A Velhice das Gerações Sem Filhos-4
- Giovanni Alves

- há 2 dias
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Analisamos nesta série de postagens a profunda transformação da estrutura familiar brasileira nas últimas décadas, destacando que a redução do tamanho das famílias e o crescimento de uma geração sem filhos não podem ser compreendidos como simples escolhas individuais nem como meras mudanças de valores culturais. Trata-se, antes, de um fenômeno estrutural, diretamente vinculado à crise da reprodução social sob o capitalismo neoliberal — crise que se expressa de modo particularmente agudo em um país periférico e dependente como o Brasil.
Diante desse cenário, impõe-se uma pergunta incontornável ao Estado neoliberal brasileiro da década de 2020: quem cuidará da velhice das gerações sem filhos?
Essa questão não é retórica. Ela aponta para o esgotamento de um modelo histórico de cuidado baseado na família extensa, na divisão sexual do trabalho e na privatização da responsabilidade pelo amparo aos idosos.
Mas esse processo não se restringe ao Brasil. Observa-se, nas últimas décadas e em escala mundial, o surgimento de uma geração sem filhos — fenômeno que não pode ser reduzido a uma simples mudança de valores individuais nem a preferências culturais isoladas. Trata-se, na verdade, de uma transformação estrutural da reprodução social nas sociedades capitalistas, inscrita nas condições históricas da crise estrutural do capital. Essa transformação combina três tendências centrais: a queda persistente das taxas de fecundidade, o adiamento crescente da parentalidade e o aumento do contingente de pessoas que chegam ao final da vida reprodutiva sem filhos.
Como salientamos no livro O Gerontariado: O trabalho envelhecido no século XXI, estamos diante da emergência de um novo regime demográfico da ordem do capital. Esse processo atravessa tanto os países centrais quanto as formações periféricas e dependentes, como o Brasil, assumindo nestas últimas contornos ainda mais dramáticos, devido à fragilidade das políticas públicas, à precarização do trabalho e à ausência de sistemas universais de cuidado.
Nos países da OCDE, a taxa média de fecundidade caiu para cerca de 1,5 filho por mulher, muito abaixo do nível de reposição populacional. Em várias sociedades capitalistas avançadas, uma parcela expressiva das mulheres entre 45 e 49 anos — faixa etária que indica o encerramento do ciclo reprodutivo — não teve filhos. Na Alemanha, esse percentual gira em torno de 20%; no Japão, aproxima-se de 30%; na Coreia do Sul, dobrou em apenas duas décadas. Nos Estados Unidos, embora o fenômeno se manifeste mais intensamente como adiamento da maternidade, a proporção de mulheres sem filhos ao final da idade fértil também permanece elevada.
Esses dados indicam que a não-reprodução deixou de ser uma exceção biográfica para se tornar parte integrante do padrão estrutural das sociedades capitalistas do século XXI. Dados do Pew Research Center (2021) mostram que, nos Estados Unidos, cerca de 44% dos adultos entre 18 e 49 anos que não têm filhos afirmam ser “pouco provável” ou “nada provável” que venham a tê-los. Na Europa, países como Itália e Espanha já registram taxas de fecundidade em torno de 1,2 filho por mulher, muito abaixo da taxa de reposição de 2,1.
O resultado estatístico e social desse processo é a expansão do fenômeno dos kinless seniors — idosos sem parentes próximos — que, segundo projeções demográficas, deverá triplicar em algumas regiões desenvolvidas até 2050. Trata-se de um dado decisivo para compreender o futuro da velhice nas sociedades capitalistas: uma velhice cada vez mais solitária, desprovida de redes familiares e lançada à mercê de Estados que, sob a lógica neoliberal, se desresponsabilizam sistematicamente do cuidado.
No Brasil, esse processo assume uma dinâmica particularmente acelerada e socialmente regressiva. O Censo Demográfico de 2022 revela que a proporção de mulheres entre 50 e 59 anos que nunca tiveram filhos aumentou de cerca de 10% em 2000 para mais de 16% em 2022, ao mesmo tempo em que a taxa de fecundidade nacional caiu para aproximadamente 1,55 filho por mulher — abaixo do nível de reposição populacional.
Paralelamente, os arranjos familiares tradicionais perderam centralidade: os casais com filhos deixaram de ser maioria, enquanto cresceram de forma consistente os casais sem filhos e, sobretudo, os domicílios unipessoais.
A redução do tamanho das famílias manifesta-se, de modo eloquente, na expansão dos casais sem filhos, que passaram de cerca de 13% dos domicílios em 2000 para mais de 24% em 2022, bem como na explosão das famílias unipessoais. Esses arranjos não expressam apenas pluralização de estilos de vida, mas indicam a desorganização funcional da família enquanto instância histórica de socialização, proteção e transmissão intergeracional. A família persiste como forma social, mas já não consegue cumprir plenamente seu papel histórico de articular passado, presente e futuro, nem de produzir sujeitos socialmente integrados em um horizonte de continuidade.
Essa transformação sociodemográfica não resulta em emancipação social. Ao contrário, produz intensificação da solidão, fragilização subjetiva e um niilismo cotidiano que atravessa as experiências individuais.
A geração sem filhos emerge como síntese dessa crise: jovens que adiam indefinidamente ou abandonam a parentalidade porque não dispõem de condições materiais, simbólicas e afetivas para projetar o futuro. Nesse sentido, a diminuição das famílias e a recusa da reprodução não constituem a causa da crise social, mas um de seus sintomas mais agudos, revelando o esgotamento histórico do capitalismo neoliberal e a falência de suas mediações fundamentais — trabalho, Estado e família.
Os dados acima não expressam apenas uma transição demográfica “normal”, mas uma ruptura histórica no modo como o futuro é percebido socialmente.
O colapso da reprodução está diretamente ligado ao colapso do cuidado: menos pessoas nascem, mais pessoas envelhecem sozinhas, enquanto o Estado neoliberal se recusa a assumir sua responsabilidade histórica pela reprodução social.
A geração sem filhos, portanto, não é a causa dessa crise, mas sua expressão concentrada. Quando o futuro se fecha como horizonte coletivo, a reprodução perde sentido, e a sociedade passa a viver em um presente prolongado de sobrevivência administrada.
Ter filhos no Brasil deixou de ser um projeto socialmente viável e passou a ser vivenciado como risco econômico, emocional e existencial, em um contexto marcado pela precarização estrutural do trabalho, instabilidade permanente das trajetórias de vida e retração sistemática do Estado social.
Nesse cenário, consolida-se uma geração sem filhos especialmente entre jovens adultos urbanos, relativamente escolarizados, mas submetidos a vínculos laborais frágeis, rendas instáveis e a uma financeirização extrema da vida cotidiana — com destaque para o alto custo da moradia e a ausência de políticas públicas de cuidado.
A decisão de não ter filhos aparece, assim, menos como afirmação soberana de autonomia individual e mais como cálculo defensivo diante da insegurança estrutural, recusa inconsciente do futuro e expressão de um medo histórico generalizado.
O surgimento dessa geração sem filhos — frequentemente referido nos estudos demográficos como childless, childfree ou associado a siglas como NoMo (Not Mothers) — está profundamente vinculado às transformações do capitalismo neoliberal, um capitalismo senil, incapaz de satisfazer necessidades civilizacionais elementares. Trata-se de um fenômeno global que, no Brasil, assume contornos trágicos.
As gerações Millennials e Gen Z apresentam proporções significativamente mais altas de pessoas que não tiveram filhos — seja por escolha, seja por impossibilidade material — rompendo o chamado “contrato intergeracional” tradicional, baseado na expectativa de cuidado recíproco ao longo do ciclo de vida. O suporte intergeracional, historicamente centrado na família nuclear, entra em colapso sem que o Estado ou o mercado ofereçam substitutos equivalentes em termos de dignidade, estabilidade e afeto.
Em si mesmos, o envelhecimento populacional e a existência de gerações sem filhos não constituem problemas sociais. Tornam-se uma tragédia histórica sob o capitalismo neoliberal. A precarização estrutural do trabalho, a financeirização da vida cotidiana, o encarecimento da moradia, a instabilidade crônica das trajetórias profissionais e a retração do Estado social corroem as condições materiais e simbólicas necessárias à reprodução social.
Ter filhos deixa de ser percebido como promessa de continuidade histórica e passa a ser vivido como risco excessivo. A decisão de não ter filhos — ou de adiá-los indefinidamente — emerge, assim, menos como escolha livre e mais como cálculo defensivo diante de um futuro bloqueado pela lógica do capital, por um mundo invertido marcado por precariedade salarial extrema, guerras recorrentes e colapso ambiental.
As consequências dessa nova era demográfica do capital são amplas e profundas.
Em primeiro lugar, intensifica-se o envelhecimento populacional — processo acelerado nas últimas décadas e agravado após a pandemia de 2020. Menos nascimentos hoje significam, em poucas décadas, uma sociedade com maior proporção de idosos e um contingente reduzido de adultos em idade ativa. Isso pressiona sistemas previdenciários, políticas de saúde e orçamentos públicos, ao mesmo tempo em que estreita a base social de sustentação econômica. Sob pressão fiscal permanente, o Estado neoliberal tende a aprofundar a austeridade, apertando ainda mais o garrote sobre a previdência, a assistência social e as políticas de cuidado, ampliando o colapso já em curso.
Contudo, o impacto mais crítico desse processo não é apenas fiscal ou produtivo, mas antropológico e social: a erosão das redes familiares de cuidado.
Historicamente, o cuidado com crianças, idosos, doentes e dependentes foi absorvido, em grande medida, no interior da família, sobretudo por meio do trabalho não remunerado das mulheres. Nos países centrais, o Estado de bem-estar social amortecia parcialmente esse arranjo por meio de políticas públicas. No Brasil, ao contrário, a família sempre funcionou como principal — e muitas vezes única — infraestrutura de proteção social.
Com a redução do tamanho das famílias, o aumento das trajetórias sem filhos e a explosão dos domicílios unipessoais, essa base antropológica do cuidado entra em colapso.
Tais dinâmicas sociodemográficas assumem caráter explosivo no contexto do Estado neoliberal e tendem a se manifestar de forma ainda mais dramática nas próximas décadas. À medida que a fecundidade cai, os vínculos familiares se rarefazem e a transmissão intergeracional se enfraquece, desaparece também a principal infraestrutura social que historicamente sustentou o cuidado em uma sociedade marcada pela fragilidade estrutural do Estado social.
Durante grande parte do século XX, a família brasileira — especialmente a família ampliada e popular — funcionou como eixo informal de proteção social. O cuidado era absorvido quase integralmente no interior do lar, enquanto o Estado, mesmo em seus momentos desenvolvimentistas, jamais universalizou políticas robustas de cuidado. Com a consolidação do Estado neoliberal a partir dos anos 1990, esse modelo implícito de “família-providência” tornou-se estruturalmente inviável, sem que qualquer alternativa pública consistente fosse construída.
A geração sem filhos emerge exatamente nesse vazio histórico.
A recusa ou o adiamento da parentalidade não decorrem apenas do custo econômico de criar filhos, mas da percepção — frequentemente tácita — de que a cadeia do cuidado está rompida. Ter filhos significa assumir, de modo individualizado, riscos que antes eram parcialmente socializados: cuidados intensivos na infância, suporte educacional, proteção diante da doença e, no limite, a promessa de cuidado recíproco no envelhecimento. Quando essa promessa deixa de ser crível, a reprodução perde seu sentido histórico e simbólico.
Esse processo ocorre simultaneamente ao envelhecimento acelerado da população brasileira — tema que será aprofundado na última postagem desta série. O país envelhece rapidamente sem ter construído uma infraestrutura pública de cuidado.
O resultado é uma contradição histórica aguda: menos filhos nascem, enquanto cresce o contingente de idosos dependentes, muitos deles vivendo sozinhos ou apoiados em redes familiares cada vez mais frágeis. A família menor, sobrecarregada e instável já não consegue absorver a crescente demanda por cuidado, enquanto o Estado neoliberal se retrai, terceiriza, mercantiliza ou simplesmente abandona essa função vital.
A geração sem filhos antecipa, portanto, um futuro social marcado pela solidão estrutural.
À medida que essas coortes envelhecem, cresce o número de pessoas idosas sem descendentes diretos, sem redes familiares próximas e crescentemente dependentes de um mercado de cuidado caro, mercantilizado e seletivo, ou de políticas públicas insuficientes.
Em sociedades nas quais o Estado neoliberal se retrai, terceiriza ou moraliza o cuidado, o envelhecimento tende a assumir a forma do desamparo, da medicalização precária e do isolamento social. No Brasil neoliberal, essas tendências já se afirmam de maneira clara.
A solidão estrutural das gerações sem filhos decorre da transição histórica de um modelo de solidariedade familiar orgânica para a dependência de sistemas impessoais, fragmentados e mercantis. Como observou Zygmunt Bauman em sua análise da modernidade líquida, os vínculos humanos tornam-se frágeis e reversíveis, e a ausência de descendentes elimina aquilo que a sociologia denomina o “cuidador de última instância”: “Em um mundo onde todos os vínculos são esperados para durar ‘até novo aviso’, a perspectiva de envelhecer sem uma rede de segurança biológica transforma o espaço doméstico em um local de isolamento potencial, em vez de um santuário de continuidade.” BAUMAN, Zygmunt. A vida fragmentada: ensaios sobre a moral pós-moderna (1995).
A retração do Estado neoliberal transfere sistematicamente a responsabilidade do cuidado da esfera pública para o âmbito privado. O cuidado deixa de ser direito social e passa a ser mercadoria.
Como argumenta Nancy Fraser em sua teoria da crise do cuidado, o capitalismo do século XXI esgota as próprias energias sociais das quais depende para se reproduzir: “A forma atual do capitalismo está esgotando sistematicamente as capacidades sociais das quais depende, criando uma ‘crise do cuidado’ que se torna mais visível no abandono daqueles que não podem ser mercantilizados.” FRASER, Nancy. Crisis of Care? (2016), in Bhattacharya, T. (org.), Social Reproduction Theory (2017).
Nesse cenário, o idoso sem filhos é progressivamente reduzido à condição de consumidor de serviços de saúde. Quando dispõe de capital, o isolamento é mitigado por cuidadores profissionais e instituições privadas de alto padrão. Quando não dispõe, cai nas lacunas das políticas públicas.
No Brasil, dados do IBGE indicam que a população idosa cresce rapidamente, enquanto a cobertura de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) públicas permanece drasticamente insuficiente — em várias capitais, atendendo a menos de 1% da demanda potencial.
O resultado é o avanço da medicalização precária da velhice: uso extensivo de psicotrópicos para conter a depressão e a ansiedade geradas pelo isolamento, em substituição a redes efetivas de convivência e apoio social.
A solidão, contudo, não se reduz à ausência de companhia. Trata-se da perda de um papel social ativo. É fundamental distinguir o “estar só” (solitude) do “isolamento” (isolation). Este último constitui uma condição política: o indivíduo perde a capacidade de agir em conjunto, de participar da vida comum e de produzir sentido coletivo. Quando a velhice é desprovida de redes familiares e o Estado se recusa a criar espaços públicos de convivência comunitária, o idoso é progressivamente despolitizado, vilipendiado, alienado da sua humanidade, reduzido a um corpo biológico que exige apenas manutenção técnica.
O chamado “mercado do cuidado” não substitui a presença política do outro. A solidão estrutural é, assim, a face visível de um projeto de sociedade que atomizou os indivíduos a tal ponto que a reprodução da vida — e também o seu declínio natural — converteu-se em custo privado indesejado pelo sistema produtivo.
O surgimento dessa geração sem filhos impacta diretamente o mercado de trabalho e a dinâmica urbana. A redução da força de trabalho potencial pressiona setores econômicos, acelera a automação e reabre debates sobre imigração.
No cotidiano, multiplicam-se moradias individuais, serviços personalizados e formas de sociabilidade compensatória que substituem vínculos duráveis por soluções mercantis. A solidão deixa de ser condição subjetiva e torna-se forma objetiva de organização da vida social.
No plano político e cultural, a crise demográfica engendra respostas contraditórias.
De um lado, emergem discursos pró-natalistas, moralizantes ou autoritários, que culpabilizam indivíduos — especialmente mulheres — pela queda da fecundidade. De outro, proliferam narrativas que celebram a não reprodução como expressão de autonomia individual. Ambas tendem a obscurecer o núcleo do problema: não se trata de vontade individual, mas da destruição histórica das condições sociais de reprodução sob o capitalismo neoliberal.
Em síntese, o surgimento de uma geração sem filhos é um dos sintomas mais claros da crise estrutural da reprodução social no capitalismo global. No Brasil, essa tendência combina-se de forma explosiva com o envelhecimento populacional acelerado, produto da queda abrupta da fecundidade.
Sem filhos e sem Estado, o cuidado tende a ser convertido em mercadoria cara, seletiva e excludente, acessível apenas a parcelas restritas da população. Para a maioria, o envelhecimento se anuncia como experiência de desamparo, isolamento e medicalização precária — quadro ainda mais grave em um país marcado por desigualdade extrema, onde cerca de 80% da população economicamente ativa recebe até dois salários mínimos.
A crise do cuidado, portanto, não é um problema do futuro: ela já está inscrita no presente da estrutura familiar e demográfica brasileira. A articulação entre famílias menores, geração sem filhos e envelhecimento populacional revela o núcleo antropológico da crise neoliberal: a dissolução das mediações que tornavam a vida social reproduzível ao longo do tempo.
Quando o futuro se fecha — econômica, política e simbolicamente —, a reprodução deixa de ser promessa e o cuidado deixa de ser horizonte coletivo. A geração sem filhos surge, nesse sentido, como sintoma histórico de um capitalismo que já não consegue garantir nem a continuidade biológica nem a continuidade social de sua própria ordem.
É a partir desse diagnóstico que se impõe a questão central desta reflexão: qual será o destino das gerações sem filhos em um país que envelhece rapidamente, no qual o cuidado já colapsou e o Estado neoliberal se recusa a assumir sua responsabilidade histórica? Trata-se de uma questão que envolve o futuro social, político e antropológico da velhice em uma sociedade sem redes de cuidado e sem horizonte de reprodução coletiva.
Enfim: como será a velhice da geração sem filhos?
As respostas oferecidas até aqui são, em grande medida, paliativas e fragmentárias, típicas da racionalidade neoliberal do “salve-se quem puder” e do “faça você mesmo”.
Fala-se em redes de afeto e vizinhança, curiosamente em um mundo social marcado pela concorrência generalizada, pelo esgarçamento da empatia e pelo apagão ético. Propõe-se deslocar o foco do “sangue” para a “afinidade”, ignorando que a sociabilidade neoliberal corrói sistematicamente os fundamentos da solidariedade.
Ganham visibilidade também projetos de co-housing — moradias compartilhadas voltadas ao envelhecimento coletivo. Originários dos países nórdicos, esses arranjos pressupõem autonomia financeira, capital cultural e capacidade organizativa, o que os torna acessíveis apenas a segmentos de renda média ou alta. No Brasil, iniciativas pontuais surgem em cidades como São Paulo, Campinas e Curitiba, mas permanecem experiências de nicho, incapazes de responder à escala do problema.
No campo das políticas públicas, surgem modelos híbridos, como repúblicas de idosos ou pequenos condomínios adaptados, a exemplo do programa “Vila Dignidade” em São Paulo. Contudo, sob o Estado neoliberal, essas iniciativas são estruturalmente limitadas pela crise fiscal crônica dos municípios e pela captura do poder público por oligarquias políticas pouco interessadas em enfrentar problemas estruturais. Tornam-se experiências marginais diante da prioridade absoluta conferida à austeridade fiscal.
A lógica neoliberal ainda aposta no chamado “cuidado digital”: monitoramento remoto, sensores, inteligência artificial e, em horizonte mais distante, robôs de assistência. O discurso dominante enfatiza a redução de custos e a vigilância técnica, não a construção de vínculos humanos significativos. No fundo, trata-se de administrar a solidão, não de superá-la.
O mercado, por sua vez, insiste na financeirização da velhice.
Sem a “segurança” de um cuidador familiar, afirma-se que o planejamento financeiro individual torna-se vital: previdência privada, seguros de saúde, planos de assistência. Uma orientação funcional apenas para uma minoria, em um país marcado pela precariedade salarial e pela ausência estrutural de capacidade de poupança.
O cenário futuro exige uma inversão radical de perspectiva: o cuidado precisa ser compreendido não como favor familiar ou mercadoria privada, mas como direito humano fundamental, garantido por políticas públicas universais.
No entanto, a mobilização social e política permanece frágil. A despolitização generalizada bloqueia a construção de uma práxis capaz de enfrentar o Estado neoliberal e de instituir respostas estruturais à crise da reprodução social.
É nesse impasse que se desenha o horizonte da geração sem filhos: entre a solidão administrada, o cuidado mercantilizado e a recusa do Estado em assumir sua responsabilidade histórica pela reprodução da vida.
Um detalhe final: mesmo entre os casais que tiveram filhos, nada garante que estes possam cuidar dos pais na velhice, reproduzindo o padrão das famílias tradicionais do passado, nas quais a prole funcionava como garantia de amparo e cuidado na idade avançada. O fardo da precariedade salarial e da insegurança existencial que marca a vida dos filhos oriundos de famílias com um ou dois filhos impede, na maioria dos casos, que assumam o cuidado cotidiano de seus pais idosos.






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