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Lukács e a expressão “Não sabem, mas o fazem” - 6

  • há 8 horas
  • 35 min de leitura

 

Nesta penúltima postagem da série, voltamos nossa atenção às primeiras ocorrências da expressão Sie wissen das nicht, aber sie tun es — “Eles não sabem, mas o fazem” — presentes nos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social, último texto filosófico de Lukács, redigido em 1970, nos meses finais de sua vida, e publicado postumamente em 1984. Nosso objetivo é, por meio do exame dessa formulação em Lukács, compreender como o filósofo marxista húngaro articula elementos fundamentais para a construção de sua ontologia da práxis e do ser social.

 

Embora os Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social correspondam a apenas 22,13% do volume textual conjunto das duas obras [Ontologia do Ser Social e Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Socia], neles se concentram 33,33% das ocorrências da fórmula marxiana Sie wissen das nicht, aber sie tun es: seis de um total de dezoito. Considerada proporcionalmente à extensão dos textos, a expressão “Não sabem, mas o fazem” apresenta nos Prolegômenos uma frequência aproximadamente 1,76 vez maior — ou 76% superior — àquela verificada nos dois volumes de Para uma Ontologia do Ser Social. Pode-se afirmar, portanto, que a fórmula adquire maior recorrência relativa nos Prolegômenos, embora a determinação de sua relevância propriamente conceitual exija também o exame da função argumentativa desempenhada em cada ocorrência.

 

13

Crítica aqui significa: crítica ontológica do logicizar (também, ainda que não tipicamente a de Hegel), do gnosiologizar, do metodologizar abstrato, etc. Tentativas de tomar decisões essenciais sobre o ser, que se referem à própria coisa, ao invés de buscar suas bases no próprio ser processual. A já seguidamente citada constatação de Marx, segundo a qual as categorias não são de modo primário abstrações que têm lugar no pensamento, mas formas de ser, determinações da existência, pode, nesse patamar de nosso exame do problema fundamental, ser organicamente enlaçada à outra determinação, igualmente fundamental, da atividade histórico-social dos seres humanos: »Não sabem, mas fazem.« Já mostramos seguidamente, em conexões isoladas anteriores, que a influência real das categorias é consideravelmente mais antiga que até mesmo a intuição de sua essência real. Na medida em que os homens agem na vida, eles podem executar suas posições de finalidade, o caminho que tomam para realizá-las, apenas na moldura das respectivas determinações objetivas existentes e a devir. A elementaridade da práxis real pressupõe («sob pena de ruína«, como Marx definiu a necessidade socialmente operante) uma confrontação permanentemente prática e por isso, consciente, por vezes formulada intelectualmente, em uma dada situação teórica histórico-social determinada, com as determinações objetivas dadas. Independentemente de os seres humanos são ou não conscientes delas (e na enorme maioria dos casos, não são), isto significa ao mesmo tempo um efeito das categorias, tomadas no sentido mais amplo, nas atividades da vida social dos seres humanos. Anteriormente, em considerações singulares, assinalamos como um determinado reagir correto-prático, por exemplo, ante a relação categorial entre gênero e exemplar do gênero, estava dado inescapavelmente já para a vida dos animais e, nas nossas observações imediatamente precedentes acerca da criação dos animais domésticos, mostramos que um imediato ativo levar em consideração dos seus complexos categoriais pode conduzir a atos praticamente corretos e, mesmo, à sua formulação no pensamento no nível do cotidiano. Estes exemplos poderiam ser facilmente multiplicados. Mostram como inevitável o confronto prático e, por isso, com frequência também teórico, do ser humano com a qualidade objetiva e, por isso, também com a qualidade categorial, de seu ambiente. Eles também demonstram que, em muitos casos, nos quais o êxito prático das atividades humanas depende imediatamente de uma avaliação ontológica relativamente correta de determinadas relações categoriais-objetivo concretas, a própria práxis se predispõe a determinadas generalizações. Claro, dentro de determinados limites. Tão logo, em cada caso dado, o apreender imediato das constelações ontológicas imperativas para a práxis não mais for suficiente para a realização das finalidades postas na prática e seu meio, o ser humano tem de (novamente: sob pena de perecimento) ir para além dos limites do pensamento cotidiano. Seria impossível, portanto, na práxis humana e na teoria que dela surge, fixar-se no exclusivo predomínio do pensamento cotidiano (mesmo que em suas formas as mais refinadas). Mesmo em épocas muito anteriores, o pensamento cotidiano foi deslocado completa ou parcialmente para o segundo plano por formas de práxis muito mais amplas, pelo emprego dos tratamentos intelectuais desantropomorfizadores da realidade (matemática, geometria). O desenvolvimento das forças produtivas, a sempre crescente divisão do trabalho, a socialização em expansão da vida social, etc. operam no sentido de sempre mais recuar a esfera da mera experiência cotidiana”. (p.220)


Nesta passagem dos “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social”, György Lukács oferece uma das formulações mais maduras e abrangentes de sua ontologia e, ao mesmo tempo, uma das interpretações mais profundas da célebre frase de Marx: „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ (“Eles não sabem disso, mas o fazem”). Aqui (e noutras ocorrências) essa formulação  - como temos salientado nas postagens passadas - já não se refere apenas ao fetichismo da mercadoria, ao trabalho, à linguagem ou à domesticação dos animais. Ela passa a expressar uma característica estrutural de toda a vida social e da própria relação entre ser, consciência e categorias.


O ponto de partida da reflexão é uma crítica dirigida por Lukács a uma tendência recorrente da filosofia ocidental. Quando ele fala em crítica ontológica do “logicizar”, do “gnosiologizar” e do “metodologizar abstrato”, está se referindo àquelas correntes filosóficas que procuram resolver problemas relativos ao ser por meio da lógica, da teoria do conhecimento ou da metodologia, em vez de investigarem as determinações efetivas da própria realidade. Segundo Lukács, muitas filosofias tentaram decidir o que as coisas são a partir das formas do pensamento, quando deveriam partir do próprio movimento do ser. Trata-se de uma crítica que atinge diversas correntes modernas, especialmente o neokantismo, mas também certos aspectos do próprio Hegel, quando este parece derivar a realidade das categorias lógicas.


Contra essa tradição, Lukács retoma uma das formulações mais importantes de Marx nos Grundrisse: as categorias não são, em primeiro lugar, construções mentais, abstrações produzidas pela consciência ou instrumentos metodológicos do pensamento. Elas são, antes de tudo, “formas de ser” [Daseinsformen] e “determinações da existência” [Existenzbestimmungen]. Isso significa que as categorias possuem uma objetividade própria. Elas não surgem inicialmente na cabeça dos indivíduos; surgem na própria realidade. Somente depois são reconhecidas, conceituadas e transformadas em objetos do conhecimento teórico.


É exatamente nesse ponto que Lukács articula essa tese com a frase de Marx: “Eles não sabem disso, mas o fazem”. Se as categorias são formas objetivas de ser, então elas exercem influência sobre a vida humana muito antes de serem conhecidas conscientemente.

Os humanos vivem, trabalham, produzem, trocam, classificam, calculam, distinguem e transformam o mundo dentro de estruturas categoriais que não dependem de sua consciência. Eles podem ignorar completamente a essência dessas categorias e, ainda assim, agir de acordo com elas.


Por isso Lukács afirma que a influência real das categorias é muito mais antiga do que a intuição de sua essência. A humanidade utilizou relações quantitativas muito antes do surgimento da matemática; utilizou relações espaciais muito antes da geometria; operou com relações causais muito antes da ciência; produziu mercadorias muito antes da economia política; criou relações de valor muito antes de compreender o valor; desenvolveu formas de capital muito antes de compreender o capital. Em todos esses casos verifica-se a mesma estrutura fundamental: a prática precede o conhecimento.


Os homens realizam determinadas relações objetivas antes de compreendê-las teoricamente. Em todos esses casos vale a observação de Marx: eles não sabem, mas fazem.

O fundamento dessa situação encontra-se na própria estrutura da práxis. Toda atividade humana orientada para uma finalidade — aquilo que Lukács denomina posição teleológica — precisa realizar-se dentro das determinações efetivamente existentes da realidade. Os humanos são livres para estabelecer objetivos, mas não são livres para ignorar as condições objetivas de sua realização. Uma ponte somente permanece de pé se respeitar certas leis físicas. Uma colheita somente prospera se respeitar determinadas condições naturais. Um processo produtivo somente alcança êxito se considerar as propriedades reais dos materiais utilizados. Em outras palavras, toda ação humana bem-sucedida pressupõe uma relação correta com as determinações objetivas do mundo.


É nesse sentido que Lukács evoca uma formulação recorrente de Marx segundo a qual os homens são obrigados a agir de determinada maneira “sob pena de ruína” [unter Strafe des Untergangs]. A realidade impõe exigências objetivas. Quem as ignora fracassa.


A necessidade não decorre de uma imposição externa arbitrária, mas da própria estrutura objetiva do ser. Assim, mesmo quando não possuem consciência teórica das categorias, os humanos precisam agir de acordo com elas para sobreviver e alcançar suas finalidades.


Essa constatação leva Lukács a afirmar que as categorias exercem uma influência permanente sobre toda a vida social. Independentemente de serem conhecidas ou não, elas moldam a atividade humana. Os homens se confrontam continuamente com elas na prática cotidiana. E esse confronto ocorre muito antes de qualquer formulação filosófica ou científica.


Para tornar essa ideia mais clara, Lukács recorda exemplos discutidos anteriormente. Ele menciona que até mesmo certos comportamentos animais pressupõem uma relação prática adequada com determinadas categorias objetivas, especialmente aquelas ligadas à distinção entre gênero e exemplar do gênero. Um animal reconhece membros de sua espécie, distingue parceiros reprodutivos, identifica presas e reage adequadamente a regularidades do ambiente. Evidentemente, ele não possui conceitos nem conhecimento teórico dessas relações. Contudo, seu comportamento demonstra uma adaptação prática a estruturas objetivas do real.


No caso humano, essa relação torna-se muito mais complexa. A vida cotidiana exige constantemente avaliações corretas das determinações objetivas do ambiente. O agricultor que escolhe sementes adequadas, o pescador que observa os ciclos das marés, o artesão que seleciona materiais apropriados ou o criador de animais que favorece determinados exemplares para reprodução estão todos operando com determinações categoriais da realidade. Frequentemente não possuem uma teoria dessas determinações. Mesmo assim, sua prática revela uma adequação objetiva a elas.


É justamente por isso que Lukács observa que a própria práxis tende espontaneamente à generalização. Quando determinadas ações produzem resultados repetidos, os humanos passam a reconhecer regularidades. Essas regularidades transformam-se em experiências acumuladas. A experiência acumulada converte-se em saber prático. E o saber prático, por sua vez, constitui o ponto de partida para formas cada vez mais desenvolvidas de conhecimento.


Contudo, Lukács insiste que esse desenvolvimento possui limites. O pensamento cotidiano é suficiente apenas enquanto as exigências práticas permanecem relativamente simples. À medida que as tarefas se tornam mais complexas, o conhecimento imediato deixa de bastar. O simples contato empírico com a realidade torna-se insuficiente para orientar a ação.

Nesse momento surge uma necessidade objetiva de ultrapassar os limites da experiência cotidiana.


Mais uma vez aparece a fórmula marxiana da necessidade: isso ocorre “sob pena de perecimento”. Os homens não superam o pensamento cotidiano por puro desejo de conhecimento abstrato. São obrigados a fazê-lo porque a própria sobrevivência e a eficácia de suas atividades exigem formas mais desenvolvidas de compreensão da realidade.

É dessa necessidade prática que nasce a ciência.


A matemática, a geometria, a astronomia, a mecânica e todas as formas superiores de conhecimento não surgem inicialmente como atividades contemplativas desvinculadas da vida social. Elas emergem porque o desenvolvimento das forças produtivas, a ampliação da divisão do trabalho e a crescente complexidade da sociedade exigem uma apreensão mais rigorosa das determinações objetivas do mundo.


Lukács caracteriza essas formas superiores de conhecimento como modos “desantropomorfizadores” de apreensão da realidade. A expressão é extremamente significativa. O pensamento cotidiano tende a interpretar o mundo a partir de analogias humanas imediatas. A ciência rompe progressivamente com essa tendência. Ela procura compreender os objetos segundo suas determinações próprias, independentemente das projeções subjetivas dos homens. A matemática e a geometria são exemplos paradigmáticos desse movimento porque permitem captar relações objetivas que não dependem da experiência humana imediata.


Por isso Lukács conclui observando que o desenvolvimento histórico empurra continuamente para trás os limites do pensamento puramente cotidiano. O crescimento das forças produtivas, a expansão da socialização da vida e a complexificação crescente das relações sociais tornam indispensáveis formas cada vez mais elaboradas de conhecimento.

Nesse contexto, a frase de Marx adquire seu significado ontológico mais profundo. “Eles não sabem disso, mas o fazem” não significa simplesmente que os homens agem inconscientemente. Significa que a prática humana está sempre inserida em determinações objetivas que existem independentemente da consciência. As categorias são formas de ser antes de serem formas de pensamento. Elas organizam a vida social muito antes de se tornarem objetos da ciência ou da filosofia. Os homens vivem dentro delas, atuam segundo elas e reproduzem-nas na prática antes mesmo de conhecê-las teoricamente.


A história do conhecimento humano é, portanto, a história da lenta transformação dessas determinações objetivas em objetos conscientes da reflexão.


Primeiro as categorias operam silenciosamente na prática social. Depois tornam-se objeto de generalizações empíricas. Finalmente são elevadas ao plano da ciência e da filosofia.

Em outras palavras, primeiro os homens agem segundo categorias que desconhecem; somente depois passam a compreendê-las. É exatamente essa prioridade ontológica do ser sobre a consciência, da práxis sobre a teoria e da objetividade sobre sua representação conceitual que Lukács encontra condensada na fórmula de Marx: “Eles não sabem disso, mas o fazem.” Trata-se, para ele, não apenas de uma observação sobre determinados fenômenos históricos, mas de uma das leis mais fundamentais do desenvolvimento do próprio ser social.

 

Observações filológicas


Uma leitura filológica rigorosa dessa passagem dos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social permite perceber que Lukács está condensando nela praticamente todo o núcleo metodológico de sua ontologia marxista. O texto não constitui apenas uma reflexão sobre a relação entre prática e consciência, mas uma crítica abrangente a toda uma tradição filosófica que tentou compreender o ser a partir do pensamento, em vez de compreender o pensamento a partir do ser.


É nesse contexto que a célebre fórmula marxiana Sie wissen das nicht, aber sie tun es (“Eles não sabem disso, mas o fazem”) adquire um significado ontológico muito mais profundo do que aquele que possuía originalmente em sua formulação no capítulo sobre o fetichismo da mercadoria em “O Capital”.


A passagem da ocorrência 13 inicia-se com a expressão „ontologische Kritik der logizistischen, der erkenntnistheoretischen, abstrakt methodologischen Versuche“, geralmente traduzida como crítica ontológica das tentativas logicistas, gnosiológicas ou metodológicas abstratas. Contudo, uma observação filológica mostra que Lukács escolhe cuidadosamente seus termos. Ele não utiliza simplesmente o adjetivo logisch [lógico], mas logizistisch. O termo possui um sentido crítico específico. Não significa crítica da lógica em si mesma, mas crítica à tendência de transformar problemas do ser em problemas da lógica, isto é, de deduzir a realidade a partir de categorias lógicas.


O mesmo vale para erkenntnistheoretisch, que não designa apenas a teoria do conhecimento, mas a tendência de substituir questões ontológicas por questões epistemológicas. Em vez de perguntar o que é o ser, pergunta-se como conhecemos o ser. Para Lukács, essa inversão constitui um erro fundamental porque desloca a investigação do terreno da realidade para o terreno da consciência.


É por isso que ele contrapõe a essas abordagens a necessidade de buscar os fundamentos das categorias no próprio ser.


Surge então a expressão „im prozessierenden Sein selbst“, literalmente “no próprio ser em processo”. A tradução habitual por “ser processual” é correta, mas não esgota o sentido do original. O verbo prozessieren sugere um movimento contínuo de desenvolvimento, transformação e autoconstituição. O ser não aparece como uma substância estática, mas como um processo objetivo em permanente movimento. Há aqui uma herança evidente da dialética hegeliana, porém reinterpretada de modo materialista. O fundamento das categorias não deve ser procurado nas estruturas do pensamento, mas no movimento efetivo da realidade.


Essa posição conduz Lukács à retomada de uma das teses mais importantes de Marx nos Grundrisse: as categorias são „Daseinsformen, Existenzbestimmungen“. Filologicamente, os dois termos possuem significados distintos e complementares.


Daseinsformen significa literalmente “formas de ser-aí”, formas concretas de existência. Já Existenzbestimmungen significa “determinações da existência”, isto é, os traços constitutivos que definem o modo de ser de algo. Marx utiliza os dois termos para indicar que as categorias não são originalmente conceitos produzidos pela consciência. Antes de serem categorias do pensamento, elas são categorias do próprio ser. Elas existem objetivamente na realidade e somente depois são reconhecidas teoricamente.

É exatamente nesse ponto que Lukács introduz a frase de Marx: „Sie wissen das nicht, aber sie tun es.“ 


A conexão é decisiva. Se as categorias são formas objetivas de ser, então elas atuam sobre os homens muito antes de serem conhecidas. Os humanos vivem dentro de estruturas categoriais objetivas sem possuir consciência delas. Produzem, trocam, trabalham, classificam, calculam e transformam a realidade de acordo com determinações objetivas que não compreenderam teoricamente. A prática precede o conhecimento.


Essa ideia aparece de forma particularmente clara quando Lukács afirma que „der reale Einfluß der Kategorien bedeutend älter ist, als auch nur die Ahnung ihres wirklichen Wesens“, isto é, que “a influência real das categorias é muito mais antiga do que até mesmo a mais vaga suspeita de sua verdadeira essência”. O termo Ahnung merece atenção especial. Ele não significa simplesmente conhecimento ou intuição. Designa antes um pressentimento obscuro, uma percepção ainda não conceitual.


A afirmação de Lukács é extremamente forte: as categorias operam objetivamente durante séculos ou milênios antes que os humanos tenham sequer uma vaga suspeita de sua natureza. Os homens utilizam relações quantitativas muito antes da matemática, relações espaciais muito antes da geometria, relações causais muito antes da ciência e relações econômicas muito antes da economia política. Em todos esses casos, a prática antecede radicalmente a teoria.


A mesma ideia aparece na formulação segundo a qual os homens realizam suas finalidades apenas dentro das „jeweils seienden und werdenden Gegenständlichkeitsbestimmungen“, isto é, “das determinações objetivas existentes e em devir”. Os termos seiend e werdend são particularmente significativos porque remetem à clássica dialética entre ser e devir. A realidade nunca é simplesmente dada. Ela é simultaneamente aquilo que é e aquilo que está se tornando. Toda ação humana ocorre dentro dessa estrutura dinâmica do real.


Nesse contexto assume grande importância o conceito de Gegenständlichkeitsbestimmungen. Trata-se de uma palavra difícil de traduzir porque reúne os sentidos de objetividade [Gegenständlichkeit] e determinação [Bestimmung]. O termo não se refere simplesmente a características objetivas, mas às determinações constitutivas da própria objetividade. São os traços que fazem algo ser aquilo que é. Lukács insiste que toda práxis bem-sucedida deve adequar-se a essas determinações. Os homens podem estabelecer livremente seus objetivos, mas não podem ignorar a estrutura objetiva da realidade.


É por isso que surge a famosa expressão marxiana „bei Strafe des Untergangs“, literalmente “sob pena de ruína” ou “sob pena de perecimento”. A fórmula não possui sentido moral ou jurídico. Ela exprime uma necessidade objetiva. Quem ignora as determinações reais do ser fracassa. O agricultor que ignora as condições da terra perde sua colheita. O engenheiro que ignora a resistência dos materiais vê sua construção desabar. A necessidade decorre da própria estrutura da realidade.


Essa relação entre os homens e as determinações objetivas do mundo é descrita por Lukács através do conceito de Auseinandersetzung, geralmente traduzido como confronto ou enfrentamento. No entanto, o termo alemão possui um significado mais rico. Sugere um processo ativo de ajuste de contas, de elaboração prática e intelectual da realidade. Os humanos precisam continuamente confrontar-se com as determinações objetivas do mundo, adequando suas ações a elas.


Lukács recorda então exemplos discutidos anteriormente, especialmente a relação entre Gattung (gênero) e Gattungsexemplar (exemplar do gênero). Mesmo os animais precisam distinguir corretamente indivíduos pertencentes à sua espécie. Caso contrário não sobreviveriam. Isso demonstra que certas relações categoriais operam objetivamente antes de qualquer consciência delas. No caso humano, essa relação torna-se ainda mais complexa.


É nesse contexto que surge a expressão „ein unmittelbares aktives Rechnen mit diesen Kategorienkomplexen“ [“um processamento ativo e direto desses complexos de categorias”]O verbo rechnen mit não significa apenas calcular. Significa contar com, levar em consideração, operar tendo algo em vista. Quando os criadores neolíticos selecionavam determinados animais para reprodução, eles não possuíam genética, mas levavam em consideração regularidades objetivas da realidade. Não conheciam teoricamente as categorias envolvidas, mas agiam segundo elas.


Daí decorre outra observação importante. Lukács afirma que die Praxis selbst bestimmte Verallgemeinerungen durchzusetzen veranlaßt, ou seja, que “a própria prática força ou impõe determinadas generalizações”. O verbo durchsetzen significa fazer prevalecer, impor. As abstrações não surgem arbitrariamente na mente humana. Elas são produzidas e exigidas pela própria atividade prática. Há aqui uma afinidade evidente com a noção marxiana de abstração real. A prática obriga os indivíduos a reconhecer regularidades, estabelecer generalizações e formular conceitos.


À medida que a complexidade da vida social aumenta, torna-se necessário ultrapassar os limites do pensamento cotidiano. Lukács fala então das Seinskonstellationen, as “constelações de ser”. O termo Konstellation sugere uma configuração estruturada de elementos, não uma simples soma de fatos isolados. A realidade apresenta-se como um conjunto articulado de relações objetivas. Quando a experiência cotidiana já não basta para captar essas configurações complexas, os homens são obrigados a desenvolver formas superiores de conhecimento.


É nesse contexto que surge uma das expressões mais belas e significativas da passagem: „desanthropomorphisierende gedankliche Bearbeitungen der Wirklichkeit“, isto é, “elaborações intelectuais desantropomorfizadoras da realidade”. O termo central é desanthropomorphisierend. Ele designa o esforço de libertar o conhecimento das projeções antropomórficas.


 O pensamento cotidiano tende a interpretar a realidade a partir da experiência humana imediata. A ciência, ao contrário, procura compreender os objetos segundo suas próprias determinações. A matemática, a geometria e as demais ciências constituem exemplos paradigmáticos desse processo porque permitem apreender relações objetivas que independem da subjetividade humana.


Desse modo, a frase de Marx assume um significado ontológico de extraordinária profundidade. Ela já não se refere apenas ao fato de que os produtores de mercadorias criam relações de valor sem compreendê-las. Ela expressa a prioridade ontológica das determinações objetivas da realidade sobre a consciência.


As categorias são formas de ser antes de serem formas de pensamento. Elas organizam a práxis muito antes de se tornarem objetos da teoria. Os homens vivem dentro delas, reproduzem-nas e realizam-nas sem conhecer sua essência. Sua influência objetiva é muito mais antiga do que qualquer suspeita conceitual de seu significado.


A ciência, a filosofia e a teoria surgem precisamente quando a crescente complexidade das constelações de ser obriga os homens, sob pena de fracasso e perecimento, a ultrapassar os limites do pensamento cotidiano e tornar conscientes determinações ontológicas que já operavam silenciosamente em sua própria prática.


É exatamente nesse sentido que a fórmula marxiana „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ transforma-se, em Lukács, numa das expressões mais acabadas da prioridade do ser sobre a consciência e da práxis sobre a teoria na constituição do ser social.


14


A adaptação ativa ao ambiente, mediada através da decisão alternativa em toda posição teleológica, produz para o processo de reprodução do ser social assim levado a cabo situações radicalmente, qualitativamente, diversas. A frequentemente por nós citada caracterização das atividades sociais dos seres humanos, »não sabem, mas fazem«, significa, em uma observação mais próxima, que os seres humanos que agem podem não ter uma consciência apropriada tanto das causas, quanto das consequências e, menos ainda, da essência, do que forma o objeto ou instrumento (ou ambos) de suas atividades, do verdadeiro ser; todavia, aqueles momentos do seu complexo ontológico que são, antes de tudo, relevantes para sua atividade em questão, certamente — em correspondência com as respectivas situações sociais concretas — são capazes de ser elevados a momentos conscientes de sua práxis. O decisivamente novo com isso não é que a partir de agora o ser atualmente dado, uma vez que se torna uma questão imediata para a práxis (no sentido mais amplo), tenha de incondicionalmente, sob pena de ruína, ser dominado pela teoria, mas apenas que, ao incorporar este recorte do ser como um todo em uma »imagem de mundo« da práxis, cuja verdade ontológica pode, de fato, permanecer objetivamente extremamente problemática, esse falso reflexo na consciência, contudo, com o processo de reprodução da sociedade é, na prática, levado adiante e de fato, enquanto ser, mesmo com frequência como um ser mais elevado, pode figurar como reconhecido e dominado. Assim, no ser social, algo de todo não existente, mas cujas representação [Vorstellungen] dirigem e determinam praticamente as atividades sociais, pode desempenhar importante papel como momento do ser. Essa situação paradoxal já foi claramente reconhecida por Marx bem no início de sua atividade literária. Na Dissertação, precisamente lá onde a existência de Deus é o mais decisivamente refutada, como parte orgânica de sua linha de pensamento, encontra-se: »O velho Moloch não reinou? O Apolo de Delfos não era uma força real na vida dos gregos?« [p.224]


Esta passagem dos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social representa um momento particularmente importante da ontologia tardia de Lukács porque nela a fórmula marxiana „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ ("Eles não sabem disso, mas o fazem") adquire um novo significado.


Até aqui, Lukács havia utilizado essa frase para explicar situações em que os homens realizam objetivamente determinadas relações sociais ou transformações da realidade sem possuírem consciência teórica delas. Agora ele dá um passo além: procura explicar como representações falsas, ilusões, mitos, religiões e concepções equivocadas do mundo podem desempenhar um papel ontologicamente real na reprodução do ser social.


O ponto de partida do texto é a análise daquilo que Lukács chama de adaptação ativa ao ambiente.


Diferentemente dos animais, cuja adaptação é predominantemente biológica, o ser humano adapta-se ao mundo por meio da práxis teleológica. Cada ato humano envolve uma escolha entre alternativas possíveis. Lukács utiliza aqui uma categoria central de sua ontologia: a “escolha alternativa” [alternative Entscheidung].


Toda posição teleológica pressupõe que o sujeito selecione entre várias possibilidades aquela que julga mais adequada para alcançar uma finalidade. Essa mediação pela escolha faz com que a reprodução do ser social produza situações qualitativamente novas, muito diferentes dos mecanismos adaptativos presentes na natureza.


É nesse contexto que ele retoma a frase de Marx. Lukács observa que, quando Marx afirmou que os homens “não sabem, mas fazem”, isso não significava simplesmente ignorância absoluta. Uma análise mais cuidadosa mostra que os indivíduos podem desconhecer as causas profundas de suas ações, podem ignorar suas consequências de longo prazo e podem estar completamente afastados da compreensão da essência do objeto com que lidam. Eles podem não compreender o verdadeiro ser [wahres Sein] dos objetos, dos instrumentos ou das relações sociais que constituem sua atividade. Contudo, isso não significa que atuem cegamente.


Para que a prática tenha êxito, determinados aspectos da realidade precisam necessariamente tornar-se conscientes.


Essa observação é extremamente importante. Lukács está distinguindo entre dois níveis de consciência. Os homens podem ignorar a essência das coisas, mas precisam conhecer certos aspectos funcionais delas. Um agricultor não precisa possuir uma teoria científica da botânica para cultivar a terra, mas precisa saber quando plantar e colher. Um artesão não precisa conhecer a física dos materiais, mas precisa saber quais materiais são adequados para determinado uso. Um mercador medieval não precisava compreender a teoria do valor para comprar e vender mercadorias. Assim, mesmo quando a essência permanece oculta, certos momentos da realidade são elevados ao plano da consciência porque são indispensáveis para a prática.


O passo seguinte da argumentação é decisivo. Lukács afirma que a novidade específica do ser social não consiste apenas no fato de que a realidade precisa ser dominada teoricamente para que a prática tenha êxito. Isso já ocorria, em alguma medida, desde os primórdios do trabalho humano. O que realmente distingue o ser social é que esses recortes da realidade são incorporados a uma “imagem de mundo” [Weltbild]. Essa imagem de mundo procura organizar os diversos aspectos da experiência humana em uma totalidade relativamente coerente.


Entretanto, e aqui está o ponto central da passagem, essa imagem de mundo pode ser profundamente falsa do ponto de vista ontológico. Ela pode oferecer uma interpretação equivocada da realidade e, ainda assim, desempenhar um papel efetivo na reprodução da vida social.


Lukács utiliza uma formulação muito forte ao falar de um „falscher Widerspiegelung“ — um “reflexo falso da realidade” na consciência. Em outras palavras, os humanos podem construir representações ilusórias do mundo e, apesar disso, agir com base nelas de maneira eficaz. Essas representações falsas não deixam de produzir efeitos apenas porque são falsas.

Aqui aparece uma das teses mais sofisticadas da ontologia lukacsiana. O ser social possui a capacidade de incorporar ao seu próprio processo de reprodução elementos que não possuem existência objetiva real. Uma representação ilusória, um mito ou uma crença podem tornar-se momentos efetivos da vida social se orientarem a prática dos indivíduos. É nesse sentido que Lukács afirma algo aparentemente paradoxal:


No ser social, algo que não existe de modo algum pode desempenhar um papel importante como momento do ser.

Essa afirmação parece contraditória apenas à primeira vista. O que não existe objetivamente pode adquirir eficácia prática se for incorporado à consciência coletiva e orientar comportamentos sociais.


Uma entidade inexistente continua inexistente do ponto de vista ontológico. Mas a crença nela pode produzir consequências muito reais.


É exatamente por isso que Lukács recorre a um exemplo extraído do jovem Marx. Em sua tese de doutorado, Marx rejeita filosoficamente a existência de Deus. No entanto, ao mesmo tempo, reconhece que deuses inexistentes podem exercer um poder social efetivo. É nesse contexto que aparece a pergunta:


“O velho Moloch não reinou? O Apolo de Delfos não era uma força real na vida dos gregos?”


A resposta implícita é evidente. Moloch e Apolo não existiam enquanto seres objetivos. Contudo, sua inexistência ontológica não impedia que fossem forças reais na vida social. Milhares de pessoas organizavam suas ações, suas instituições, seus rituais, suas guerras, seus sacrifícios e suas decisões cotidianas em função da crença nesses deuses. As representações religiosas produziam efeitos concretos porque orientavam a práxis humana.


É aqui que a frase „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ adquire um significado novo e particularmente profundo. Nos exemplos anteriores analisados por Lukács — trabalho, linguagem, domesticação dos animais, categorias da vida cotidiana — a fórmula indicava que os homens realizavam objetivamente processos cuja essência desconheciam. Agora ela passa a significar algo adicional:


os homens não apenas desconhecem a essência do que fazem, mas frequentemente organizam sua prática a partir de representações falsas da realidade.


Contudo, mesmo essas representações falsas não são arbitrárias. Elas surgem de necessidades reais da reprodução social. As sociedades produzem mitos, religiões, ideologias e imagens de mundo porque precisam conferir sentido à sua experiência prática. Essas construções podem ser ontologicamente falsas e, ainda assim, socialmente eficazes.

A consequência dessa reflexão é extremamente importante para a teoria marxista da ideologia. Lukács está mostrando que a eficácia social de uma ideia não depende de sua verdade ontológica. Uma crença pode ser falsa e, mesmo assim, tornar-se uma força histórica real. Uma religião pode não corresponder à estrutura objetiva do mundo e, ainda assim, organizar durante séculos a vida de uma civilização inteira. Uma ideologia pode apresentar uma imagem invertida da realidade e, apesar disso, orientar efetivamente a prática social.


Assim, nesta passagem, a fórmula de Marx deixa de significar apenas que os homens produzem relações sociais sem compreendê-las plenamente. Ela passa a expressar uma característica ainda mais complexa do ser social: os homens vivem e atuam dentro de imagens de mundo que frequentemente ocultam a essência da realidade, mas que continuam desempenhando funções reais na reprodução da sociedade.


Eles não sabem o que realmente são os objetos, as relações ou as forças que orientam sua vida. Contudo, agem continuamente a partir dessas representações. E justamente porque agem, essas representações tornam-se momentos efetivos do ser social.


É nesse sentido que Lukács pode afirmar que algo inexistente ontologicamente — um deus, um mito, uma crença ou uma ideologia — pode adquirir uma realidade social efetiva quando passa a orientar a prática humana. A frase de Marx, portanto, revela aqui não apenas a prioridade da práxis sobre a consciência, mas também a capacidade do ser social de transformar representações, inclusive representações falsas, em forças históricas objetivamente atuantes.


Observações filológicas


Uma análise filológica cuidadosa dessa passagem dos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social permite perceber que Lukács está desenvolvendo uma das questões mais sofisticadas de sua ontologia: a relação entre ser, consciência, representação, imagem de mundo e eficácia social.


A referência à fórmula marxiana „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ (“Eles não sabem disso, mas o fazem”) adquire aqui um significado novo em relação às passagens anteriores. Não se trata apenas de mostrar que os homens realizam processos objetivos sem compreender sua essência, mas de explicar como representações falsas, mitos, religiões e ideologias podem tornar-se forças efetivas da vida social, apesar de não corresponderem à realidade objetiva.


A passagem começa com a expressão „Die aktive Anpassung an die Umwelt“, geralmente traduzida como “adaptação ativa ao ambiente”. Contudo, o termo alemão contém uma tensão conceitual importante. O verbo anpassen significa adaptar-se, ajustar-se a algo. Na natureza, adaptação costuma designar um processo predominantemente passivo: o organismo adapta-se ao meio em que vive. Lukács, porém, fala em adaptação ativa. A aparente contradição é intencional. O ser humano adapta-se ao ambiente precisamente porque o transforma. Ele não apenas responde às condições dadas; modifica-as por meio de sua atividade prática. Essa expressão condensa uma das teses centrais da ontologia do trabalho: o homem adapta-se ao mundo transformando o mundo.


Essa transformação é mediada pelo que Lukács chama de „Alternativentscheidung“, isto é, “escolha entre alternativas”. Trata-se de uma categoria fundamental de sua ontologia. O trabalho humano não consiste em uma reação automática a estímulos externos. Cada ação envolve a escolha entre possibilidades objetivamente existentes. As alternativas não são inventadas pela consciência; elas são oferecidas pela própria realidade. Mas a decisão é um ato efetivamente humano. É nesse sentido que a atividade teleológica distingue o ser social do comportamento meramente natural.


A consequência dessa atividade é a produção de „radikal qualitativ verschiedene Lagen“, ou seja, “situações ou configurações qualitativamente novas”. O termo Lage significa mais do que simples situação. Refere-se a uma posição objetiva, a uma configuração concreta do ser. A práxis humana não produz apenas modificações quantitativas. Ela cria novas configurações ontológicas, novos estados do mundo, novas formas de existência. É nesse contexto que Lukács retoma a famosa fórmula de Marx: „Sie wissen das nicht, aber sie tun es.“ 


A explicação que se segue é particularmente reveladora. Os homens que atuam podem não conhecer as causas de suas ações, podem ignorar suas consequências e, sobretudo, podem não compreender a essência daquilo com que estão lidando. Lukács utiliza uma gradação muito precisa ao afirmar que eles desconhecem „weder die Ursachen, noch die Folgen und erst recht nicht das Wesen“ — nem as causas, nem os efeitos e muito menos a essência. O termo Wesen possui aqui o sentido clássico de essência, aquilo que constitui o núcleo mais profundo de uma realidade. A consciência cotidiana geralmente permanece distante desse nível.


Lukács afirma então que os indivíduos não conseguem tornar consciente aquilo que corresponde adequadamente ao „wahren Sein“, ao verdadeiro ser das coisas. Essa expressão é extremamente significativa. Ela pressupõe uma distinção entre a aparência imediata dos fenômenos e sua estrutura ontológica efetiva. Os agentes da práxis podem agir corretamente sem captar esse verdadeiro ser. Em outras palavras, a adequação prática à realidade não exige necessariamente uma compreensão de sua essência. Contudo, isso não significa que a consciência seja irrelevante. Lukács observa que determinados momentos do complexo de ser com que os homens lidam podem ser elevados ao plano da consciência. A expressão utilizada é „in bewußte Momente ihrer Praxis zu erheben“, literalmente “elevar a momentos conscientes de sua prática”.


O verbo erheben sugere um movimento de ascensão. Certos aspectos da realidade tornam-se conscientes porque são indispensáveis à atividade prática. Um agricultor não precisa conhecer a genética das sementes que utiliza, mas precisa saber quando plantá-las. Um marinheiro não precisa compreender a física dos ventos, mas precisa saber como utilizá-los. Assim, embora a essência permaneça oculta, aspectos relevantes da realidade são incorporados à consciência prática.


A novidade específica do ser social, entretanto, não reside apenas nesse conhecimento parcial da realidade. Ela reside no fato de que esses fragmentos da experiência são incorporados a uma „Weltbild“, uma “imagem de mundo”. O termo alemão possui um significado muito mais amplo do que uma simples representação subjetiva. Uma Weltbild é uma visão global da realidade, uma interpretação totalizante que procura conferir sentido ao conjunto da experiência humana. Ela organiza os diversos aspectos da vida em uma totalidade relativamente coerente.


O problema surge porque essa “imagem de mundo” pode ser profundamente falsa do ponto de vista ontológico. Lukács afirma explicitamente que sua „Seinswahrheit“, sua verdade de ser, pode permanecer objetivamente extremamente problemática. O termo Seinswahrheit é particularmente importante. Não se refere à verdade lógica nem à consistência psicológica de uma crença. Refere-se à sua correspondência efetiva ao ser, à sua verdade ontológica. Uma imagem de mundo pode ser falsa enquanto interpretação da realidade e, ainda assim, exercer enorme influência sobre a vida social.


É nesse contexto que aparece uma das categorias centrais da teoria do conhecimento de Lukács: Spiegelung, o reflexo ou espelhamento da realidade na consciência. Lukács fala explicitamente de „falsche Spiegelungen“, reflexos falsos. A consciência pode produzir imagens distorcidas da realidade. Contudo, essas imagens continuam desempenhando um papel efetivo porque orientam a prática humana.


O verbo utilizado por Lukács é particularmente significativo. Ele afirma que essas representações falsas podem „figurieren“ como ser. O verbo figurieren significa figurar, aparecer, desempenhar o papel de algo. Uma representação falsa pode funcionar socialmente como se fosse uma realidade efetiva. Ela pode orientar ações, instituições e formas de vida mesmo sem corresponder à estrutura objetiva do mundo.


É precisamente por isso que Lukács formula uma das teses mais paradoxais de sua ontologia. No ser social, algo que não existe pode desempenhar um papel importante como momento do ser. 


A expressão alemã é extremamente forte: „etwas gar nicht Seiendes“, algo absolutamente não existente. Lukács não está falando de algo parcialmente real ou ainda desconhecido. Está falando de algo que simplesmente não existe do ponto de vista ontológico.


Mas ele acrescenta imediatamente que suas „Vorstellungen“, suas representações, podem orientar e determinar atividades sociais. O termo Vorstellungen possui um significado amplo. Não designa apenas imagens mentais individuais, mas crenças, concepções, representações coletivas, mitos e formas de consciência social. Quando essas representações passam a orientar a prática, adquirem eficácia histórica.


É exatamente para ilustrar essa situação que Lukács recorre a uma observação do jovem Marx. Em sua tese de doutorado, Marx refuta filosoficamente a existência de Deus. Contudo, ao mesmo tempo, reconhece que divindades inexistentes podem exercer um poder social efetivo. Daí a pergunta: “O velho Moloch não reinou? O Apolo de Delfos não era uma força real na vida dos gregos?” A resposta implícita é afirmativa. Moloch e Apolo não existiam como seres objetivos. Mas a crença neles possuía efeitos reais. Milhares de pessoas organizavam suas vidas, seus rituais, suas decisões políticas e suas práticas sociais em função dessas divindades. Elas eram inexistentes do ponto de vista ontológico, mas reais enquanto forças sociais.


Toda a passagem gira, portanto, em torno de uma distinção fundamental entre Sein (ser), Vorstellung (representação), Seinswahrheit (verdade ontológica) e eficácia social. Uma representação pode carecer completamente de verdade ontológica e, ainda assim, possuir enorme eficácia histórica. É isso que Lukács procura demonstrar.


A prática humana não é guiada apenas por determinações objetivas corretamente compreendidas. Ela também é orientada por imagens de mundo, crenças, mitos e ideologias que frequentemente distorcem a realidade.


Nesse contexto, a frase de Marx assume um significado mais profundo do que nas passagens anteriores dos “Prolegômenos”. Antes, ela indicava que os homens produzem valor sem conhecer a teoria do valor, domesticam animais sem conhecer genética ou utilizam categorias sem compreendê-las conceitualmente. Agora ela significa também que os homens frequentemente organizam sua vida social por meio de imagens de mundo que contêm reflexos falsos da realidade. Eles não apenas desconhecem a essência do que fazem; muitas vezes interpretam essa realidade através de representações ilusórias. Essas representações podem referir-se a algo absolutamente inexistente e, mesmo assim, tornar-se momentos efetivos do ser social porque orientam a prática humana.


A tese final de Lukács é profundamente dialética.


O inexistente pode adquirir eficácia ontológica mediada pela ação humana. Um deus inexistente, um mito ou uma ideologia não se tornam reais porque existam objetivamente, mas porque suas representações passam a orientar comportamentos, instituições e formas de vida.


Assim, a reprodução do ser social incorpora continuamente elementos cuja verdade ontológica é duvidosa ou inexistente, mas cuja eficácia prática é absolutamente real. É exatamente essa dialética entre inexistência objetiva e efetividade social que Lukács procura captar ao reinterpretar a fórmula marxiana „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“. Ela deixa de significar apenas a prioridade da prática sobre a teoria e passa a revelar também a capacidade do ser social de transformar representações — inclusive representações falsas — em forças históricas efetivamente atuantes.


15


Essa compreensão tem, todavia, uma prolongada pré-história. Também seu conhecimento pressupõe a já bem conhecida característica das atividades humanas: »Não sabem, mas fazem.« Correspondentemente, a práxis humana, de fato, em suas posições de finalidade real-concretas e modos de realização, é uma práxis consciente. Se o ser humano da Idade da Pedra deseja produzir um machado, então tem de se tomar consciente das funções, das formas possíveis, etc. do machado, de determinados gestos para burilar, etc. Esse, precisamente, é o salto da esfera ontológica determinada biologicamente para a esfera da socialidade. Do que amplamente não decorre, todavia, que, enquanto tal, a conscienciosidade imperativa para uma tal práxis para os seres humanos nesse estágio de desenvolvimento igualmente tenha de tornar-se consciente. As concretas experiências de trabalho que devem já ter, também, um caráter consciente na prática para funcionarem e, eventualmente, poderem na prática se ampliar, possuem essa conscienciosidade apenas em relação ao próprio processo concreto da práxis, não em relação à gênese e qualidade daquela consciência, da qual são, de fato, modos prático-concretos de manifestação.” (p.247)


Nesta passagem dos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social, György Lukács desenvolve uma reflexão particularmente importante sobre a gênese da consciência humana e sobre a relação entre consciência prática e autoconsciência. A célebre fórmula marxiana „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ (“Eles não sabem disso, mas o fazem”) adquire aqui um significado mais refinado e mais profundo do que nas passagens anteriores.


Já não se trata apenas de explicar como os homens produzem valor sem conhecer a teoria do valor, como domesticam animais sem conhecer genética ou como vivem e atuam segundo categorias que desconhecem conceitualmente. O problema agora é outro: os homens podem agir conscientemente sem possuir consciência da própria consciência que torna essa ação possível.


Lukács inicia sua reflexão observando que a compreensão da consciência possui uma longa pré-história. A humanidade utilizou a consciência durante milênios antes de transformá-la em objeto de reflexão filosófica ou científica. Os seres humanos foram conscientes muito antes de saber o que era a consciência. É exatamente nesse contexto que ele retoma a frase de Marx.


Quando afirma que os homens “não sabem disso, mas o fazem”, Lukács quer mostrar que eles utilizam capacidades conscientes antes de possuírem qualquer teoria dessas capacidades. Eles exercem a consciência sem compreender sua natureza. Sabem operar com ela, mas não sabem o que ela é.


Para tornar essa ideia mais concreta, Lukács recorre ao exemplo do homem da Idade da Pedra que deseja fabricar um machado. A produção desse instrumento exige necessariamente consciência. O indivíduo precisa antecipar mentalmente um resultado futuro. Precisa distinguir entre meios e fins. Precisa selecionar uma pedra adequada, imaginar a forma que deseja produzir, controlar seus movimentos, corrigir erros e avaliar continuamente o andamento do processo. Nada disso seria possível sem atividade consciente. O trabalho pressupõe a capacidade de projetar idealmente um resultado antes de realizá-lo materialmente. É exatamente por isso que Lukács considera o trabalho o fundamento ontológico do ser social.


Nesse ponto aparece uma das categorias centrais de toda sua ontologia: a posição teleológica. Todo ato de trabalho envolve uma finalidade previamente concebida. O resultado existe primeiro como projeto consciente e somente depois como realidade objetiva. O machado precisa existir idealmente na mente do produtor antes de existir como objeto material. Essa antecipação consciente distingue radicalmente a atividade humana das formas de adaptação presentes na natureza.


Contudo, é precisamente aqui que Lukács introduz uma distinção decisiva. O fato de que o trabalho exige consciência não significa que a própria consciência tenha de se tornar objeto de consciência. O fabricante do machado sabe o que deseja fazer. Sabe quais ações precisa executar. Sabe como utilizar seus instrumentos e materiais. Mas não sabe necessariamente o que é a consciência que lhe permite realizar tudo isso. Ele utiliza a consciência sem tematizá-la. Exerce uma capacidade sem possuir uma teoria dessa capacidade. É exatamente nesse sentido que a fórmula de Marx volta a adquirir validade.


O homem pré-histórico é consciente, mas não sabe o que é a consciência. Ele não sabe disso, mas o faz.


Essa observação conduz Lukács a uma distinção fundamental entre dois níveis diferentes. O primeiro é a consciência prática. O segundo é a consciência reflexiva da própria consciência.

A consciência prática surge com o trabalho. Ela está presente em toda atividade orientada para uma finalidade. Já a consciência reflexiva é um desenvolvimento muito posterior. Durante dezenas de milhares de anos, os seres humanos trabalharam, planejaram, escolheram, decidiram e transformaram a natureza sem possuir qualquer teoria da mente, qualquer psicologia, qualquer filosofia da consciência. A atividade consciente existia. O conhecimento teórico sobre a consciência ainda não.


É nesse sentido que Lukács afirma que o surgimento do trabalho representa um verdadeiro salto ontológico. O termo utilizado é Sprung, salto. Trata-se de uma categoria clássica da dialética. Não significa mera continuidade evolutiva, mas transformação qualitativa. O trabalho produz uma nova forma de ser. Surge aquilo que Lukács denomina ser social. A atividade teleológica rompe os limites da adaptação puramente biológica e inaugura um modo de existência baseado na transformação consciente da realidade.


No entanto, essa transformação não implica imediatamente o surgimento da autoconsciência. Lukács insiste que a consciência necessária para o trabalho não precisa tornar-se consciente de si mesma. Aqui surge uma distinção importante entre Bewußtsein e Bewußtheit. 


Embora ambos os termos estejam relacionados à consciência, o segundo possui o sentido de estado consciente ou conscienciosidade prática. O trabalhador possui essa conscienciosidade. Ele sabe o que está fazendo. Mas isso não significa que possua uma reflexão sobre a própria natureza da consciência.


Por essa razão, Lukács afirma que as experiências concretas do trabalho precisam ter caráter consciente – Bewußtheit - para funcionar. Caso contrário, o trabalho seria impossível. A produção do machado exige atenção, intenção, avaliação e correção permanente da atividade. Entretanto, essa consciência está inteiramente voltada para o objeto da ação, para a finalidade perseguida e para os meios utilizados. Ela não está voltada para si mesma. O trabalhador sabe como cortar, moldar, golpear e produzir o instrumento desejado. Mas não sabe o que é a consciência que lhe permite realizar essas operações.


É justamente isso que Lukács quer dizer quando afirma que essas experiências conscientes dizem respeito apenas ao próprio processo concreto da práxis. O indivíduo conhece aquilo que precisa conhecer para agir com êxito. Seu conhecimento está orientado para a atividade prática. Não se volta para a investigação da origem ou da estrutura da consciência. O trabalhador conhece o objeto de sua ação, mas não necessariamente o fundamento subjetivo que torna essa ação possível.


A observação final da passagem é particularmente importante. Lukács afirma que essas experiências conscientes não se referem à Genesis nem à Beschaffenheit da consciência.

Os dois termos são decisivos. Genesis significa origem, gênese. Beschaffenheit significa constituição, estrutura ou natureza. Em outras palavras, o ser humano utiliza a consciência sem conhecer sua origem nem sua constituição interna. Ele exerce continuamente capacidades conscientes sem possuir qualquer explicação para elas.


A consequência filosófica dessa tese é enorme. Lukács está afirmando que a autoconsciência é historicamente posterior à consciência. Primeiro surgem o trabalho, a finalidade, a escolha, a decisão e a atividade consciente voltada para a transformação da realidade. Somente muito mais tarde surgem a reflexão filosófica, a psicologia, a teoria do conhecimento e as diversas formas de investigação da própria consciência. A humanidade foi consciente durante milênios antes de compreender teoricamente a consciência.


É exatamente nesse contexto que a fórmula marxiana assume seu significado específico. Ela não quer dizer que os homens sejam inconscientes. Pelo contrário. Eles são profundamente conscientes em sua atividade prática. O que lhes falta é uma consciência reflexiva da própria consciência. Eles utilizam capacidades conscientes sem compreender sua natureza ontológica. Fabricam instrumentos, transformam a natureza, planejam ações e escolhem meios adequados para seus fins. Contudo, não possuem uma teoria dessas operações. A consciência funciona objetivamente na práxis muito antes de se tornar objeto da reflexão teórica.


Assim, nesta passagem, a frase Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ significa que os seres humanos utilizam a consciência como condição indispensável do trabalho e da vida social muito antes de saberem o que é a consciência, qual sua origem, qual sua estrutura e qual seu papel na constituição do ser social. Eles exercem uma capacidade cuja essência desconhecem.


Mais uma vez, Lukács encontra nessa fórmula de Marx a expressão de uma lei fundamental da ontologia do ser social: a prática antecede a teoria, o exercício de uma capacidade antecede sua compreensão conceitual e o ser efetivo precede o conhecimento reflexivo desse ser. 

A consciência existe e opera na realidade histórica muito antes de se tornar objeto de autoconsciência filosófica. É precisamente essa prioridade ontológica da práxis sobre a reflexão que Lukács vê condensada na frase de Marx: os homens não sabem disso, mas o fazem.


Observações filológicas


Uma análise filológica cuidadosa desta passagem dos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social permite perceber que Lukács está desenvolvendo uma distinção extremamente sutil entre consciência prática, autoconsciência e conhecimento teórico da consciência.


À primeira vista, o texto parece apenas retomar a conhecida fórmula marxiana „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ (“Eles não sabem disso, mas o fazem”). Contudo, o significado que essa fórmula assume aqui é muito mais refinado do que nas passagens anteriores.

O problema já não é simplesmente que os homens realizam processos sociais sem conhecer sua essência, mas que eles utilizam a própria consciência muito antes de compreenderem teoricamente o que é a consciência.


A passagem inicia-se com a afirmação de que essa compreensão possui uma longa pré-história: „Diese Einsicht hat allerdings eine langwierige Vorgeschichte.“ 


O termo central aqui é Einsicht. As traduções costumam vertê-lo por “compreensão” ou “percepção”, mas filologicamente a palavra possui um significado mais rico. Ela deriva de einsehen, literalmente “ver para dentro”, “enxergar interiormente”. Na tradição filosófica alemã, Einsicht designa uma compreensão penetrante da estrutura interna de algo. Lukács está dizendo que essa compreensão profunda da natureza da consciência não surgiu de imediato. Ela possui uma história longa e complexa que antecede em muito sua formulação teórica.


Logo em seguida aparece outro termo importante: Erkenntnis. Quando Lukács afirma que o conhecimento dessa questão pressupõe a conhecida característica das atividades humanas expressa na fórmula de Marx, ele utiliza precisamente a palavra Erkenntnis. Trata-se de um termo que não significa mero conhecimento empírico ou familiaridade prática, mas conhecimento efetivo, reconhecimento conceitual, apreensão teórica. Desde o início da passagem, portanto, Lukács estabelece uma distinção entre prática, consciência e conhecimento teórico. A consciência pode existir antes que exista uma Erkenntnis da consciência.


É nesse contexto que reaparece a fórmula marxiana: „Sie wissen das nicht, aber sie tun es.“ O significado da frase é aqui particularmente importante. O “não saber” não se refere ao uso da consciência. Refere-se ao conhecimento da própria consciência. Os homens utilizam capacidades conscientes sem compreender teoricamente essas capacidades. Eles são conscientes, mas não sabem o que é a consciência.


Essa distinção torna-se evidente quando Lukács afirma que a práxis humana é uma práxis consciente: „die menschliche Praxis ... eine bewußte“. O adjetivo utilizado é bewußt, consciente. Isso significa que a fórmula de Marx não está sendo usada para descrever uma atividade inconsciente. Pelo contrário. Lukács insiste explicitamente que o trabalho humano pressupõe consciência. A atividade prática humana distingue-se da atividade animal precisamente porque envolve orientação consciente para fins.


O exemplo do homem da Idade da Pedra que deseja fabricar um machado ilustra essa tese. Lukács escreve que, para produzir o instrumento, ele precisa tornar conscientes suas funções, suas possíveis formas e os gestos necessários para moldá-lo. O verbo empregado é bewußtmachen, literalmente “tornar consciente”.


Não se trata apenas de perceber algo passivamente, mas de trazer determinados aspectos da realidade para o campo da atenção consciente. O fabricante do machado precisa compreender a função do instrumento, antecipar sua forma e controlar os movimentos necessários para produzi-lo. Caso contrário, o trabalho fracassará.


É exatamente por isso que Lukács afirma que o trabalho representa um verdadeiro Sprung, um salto. Trata-se de uma categoria clássica da dialética. O termo não designa uma mudança gradual ou quantitativa, mas uma transformação qualitativa. O trabalho inaugura uma nova esfera de ser. A expressão utilizada é particularmente significativa: „der Sprung aus der biologisch determinierten Seinssphäre in die der Gesellschaftlichkeit“, “o salto da esfera de ser biologicamente determinada para a esfera da socialidade”. O termo Gesellschaftlichkeit merece atenção especial. Ele não significa simplesmente sociedade, mas condição social de existência, socialidade. Lukács está descrevendo o nascimento ontológico do ser social.


Contudo, a parte decisiva da passagem vem logo em seguida. Lukács adverte que desse fato não decorre de modo algum que a consciência necessária para o trabalho tenha de tornar-se consciente de si mesma. A expressão alemã é enfática: „bei weitem nicht“, literalmente “nem de longe”. O fato de existir consciência prática não implica a existência de uma teoria da consciência. Não implica autoconsciência reflexiva.


É nesse ponto que surge uma distinção filológica extremamente importante. Lukács abandona momentaneamente o termo Bewußtsein e utiliza Bewußtheit. 


Nas traduções correntes ambos costumam aparecer simplesmente como “consciência”, mas no original existe uma diferença significativa. Bewußtsein refere-se à consciência enquanto faculdade ou estrutura geral. Bewußtheit refere-se ao estado de estar consciente, à consciência prática de algo determinado. O homem da Idade da Pedra possui essa Bewußtheit. Ele está consciente do que faz. Contudo, não possui uma Erkenntnis des Bewußtseins, um “conhecimento teórico da consciência”.


Essa distinção aparece de forma particularmente clara quando Lukács fala da „unerläßliche Bewußtheit“, a “consciência indispensável para a prática”. O adjetivo unerläßlich significa indispensável, inevitável, absolutamente necessária. O trabalho exige consciência. Sem ela não existe atividade teleológica. Porém, essa consciência permanece voltada para os objetos e tarefas da prática, não para si mesma.


Por isso Lukács afirma que não é necessário que essa consciência “torne-se consciente enquanto tal”: „als solche ebenfalls bewußt werden müßte“. A formulação é extremamente sutil. O indivíduo é consciente. Mas não precisa tornar sua própria consciência objeto de consciência. A distinção aproxima-se daquela que a tradição filosófica posterior chamará de diferença entre consciência imediata e autoconsciência.


A análise continua quando Lukács afirma que as experiências concretas do trabalho precisam possuir um caráter praticamente consciente. A expressão praktisch bewußt é decisiva. O trabalhador precisa saber o que está fazendo. Precisa orientar-se adequadamente na atividade que executa. Contudo, essa consciência permanece prática. Ela não assume a forma de uma investigação filosófica ou científica sobre a própria consciência.


Isso se torna ainda mais evidente quando Lukács observa que essas experiências conscientes existem apenas em relação ao próprio processo concreto da práxis. O indivíduo conhece aquilo que é necessário para agir. Sabe utilizar o machado, moldar a pedra, controlar seus movimentos e alcançar a finalidade desejada. Sua consciência está orientada para o objeto e para a ação. Ela não está voltada para si mesma.


É por isso que a passagem culmina numa distinção fundamental. Essas experiências conscientes não dizem respeito à Genesis nem à Beschaffenheit da consciência. O primeiro termo significa origem, gênese. O segundo significa constituição, estrutura ou natureza. O homem pré-histórico ignora de onde vem a consciência e qual é sua estrutura. Ele não possui uma teoria de sua origem nem de sua natureza. Ainda assim, utiliza-a continuamente.

A palavra final da passagem é igualmente importante: Erscheinungsweisen, “modos de manifestação”. Lukács afirma que as experiências concretas do trabalho constituem modos concretos e práticos de manifestação da consciência. O trabalho manifesta a consciência. Ele a torna efetiva. Mas não a explica. A consciência aparece na atividade prática muito antes de se tornar objeto de reflexão teórica.


É precisamente nesse contexto que a fórmula marxiana adquire seu significado específico. Ela não quer dizer que os homens atuem inconscientemente. Pelo contrário. Lukács afirma explicitamente que a práxis humana é consciente. O que os homens desconhecem não é como trabalhar, produzir instrumentos ou perseguir finalidades. O que desconhecem é a origem e a estrutura da própria consciência que utilizam para realizar tudo isso.

Eles possuem Bewußtheit, isto é, consciência prática, mas ainda não possuem Erkenntnis des Bewußtseins, conhecimento da consciência.


A consciência funciona objetivamente na práxis muito antes de se tornar objeto da filosofia, da psicologia ou da teoria do conhecimento. O homem da Idade da Pedra sabe usar sua consciência, mas não sabe o que ela é. Ele exerce capacidades conscientes sem compreender sua natureza. Assim, a fórmula „Sie wissen das nicht, aber sie tun es“ expressa aqui uma tese ontológica fundamental: a prática consciente precede historicamente o conhecimento reflexivo da consciência. Os homens utilizam a consciência antes de compreenderem a consciência.


É nesse sentido preciso que Lukács mobiliza a observação de Marx para mostrar a prioridade ontológica da práxis sobre a teoria e do exercício efetivo de uma capacidade sobre a compreensão conceitual dessa mesma capacidade.


 

[continua]


 
 
 
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