top of page
Buscar

Os Titãs do Capital - Parte 8

há 4 minutos
38 min de leitura


Nesta última postagem da série “Os Titãs do Capital”, trataremos do complexo industrial-militar-digital e abordaremos outro importante setor dos titãs do capital: a indústria farmacêutica e biotecnologia. Concluiremos com uma visão sistêmica dos titãs do capital, expondo a centralidade do Estado e do processo de financeirização na articulação sistêmica do capital global.


O termo complexo industrial-militar-digital designa a articulação entre o aparato militar do Estado, as indústrias de armamentos e as empresas que desenvolvem ou controlam infraestruturas digitais estratégicas: computação em nuvem, inteligência artificial, processamento de dados, semicondutores, sistemas de comunicação e redes de satélites.


O acréscimo de “digital” procura destacar que a capacidade militar depende crescentemente dessas infraestruturas para observar situações, transmitir informações, identificar alvos, coordenar forças e executar operações. É uma categoria analítica cujo significado precisa ser explicitado em cada abordagem.


A expressão complexo militar-industrial, consagrada pelo discurso de despedida de Dwight Eisenhower, em 1961, já apontava para uma relação estrutural entre forças armadas, indústria privada e poder político. Na época, Eisenhower alertou sobre o perigo da influência crescente da "combinação entre a instituição militar e a indústria privada de armamentos" sobre a política nacional. O significado do complexo militar-industrial  ultrapassa a existência de empresas que fabricam armas: compreende os interesses econômicos, os contratos públicos, o financiamento de pesquisas e a influência política que sustentam uma organização permanente da produção militar.


A diferença entre as duas expressões está na ênfase sobre a infraestrutura que torna possível o exercício do poder militar. O conceito clássico permite examinar a articulação entre Estado e produção de armamentos. A formulação ampliada evidencia também as empresas que fornecem e operam os sistemas digitais dos quais esses armamentos e as próprias organizações militares dependem.


Essa distinção não estabelece uma separação rígida entre um passado industrial e um presente digital. Eletrônica, computação, telecomunicações e pesquisa científica já integravam historicamente o complexo militar-industrial. Empresas como Lockheed Martin e Northrop Grumman também atuam em sistemas informacionais e espaciais.


O que a nova expressão - Complexo Industrila-Militar-Digital - procura captar é uma mudança de escala, de centralidade e de organização: serviços digitais comerciais passam a integrar mais profundamente as arquiteturas militares.


Há evidência institucional dessa orientação. A estratégia espacial comercial da Força Espacial norte-americana, publicada em 2024, prevê combinar capacidades governamentais, aliadas e comerciais em arquiteturas híbridas. O documento também reconhece a necessidade de evitar dependência excessiva de um único fornecedor. A estratégia do Departamento de Defesa determina que a integração comercial ocorra desde o planejamento e os exercícios em tempo de paz, preparando sua utilização em crises e conflitos.


A SpaceX e a Palantir – que abordaremos logo adiante - ajudam a compreender essa transformação. Sua relevância militar envolve tanto a capacidade de lançar equipamentos quanto a oferta de serviços de conectividade e infraestrutura orbital. Assim, além de adquirir um equipamento, o Estado pode precisar contratar continuamente o acesso a uma rede operada por uma corporação.


A disponibilidade do serviço, as condições contratuais, a interoperabilidade e a possibilidade de substituição do fornecedor tornam-se questões estratégicas. Isso não significa que a empresa passe a controlar integralmente as decisões estatais. A relação continua atravessada por contratos, regulação, financiamento público e prerrogativas do Estado. Entretanto, o domínio empresarial de capacidades difíceis de substituir pode ampliar seu poder de negociação e criar dependências operacionais.


Para nossa análise dos Titãs do Capital, o conceito permite formular uma interpretação: a acumulação vinculada à guerra abrange a fabricação dos meios de destruição e a apropriação privada das infraestruturas que permitem conectá-los, orientá-los e coordenar seu emprego. Nessa perspectiva crítica, o complexo industrial-militar-digital constitui uma reconfiguração do complexo militar-industrial, na qual indústria, finanças, informação e poder estatal se integram de maneira mais profunda.


Eis o núcleo do Complexo Militar-Industrial (CIM):



O poder das corporações industriais acima ultrapassa os indicadores contábeis. Essas empresas articulam contratos públicos, pesquisa tecnológica, produção militar, inteligência, política externa e capacidade destrutiva. O núcleo de empresas acima (como Lockheed Martin, RTX, Northrop Grumman, Boeing, etc.) constitui precisamente a espinha dorsal deste complexo. Elas não são meras fornecedoras comerciais, mas sim "quase-extensões" do aparelho estatal, mantendo uma relação de simbiose com o governo.


A sobrevivência e a prosperidade destas empresas dependem quase inteiramente de contratos governamentais. Os dados mostram que, entre os anos fiscais de 2020 e 2024, os cinco principais contratantes do Pentágono (Lockheed Martin, RTX, General Dynamics, Northrop Grumman, Boeing) receberam aproximadamente 771 bilhões de dólares em contratos, representando um terço do orçamento discricionário total do Pentágono no mesmo período .


Por exemplo, a Lockheed Martin obteve 87,8% de sua receita de contratos do Departamento de Defesa dos EUA . Este modelo de negócios determina que elas devem manter permanentemente o "mercado de ameaças" para garantir a continuação dos orçamentos militares.



Conforme observado, o poder destas empresas excede em muito o âmbito financeiro. A sua influência baseia-se no mecanismo de "porta giratória": oficiais militares de alta patente e funcionários do Pentágono, após deixarem o cargo, assumem posições de gestão nestas empresas, enquanto executivos destas empresas ingressam nos departamentos de defesa para formular políticas.


Além disso, através da distribuição de projetos de armamentos por distritos eleitorais (ou seja, criar empregos em redutos eleitorais de congressistas), estas empresas conseguem que os membros do Congresso defendam os seus interesses. Por exemplo, durante muito tempo houve tentativas de encerrar projetos de armamentos ineficazes, mas frequentemente fracassaram devido à obstrução do "complexo industrial-militar-congressual" .


Sua reprodução depende diretamente dos Estados e dos orçamentos militares, embora seus títulos pertençam, em larga medida, às grandes gestoras de ativos. Empresas como BlackRock, Vanguard e State Street são frequentemente os principais acionistas de empresas de defesa. Isto significa que os dividendos da indústria militar fluem não apenas para os fabricantes, mas também se integram profundamente nos pools de capital financeiro global, tornando o CIM um elo importante na acumulação financeira.


Ao mesmo tempo, o montante que o governo dos EUA gasta anualmente em diplomacia e ajuda humanitária (excluindo ajuda militar) é inferior ao valor de um único contrato com a Lockheed Martin , o que reflete a extrema desigualdade na alocação de recursos.


Este complexo industrial-militar não se limita ao território nacional; ele impulsiona ativamente as exportações militares e a expansão geopolítica. Os conflitos regionais (como a guerra Rússia-Ucrânia) tornaram-se catalisadores do crescimento explosivo destas empresas: os gastos militares globais em 2024 atingiram 2,72 trilhões de dólares, o maior aumento desde a Guerra Fria, e as ações destas empresas dispararam em consequência . Isto explica porque o CIM é frequentemente criticado por "necessitar de conflitos para justificar a sua existência e os seus enormes gastos" .


O núcleo listado acima constitui a personificação material do CIM. Através da aliança de interesses entre o orçamento estatal, a inovação tecnológica, o lobby político e o capital financeiro, transformaram o "negócio de armamentos" numa instituição que é simultaneamente económica, política e militar, cuja lógica de sobrevivência está frequentemente entrelaçada com a escalada das tensões geopolíticas globais.


Complexo Industrial-Militar: EUA e China


A diferença central entre o Complexo Industrial-Militar (CIM) chinês, representado pela China State Shipbuilding Corporation (CSSC), e o modelo ocidental (personificado por empresas como Lockheed Martin) reside na natureza do proprietário e na lógica de funcionamento: o CIM ocidental é um complexo de alianças de interesses composto por gigantes privados de armamentos, militares e políticos, que obtêm lucros através de contratos e lobbying; enquanto o CIM chinês é uma extensão direta do poder estatal, onde as empresas estatais (SOE) não buscam lucro como objetivo principal, mas sim cumprir a vontade estratégica do Estado e as tarefas de construção militar.


A CSSC é uma empresa estatal central diretamente sob a supervisão da SASAC (Commission for Supervision and Administration of State-owned Assets of the State Council), sendo o principal força da marinha chinesa em pesquisa, design e construção de armamentos.


Seu status de monopólio manifesta-se em três níveis: monopólio técnico (dominando tecnologias centrais como design de cascos, propulsão e construção de porta-aviões e grandes destróieres), monopólio de capacidade (possuindo as maiores docas secas e linhas de produção completas do país, capazes de construir simultaneamente múltiplos tipos de navios de guerra) e monopólio político (diretamente comandada pela Comissão Militar Central e pelo Conselho de Estado, com alocação de recursos e apoio financeiro altamente centralizados).


Em contraste, o CIM ocidental é composto por um oligopólio de algumas empresas privadas (como Lockheed Martin, RTX, etc.). Embora dependam de contratos militares, competem entre si por orçamentos através de lobby político, distribuição de empregos em distritos eleitorais e outros meios. Seu poder origina-se da capacidade de exercer influência sobre o governo, enquanto a CSSC é o próprio governo, ou seja, uma extensão corporativa do aparelho estatal.


O modelo chinês baseia-se na estratégia de fusão civil-militar (Military-Civil Fusion), que utiliza a vasta capacidade da indústria civil e os recursos tecnológicos para apoiar a modernização militar. A vantagem da CSSC em construção naval civil (como navios de GNL, porta-contêineres ultra-grandes) não é apenas para lucro comercial, mas também para manter e ampliar a base industrial da construção naval militar, permitindo rápida conversão para produção militar em tempos de guerra. Esta é uma integração vertical ordenada pelo Estado.


O CIM ocidental opera através do mecanismo de "porta giratória": oficiais militares e executivos de armamentos alternam entre o Pentágono e as empresas, com interesses entrelaçados. O Estado (Departamento de Defesa) e as empresas são entidades contratuais distintas, e o complexo forma-se através da troca de pessoal e conluio de interesses.


A lógica de sobrevivência da CSSC está ancorada na "responsabilidade primordial de fortalecimento militar", ou seja, fornecer equipamentos para construir uma marinha de classe mundial e salvaguardar a soberania e segurança nacional. Seus indicadores de avaliação incluem conclusão de tarefas militares, avanços tecnológicos e pedidos civis, e não apenas lucros. Por exemplo, o projeto e construção do porta-aviões Fujian e do grande navio de assalto anfíbio são prioridades políticas, não decisões comerciais.


Em contraste, o CIM ocidental (especialmente nos Estados Unidos) é impulsionado pelo capital. As empresas de armamentos precisam manter um "mercado de ameaças" para garantir orçamentos militares contínuos e valorização das ações. Como mencionado anteriormente, grandes gestoras de ativos como BlackRock e Vanguard são importantes acionistas, e os dividendos da indústria militar fluem para os pools de capital financeiro global, tornando o CIM um elo de acumulação financeira.


Simplificando, a CSSC é um "braço executor" do Estado chinês na indústria naval, cuja existência serve para executar a vontade nacional; enquanto o CIM ocidental é uma "rede de alianças de interesses" composta por capital privado e militares, cuja existência serve para obter lucros e influenciar políticas. A "diferença de poder" da CSSC não reside em ultrapassar os indicadores contábeis através de meios financeiros, mas em sua identidade de extensão do poder estatal, que lhe confere uma capacidade de mobilização de recursos e prioridade de execução de que as empresas privadas não dispõem.


SpaceX e o Complexo Industrial-Militar-Digital: infraestrutura orbital, capital financeiro e poder imperial


O quadro das empresas do complexo industrial-militar apresentado anteriormente deve ser ampliado para incorporar a SpaceX e a Palatir. Sua presença permite compreender uma transformação na articulação entre produção industrial, infraestrutura digital e poder militar.


Ao lado de corporações como Lockheed Martin, RTX, Northrop Grumman, Boeing e General Dynamics, SpaceX e Palantir ocupam uma posição estratégica na capacidade de projeção global do Estado norte-americano. No caso da SpaceX, sua especificidade reside na integração entre lançamentos espaciais, fabricação e operação de satélites, redes de telecomunicações e serviços destinados a usuários comerciais e governamentais.


A SpaceX situa-se, assim, no cruzamento entre as Big Techs, a indústria aeroespacial, a infraestrutura digital e o complexo industrial-militar. Pode ser compreendida como uma empresa de infraestrutura estratégica verticalmente integrada, cuja atividade articula o acesso ao espaço e a circulação planetária de informações. Essa posição permite que o capital privado participe da organização das condições materiais de exercício do poder estatal, inclusive em operações militares. A comparação com as empresas anteriormente examinadas exige, entretanto, uma precisão. Lockheed Martin e Northrop Grumman também desenvolvem satélites, sistemas de reconhecimento, redes de comunicação e tecnologias de comando e controle.


Portanto, a transformação representada pela SpaceX não consiste na passagem inaugural da fabricação de equipamentos para a prestação de serviços estratégicos. Sua particularidade está na combinação, sob uma mesma estrutura empresarial, da capacidade de lançamento, da produção seriada de satélites e da operação de uma rede comercial de alcance global, articulada a serviços específicos de segurança nacional. Trata-se de uma nova configuração de processos já presentes no complexo industrial-militar, agora ampliados pela escala das constelações orbitais e pela integração com mercados civis.


Enquanto as empresas do núcleo original acima fornecem plataformas (aviões, navios, mísseis), a SpaceX fornece a conectividade e a consciência situacional que une essas plataformas. O sistema Starshield (versão militar do Starlink) é o exemplo central: ele fornece comunicação criptografada e de baixa latência para as forças armadas, serve de base para a rede de satélites espiões da NRO e é a espinha dorsal do sistema de defesa antimísseis "Golden Dome".


Em 2026, o Comando Espacial dos EUA concedeu à SpaceX contratos de 23 bilhões (comunicações) e 42 bilhões de dólares (rastreio de mísseis) . Isto coloca-a numa posição de dependência estrutural para o Pentágono.


A SpaceX não nasceu de encomendas militares tradicionais, mas foi "adotada" pelo Estado após se tornar demasiado crítica para ser ignorada. O ex-secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, fez uma palestra no "Starbase" da SpaceX, elogiando o modelo de "falhar rápido" de Musk como o novo padrão para o Pentágono, criticando os contratantes tradicionais por serem lentos e caros .


“Falhar rápido” traduz o inglês fail fast: testar protótipos, identificar falhas e incorporar o aprendizado em sucessivas versões, encurtando o ciclo de desenvolvimento. Em seu discurso na SpaceX, em 12 de janeiro de 2026, Pete Hegseth elogiou o método de Musk e defendeu ciclos rápidos de experimentação. A formulação registrada na transcrição oficial foi: “We expect rapid iterations with failure accelerating the learning curve” — em tradução livre, “Esperamos ciclos rápidos de aperfeiçoamento, com as falhas acelerando a curva de aprendizado”. Portanto, o Secretário da Guerra de Donald Trump defende a incorporação, pelo aparato militar, da lógica de experimentação acelerada associada a Musk e à SpaceX: testar rapidamente, identificar falhas e aperfeiçoar sucessivamente os sistemas. Conhecida como fail fast — “falhar rápido” —, essa abordagem transforma a falha experimental em fonte de aprendizado e procura reduzir o intervalo entre desenvolvimento tecnológico e aplicação operacional.


Isto inverte a lógica do CIM clássico: em vez de a indústria fazer lobbying para obter contratos, é o Estado que se adapta à empresa, criando "vias rápidas" de contratação para integrar a SpaceX .





Aqui reside a maior diferença em relação ao seu núcleo original. A Lockheed Martin depende de contratos, mas não controla uma infraestrutura que o mundo inteiro usa. A SpaceX, através do Starlink/Starshield, controla uma rede que já foi usada para decidir o curso de conflitos (como na Ucrânia) e que tem sido objeto de debate sobre se Musk, como indivíduo, deve ter o poder de "ligar e desligar" serviços de segurança nacional . O seu poder ultrapassa largamente os indicadores contábeis porque não é apenas uma contratada do Estado; é uma parceira que detém o monopólio de facto sobre uma camada crítica da infraestrutura de defesa.


A Starlink foi concebida para oferecer conectividade a consumidores e organizações comerciais, embora seus serviços também sejam utilizados por governos e forças militares. O Starshield, por sua vez, foi desenvolvido para aplicações governamentais e de segurança nacional, com ênfase em observação da Terra, comunicações e hospedagem de cargas úteis em satélites. A distinção entre os dois sistemas expressa uma diferenciação de serviços, requisitos de segurança e formas de contratação dentro de uma base tecnológica compartilhada.


O emprego dessas capacidades em estruturas militares já possui documentação pública. Durante o exercício Freedom Shield 2025, na Coreia do Sul, um terminal Starshield forneceu conectividade a um centro combinado de operações espaciais. Nesse ambiente, as comunicações comerciais foram articuladas a capacidades de vigilância, reconhecimento, rastreamento e coordenação operacional. O episódio evidencia como serviços privados podem integrar a infraestrutura utilizada pelas forças armadas norte-americanas e por seus aliados.


Na guerra da Ucrânia, a importância da Starlink para as comunicações militares tornou visível essa dependência. A infraestrutura comercial passou a sustentar atividades de forças em combate, enquanto decisões sobre sua disponibilidade adquiriram relevância estratégica. A participação da empresa também alcançou a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã: reportagens documentaram o uso da Starlink em operações militares norte-americanas, inclusive em drones, e controvérsias envolvendo preços e condições de utilização. Esses casos situam a SpaceX no interior das relações entre guerra, contratação pública e controle privado das comunicações.


Na perspectiva crítica aqui adotada, tais relações integram os mecanismos contemporâneos de projeção do imperialismo estadunidense. A infraestrutura orbital participa das condições que tornam possível comunicar, observar, coordenar e sustentar operações em diferentes regiões do planeta. Sua importância geopolítica decorre da inserção em redes de poder que articulam o Estado norte-americano, seus aliados e empresas privadas responsáveis por capacidades estratégicas.


A posição da SpaceX contém uma contradição decisiva. O Estado contrata uma infraestrutura que amplia sua capacidade de ação, mas passa a depender de decisões empresariais sobre investimentos, cobertura, disponibilidade e condições de serviço. O alcance dessa influência varia conforme os contratos, a propriedade dos equipamentos e as prerrogativas governamentais. Ainda assim, a dependência tecnológica pode conferir à corporação poder de negociação diante do próprio Estado que financia parte de suas atividades e constitui um de seus principais clientes estratégicos.


Não se deve concluir daí que a empresa substitua o Estado ou exerça autonomamente suas funções soberanas. O que se configura é uma interdependência assimétrica: a expansão empresarial depende de contratos, autorizações, recursos e decisões públicas; em contrapartida, determinadas operações estatais passam a depender das capacidades acumuladas pela empresa. O Estado projeta poder por meio de infraestrutura privada, enquanto o capital transforma essa inserção estratégica em fonte de receitas, valorização e influência política.


A conexão com o capital financeiro também precisa ser atualizada. A caracterização da SpaceX como empresa de capital fechado corresponde a uma etapa anterior de sua trajetória. Segundo os documentos apresentados à Securities and Exchange Commission, a companhia realizou sua oferta pública inicial de ações em junho de 2026. Sua relação com as finanças passa, portanto, a combinar mecanismos anteriores de financiamento privado com a negociação pública de ações e outras formas de captação. A presença em ETFs específicos, contudo, depende das regras e das decisões de composição de cada fundo.

Essa mudança reforça a necessidade de analisar conjuntamente infraestrutura estratégica e valorização financeira.


Contratos públicos, expectativas de expansão comercial e perspectivas de utilização militar podem alimentar a avaliação econômica da companhia. O valor atribuído à empresa incorpora, desse modo, expectativas de apropriação futura de receitas associadas a serviços cuja relevância ultrapassa o mercado de consumidores individuais.


O complexo Musk: os negócios da guerra e da informação


A análise da SpaceX ganha maior alcance quando situada no conjunto empresarial organizado em torno de Elon Musk. Esse conjunto apresenta graus distintos de integração jurídica, tecnológica e financeira. Em fevereiro de 2026, a SpaceX adquiriu a xAI, que havia incorporado a plataforma X em março de 2025. A articulação entre infraestrutura orbital, inteligência artificial e plataforma informacional passou, portanto, a possuir uma base societária direta.


A Tesla permanece uma empresa distinta. O documento trimestral da SpaceX referente a setembro de 2026 informa a constituição de comitês para avaliar uma possível combinação entre as duas companhias, sem assegurar sua realização. É necessário, assim, distinguir a integração já efetivada entre SpaceX, xAI e X das possibilidades de reorganização envolvendo a Tesla.




Nesse conjunto, a SpaceX concentra capacidades aeroespaciais e de conectividade; a xAI desenvolve modelos e serviços de inteligência artificial; a plataforma X organiza fluxos de informação e interação social; e a Tesla atua em veículos elétricos, armazenamento de energia, automação e desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial e robótica. Essas atividades permitem identificar possibilidades de convergência, mas não demonstram, por si mesmas, a existência de um sistema militar único nem autorizam presumir a circulação irrestrita de dados entre todos os seus componentes.


A categoria de complexo privado tecnológico-espacial-informacional pode designar essa concentração de capacidades, desde que se preserve a distinção entre integração efetiva e potencial de articulação. Sua relevância militar é desigual: encontra expressão direta nos contratos e serviços aeroespaciais destinados à segurança nacional; em outras atividades, depende de aplicações, acordos e formas de utilização que precisam ser demonstrados.


Para representar essa configuração, o quadro analítico pode distinguir seis polos funcionais: o financeiro-creditício; o industrial de armamentos e sistemas militares; o aeroespacial e de telecomunicações; o das plataformas e dos dados; o da inteligência artificial e da infraestrutura computacional; e o da energia, automação e robótica. Esses polos se sobrepõem. Sua articulação é atravessada pelo Estado, que contrata, financia, regula e organiza a utilização estratégica das capacidades empresariais.


Ao lado da Space X, a Palantir pode figurar como o Titã da Inteligência Operacional, associado à integração de dados e aos sistemas que apoiam o planejamento e as decisões militares. Sua inclusão explicita a dimensão informacional do complexo industrial-militar-digital.


Assim, na composição dos “Titãs do Capital”, o J.P. Morgan pode representar o Titã do Crédito, associado aos circuitos de financiamento, à dívida e aos fluxos monetários. A SpaceX pode figurar como o Titã da Infraestrutura Geopolítica, cercado por lançadores, constelações de satélites e redes planetárias de comunicação.


A Palantir, por sua vez, pode aparecer como o Titã da Inteligência Operacional, envolto em fluxos de dados, mapas e interfaces de análise que articulam informação, planejamento e apoio à decisão.


As empresas tradicionais de armamentos representam a produção dos meios materiais de destruição; a infraestrutura orbital evidencia as condições tecnológicas de comunicação e conexão; e a Palantir expressa a capacidade de integrar informações e convertê-las em conhecimento operacional para orientar o emprego desses meios. Essas funções se sobrepõem e se articulam sob a direção político-militar do Estado. A composição evidencia, desse modo, como crédito, indústria, infraestrutura e inteligência constituem momentos interdependentes da acumulação e da projeção contemporânea de poder.


A imagem resultante expressa uma tese: no imperialismo do século XXI, finanças, informação, capacidade industrial e violência militar constituem momentos articulados da reprodução do poder.


Por exemplo, a fortuna de Musk - o homem mais rico do mundo - deve ser examinada nesse processo de concentração e valorização do capital. Sua dimensão patrimonial não comprova, isoladamente, a tese geopolítica; a demonstração encontra-se nas relações concretas entre propriedade, infraestrutura, financiamento e poder estatal.




A Palantir

A Palantir integra o complexo industrial-militar e é uma das empresas mais representativas de sua dimensão digital. Sua especialidade é desenvolver sistemas que integram dados, produzem análises e apoiam decisões operacionais, inclusive em atividades de inteligência e operações militares. Portanto, sua inserção no CIM decorre de uma participação direta na organização tecnológica da capacidade militar.


Fundada em 2003, a Palantir começou desenvolvendo software para a comunidade de inteligência dos Estados Unidos, destinado a investigações e operações de contraterrorismo. Posteriormente, expandiu suas atividades para empresas e órgãos civis. Essa trajetória merece destaque: sua vinculação à segurança estatal está presente na origem da empresa. Em 2024, aproximadamente 55% de seu faturamento veio de clientes governamentais — categoria que inclui atividades militares e civis.


A empresa desenvolve quatro plataformas principais: Gotham, utilizada em inteligência, defesa e outras funções governamentais; Foundry, voltada à integração de dados e operações organizacionais; Apollo, responsável pela implantação e atualização de software em diferentes ambientes; e AIP, que permite incorporar modelos de inteligência artificial aos dados e processos dos clientes. Em termos concretos, essas ferramentas ajudam a transformar informações dispersas em uma representação integrada de situações, recursos e possibilidades de ação.


Na atividade militar, essa função pode ligar informações provenientes de sensores, imagens e relatórios às estruturas de planejamento e comando. Um exemplo é o TITAN, sistema de inteligência, vigilância e reconhecimento do Exército norte-americano. Em março de 2024, a Palantir recebeu uma contratação de US$ 178,4 milhões para desenvolver e entregar dez protótipos.


Segundo o Exército, o sistema emprega inteligência artificial para processar dados de sensores espaciais, aéreos e terrestres, apoiando a identificação de alvos e reduzindo o intervalo entre a obtenção da informação e seu emprego operacional.


Outro exemplo é o Maven Smart System, adquirido pela OTAN em 2025 para apoiar a integração de informações de inteligência, o planejamento, a identificação de alvos e a tomada de decisões. Esses usos mostram que o software participa de funções centrais da organização militar, com consequências sobre a maneira como operações são planejadas e executadas.


Sua importância institucional também aparece no acordo anunciado pelo Exército dos Estados Unidos em julho de 2025, que reuniu 75 contratos em uma estrutura de contratação com duração de até dez anos e teto potencial de US$ 10 bilhões. Esse teto corresponde ao limite possível de compras, sem representar receita garantida ou despesa integralmente comprometida.


O problema político específico da Palantir está na participação de uma empresa privada na infraestrutura pela qual o Estado organiza informações e fundamenta decisões. Sistemas desse tipo não apenas apresentam dados: classificam elementos, estabelecem relações, destacam padrões e estruturam alternativas de ação. Isso torna relevante examinar a qualidade das informações, os critérios dos modelos, a possibilidade de auditoria e a responsabilidade pelas decisões. O emprego de software tampouco elimina a responsabilidade humana, política e jurídica pelo uso da força.


SpaceX e Palantir devem ser situadas como nós estratégicos da reconfiguração digital do complexo industrial-militar, articulados às fabricantes tradicionais, como Lockheed Martin e RTX. A SpaceX concentra capacidades de lançamento e infraestrutura orbital de comunicação; a Palantir desenvolve plataformas de integração de dados, análise e apoio à inteligência, ao planejamento e às decisões operacionais. Sua influência decorre tanto dos contratos governamentais quanto da inserção em funções críticas do Estado, cuja execução passa a depender, em graus distintos, de redes, serviços e sistemas privados.


A inovação acelerada e a atualização contínua dessas tecnologias aprofundam essa relação: além de adquirir equipamentos, o Estado contrata acesso, manutenção e capacidades operacionais cuja continuidade exige vínculos duradouros com seus fornecedores. Configura-se, assim, uma interdependência na qual o poder estatal sustenta a expansão empresarial, enquanto o domínio privado de infraestruturas estratégicas amplia o poder de negociação e a influência política dessas corporações.


Para análise dos “Titãs do Capital”, a Palantir pode ser compreendida como uma empresa de infraestrutura informacional e decisória do poder estatal. Nessa interpretação crítica, ela evidencia que a acumulação associada à guerra também passa pelo controle das ferramentas que tornam populações, territórios e situações militarmente legíveis. Sua presença no quadro ajuda a demonstrar por que o conceito de complexo industrial-militar-digital acrescenta uma dimensão relevante à análise do CIM: a produção da capacidade de observar, interpretar e coordenar tornou-se um campo estratégico de atuação e valorização do capital privado.





A financeirização da guerra e o complexo militar-industrial-digital


A relação entre as grandes gestoras de ativos e o complexo militar-industrial-digital não deve ser compreendida como uma conspiração organizada em torno de uma mesa, na qual executivos planejam guerras com a finalidade imediata de elevar suas remunerações. Trata-se de algo mais profundo: uma articulação estrutural entre o Estado, as corporações produtoras de armamentos, os bancos, os fundos de pensão, as plataformas digitais e as instituições que centralizam o capital monetário mundial. Dentro dessa engrenagem, a guerra transforma-se simultaneamente em política de Estado, mercado garantido, oportunidade tecnológica e ativo financeiro.


BlackRock, Vanguard e State Street não são, em geral, proprietárias econômicas finais das ações que aparecem registradas em seu nome. Elas administram recursos pertencentes a fundos de pensão, seguradoras, governos, universidades, famílias e investidores individuais. Essa ressalva, entretanto, não elimina seu poder.


Ao centralizar trilhões de dólares, essas gestoras convertem a propriedade socialmente dispersa em capacidade institucional de alocação, votação acionária e influência sobre a governança empresarial. A BlackRock não precisa utilizar capital próprio para ocupar posições relevantes nas maiores empresas militares: basta reunir o dinheiro de milhões de investidores e aplicá-lo, por meio de fundos ativos, fundos indexados e ETFs, em ações e títulos dessas corporações.


O circuito começa com uma massa de recursos monetários socialmente dispersos. Contribuições previdenciárias, poupanças familiares, reservas de seguradoras e patrimônios institucionais são reunidos pelos fundos e entregues às gestoras. Uma parcela desses recursos é aplicada nas ações de empresas como Lockheed Martin, RTX, Northrop Grumman, General Dynamics, Boeing, L3Harris e outras corporações do setor militar.


Outra parcela chega a essas empresas por meio de títulos de dívida, fundos setoriais e índices gerais de mercado. A própria BlackRock oferece, por intermédio da iShares, um ETF especificamente dedicado às empresas norte-americanas de defesa e indústria aeroespacial, o iShares U.S. Aerospace & Defense ETF — ITA. O produto permite ao investidor adquirir, numa única operação, uma carteira de corporações ligadas à produção de aeronaves civis e militares, mísseis, sistemas eletrônicos, satélites e equipamentos de defesa.


A guerra torna-se, desse modo, uma categoria de investimento. Ela deixa de aparecer apenas como decisão geopolítica e passa a ser traduzida em expectativas de receita, margens de lucro, dividendos e valorização das ações.


Tensões internacionais, ampliação dos orçamentos militares, reposição de arsenais e assinatura de novos contratos são imediatamente incorporadas às avaliações financeiras. A destruição material produzida pela guerra pode corresponder, no outro polo, à valorização patrimonial dos títulos das empresas que fornecem os meios dessa destruição.


O elemento decisivo é a garantia estatal da demanda. Uma empresa comum precisa encontrar compradores solventes num mercado sujeito à concorrência e às oscilações do consumo. As grandes corporações militares, ao contrário, operam num mercado em que o principal comprador é o Estado. Contratos plurianuais, programas estratégicos e orçamentos de defesa asseguram receitas por períodos prolongados. O risco empresarial é parcialmente socializado, enquanto os lucros, dividendos e ganhos patrimoniais permanecem privados.


Em 2025, os gastos militares mundiais alcançaram aproximadamente US$ 2,887 trilhões. Estados Unidos, China e Rússia responderam, juntos, por cerca de 51% desse total. No ano anterior, as cem maiores empresas produtoras de armamentos e prestadoras de serviços militares haviam obtido US$ 679 bilhões em receitas vinculadas ao setor, o maior valor registrado pelo SIPRI e 26% superior ao de 2015. Essa expansão cria uma ampla base de lucratividade empresariais que pode ser capitalizada nos mercados financeiros.


O circuito completo assume a seguinte forma: o Estado arrecada impostos e emite dívida pública; parte desses recursos financia o orçamento militar; os contratos públicos transformam-se em receitas e lucros das empresas de armamentos; esses lucros alimentam dividendos, recompras de ações e valorização bursátil; fundos e gestoras capturam os rendimentos financeiros; e a rentabilidade obtida atrai novos recursos para os mesmos ativos. O dinheiro retorna então ao mercado como capital monetário ampliado:


A financeirização não cria diretamente o armamento, mas transforma as expectativas de receitas militares futuras em riqueza financeira presente. A ação de uma empresa de defesa representa um direito sobre seus lucros futuros; uma obrigação corporativa representa uma promessa de juros; o preço desses títulos incorpora expectativas sobre contratos ainda não executados. A escalada militar pode, assim, ser capitalizada antes mesmo de os armamentos serem produzidos ou utilizados.


Isso não significa que a BlackRock escolha isoladamente iniciar uma guerra. A gestora não controla automaticamente as empresas das quais seus fundos possuem ações, e uma parte considerável de suas posições decorre de fundos indexados, obrigados a reproduzir determinados índices. Mas a gestão indexada não é economicamente neutra. Ao garantir demanda relativamente permanente pelas ações incluídas nos índices, ela fornece liquidez, estabiliza a base acionária das corporações e reduz a possibilidade de desinvestimento motivado por decisões particulares dos poupadores. A aparente passividade do índice produz um efeito ativo: normaliza a presença das empresas militares nas carteiras de aposentadoria e poupança.


O trabalhador pode não desejar financiar a produção de mísseis, drones ou sistemas de vigilância. Todavia, sua contribuição previdenciária é reunida num fundo, o fundo compra cotas de um índice amplo e o índice contém ações de empresas militares. O salário diferido do trabalhador reaparece, então, como capital financeiro aplicado no complexo industrial-militar. A distância entre o poupador e a utilização final de seus recursos dissolve sua responsabilidade aparente, mas conserva integralmente a eficácia econômica do investimento.


A remuneração dos executivos reforça esse mecanismo, embora não principalmente pelo destino dado aos salários. Nas grandes empresas cotadas em bolsa, parte significativa da remuneração da alta administração assume a forma de ações, unidades acionárias, opções e prêmios condicionados ao desempenho financeiro. O executivo não precisa depositar seu salário num fundo da BlackRock para estar vinculado à financeirização. Sua riqueza pessoal já depende da cotação das ações, do lucro por ação e do retorno entregue aos acionistas. A valorização bursátil torna-se, assim, critério de sucesso administrativo e fonte direta de enriquecimento.


Forma-se uma convergência objetiva de interesses.


Os executivos recebem mais quando as ações se valorizam; os fundos obtêm melhores resultados quando crescem os dividendos e os preços dos títulos; os gestores recebem taxas calculadas sobre o volume de ativos administrados; os bancos lucram com emissões, empréstimos e operações de fusão; os acionistas recebem dividendos e recompras; e os políticos apresentam contratos militares como instrumentos de segurança, emprego e desenvolvimento tecnológico. Nenhum desses agentes precisa controlar sozinho o conjunto.


A engrenagem resulta da complementaridade entre suas funções. Essa articulação é fortalecida pela concentração empresarial. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos reconhece que fusões e aquisições reduziram a concorrência e aumentaram sua dependência de um número menor de fornecedores. O órgão de auditoria do Congresso norte-americano advertiu que a consolidação pode produzir custos mais altos, menor inovação e maior fragilidade na base industrial de defesa. Quanto menor o número de fornecedores capazes de produzir determinados sistemas, maior seu poder de negociação diante do Estado. A concorrência formal convive, portanto, com estruturas oligopolistas protegidas por barreiras tecnológicas, patentes, segredo militar e relações duradouras com os governos.


A essas relações tradicionais acrescentou-se uma camada digital.


O antigo complexo militar-industrial tornou-se um complexo militar-industrial-digital. Microsoft, Amazon, Alphabet, Oracle e Palantir fornecem computação em nuvem, inteligência artificial, análise de dados, reconhecimento de padrões e infraestrutura de comunicação. Nvidia e os fabricantes de semicondutores fornecem a base computacional. SpaceX controla capacidades decisivas de lançamento, comunicação por satélite e conectividade militar. Empresas tradicionais de defesa incorporam inteligência artificial, guerra cibernética, sistemas autônomos, vigilância espacial e processamento massivo de dados.


As fronteiras entre o civil e o militar tornam-se cada vez mais porosas.


Tecnologias desenvolvidas para publicidade, logística, plataformas digitais e inteligência artificial são adaptadas à identificação de alvos, ao controle de fronteiras, à vigilância de populações e à automação dos campos de batalha. Inversamente, recursos públicos destinados à pesquisa militar financiam inovações posteriormente apropriadas por empresas privadas. O Estado assume os custos e riscos do desenvolvimento tecnológico; as corporações apropriam-se de patentes, contratos e mercados.


As gestoras de ativos ligam financeiramente esses setores. Os mesmos fundos que possuem participações em fabricantes de armas aparecem como acionistas relevantes de empresas de tecnologia, energia, bancos, meios de comunicação e plataformas digitais. Não se trata necessariamente de um comando coordenado sobre todas elas, mas de uma estrutura de propriedade institucional transversal. O capital monetário centralizado circula entre setores diferentes e os reúne dentro das mesmas carteiras. Para o fundo, a distinção entre uma empresa de software, uma fabricante de mísseis e uma plataforma de vigilância importa menos do que sua contribuição para o retorno ajustado ao risco.


É nesse ponto que se revela a racionalidade irracional das “guerras eternas”.


Do ponto de vista humano e social, a guerra representa morte, destruição, deslocamento populacional, trauma e devastação ambiental. Do ponto de vista do capital investido no setor, entretanto, a persistência das ameaças assegura encomendas, reposição de estoques, pesquisa tecnológica, manutenção de equipamentos e contratos de longo prazo. A paz reduz determinadas oportunidades de valorização; a insegurança permanente amplia o mercado.


Isso não significa que toda guerra seja desencadeada exclusivamente para gerar lucros. Conflitos possuem causas históricas, territoriais, nacionais, políticas e geopolíticas concretas. O problema é que, uma vez estabelecida uma estrutura econômica dependente do gasto militar, surgem interesses materiais poderosos na reprodução das condições que justificam esse gasto. A guerra não precisa ser inventada pelo capital financeiro; basta que os riscos, rivalidades e conflitos existentes sejam convertidos em oportunidades permanentes de acumulação.


O complexo militar-industrial-digital não vende apenas armas. Vende preparação, dissuasão, atualização, interoperabilidade, manutenção, inteligência, segurança cibernética e capacidade de resposta a ameaças futuras. Seu produto ideal deixa de ser uma guerra delimitada no tempo e passa a ser um estado duradouro de insegurança – caos e guerras eternas. Cada inovação do adversário exige uma nova geração de equipamentos; cada conflito demonstra a necessidade de repor arsenais; cada ameaça potencial legitima novos investimentos. A demanda torna-se virtualmente ilimitada.


A passagem da venda isolada de armamentos para sistemas digitais e serviços contínuos intensifica essa tendência. Plataformas em nuvem, bancos de dados, atualizações de software, vigilância por satélite e sistemas algorítmicos podem ser fornecidos por contratos recorrentes.


A guerra aproxima-se do modelo de assinatura: não se compra somente uma máquina, mas um ecossistema tecnológico que exige manutenção, atualização e integração permanentes. A receita deixa de depender exclusivamente da fabricação pontual de armas e assume a forma de fluxo contínuo, particularmente atraente para a capitalização financeira.


A dívida pública completa o circuito.


Como os gastos militares frequentemente não são acompanhados por elevação equivalente dos impostos, parte deles é financiada pela emissão de títulos públicos. Os fundos podem, portanto, beneficiar-se dos dois lados da operação: compram ações e obrigações das empresas que recebem os contratos militares e, simultaneamente, títulos do Estado que financia esses contratos. O mesmo capital monetário participa do financiamento do gasto público e da apropriação privada dos rendimentos empresariais dele derivados.


A sociedade suporta os custos por meio de impostos, endividamento, inflação, redução relativa do gasto social e destruição ambiental. Os investidores, por sua vez, recebem juros, dividendos e ganhos patrimoniais. O risco geopolítico é socializado; sua remuneração financeira é privatizada. A guerra apresenta-se como necessidade coletiva, enquanto seus rendimentos são apropriados por uma rede concentrada de corporações, bancos, fundos e grandes proprietários.


Essa engrenagem produz uma forma particularmente desenvolvida de fetichismo. As ações das empresas militares aparecem nas carteiras simplesmente como ativos dotados de determinado retorno. Desaparecem atrás do preço os processos materiais que sustentam sua valorização: contratos públicos, produção de armamentos, destruição de cidades, mutilação de corpos e reconstrução posterior do que foi destruído. O rendimento financeiro separa-se fenomenicamente de sua substância social.


Pode-se falar, nesse sentido, em hiperfetichismo financeiro-militar. O míssil aparece como receita; a guerra, como expansão do mercado; a ameaça, como orientação positiva de resultados; e a destruição, como oportunidade de investimento. O sistema não precisa desejar subjetivamente a catástrofe. Basta que transforme cada catástrofe em possibilidade objetiva de valorização.


BlackRock não constitui a causa isolada dessa ordem, mas uma de suas mediações centrais. Sua importância reside em reunir poupanças, aposentadorias e patrimônios institucionais e fazê-los circular como capital monetário em escala mundial. Ao adquirir títulos de empresas militares e tecnológicas, oferecer fundos especializados no setor e participar da governança acionária, integra as necessidades sociais dos poupadores à reprodução financeira do complexo militar-industrial-digital.


A contradição é brutal: trabalhadores poupam para garantir uma velhice segura; seus recursos são aplicados em empresas cuja lucratividade pode depender da ampliação dos gastos militares; esses gastos pressionam as finanças públicas e concorrem com políticas sociais das quais os mesmos trabalhadores dependem. A segurança individual procurada por meio da previdência capitalizada alimenta uma economia fundada na produção permanente de insegurança coletiva.


A “loucura das guerras eternas” não decorre simplesmente da ganância pessoal de alguns CEOs, embora a busca por dinheiro e poder faça parte do processo. Sua raiz encontra-se numa estrutura em que o gasto militar sustenta lucros empresariais, os lucros valorizam ativos, a valorização remunera fundos, a rentabilidade atrai novas poupanças e o capital centralizado reforça as corporações beneficiárias.


O circuito fecha-se sobre si mesmo.


Por isso, a crítica não deve restringir-se à moralidade dos investidores individuais. É preciso revelar a arquitetura que transforma guerra em ativo, ameaça em fluxo de caixa e destruição em valorização patrimonial. Os titãs do capital financeiro e os titãs do complexo militar-industrial-digital não formam esferas separadas. São momentos distintos de uma mesma totalidade: de um lado, a produção material e tecnológica da guerra; de outro, sua capitalização financeira. Entre ambos encontra-se o Estado, que socializa os custos, assegura a demanda e converte a violência organizada em campo permanente de acumulação.


A Indústria farmacêutica e biotecnologia


No setor das Big Pharma, o poder concentra-se menos na massa de ativos físicos do que na propriedade intelectual, nas patentes, na capacidade científica e no controle de mercados terapêuticos. São corporações industriais, mas a renda monopolista derivada das patentes ocupa lugar central em sua lucratividade. Vejamos o último setor das corporações industriais que compõem os Titãs do Capital. As corporações mais estratégicas deste incluem:





O poder da indústria farmacêutica e biotecnológica representada pelas dez corporações que você listou reside precisamente na "mudança de atributos": elas não são mais apenas fabricantes tradicionais dependentes de ativos físicos e escala de produção, mas sim máquinas de extração de renda monopolista que utilizam a propriedade intelectual (patentes) como núcleo, a capacidade científica como barreira e o controle de mercados terapêuticos como meio.


Esse poder não se manifesta apenas na enorme escala de receita, mas principalmente na capacidade de criar, manter e estender monopólios legais sobre entidades biológicas (como alvos, sequências genéticas, formulações) por meio de regras (sistema de patentes, exclusividade regulatória), transformando assim a necessidade de saúde pública em fluxo de caixa de longo prazo.


O monopólio das patentes é a fonte central de lucro. A lucratividade dessas empresas depende muito mais da "renda de monopólio" do que da "renda de produção". Um exemplo típico é a Merck (MSD): embora seu blockbuster Keytruda (pembrolizumabe) enfrente expiração de patente em 2028, a Merck construiu uma "fortaleza de patentes" que inclui pelo menos 1.212 pedidos de patente em 53 países e regiões ao redor do mundo, abrangendo dosagem, formulação, indicações combinadas e outros aspectos, com o objetivo de bloquear a entrada de medicamentos biossimilares e concorrentes, estendendo assim seu período de monopólio de mercado em até 14 anos após a expiração da patente principal. Essa estratégia de "cercamento de patentes" (patent thickets) é a arma central das empresas farmacêuticas ocidentais para manter preços elevados e fluxo de caixa.


A pesquisa acadêmica[1] também aponta que a indústria farmacêutica contemporânea entrou em um modelo de "capitalismo de monopólio intelectual". As empresas, ao desenvolverem terapias direcionadas (como medicamentos órfãos, medicamentos para alvos específicos), deliberadamente fragmentam categorias de doenças e dividem mercados, utilizando a exclusividade regulatória (como o Orphan Drug Act dos Estados Unidos) para consolidar múltiplos monopólios intelectuais e obter renda excedente de mercados de alta renda, em vez de servir às necessidades de saúde pública.


A escala de receita reflete o poder, mas não é o poder em si. Em 2025, a Eli Lilly, impulsionada pelos medicamentos GLP-1[1] para obesidade e diabetes (Mounjaro e Zepbound), registrou receita anual de 65,2 bilhões de dólares, um crescimento de 44,7%, tornando-se a maior empresa farmacêutica do mundo em receita, com valor de mercado acima de 1 trilhão de dólares, sendo a primeira empresa farmacêutica a alcançar essa marca. A Novo Nordisk também se beneficiou do mercado GLP-1, mas enfrenta concorrência intensa e pressão sobre preços, prevendo uma queda na receita de 2026 de 5% a 13%.


Os medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 constituem uma classe terapêutica desenvolvida inicialmente para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2, mas que também vem sendo amplamente utilizada no manejo da obesidade e do excesso de peso. Essas medicações atuam imitando a ação do hormônio GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon-1), uma substância produzida naturalmente pelo intestino após a ingestão de alimentos. Esse hormônio desempenha um papel importante na regulação dos níveis de glicose no sangue e no controle do apetite.


 Ao ativarem os receptores de GLP-1, esses medicamentos aumentam a liberação de insulina pelo pâncreas de maneira dependente da glicose, reduzem a secreção de glucagon, retardam o esvaziamento gástrico e promovem maior sensação de saciedade. Como resultado, os pacientes tendem a sentir menos fome, consumir menor quantidade de alimentos e apresentar redução progressiva do peso corporal. Além disso, contribuem para um melhor controle glicêmico em indivíduos com diabetes. Entre os principais representantes dessa classe estão a semaglutida, comercializada sob os nomes Ozempic® e Wegovy®, a liraglutida, encontrada como Victoza® e Saxenda®, a dulaglutida (Trulicity®) e outros medicamentos mais recentes.


Estudos clínicos demonstram que essas terapias podem proporcionar perda de peso significativa quando associadas a mudanças no estilo de vida, incluindo alimentação equilibrada e prática regular de atividade física. Apesar dos benefícios, os medicamentos GLP-1 podem causar efeitos adversos, principalmente gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia, constipação e desconforto abdominal. Em geral, esses sintomas são mais frequentes no início do tratamento e tendem a diminuir à medida que o organismo se adapta à medicação. Por esse motivo, as doses costumam ser aumentadas gradualmente, seguindo orientação médica. Dessa forma, os agonistas do receptor de GLP-1 representam uma importante inovação no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, oferecendo benefícios metabólicos relevantes e contribuindo para a redução de fatores de risco associados a doenças cardiovasculares e outras complicações relacionadas ao excesso de peso.


No entanto, é importante notar que essas receitas elevadas das BigPharma são sustentadas por patentes.


Por exemplo, a receita da Merck em 2025 foi de 65,0 bilhões de dólares, quase idêntica à da Lilly, mas seu crescimento foi de apenas 1,3%, porque seu motor de crescimento está excessivamente concentrado no Keytruda (representando 54% da receita farmacêutica), e a expiração da patente está se aproximando, forçando a empresa a gastar 15,8 bilhões de dólares (o maior orçamento de P&D do setor) na compra de pipelines para preencher a lacuna.


A capacidade científica é a barreira que sustenta o monopólio, mas também é o item de maior custo. Em 2025, o investimento global em P&D das empresas farmacêuticas totalizou aproximadamente 195 bilhões de dólares, com a Merck liderando com 15,8 bilhões (queda de 12% ano a ano), seguida pela Roche com 14,3 bilhões, Johnson & Johnson, AstraZeneca, AbbVie, Lilly, Pfizer e Novartis, todas acima de 10 bilhões. Esses investimentos não são distribuídos igualmente, mas concentrados em áreas com "capacidade de monopólio" mais forte (oncologia, doenças autoimunes, metabolismo).


Vale notar que a AstraZeneca está apostando em uma estratégia de "cobertura total", com mais de 100 ensaios clínicos de fase III em andamento, abrangendo desde anticorpos IL-33 até CAR-T in vivo, desde GLP-1 oral até oito ADCs autodesenvolvidos. Esse tipo de "aposta ampla" visa, na verdade, bloquear antecipadamente o próximo alvo de monopólio, garantindo que a empresa continue a se beneficiar das regras de patentes na próxima década.


O ponto mais crucial e frequentemente negligenciado é: essas empresas não apenas controlam o fornecimento de medicamentos, mas também, em certa medida, moldam a definição das doenças.


A divisão do mercado GLP-1 é um exemplo: a Lilly e a Novo Nordisk competem não apenas em eficácia, mas também em forma de dosagem (injeção vs. oral), indicações (diabetes vs. obesidade vs. risco cardiovascular) e canais de pagamento (seguro vs. pagamento direto do paciente). A Novo Nordisk lançou o Wegovy oral, enquanto a Lilly lançou o Foundayo (orforglipron), um GLP-1 oral de tomada única diária, com aprovação da FDA em 2026, e sem restrições alimentares, uma vantagem que pode fazer a Lilly recuperar participação de mercado no mercado oral.


Essa competição aparentemente acirrada ocorre, na verdade, dentro de um "círculo de monopólio" — ambas são empresas que detêm patentes sobre a mesma classe de medicamentos (agonistas de GLP-1), e os pacientes, médicos e seguradoras, nesse processo, têm poder de escolha extremamente limitado.


O poder da indústria farmacêutica e biotecnológica representada por essas dez empresas é essencialmente um "poder de monopólio sobre o conhecimento". Ele se materializa em:

1. Renda de patentes: através de patentes principais e secundárias (como a fortaleza de 1.212 patentes do Keytruda), estendem o período de monopólio de 20 anos para mais de 30 anos.


2. Barreiras de P&D: P&D de dezenas de bilhões de dólares por ano formam uma barreira natural, tornando quase impossível para novos entrantes competir em áreas centrais.


3. Definição da demanda: ao redefinir a obesidade como uma "doença crônica que requer medicação de longo prazo", expandem o mercado de dezenas de bilhões de dólares para centenas de bilhões ou até mais.


4. Proteção regulatória: exclusividade de medicamentos órfãos, vias aceleradas de aprovação e outras regras, na prática, servem à manutenção do monopólio.


Essas empresas, em seus relatórios financeiros, são "empresas industriais", mas a fonte de seus lucros está mais próxima de um licenciamento de patentes combinado com poder de definição de mercado do que da fabricação tradicional. A sua sobrevivência depende, em última análise, de um equilíbrio: extrair o máximo de renda de monopólio dentro do período de proteção de patentes, enquanto investem em P&D para encontrar o próximo ponto de monopólio antes da expiração.


A China e as Big Pharma


A ausência de empresas chinesas na lista que você forneceu deve-se a uma razão central: a lista acima é composta pelas dez maiores empresas farmacêuticas do mundo em receita ou valor de mercado, e atualmente nenhuma empresa chinesa atingiu essa escala.Isso não significa que a China não possua indústria farmacêutica ou empresas inovadoras, mas sim que, sob a lógica de poder que você definiu anteriormente—"renda monopolista de patentes + controle de mercados terapêuticos globais"—, as empresas chinesas ainda não conseguiram construir, no mercado global, um poder de monopólio comparável ao da Eli Lilly, Merck, Roche e outras gigantes.


Tomando como referência os dados de 2025, a diferença de receita entre empresas chinesas e ocidentais é de uma ordem de grandeza. A Eli Lilly, com o medicamento GLP-1 Tirzepatide, alcançou receita anual de 65,2 bilhões de dólares em 2025, tornando-se a maior empresa farmacêutica do mundo.


Em contraste, as duas empresas chinesas com melhor desempenho no ranking global de medicamentos prescritos—a BeiGene (百济神州) ocupa a 37ª posição, com aproximadamente 5,3 bilhões de dólares em vendas globais de medicamentos prescritos, e a Hengrui (恒瑞) está na 49ª posição, com aproximadamente 3,8 bilhões de dólares. Ou seja, mesmo somando as duas maiores empresas inovadoras da China, elas representam apenas cerca de um sétimo da Eli Lilly.


Mesmo considerando toda a indústria, em 2025 as 508 empresas farmacêuticas listadas na A-share da China somadas tiveram receita total de 2,52 trilhões de yuans (aproximadamente 350 bilhões de dólares), mas o lucro líquido total foi de apenas 148 bilhões de yuans, com uma margem líquida inferior a 6%. As empresas farmacêuticas ocidentais de primeira linha mantêm, há muito tempo, margens líquidas acima de 20%.


A lógica do monopólio de patentes ainda não foi estabelecida pelas empresas chinesas no mercado global. Atualmente, as empresas chinesas ainda estão na fase de "transição da imitação para a inovação", e não na fase de "colher renda de monopólio global". A BeiGene é o caso mais promissor. Seu produto principal, o Zanubrutinibe (BTK inhibitor), teve vendas globais de aproximadamente 3,9 bilhões de dólares em 2025, dos quais 2,8 bilhões vieram do mercado americano. Este é o único produto inovador chinês que verdadeiramente conquistou participação de mercado nos Estados Unidos, mas sua escala ainda está longe de ser um "blockbuster" global como o Keytruda (receita anual de 31,7 bilhões de dólares) ou o Tirzepatide (36,5 bilhões de dólares). A Hengrui, embora tenha 58% de sua receita proveniente de medicamentos inovadores, sua receita total de vendas prescritas globalmente está encolhendo em ranking, pois seus produtos são quase exclusivamente para o mercado chinês.


Além disso, o sistema regulatório chinês está gradualmente construindo sua própria proteção de monopólio. O "Regulamento de Implementação da Lei de Administração de Medicamentos" revisado em 2026 introduziu um período de exclusividade de mercado de até 7 anos para medicamentos órfãos e 6 anos de proteção de dados para dados de ensaios clínicos. Isso significa que a China está construindo institucionalmente um "fosso de monopólio" semelhante ao ocidental, mas os efeitos práticos dessas regras ainda levarão anos para se manifestar.


A "barreira à participação global" é a restrição mais crucial. As empresas chinesas não entram no ranking global porque sua capacidade de comercialização overseas é extremamente limitada. O artigo que analisamos anteriormente apontou que, das empresas chinesas no TOP50 global, "a proporção de receita overseas é geralmente inferior a 30%".


A grande maioria dos medicamentos inovadores chineses só pode ser vendida na China, onde os preços são comprimidos pelo controle de custos do seguro saúde. Um medicamento inovador que nos Estados Unidos pode custar 100.000 dólares por ano, após negociação de preço para entrada no seguro saúde chinês, pode gerar apenas dezenas de milhares de yuans em receita.


O modelo dominante das empresas chinesas atualmente é o "licenciamento externo" (License-out): vender os direitos overseas de moléculas em estágio inicial para empresas ocidentais, recebendo pagamentos iniciais e royalties.


Em 2025, as transações de licenciamento externo de medicamentos inovadores chineses totalizaram mais de 130 bilhões de dólares. Isso parece um valor elevado, mas significa que as empresas chinesas cederam a parte mais lucrativa da renda de monopólio para empresas ocidentais, ficando apenas com uma taxa fixa e uma pequena porcentagem.

 

O modelo ocidental capitalista não é um ideal a ser seguido. A evidência disponível sugere que a China está tentando construir um caminho híbrido—usando o poder estatal para conter a renda monopolista e forçar a queda de preços, enquanto tenta preservar incentivos à inovação. A saúde da sociedade depende de qual equilíbrio esse modelo consegue alcançar.


O modelo chinês parte de uma premissa diferente do ocidental: o medicamento é tratado primariamente como um bem de necessidade pública, não como uma mercadoria cujo preço é definido pela patente. Isso se materializa em dois mecanismos centrais.


Primeiro, a compra centralizada (集采). O Estado, como comprador monopsonista, organiza leilões nos quais as empresas farmacêuticas competem por volume. O resultado é uma queda drástica de preços.


A título de exemplo: o medicamento para leucemia imatinibe caiu de milhares de yuans por caixa para cerca de 600 yuans; o entecavir para hepatite B teve seu custo anual reduzido de cerca de 5.000 yuans para pouco mais de 100 yuans . Até 2026, o programa já cobria 490 variedades de medicamentos, incluindo tratamentos para câncer e doenças raras . Do ponto de vista da saúde pública, isso é inequivocamente positivo: amplia o acesso e reduz o empobrecimento causado por gastos com saúde.


Segundo, a negociação para inclusão no seguro saúde. O Estado também usa seu poder de compra para negociar preços com fabricantes de medicamentos inovadores. Em 2025, 114 medicamentos foram adicionados à lista de reembolso, incluindo 50 medicamentos inovadores de classe 1 desenvolvidos na China . A inclusão tipicamente exige descontos substanciais, mas desbloqueia cobertura nacional e ganhos de volume. Um caso ilustrativo: um medicamento para doença ocular tiroideia da Innovent caiu de 200.000 yuans por tratamento (preço do importado) para 20.000 yuans com o similar nacional, e depois para cerca de 8.000 yuans após negociação com o seguro, com o paciente pagando cerca de 2.000 yuans .


No entanto, o modelo tem tensões internas. O próprio governo reconhece que precisa "equilibrar mercado eficaz e governo eficiente". A preocupação é que preços excessivamente comprimidos possam desestimular o investimento em inovação de alto risco. A resposta oficial tem sido diferenciar: "novos medicamentos não entram em compras centralizadas" (新药不集采), e a negociação para o seguro saúde oferece um caminho de retorno para produtos inovadores. Dados de empresas como Hengrui e Innovent mostram que, uma vez incluídos no seguro, os volumes disparam e as receitas crescem, permitindo reinvestimento em P&D. O modelo, portanto, tenta uma quadratura do círculo: pagar pouco pelo que já é conhecido, mas o suficiente para que as empresas ainda queiram descobrir o desconhecido.


O modelo capitalista ocidental, especialmente o americano, parte da premissa oposta: preços altos são o motor da inovação. As patentes garantem exclusividade, e o mercado (teoricamente) recompensa quem traz terapias revolucionárias. Isso produziu avanços inegáveis—as vacinas de mRNA, os inibidores de checkpoint, os GLP-1—que salvaram e transformaram vidas.


Mas o custo desse modelo tornou-se insustentável para a sociedade. Um relatório da RAND de 2024 mostrou que os preços médios de medicamentos nos EUA eram 2,78 vezes maiores do que a média de 33 países da OCDE, e os medicamentos de marca originais chegavam a ser 4,22 vezes mais caros . O resultado é uma crise de acessibilidade: pacientes racionam insulina, abandonam tratamentos e contraem dívidas médicas. O próprio sistema político americano reconheceu o problema e começou a se mover. A Lei de Redução da Inflação (IRA) de 2022 deu ao Medicare, pela primeira vez, poder de negociar preços de medicamentos, e a primeira rodada de negociações resultou em cortes de 38% a 79% sobre os preços de tabela . Ou seja, mesmo o bastião do capitalismo farmacêutico está admitindo que o mercado puro não entrega saúde.


O Estado e os Titãs do Capital


O Estado não aparece, portanto, como elemento exterior aos “Titãs do Capital”. Ele constitui uma de suas mediações internas fundamentais. Financia a pesquisa, garante a propriedade, concede recursos naturais, sustenta infraestruturas, protege patentes, organiza mercados, administra crises e converte necessidades coletivas em fluxos privados de receitas. A forma concreta dessa articulação, contudo, não é idêntica em todas as formações sociais.  



Nos Estados Unidos e na Europa, predomina a combinação entre propriedade privada, financiamento público, contratos estatais e socialização dos riscos. Na China, grandes empresas estatais e bancos públicos integram-se mais diretamente ao planejamento estratégico, embora operem em mercados e utilizem formas empresariais e financeiras. Na Arábia Saudita, a Saudi Aramco expressa uma fusão particular entre propriedade estatal, renda petrolífera, poder dinástico e inserção no mercado mundial.


O circuito geral pode ser sintetizado da seguinte maneira:




Essa relação não representa simplesmente uma captura unilateral do Estado pelas corporações. Trata-se de uma simbiose estrutural contraditória: o Estado sustenta a acumulação privada, mas também procura subordiná-la aos imperativos da segurança nacional, da soberania tecnológica e da competição geopolítica. É justamente nessa unidade tensa entre poder corporativo, capital financeiro e capacidade estatal que se ergue a figura dos “Titãs do Capital” no século XXI.


Corporações Industriais e Financeirização


Não seria correto afirmar que as corporações industriais estão simplesmente fora dos sustentáculos da financeirização. Elas ocupam uma posição diferente, mas indispensável. São seus títulos — ações e obrigações — que fornecem grande parte da matéria sobre a qual se erguem os portfólios dos fundos – o que vimos nas postagens anteriores. A corporação produz ou captura o excedente; o sistema financeiro transforma os rendimentos presentes e esperados em preços de ativos. Sem a produção, a circulação e a apropriação do excedente pelas corporações, os direitos financeiros perderiam sua base material. Sem os fundos e os bancos, por outro lado, a propriedade das corporações não alcançaria o atual grau de liquidez, mobilidade e centralização.


Além disso, praticamente não existe hoje uma grande corporação “puramente industrial”. Todas participam da financeirização por meio de emissão de ações e títulos; recompra de ações; pagamento de dividendos; administração de enormes reservas monetárias; utilização de derivativos; financiamento de clientes e fornecedores; aquisições e fusões; fundos previdenciários próprios; operações cambiais e tributárias globais. Apple, Microsoft, Alphabet e Amazon mantêm enormes carteiras de títulos e disponibilidades financeiras. Toyota, Volkswagen e outras montadoras possuem braços de financiamento. Walmart combina atividade comercial, crédito e pagamentos. General Electric e outras corporações chegaram a desenvolver operações financeiras comparáveis às de grandes bancos. A fronteira entre capital industrial e capital financeiro tornou-se porosa, sem que a distinção funcional entre ambos desapareça. Portanto, concluindo nossa série sobre os titãs do capital podemos uma estrutura - mais rigorosa – que distinga quatro blocos:


  1. Titãs da propriedade financeira: BlackRock, Vanguard, State Street, grandes fundos de pensão e fundos soberanos.


  2. Titãs do crédito e dos mercados financeiros: JPMorgan, ICBC, Bank of America, Goldman Sachs, Citigroup, China Construction Bank e outros grandes bancos.


  3. Titãs da produção e das infraestruturas: Saudi Aramco, State Grid, CNPC, Sinopec, Toyota, TSMC, Samsung, BYD e grandes grupos industriais.


  4. Titãs das plataformas, da circulação e das rendas monopolistas: Nvidia, Microsoft, Apple, Alphabet, Amazon, Meta, Walmart, Alibaba e grandes farmacêuticas.


Essa classificação evita reduzir o poder empresarial a um único número. BlackRock pode administrar mais de US$ 10 trilhões sem ser proprietária direta dessa riqueza; Walmart pode movimentar centenas de bilhões em vendas sem possuir ativos na mesma proporção; Nvidia pode alcançar trilhões em capitalização com receita muito inferior à de Walmart; Saudi Aramco pode exercer poder estrutural por controlar petróleo; e State Grid pode ser decisiva por dominar uma infraestrutura material indispensável. Se o critério for a capacidade conjunta de controlar tecnologia, produção, circulação, infraestrutura e capitalização financeira, o núcleo superior das corporações contemporâneas seria o seguinte.  


O verdadeiro “Titã do Capital” na era do capitalismo quântico não é, portanto, uma empresa isolada, mas a articulação entre esses três polos – que compõem portanto, a oligarquia financeira global.  A financeirização não paira acima da produção: ela se apoia na apropriação do valor e do excedente produzidos ou capturados pelas corporações, ao mesmo tempo que subordina suas decisões ao imperativo da valorização acionária.


Finalmente, temos o Gráfico Final dos “Titãs do Capital” que nos revela uma totalidade hierarquizada: O Estado e o sistema monetário criam as condições gerais; os bancos centralizam o crédito; as gestoras centralizam a propriedade; e as corporações convertem essa potência financeira em controle tecnológico, produtivo, informacional, biopolítico e militar.


O fluxo também ocorre no sentido inverso. Os lucros e as rendas gerados pelos “braços” retornam aos bancos, fundos e gestoras como dividendos, juros e valorização acionária. Simultaneamente, o poder econômico acumulado retorna ao Estado como influência institucional, capacidade de lobby e condicionamento das políticas públicas.


O Gráfico Final não  teria como centro não uma empresa isolada, mas o mecanismo que unifica todo o sistema: Capitalização financeira dos rendimentos futuros.




 

 FIM




[1] Why is the pharmaceutical industry investing in targeted therapies? The emergence of “premium pharma”, Social Science & Medicine, March 2026, Volume: Volume 392. Disponivel em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0277953625012195#1


 
 
 

Comentários


bottom of page