensidade dos conflitos geopolíticos; sua subordinação à rentabilidade ajuda a compreender a fratura socioecológica.


A perspectiva emancipatória exige transformar o controle sobre essa base material em capacidade coletiva de orientar a produção, o abastecimento e a preservação das condições de vida.


2


Depois, temos o setor de infraestrutura, eletricidade e redes, no qual algumas empresas controlam infraestruturas sem as quais a produção e a circulação não poderiam operar.


A lista inclui a State Grid Corporation of China e a China Southern Power Grid no segmento elétrico chinês; a Électricité de France (EDF) no setor elétrico francês; a Deutsche Telekom, a China Mobile, a AT&T e a Verizon nas telecomunicações; e a Maersk, a COSCO Shipping e a UPS na logística e no transporte marítimo.


A State Grid ocupa posição singular nesse conjunto: não é simplesmente uma empresa de eletricidade, mas uma infraestrutura estratégica ligada ao planejamento e à soberania econômica chinesa. Sua força não pode ser expressa adequadamente pela capitalização bursátil, pois ela não funciona como uma corporação privada cotada em bolsa.


A Fitch Ratings descreve a State Grid como uma empresa estatal de nível vice-ministerial, cujo chairman e alta administração são nomeados pelo Comitê Central do Partido Comunista e pelo Conselho de Estado, e cujas estratégias, operações e investimentos estão sujeitos a um grau muito elevado de controle e influência governamental, incluindo a definição de tarifas. A agência avalia como "muito forte" a probabilidade de apoio estatal e registra que a empresa recebe injeções anuais de capital da ordem de 20 a 30 bilhões de yuans, além de ativos a custo zero e tratamento tributário favorecido. O impacto de um eventual default é classificado como "forte" no plano sociopolítico, precisamente porque a empresa é responsável pela compra e liquidação de energia para mais de 1,1 bilhão de usuários. Ou seja: sua posição não se mede pelo valor de mercado, mas pela função sistêmica que ocupa na reprodução econômica e pela relação constitutiva que mantém com o Estado chinês.


O contraste com as demais empresas da lista ajuda a precisar essa especificidade. A EDF é uma société anonyme de interesse nacional cujo capital é detido 100% pelo Estado francês, e seu contrato de dez anos com o Estado fixa objetivos de trajetória financeira, investimentos, descarbonização, controle de preços para famílias e empresas e adaptação da capacidade de produção à demanda. É, portanto, um caso de controle estatal integral, mas inserido em um marco jurídico e contratual distinto do chinês.


A China Mobile, por sua vez, foi constituída como empresa estatal especial de grande porte a partir do desmembramento dos ativos de telecomunicações móveis do antigo Departamento Geral de Correios e Telecomunicações, com capital registrado de 51,8 bilhões de yuans e gestão centralizada.


Já a AT&T e a Verizon não têm controle estatal: seus principais acionistas são gestoras de ativos como Vanguard e BlackRock, com participações individuais que giram em torno de 6% a 9%.


A Maersk tem uma estrutura de controle familiar, com a A.P. Møller Holding detendo cerca de 44% e a família fundadora mantendo participações relevantes.


A UPS é amplamente pulverizada, com cerca de 73% de participação institucional e nenhum acionista individual com posição dominante.


A COSCO Shipping, por outro lado, é uma empresa estatal chinesa, e dados do setor indicam que cerca de 44% da tonelagem controlada pela China pertence a empresas estatais, com apoio contínuo de capital estatal e política industrial.


O ponto decisivo, portanto, não é simplesmente distinguir "estatais" de "privadas", mas identificar quem controla a infraestrutura, quais objetivos orientam seus investimentos e como seus resultados são apropriados.


A State Grid é o caso mais nítido de uma empresa cuja razão de ser não se reduz à lucratividade: ela é um instrumento de planejamento e de soberania econômica, e sua avaliação exige categorias distintas daquelas aplicadas a uma corporação privada cotada em bolsa.


As demais empresas da lista ocupam posições igualmente sistêmicas na produção e na circulação, mas com configurações de controle e de finalidade que variam desde o controle estatal integral com contrato de interesse nacional, no caso da EDF, até a pulverização acionária típica das grandes corporações privadas ocidentais, nos casos da AT&T, da Verizon e da UPS. É essa variação que torna o setor de infraestrutura, eletricidade e redes um terreno privilegiado para observar as diferentes formas pelas quais os "titãs do capital" se articulam com o poder estatal e com a reprodução econômica.


3


A seguir temos o setor de comércio, distribuição e logística ocupa uma posição estratégica na venda das mercadorias e na realização do valor.


A produção capitalista depende de que as mercadorias encontrem compradores e retornem à forma dinheiro, permitindo a continuidade da acumulação. Entre a fábrica e o consumo, entretanto, estende-se uma complexa estrutura de plataformas, estabelecimentos comerciais, centros de distribuição, portos e transportes. As corporações que concentram essas estruturas tornam-se capazes de condicionar o acesso aos mercados, os custos da circulação e a velocidade de rotação do capital.


Nesse núcleo dos Titãs do Capital, destacam-se redes varejistas como Walmart, Costco, Carrefour e Schwarz Group, controlador do Lidl e do Kaufland; plataformas como Amazon, Alibaba, JD.com e Mercado Livre; operadores logísticos como DHL, UPS, FedEx, DSV e Kuehne+Nagel; e grandes grupos de transporte marítimo, como MSC, Maersk, CMA CGM e COSCO Shipping.


A esse conjunto articulam-se comercializadoras agrícolas como Cargill, ADM, Bunge e Louis Dreyfus Company, que conectam a produção agropecuária ao processamento industrial e aos mercados internacionais. Embora desempenhem funções distintas, essas empresas ocupam posições decisivas nas conexões entre produção, circulação e consumo.


O primeiro fundamento de seu poder é o controle dos canais de acesso ao mercado. Uma empresa pode produzir mercadorias competitivas e, ainda assim, depender de uma grande rede ou plataforma para alcançar os compradores. A concentração oligopólica comercial permite impor exigências de fornecimento, negociar descontos, estabelecer prazos de pagamento e influenciar a visibilidade dos produtos. O acesso ao consumidor torna-se, assim, uma condição administrada por intermediários poderosos, capazes de pressionar as margens dos fornecedores e transferir para eles parte dos custos e riscos da comercialização. Essa pressão pode repercutir sobre salários, ritmos de trabalho e condições de produção ao longo das cadeias.


Walmart e Amazon expressam configurações distintas desse poder. A primeira tem como eixo uma extensa rede varejista, articulada a sistemas de abastecimento e comércio eletrônico. A segunda combina plataforma comercial, operações próprias de venda, infraestrutura logística, publicidade e computação em nuvem. Sua posição permite reunir informações sobre demanda, preços, estoques e comportamento dos consumidores, ampliando a capacidade de coordenar operações e condicionar a concorrência dentro de sua plataforma.


Alibaba e Mercado Livre também evidenciam a articulação entre circulação de mercadorias, processamento de dados e serviços associados; no caso do Mercado Livre, pagamentos e crédito integram diretamente esse circuito.


O segundo fundamento é a organização do tempo e do espaço da circulação. Operadores logísticos e transportadores conectam unidades produtivas dispersas mundialmente, administrando deslocamentos, estoques e entregas. A redução do tempo de circulação pode diminuir o capital imobilizado e permitir que um mesmo capital complete mais rotações em determinado período.


Contudo, a busca por velocidade e redução de custos também pode intensificar o trabalho e tornar as cadeias mais vulneráveis a interrupções. Greves, conflitos geopolíticos, bloqueios de rotas e eventos climáticos revelam quanto a continuidade da acumulação depende dessas conexões materiais.


Essa posição estratégica não elimina as diferenças econômicas entre as atividades. Lucro comercial, lucro do transporte, juros e rendas monopolistas possuem determinações distintas. 


O capital comercial participa da realização do valor e se apropria de uma parcela do mais-valor social; o transporte, ao realizar o deslocamento necessário das mercadorias, pode constituir uma continuação do processo produtivo e acrescentar valor. Já o controle exclusivo de determinadas plataformas ou infraestruturas pode sustentar cobranças e vantagens monopolistas. A concentração empresarial oligopolista reúne essas fontes de receita, mas sua análise exige distinguir os mecanismos que as produzem.


Podemos denominar esse conjunto “Titãs da Circulação e da Distribuição”: corporações que concentram as vias materiais e digitais pelas quais as mercadorias alcançam os mercados e se convertem em dinheiro. Seu poder ultrapassa a dimensão comercial, pois interfere na organização da produção, nas condições de trabalho e nas possibilidades de abastecimento das populações. Ao controlar conexões indispensáveis entre produtores e consumidores, esse núcleo participa do comando sobre a reprodução social, subordinando o movimento das mercadorias e o atendimento das necessidades aos imperativos da acumulação.


4


Finalmente, temos o setor da indústria manufatureira, no qual se encontram alguns dos principais centros de produção de mercadorias e de extração de mais-valor do capitalismo mundial. Entre suas corporações mais poderosas figuram Toyota, Volkswagen Group, Stellantis, Mercedes-Benz, BMW, Tesla, BYD, Foxconn/Hon Hai, Siemens, GE Aerospace, Caterpillar e Honeywell. Elas abrangem atividades como fabricação de veículos, equipamentos industriais, componentes eletrônicos, máquinas pesadas e sistemas aeroespaciais. Sua posição estratégica decorre da capacidade de organizar grandes estruturas produtivas, incorporar conhecimento científico e mobilizar extensas cadeias de trabalho e fornecimento.


Na alegoria dos Titãs do Capital, podemos denominá-las “Titãs da Produção Industrial”. Nelas, a valorização assume uma expressão material direta: a força de trabalho, subordinada ao comando empresarial e combinada com máquinas, matérias-primas e conhecimentos técnicos, produz mercadorias cujo valor excede o capital adiantado para sua produção.


Cabe, entretanto, uma precisão: a produção de mais-valor não se restringe à manufatura. Ela também ocorre em outras atividades organizadas capitalistamente, inclusive em determinados serviços. A particularidade desse núcleo está na concentração de capacidades industriais que sustentam amplas parcelas da produção mundial. Seu poder ultrapassa os limites jurídicos de cada empresa.


Uma montadora coordena fornecedores de aço, componentes eletrônicos, pneus, baterias e serviços industriais; estabelece padrões técnicos, exige prazos e distribui encomendas entre unidades e territórios. A corporação central comanda, assim, uma estrutura produtiva muito mais extensa do que suas próprias fábricas. 


Parte do trabalho necessário à fabricação do produto final ocorre em empresas formalmente independentes, mas submetidas às exigências das grandes contratantes. A fragmentação empresarial pode coexistir com uma forte centralização das decisões, permitindo transferir custos, riscos e pressões produtivas para os elos subordinados da cadeia.


Toyota e Volkswagen exemplificam a importância dessa capacidade de coordenação. Sua força não se resume à marca ou ao desempenho financeiro: envolve instalações, engenharia, fornecedores, redes comerciais e contingentes de trabalhadores.


Foxconn/Hon Hai, por sua vez, evidencia a relevância da fabricação contratada de produtos eletrônicos: a empresa que controla a marca e o acesso ao consumidor nem sempre realiza diretamente a montagem.


A divisão das funções entre projeto, fabricação e comercialização torna necessário distinguir onde o mais-valor é produzido e por quais mecanismos ele é apropriado e distribuído entre os capitais participantes.


A concorrência industrial impulsiona investimentos em automação, pesquisa, organização do trabalho e escala produtiva. Cada corporação procura reduzir o tempo de trabalho necessário à fabricação de suas mercadorias e obter vantagens diante das concorrentes. Contudo, máquinas e tecnologias não criam, por si mesmas, novo valor: transferem ao produto parcelas de seu próprio valor, enquanto o trabalho vivo constitui a fonte do valor novo.


A elevação da produtividade amplia a quantidade de valores de uso produzidos, mas não implica um crescimento proporcional do valor. Nesse movimento manifesta-se uma contradição decisiva: o capital procura economizar relativamente o trabalho vivo do qual depende sua valorização.


Por isso, a importância desses titãs não deve ser medida apenas pela capitalização em bolsa. Uma empresa pode apresentar uma avaliação financeira superior à de concorrentes com maior produção, mais instalações ou maior presença comercial. O valor de mercado incorpora expectativas sobre lucros futuros, vantagens tecnológicas e expansão dos negócios, além dos movimentos especulativos.


A capitalização financeira e a capacidade produtiva pertencem a determinações distintas, embora relacionadas. As ações constituem títulos sobre rendimentos esperados; sua valorização não equivale à criação imediata de capacidade industrial nem comprova maior produção de mais-valor.


A ascensão da BYD merece atenção nesse quadro por articular veículos elétricos, baterias e integração vertical à escala industrial chinesa. Essa configuração evidencia que a disputa automobilística envolve o domínio de componentes estratégicos, processos produtivos e cadeias de abastecimento.


Mais amplamente, a concorrência entre corporações manufatureiras assume dimensão geopolítica: capacidade industrial, autonomia tecnológica, emprego e segurança econômica tornam-se objetos de intervenção estatal e de disputa entre países.


Esses titãs concentram uma potência produtiva construída socialmente, apoiada no trabalho coletivo, na ciência e em infraestruturas acumuladas por gerações. Sob o comando do capital, porém, essa potência é mobilizada segundo critérios de lucratividade, podendo combinar avanço técnico com intensificação do trabalho, precarização e destruição ambiental.


A contradição central desse núcleo reside na apropriação e no comando concentrados sobre capacidades produtivas de caráter cada vez mais social, cuja expansão permanece subordinada à produção e à realização do mais-valor.


Manufatura e Financeirização


Concluiremos salientando que os vínculos do setor da indústria manufatureira são profundos: a financeirização penetra a propriedade, o financiamento e os critérios de gestão das corporações industriais.


Os Titãs da Produção Industrial e os Titãs da Gestão de Ativos ocupam posições distintas, mas articuladas, na reprodução do capital. Os primeiros organizam processos produtivos nos quais se extrai mais-valor; os segundos administram títulos que conferem direitos sobre rendimentos, incluindo parcelas dos resultados dessas atividades.


Uma primeira conexão ocorre pela participação acionária. Fundos administrados por grandes gestoras podem reunir ações de numerosas empresas industriais, inclusive concorrentes. Forma-se, assim, uma sobreposição entre a dispersão das aplicações dos investidores e a concentração de sua administração em poucas instituições. É necessário distinguir, porém, o patrimônio da gestora dos ativos que ela administra: BlackRock, Vanguard e State Street não são proprietárias finais de toda a riqueza sob sua gestão. Seu poder envolve a administração das carteiras e, conforme os mandatos recebidos, o exercício de direitos de voto e a interlocução com as empresas. A própria documentação da BlackRock explicita essa atuação em nome dos investidores e as diferentes modalidades de delegação do voto.


Essa posição pode conferir influência sobre a escolha de conselheiros, a remuneração dos executivos e as políticas de distribuição dos resultados. Participação acionária, entretanto, não equivale automaticamente a controle operacional. A intensidade dessa influência depende da distribuição dos votos, da presença de acionistas controladores e das instituições de cada país. Uma empresa com controle familiar ou estatal apresenta condições diferentes de outra cujo capital está amplamente disperso. Tampouco a presença de uma mesma gestora em empresas concorrentes comprova, por si só, coordenação entre elas.

Uma segunda conexão passa pela subordinação das decisões industriais a critérios financeiros de desempenho. Na interpretação crítica aqui desenvolvida, a financeirização se aprofunda quando retorno ao acionista, cotação das ações e metas de rentabilidade passam a orientar sistematicamente a alocação dos recursos. A fábrica continua produzindo, mas decisões sobre investimento, emprego, terceirização e localização são avaliadas também por seus efeitos sobre indicadores financeiros.


A Volkswagen, por exemplo, declara utilizar o retorno sobre o investimento para orientar o emprego de recursos em sua divisão automotiva. Esse indicador, isoladamente, não demonstra financeirização, mas evidencia uma das mediações pelas quais a atividade industrial é traduzida em parâmetros de rendimento do capital.


A contradição aparece quando a remuneração financeira concorre com necessidades de investimento e com as condições de reprodução da força de trabalho. Dividendos e recompras de ações podem disputar recursos com pesquisa, modernização e manutenção das instalações. Metas de margem podem estimular cortes de custos e intensificação do trabalho. Esses efeitos precisam ser demonstrados em cada caso: investidores também podem apoiar projetos industriais de longo prazo quando esperam obter retornos elevados. A questão central é quais necessidades são reconhecidas como prioritárias e sob qual horizonte de rentabilidade.


Uma terceira conexão envolve o financiamento por dívida. Corporações industriais emitem títulos adquiridos por fundos, seguradoras e outros investidores. Tornam-se, assim, devedoras de instituições que podem estar presentes também em seu capital acionário. Bancos organizam emissões e concedem crédito; gestoras administram carteiras que recebem esses títulos. As funções se articulam, mas permanecem distintas. O pagamento dos juros compromete receitas futuras, enquanto as condições de refinanciamento influenciam a viabilidade de novos projetos. O relatório da Volkswagen registra, por exemplo, emissões e resgates de títulos como parte de suas atividades de financiamento.


Além disso, as próprias corporações industriais incorporam atividades financeiras. No setor automobilístico, financiar consumidores e concessionárias ajuda a sustentar as vendas e acrescenta receitas financeiras ao negócio. A Toyota descreve operações de crédito destinadas, entre outras finalidades, aos estoques e às necessidades de capital de giro das concessionárias; a Volkswagen apresenta separadamente suas divisões automotiva e de serviços financeiros. A relação entre produção e finanças ocorre, portanto, dentro dos próprios grupos empresariais.


Por fim, a negociação de suas ações conecta a indústria à capitalização de rendimentos esperados. A cotação de uma empresa pode subir muito antes que cresçam sua produção ou seus lucros, porque os compradores antecipam ganhos futuros.


Na categoria marxiana de capital fictício, os títulos adquirem preço e circulação próprios, sem constituírem uma duplicação material das fábricas e dos equipamentos. A compra de ações já existentes transfere sua titularidade; não entrega automaticamente novos recursos à empresa. Essa distinção permite compreender por que valorização em bolsa e ampliação da capacidade produtiva podem seguir trajetórias diferentes.


Na nossa análise dos Titãs do Capital, essa articulação permite uma formulação decisiva: a financeirização estabelece direitos sobre os resultados futuros da produção e pode converter esses direitos em pressão presente sobre a organização do trabalho e do investimento.


O mais-valor ainda precisa ser produzido e realizado, mas sua apropriação já é antecipada por ações, dívidas e outros contratos. A aparente autonomia da riqueza financeira permanece, desse modo, vinculada à capacidade de mobilizar trabalho vivo e assegurar receitas futuras — vínculo que as crises tornam particularmente visível.



Na última postagem abordaremos o complexo industrial-militar-digital e outro importante setor: a indústria farmacêutica e biotecnologia, concluindo com uma visão sistêmica dos titãs do capital, expondo a centralidade do Estado e do processo de financeirização na articulação sistêmica do capital global.


[continua]

 


 
 
 

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