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A Subsunção Real do Cérebro Humano ao Capital

há 1 hora
19 min de leitura



A nossa hipótese é que - tomando como ponto de partida a investigação desenvolvida por Iain McGilchrist em The Master and His Emissary. - pode-se conceber uma subsunção real do cérebro humano ao capital. Nosso objetivo é mostrar como esta tese é fecunda. Entretanto, precisamos ter algumas cautelas – é o que exporemos neste texto.


Primeiro, vamos apresentar o livro de Iain McGilchrist - The Master and His Emissary (2009). Nele, o psiquiatra e escritor britânico Iain McGilchrist apresenta uma tese ousada: a história da cultura ocidental pode ser compreendida como o resultado de um desequilíbrio entre os dois hemisférios do cérebro. Para ele, o hemisfério direito — que apreende o mundo de forma holística, contextual e relacional — deveria ser o “Mestre”, orientando nossa experiência e dando sentido à realidade. Já o hemisfério esquerdo, mais analítico, fragmentador e voltado para a utilidade prática, seria o “Emissário”, responsável por executar tarefas específicas.


O problema surge quando o Emissário usurpa o papel do Mestre, acreditando que pode governar sozinho. McGilchrist argumenta que esse predomínio do hemisfério esquerdo se reflete em traços marcantes da modernidade: a burocratização excessiva, a fragmentação do conhecimento em compartimentos isolados, a valorização de modelos abstratos em detrimento da experiência vivida e a perda de valores como beleza, sentido e conexão humana. Segundo ele, períodos de florescimento cultural — como a Grécia clássica ou o Renascimento — ocorreram quando havia maior equilíbrio entre os hemisférios, enquanto épocas de rigidez e crise revelam a supremacia do hemisfério esquerdo.


Ao intitularmos este artigo como “A subsunção real do cérebro humano ao capital”, isto não deve sugerir um domínio direto e exclusivo do hemisfério esquerdo, tampouco uma modificação anatômica simples do cérebro produzida pelas relações sociais.


O que o capital efetivamente subsume é o conjunto das capacidades cognitivas, afetivas, atencionais e imaginativas pertencentes à corporalidade viva. Essa subsunção adquire um caráter real quando o próprio ambiente sociotécnico da existência é reconstruído de maneira a selecionar, exercitar e reforçar determinadas modalidades de atenção, percepção e pensamento, subordinando as demais aos imperativos da valorização.


A contribuição de McGilchrist está em oferecer uma descrição neurofenomenológica particularmente rica dessa transformação. Seu limite aparece quando se trata de explicar sua causalidade histórico-social. É nesse ponto que a crítica da economia política e a teoria da causalidade imanente sociometabólica [1] - desenvolvida por nós - podem conferir ao problema uma determinação que falta à argumentação original.


A tese central de The Master and His Emissary distancia-se consideravelmente da conhecida vulgarização segundo a qual o hemisfério esquerdo seria racional, lógico e linguístico, enquanto o direito responderia pelas emoções, pela intuição e pela criatividade artística. McGilchrist rejeita explicitamente essa oposição. Ambos os hemisférios participam, embora de maneiras diferentes, de praticamente todas as atividades humanas. 


A distinção fundamental não reside tanto naquilo que cada um faz, mas no modo como realiza suas operações e, sobretudo, na modalidade de atenção por meio da qual se relaciona com o mundo.


A assimetria cerebral teria raízes evolutivas profundas. Para sobreviver, um animal precisa concentrar-se sobre algo particular — uma semente, uma presa ou qualquer objeto passível de apreensão — e, simultaneamente, manter-se aberto ao ambiente circundante, atento à presença de predadores, parceiros ou acontecimentos inesperados. Essas duas exigências, dificilmente realizáveis ao mesmo tempo por um único campo homogêneo de atenção, teriam favorecido a diferenciação hemisférica.


O hemisfério esquerdo especializou-se numa atenção estreita, focalizada e orientada para a apreensão. Isola alguma coisa de seu contexto, fixa-a, decompõe-na em partes e a transforma em objeto disponível. Seu mundo tende a ser constituído por entidades delimitadas, relativamente estáticas, classificáveis e previsíveis. Ele se mostra especialmente eficiente ao operar sobre aquilo que já conhece, aplicando categorias previamente constituídas, construindo representações, executando procedimentos e organizando sequências.


O hemisfério direito, ao contrário, sustenta uma atenção mais ampla, vigilante e receptiva. Apreende os seres em seu contexto, reconhece configurações globais e percebe melhor aquilo que é novo, inesperado ou irredutível às categorias já disponíveis. Mantém uma relação mais estreita com a corporalidade, com a experiência temporal e com as formas implícitas de significação. A interpretação das expressões faciais, das entonações, dos gestos, das metáforas e das situações humanas complexas depende amplamente dessa modalidade de atenção. Também a música, a empatia e o reconhecimento dos seres vivos como totalidades singulares encontram nela um suporte decisivo.





A oposição relevante não é, portanto, aquela que separa razão e emoção. Trata-se da diferença entre duas maneiras de estar presente no mundo.


De um lado, temos a atenção focal, o isolamento do objeto, a decomposição do todo, a categorização, a explicitação, a repetição, a previsibilidade e a manipulação instrumental.


De outro, a abertura contextual, o reconhecimento da singularidade, a apreensão das configurações globais, a percepção da novidade, da temporalidade, da ambiguidade e da reciprocidade.


O hemisfério esquerdo tende a trabalhar com representações; o direito conserva uma relação mais direta com a presença. O primeiro inclina-se a apreender um mundo mecânico e inerte; o segundo permanece mais sensível ao caráter vivo, relacional e processual da realidade.


Essas diferenças constituem tendências relativas, jamais separações absolutas. McGilchrist insiste em que não existem dois indivíduos alojados no cérebro, muito menos duas consciências independentes. Cada hemisfério forma uma rede complexa, internamente diferenciada, e ambos cooperam continuamente. O problema aparece quando essa cooperação perde sua ordenação adequada. É precisamente essa possibilidade que a parábola do mestre e do emissário procura representar.


O hemisfério direito é designado como “mestre” porque mantém a abertura originária ao mundo vivido. Sua apreensão inicial envolve uma totalidade que ainda não foi decomposta ou inteiramente traduzida em conceitos.


O hemisfério esquerdo exerce a função de “emissário”: recebe parte dessa experiência, analisa-a, explicita o que permanecia implícito, constrói mapas e elabora instrumentos que permitem agir sobre a realidade. A relação equilibrada entre eles descreve um movimento no qual a experiência inicialmente apresentada pelo hemisfério direito é trabalhada pelo esquerdo e, finalmente, reintegrada pelo direito numa totalidade enriquecida.


O trabalho do emissário é indispensável. Sem a capacidade de abstrair, nomear, decompor e manipular, não haveria linguagem articulada, planejamento técnico ou ação instrumental complexa. A patologia começa quando aquilo que foi abstraído já não retorna à totalidade da experiência. O mapa substitui o território. A representação passa a valer mais do que a realidade representada, enquanto os meios, emancipados das finalidades que lhes davam sentido, convertem-se em fins autônomos.


O emissário, encarregado inicialmente de uma tarefa parcial, começa a tomar sua visão limitada pela totalidade do real. Como dispõe da linguagem proposicional e produz explicações lineares, consegue impor mais facilmente sua perspectiva. Além disso, permanece menos consciente daquilo que não percebe. Sua confiança pode crescer precisamente à medida que seu campo de apreensão se estreita.


McGilchrist não propõe a eliminação do hemisfério esquerdo, como se fosse possível ou desejável renunciar à abstração, à análise e à técnica. Sua tese aponta para a necessidade de restaurar uma hierarquia funcional. A análise deve retornar à totalidade concreta; a representação precisa conservar sua subordinação ao mundo representado; a manipulação instrumental deve servir às finalidades qualitativas da vida. O hemisfério esquerdo é um excelente servidor, mas se converte num péssimo senhor.


Na segunda parte de The Master and His Emissary, essa diferenciação é transportada para a interpretação da história cultural do Ocidente. McGilchrist procura mostrar que civilizações inteiras podem organizar suas instituições, linguagens e práticas de maneira a favorecer um ou outro modo de atenção. Não se trata de um desenvolvimento inteiramente linear.


Certas épocas teriam alcançado um equilíbrio relativamente fecundo entre as duas modalidades. A Grécia arcaica e o Renascimento aparecem como momentos nos quais análise e totalidade, indivíduo e mundo, técnica e experiência ainda mantinham relações produtivas. Em outros períodos, o equilíbrio teria sido rompido pelo avanço de um pensamento progressivamente abstrato, sistemático, desencarnado e autorreferente. McGilchrist identifica movimentos nessa direção na filosofia platônica tardia, na decadência romana, em certos desdobramentos da Reforma, no racionalismo iluminista e, sobretudo, no mundo construído a partir da Revolução Industrial. O Romantismo representaria uma tentativa de correção, ao restituir à natureza, à imaginação, à corporalidade, à história e à experiência singular uma dignidade negada pelo mecanicismo. Essa reação, contudo, não interrompeu a tendência secular.


A sociedade moderna, e com maior intensidade a pós-moderna, teria institucionalizado a modalidade de apreensão característica do hemisfério esquerdo. Construímos progressivamente um mundo exterior que reproduz suas prioridades: cidades geometricamente ordenadas, superfícies inertes, burocracias impessoais, sistemas de mensuração, procedimentos padronizados, relações mediadas por telas e organizações nas quais a administração da atividade passa a valer mais do que sua realização concreta.


Quando a atenção própria ao hemisfério direito procura confrontar as representações com a experiência vivida, encontra diante de si uma realidade já configurada segundo os pressupostos do hemisfério esquerdo. Forma-se, assim, um circuito recursivo. Determinado modo de atenção produz um mundo à sua imagem; esse mundo, uma vez objetivado, passa a exigir dos indivíduos a mesma modalidade de atenção que o constituiu.


Mas McGilchrist reconhece que as transformações culturais não podem ser reduzidas à estrutura cerebral. Na Introdução do livro, menciona expressamente fatores sociológicos, econômicos, políticos, ambientais e tecnológicos, além de sustentar que cérebro e cultura se moldam reciprocamente. Sua proposta deve ser entendida, segundo ele próprio, como um modelo descritivo e fenomenológico ancorado na ciência cerebral, não como a apresentação de um mecanismo neurobiológico capaz de explicar toda a história. Essa ressalva impede que se lhe atribua um biologicismo ingênuo.


Não elimina, porém, uma dificuldade real. A passagem das pesquisas sobre lateralização para a interpretação de aproximadamente dois milênios e meio de história ocidental é muito mais abrangente do que as evidências neurológicas podem demonstrar diretamente. Mesmo algumas avaliações favoráveis do livro assinalam esse desnível entre a consistência da investigação neuropsicológica e o caráter necessariamente conjectural de sua narrativa civilizacional.


Mas – voltemos a nossa hipótese - o passo original dela consiste em mostrar que as características atribuídas por McGilchrist ao predomínio do hemisfério esquerdo não constituem apenas traços contingentes de uma indefinida “civilização ocidental”. Elas apresentam uma afinidade estrutural muito precisa com a forma social do capital. Entretanto, tal afinidade não autoriza identificar imediatamente o hemisfério esquerdo com o capitalismo. Esse hemisfério corresponde a uma potência antropológica muito anterior à sociedade burguesa e indispensável a qualquer forma de vida social. O capital, entretanto, encontra nessa modalidade de atenção, capacidades particularmente adequadas às suas exigências: abstração, decomposição, classificação, cálculo, previsibilidade, controle e indiferença diante das qualidades singulares dos seres.


A forma-valor opera justamente por intermédio de uma abstração real. Para que trabalhos qualitativamente diferentes sejam equiparados, precisam ser reduzidos a trabalho humano abstrato. Para que objetos dotados de propriedades incomensuráveis possam ser trocados, suas diferenças qualitativas devem ser subordinadas a uma grandeza social comum. A mercadoria é simultaneamente valor de uso singular e portadora de valor; sob o domínio da valorização, entretanto, sua existência qualitativa interessa principalmente como suporte de uma magnitude abstrata. O singular subordina-se à categoria, a qualidade à quantidade, o contexto concreto à equivalência abstrata. A duração vivida é submetida ao tempo homogêneo; a presença do ser, à sua representação; a necessidade humana, à demanda solvente; a atividade concreta, aos indicadores de produtividade. A natureza viva aparece como estoque de recursos, enquanto o conhecimento tende a ser reduzido à condição de informação operacionalizável.


Não estamos diante de uma semelhança meramente metafórica. A mesma estrutura de abstração e instrumentalização manifesta-se, num plano, como modalidade cognitiva e, noutro, como objetividade social.


A questão causal consiste em explicar por que uma capacidade parcial do cérebro adquiriu tamanho peso histórico.


McGilchrist tende a interpretar essa transformação como resultado de um desequilíbrio entre os modos hemisféricos de atenção. Por outro lado, nossa crítica a partir de Marx permite inverter a direção predominante da causalidade: uma forma social fundada na valorização abstrata seleciona, amplia e institucionaliza a modalidade de atenção mais congruente com suas necessidades. A dominância do hemisfério esquerdo não explica, em última instância, a expansão da forma-capital. É o desenvolvimento da forma-capital que permite compreender por que as capacidades relacionadas àquela modalidade de apreensão são reiteradamente solicitadas, premiadas e incorporadas à vida cotidiana.


Essa aproximação torna-se ainda mais reveladora quando examinada à luz das categorias de reificação, coisificação e fetichismo que compõem o metabolismo social do capital.


A reificação não significa apenas que os indivíduos desenvolveram o hábito de pensar em coisas. Ela designa uma inversão social efetiva, por meio da qual relações entre pessoas assumem a forma objetiva de relações entre coisas. Os produtos da atividade humana adquirem autonomia diante de seus produtores e passam a confrontá-los como potências estranhas. A sociedade torna-se legível por intermédio de preços, taxas, índices, rankings, metas, contratos e sinais monetários, enquanto as relações humanas que sustentam essas formas desaparecem da consciência imediata.


O modo de atenção atribuído ao hemisfério esquerdo mostra-se particularmente adequado a esse universo. Ele destaca entidades isoladas, privilegia o explícito, trata representações como realidades autossuficientes e opera mais eficazmente sobre aquilo que pode ser fixado, calculado e manipulado. A reificação, por sua vez, oferece-lhe um mundo objetivo que confirma esse modo de apreensão. Os salários aparecem como preço do trabalho; os juros, como propriedade natural do dinheiro; o lucro, como fruto espontâneo do capital; os algoritmos, como agentes autônomos; os mercados, enfim, como sujeitos capazes de exigir, recompensar, castigar ou perder a confiança.


Deste modo, a inversão entre mestre e emissário apresenta aqui uma afinidade surpreendente com a Verkehrung marxiana.


Aquilo que foi produzido como mediação acaba subordinando seus produtores. O dinheiro, criado para mediar intercâmbios, converte-se na finalidade da produção. A máquina, produto do trabalho, passa a comandar o trabalhador. A administração, destinada a organizar uma atividade, torna-se soberana sobre ela. A representação estatística decide o que será reconhecido como real. O capital, trabalho objetivado e apropriado, confronta o trabalho vivo como sujeito automático. Sob esse aspecto, a parábola de McGilchrist aproxima-se involuntariamente da lógica fetichista: o emissário não apenas se emancipa do mestre, mas se apropria de sua potência e passa a governá-lo.


O fetichismo, contudo, não pode - obviamente - ser explicado como simples erro cerebral.


A consciência fragmentária e instrumental é continuamente confirmada pela aparência objetiva das relações sociais reificadas. O mundo capitalista apresenta-se efetivamente como uma reunião de coisas independentes, indivíduos isolados e grandezas quantitativas. A modalidade de atenção associada ao hemisfério esquerdo não inventa arbitrariamente esse universo. Ela encontra diante de si uma realidade já constituída pelas formas mercadoria, dinheiro e capital. A sequência causal deve partir, portanto, da forma-capital, passar pelas práticas e instituições que a realizam, alcançar o ambiente sociotécnico e, por intermédio dele, formar modos habituais de atenção que se sedimentam na corporalidade e no cérebro.


O resultado, uma vez produzido, retroage sobre suas condições de origem. Indivíduos constituídos por esse ambiente passam a reproduzir e aperfeiçoar as práticas, as tecnologias e as instituições que participaram de sua formação.


A causalidade é circular, mas não indiferenciada: quando se pretende compreender a especificidade histórica do desequilíbrio moderno, a forma social conserva a prioridade explicativa.


A categoria de subsunção permite determinar mais rigorosamente esse processo.


Na subsunção formal, o capital se apropria de uma atividade já existente e a coloca sob seu comando, sem modificar imediatamente sua constituição interna. Algo semelhante ocorre com as capacidades cognitivas quando o capital compra a força de trabalho e mobiliza atenção, memória, cálculo, linguagem, imaginação ou destreza tal como foram desenvolvidos fora do processo produtivo.


Na subsunção real, entretanto, o próprio processo de trabalho é revolucionado. A maquinaria, a divisão técnica, a cooperação, a ciência aplicada e o controle temporal produzem uma materialidade adequada à extração de mais-valor. O trabalhador já não ingressa num processo relativamente exterior ao capital, mas encontra uma arquitetura produtiva que determina antecipadamente seus gestos, seus ritmos, sua percepção e suas margens de decisão.


A subsunção real do cérebro começa quando essa transformação alcança sistematicamente as condições de produção das capacidades cognitivas.


O capital deixa de apenas empregar uma atenção previamente formada. Passa a reestruturar escolas, ambientes de trabalho, meios de comunicação, interfaces digitais, temporalidades sociais e formas de sociabilidade, produzindo sujeitos habituados a fragmentar continuamente a atenção, responder a estímulos breves e mensuráveis, converter experiência em informação, operar por categorias e protocolos, privilegiar a velocidade em detrimento da maturação e substituir a memória pelo acesso instantâneo. O julgamento tende a reduzir-se à escolha entre opções predefinidas, enquanto visibilidade, desempenho e valor passam a ser experimentados como grandezas equivalentes. O próprio indivíduo é estimulado a conceber-se como portfólio de competências, dados e atributos negociáveis.


A expressão “subsunção real do cérebro” não deve sugerir, portanto, que o capital se apossa fisicamente de um órgão isolado. O cérebro constitui um momento da corporalidade viva e se desenvolve em relações práticas com o ambiente social. O objeto imediato da subsunção é o circuito integrado entre cérebro, corpo, linguagem, técnica, temporalidade e mundo. A plasticidade neural torna possível a sedimentação orgânica da coerção social, mas não representa sua causa histórica suficiente.


Portanto, seria conceitualmente mais preciso falar numa subsunção real sociotécnica da atenção, da cognição e da afetividade ao capital, cuja inscrição na corporalidade autoriza, em sentido histórico-materialista, a categoria mais incisiva de subsunção real do cérebro.


Enquanto a formulação clássica da subsunção real concentra-se no processo produtivo, o capitalismo plenamente desenvolvido ultrapassa os muros da fábrica.


A reprodução da força de trabalho, o consumo, o lazer, a comunicação e a sociabilidade convertem-se em campos diretos de valorização. A corporalidade permanece subordinada mesmo quando o trabalhador não está formalmente trabalhando. A determinação produtiva do capital invade o tempo de não trabalho e reorganiza a reprodução da subjetividade.


As plataformas digitais representam um salto qualitativo desse processo. Elas não se limitam a oferecer conteúdos, pois organizam o próprio campo perceptivo dentro do qual os indivíduos encontram o mundo. Notificações, métricas de engajamento, rolagem contínua, recompensas intermitentes e mecanismos de seleção algorítmica produzem uma atenção simultaneamente focalizada e dispersa: estreita diante do estímulo imediato, mas incapaz de sustentar uma abertura demorada ao contexto.


A atenção converte-se em matéria-prima econômica. A experiência é decomposta em eventos discretos — cliques, pausas, deslocamentos, escolhas e reações — para ser posteriormente reconstruída como perfil calculável. O indivíduo aparece para o sistema não como totalidade biográfica, mas como agregado de dados e probabilidades comportamentais. Sua representação digital passa a antecedê-lo e a determinar aquilo que lhe será apresentado.


Na descrição de McGilchrist, o hemisfério esquerdo constrói mapas destinados a facilitar a manipulação da realidade. Mas no capitalismo de plataforma, ocorre algo mais radical: os mapas algorítmicos não apenas representam comportamentos, mas reorganizam o ambiente com a finalidade de induzir as condutas previstas. A representação adquire eficácia performativa. Em vez de simplesmente retratar o território, passa a produzi-lo. A gestão algorítmica prolonga esse movimento no processo de trabalho. Atividades complexas são decompostas em tarefas, tempos, trajetórias e indicadores; o conhecimento tácito do trabalhador é expropriado e convertido em protocolo; decisões que envolvem interesses e relações de poder aparecem como resultados tecnicamente neutros de sistemas frequentemente opacos.  


Uma pesquisa da OCDE realizada com mais de seis mil gestores constatou a ampla presença desses instrumentos, acompanhada de preocupações com intensificação do trabalho, vigilância, indefinição de responsabilidades e proteção insuficiente da saúde. Nos Estados Unidos, 90% dos gestores pesquisados declararam que suas empresas disponibilizavam pelo menos uma ferramenta de gestão algorítmica. Tais dados não demonstram, por si mesmos, qualquer lateralização cerebral. Documentam, porém, a expansão material de um ambiente fundado na instrução, no monitoramento, na avaliação e na quantificação contínuos[2].


A inteligência artificial generativa conduz o processo a um novo patamar. Ela exterioriza e automatiza capacidades tradicionalmente associadas ao hemisfério esquerdo: decomposição de problemas, recombinação de signos, produção de representações, classificação, previsão e explicitação linguística. Isso não significa que a inteligência artificial possa ser definida literalmente como um “hemisfério esquerdo artificial”. Os modelos de inteligência artificial generativa também reconhecem contextos, produzem metáforas e simulam estilos. A correspondência é funcional, não anatômica. O elemento decisivo reside na finalidade social sob a qual essas capacidades são desenvolvidas e aplicadas - no caso, as finalidades sociais do capital. Quando subordinada à redução de custos, à aceleração, à vigilância, à padronização e à substituição do julgamento humano, a inteligência artificial fortalece a soberania social do emissário.


O risco não se limita à transferência de tarefas para a máquina. Antes que isso aconteça, a própria atividade humana precisa ser adaptada ao que pode ser formalizado e calculado. Para que sistemas de inteligência artificial administrem a educação, o trabalho, a saúde ou a produção cultural, essas práticas têm de ser decompostas, codificadas e transformadas em dados. Tudo aquilo que permanece implícito, corporal, ambíguo, tácito, temporal ou relacional tende a aparecer como ruído, imprecisão ou obstáculo operacional. Estabelece-se uma adequação recíproca: a vida é convertida em dados, ao mesmo tempo que os sujeitos são treinados para agir segundo os dados que os representam.


O sistema técnico não apenas imita capacidades humanas. As práticas humanas são reorganizadas para se tornarem legíveis ao sistema. A subsunção torna-se real quando os modos de atenção começam a ser formados no interior de ambientes construídos segundo as exigências da computabilidade, da velocidade e da valorização.


A teoria da causalidade sociometabólica imanente – indicada por nós no inicio deste texto (vide nota 1) -  fornece a mediação necessária para que essa formulação não recaia, nem num biologicismo, que reduziria a sociedade ao cérebro, nem num construtivismo para o qual o corpo seria uma matéria passiva e infinitamente moldável.


O cérebro possui propriedades evolutivas, limites orgânicos e causalidades próprias. A forma-capital não pode produzir arbitrariamente qualquer configuração cerebral. Entre as potencialidades oferecidas pela organização bi-hemisférica, contudo, determinadas relações sociais selecionam, exercitam e reforçam certos modos de atenção. A causalidade social atua por meio da natureza cerebral, jamais em lugar dela.


A assimetria orgânica fornece a possibilidade de modalidades diferenciadas e complementares de atenção. A forma-capital realiza uma seleção social entre essas potencialidades, favorecendo as capacidades congruentes com abstração, mensuração, controle e manipulação. Tais capacidades são então objetivadas em máquinas, instituições, procedimentos, plataformas e algoritmos. A exposição reiterada a esse ambiente forma hábitos, afetos, expectativas e padrões cognitivos, produzindo uma interiorização corporal que pode possuir correlatos neuroplásticos. Os sujeitos assim formados participam, finalmente, da reprodução e do aperfeiçoamento das estruturas que condicionaram sua constituição.


A causalidade é imanente porque o capital não atua sobre o cérebro a partir de uma exterioridade absoluta. Na perspectiva da ontologia do ser social. seus imperativos realizam-se através dos pores teleológicos de capitalistas, gestores, engenheiros, agentes estatais, educadores e usuários, cujos atos desencadeiam séries causais que se objetivam em sistemas técnicos e ultrapassam as intenções particulares. Os resultados regressam, então, como pressupostos objetivos das ações posteriores. Essa causalidade é sociometabólica porque articula forma social e corporalidade, trabalho e natureza, consciência e tecnologia.


O cérebro não constitui um suporte neutro que seria atingido posteriormente pela sociedade. Ele integra o metabolismo por meio do qual os humanos se relacionam entre si e com a natureza. 


A prioridade da forma social tampouco implica causalidade unilateral. Significa apenas que, para explicar por que determinado potencial cerebral adquire predominância numa época histórica específica, é necessário partir das relações sociais dominantes. A estrutura cerebral explica a possibilidade do fenômeno; a forma-capital esclarece sua seleção histórica, sua expansão e sua função sistêmica.


Portanto, a crítica a McGilchrist precisa ser formulada com essa precisão.


Ele não sustenta simplesmente que mudanças anatômicas no cérebro tenham causado o capitalismo. Ao contrário, rejeita expressamente essa interpretação e admite que cérebro e cultura se constituem numa relação recíproca.


Declara ainda que não pretende estabelecer a causa das mudanças culturais, mas reconhecer os padrões que as acompanham. O limite de McGilchrist encontra-se justamente nessa suspensão da pergunta causal. A reciprocidade entre cérebro e cultura permanece abstrata enquanto não se identifica a estrutura social capaz de organizar historicamente essa influência mútua – no caso, a forma social do capital.


A expressão “cultura ocidental” torna-se ampla demais: nela se reúnem capitalismo, industrialização, burocracia, racionalismo, tecnologia, imperialismo e pós-modernidade, sem que se determine a relação social que imprime unidade dinâmica a esses processos. McGilchrist descreve com notável acuidade a fenomenologia do resultado: fragmentação, mecanicismo, desencarnação, perda do contexto, domínio da representação, manipulação da natureza, burocratização e substituição da experiência direta por sistemas autorreferentes. Tende, contudo, a converter esse resultado numa história da perda do equilíbrio entre os hemisférios. Sua interpretação permanece demasiado próxima de uma filosofia cultural da decadência.


Mas a crítica da economia política que estamos sugerindo permite reconstruir a causalidade histórica que permanece indeterminada. A abstração não predomina porque o hemisfério esquerdo venceu uma luta intraneural. Predomina porque a reprodução material da sociedade passou a ser comandada por uma abstração real: o valor que se valoriza. Quantificação, fragmentação e controle não constituem apenas estilos cognitivos equivocados. São exigências práticas da acumulação.


A inversão causal operada por McGilchrist pode, assim, ser corrigida sem que suas descobertas sejam descartadas: Não é o hemisfério esquerdo que produz a forma-capital; é a forma-capital que produz a dominância social da modalidade de atenção associada ao hemisfério esquerdo. Essa determinação não elimina a retroação. Uma vez socialmente reforçado e organicamente sedimentado, esse modo de atenção participa ativamente da reprodução do capital. O resultado converte-se em pressuposto. Abandona-se, desse modo, a causalidade linear em favor de uma causalidade imanente, recursiva e historicamente hierarquizada.


Ainda assim, seria insuficiente identificar o capital exclusivamente com as capacidades do hemisfério esquerdo. O capitalismo do século XXI também mobiliza aquelas modalidades relacionadas por McGilchrist ao hemisfério direito: criatividade, emoção, empatia, reconhecimento facial, comunicação não verbal, imaginação e apreensão contextual. A publicidade explora afetos; o design captura configurações perceptivas globais; as plataformas analisam vínculos sociais; o trabalho de serviços mobiliza empatia; a inovação depende da imaginação; a inteligência artificial aprende regularidades contextuais. O capital não elimina essas capacidades. Apropria-se delas e as subordina.


A dominância do hemisfério esquerdo deve, portanto, ser compreendida como uma hierarquia de finalidades, e não como exclusividade funcional. As capacidades integradoras do hemisfério direito podem ser intensamente mobilizadas, mas sua utilização é submetida a critérios de lucratividade, desempenho, mensuração e controle. A criatividade converte-se em “capital humano”; a comunicação, em técnica de persuasão; a empatia, em competência comercial; a imaginação, em produção de conteúdo; a cooperação, em ferramenta de produtividade.


O capital subsume o hemisfério direito sob a racionalidade social correspondente ao modo de apreensão do esquerdo. O mestre continua trabalhando, mas agora trabalha para o emissário.


Portanto, finalizando esta exposição, a nossa hipótese pode ser condensada numa formulação mais determinada:


A dominância moderna do modo de atenção associado por McGilchrist ao hemisfério esquerdo não deve ser explicada prioritariamente por uma dinâmica biológica autônoma, nem por uma vaga evolução da cultura ocidental. Ela constitui o correlato neurofenomenológico de uma transformação histórica específica: a expansão da forma-capital da produção para a totalidade da reprodução social. Fundada na abstração real do valor, essa forma seleciona, institucionaliza e materializa modalidades cognitivas baseadas na fragmentação, na quantificação, na explicitação, na previsibilidade e na manipulação instrumental. Ao reconstruir o ambiente sociotécnico segundo essas exigências, o capital deixa de apenas utilizar capacidades cerebrais preexistentes e passa a participar sistematicamente de sua formação. Configura-se, assim, uma subsunção real da atenção, da cognição e da afetividade e, por intermédio delas, do próprio cérebro como momento da corporalidade viva ao metabolismo social do capital.


A força dessa formulação está em preservar a descoberta de McGilchrist e, simultaneamente, deslocar seu fundamento.


Sua neurofenomenologia descreve duas maneiras pelas quais o mundo pode aparecer à consciência. A crítica da economia política explica por que uma delas se torna socialmente dominante. A teoria da causalidade sociometabólica imanente proposta por nós,  mostra como a forma social se inscreve na matéria viva sem dissolver a natureza na sociedade nem reduzir a sociedade à biologia.


A subsunção real do cérebro constitui, desse modo, um desenvolvimento da subsunção real da corporalidade viva. Ela designa o momento em que o capital já não comanda apenas os movimentos exteriores do trabalhador, mas reorganiza as condições sociais da percepção, da atenção, da memória, da imaginação e do desejo.


Não captura o cérebro como uma coisa isolada. Produz o mundo no interior do qual o cérebro aprende a funcionar.


A emancipação não poderia, por isso, limitar-se a uma mudança individual de consciência, muito menos a exercícios destinados a “ativar o hemisfério direito”. Ela exigiria - o que podemos denominar - uma dessubsunção sociometabólica, isto é, a reconstrução das condições materiais do trabalho, da educação, da técnica, da comunicação e da temporalidade social na perspectiva do controle social autônomo do trabalho vivo e não mais das imposições compulsivas do capital. Esta é a luta da práxis emancipatória para além do capital.


O objetivo não seria abolir a abstração ou renunciar à análise, mas restituí-las à condição de mediações subordinadas às necessidades qualitativas da vida social. O problema não consiste em destruir o emissário. Consiste em retirar-lhe o trono.


NOTAS 


[1] A teoria da causalidade imanente sociometabólica é a concepção segundo a qual a dinâmica do capital não decorre de uma causa externa nem de uma vontade central, mas das contradições internas do próprio metabolismo social capitalista. Essa causalidade é produzida pela interação entre os pores teleológicos dos indivíduos e das classes — ações orientadas por finalidades — e as causalidades sociais objetivas que tais ações desencadeiam. Uma vez constituídas, essas relações adquirem autonomia relativa e passam a impor-se aos próprios agentes como forças estranhas e coercitivas. O capital torna-se, assim, uma espécie de "sujeito automático": não porque possua consciência, mas porque sua lógica de valorização emerge das práticas sociais e retorna sobre elas como necessidade objetiva. A causalidade imanente sociometabólica explica, portanto, como o movimento do capital é simultaneamente produzido pelos seres humanos e exercido sobre eles, articulando práxis, fetichismo, subsunção e interversão no interior da reprodução social. Ver ALVES, Giovanni. O metabolismo social do capital. Volumes 1, 2 e 3. Projeto editorial Praxis, 2026.

[2] MILANEZ, Anna; LEMMENS, Annikka; RUGGIU, Carla. Algorithmic Management in the Workplace: New Evidence from an OECD Employer Survey. OECD Artificial Intelligence Papers, n. 31. Paris: OECD Publishing, 2025. DOI: 10.1787/287c13c4-en.


 
 
 

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