Lukács e o termo Sehnsucht-5
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A análise das ocorrências do termo Sehnsucht na Ontologia do Ser Social que fizemos nas postagens anteriores, permitiu compreender que Lukács confere ao termo Sehnsucht um significado extremamente complexo, histórico-dialético e ontologicamente mediado.
Sehnsucht não é uma categoria ontológica fundamental em sentido estrito, como trabalho, reprodução social ou práxis; ela aparece antes como forma fenomenológica e afetiva da negatividade inscrita no ser social histórico. Trata-se da expressão subjetiva da não-coincidência entre a existência efetiva e a exigência humana de sentido, plenitude, reconciliação ou liberdade.
Seu núcleo mais profundo reside na experiência objetiva do estranhamento e da incompletude. A Sehnsucht emerge sempre de contradições reais da vida social: insegurança, perda de sentido, alienação, manipulação, sofrimento histórico, limitação da vida humana ou impossibilidade de realização plena da individualidade. Por isso, ela não é mera ilusão subjetiva ou fantasia arbitrária. Mesmo em suas formas ideológicas mais deformadas, ela conserva um conteúdo antropológico-social efetivo: exprime necessidades humanas reais, historicamente produzidas.
Entretanto, precisamente por surgir no interior de formações sociais contraditórias, a Sehnsucht possui um caráter profundamente ambivalente. Ela pode orientar-se tanto para a emancipação quanto para a regressão. Seu significado depende das mediações históricas, ideológicas e sociais que configuram sua direção concreta.
Nas formas religiosas e transcendentalizantes, a Sehnsucht aparece como negatividade deslocada para fora da práxis histórica. O sofrimento e a contradição da vida social são convertidos em anseio por redenção transcendente, por abandono do mundo criatural e acesso a uma esfera absoluta de reconciliação. Aqui, (1) a Sehnsucht transforma-se em fuga do mundo histórico: a negatividade real deixa de impulsionar a transformação social e passa a ser neutralizada pela promessa de salvação exterior ao ser social.
Em outras configurações, a (2) Sehnsucht assume formas regressivas de adaptação imaginária ao existente. O exemplo do Rentnerideal — o ideal do aposentado — mostra como o anseio pode converter-se em desejo de estabilização absoluta, suspensão do tempo histórico e eliminação das tensões da vida. Nesse caso, a Sehnsucht expressa o desejo de escapar da historicidade e da processualidade do ser social, procurando uma fantasia de segurança permanente. Ainda assim, mesmo nessa forma banalizada e regressiva, ela continua revelando necessidades reais de proteção e estabilidade diante de um mundo social instável e ameaçador.
A reflexão lukacsiana alcança uma profundidade ontológica decisiva quando (3) articula Sehnsucht e Verdinglichung (coisificação). Lukács afirma que toda realização da Sehnsucht por redenção tende inevitavelmente a assumir formas coisificadas. Isso significa que o anseio, ao buscar objetivar-se em imagens definitivas de plenitude, transforma-se em figura estática e perde sua dinâmica viva. O movimento converte-se em estado fixo; a tensão vital transforma-se em representação imóvel.
A Sehnsucht, enquanto negatividade aberta e impulso vital, contém a verdade da experiência humana; mas sua realização imaginária como estado absoluto conduz paradoxalmente à supressão da própria vitalidade que a constitui. A análise do Paraíso na “Divina Comédia” de Dante torna exemplar essa contradição: a plenitude perfeita converte-se em imobilidade abstrata, ao passo que a vida concreta preserva necessariamente tensão, movimento e negatividade.
A partir daí, Lukács desenvolve uma crítica particularmente importante da Sehnsucht regressiva nas ideologias modernas reacionárias. Na passagem sobre o mito e o fascismo, a (4) Sehnsucht aparece como nostalgia de “tempos criadores de mitos”. Aqui, ela já não é transcendência religiosa clássica, mas recusa moderna da racionalidade histórica e científica. O desenvolvimento da ciência — sobretudo com Darwin e Morgan — revelou o tornar-se humano como processo imanente e autocriado. O homem aparece então como ser produzido historicamente pela natureza e pela sociedade. É precisamente contra essa autoconsciência histórica que se dirige a Sehnsucht regressiva pelo mito
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Nesse contexto, Sehnsucht torna-se desejo de fuga da responsabilidade histórica. Ela expressa o anseio de abandonar a complexidade contraditória da modernidade e retornar imaginariamente a totalidades míticas, orgânicas e pré-racionais. Trata-se de uma nostalgia do irracional que prepara subjetivamente o terreno para as ideologias reacionárias de massa. O fascismo mobiliza precisamente essa Sehnsucht por comunidade mítica, unidade perdida e transcendência coletiva. A negatividade deixa então de orientar-se para a práxis transformadora e converte-se em fuga regressiva para imagens imaginárias do passado.
Entretanto, a última ocorrência do termo na Ontologia revela talvez sua determinação mais rica e dialética. Lukács fala então da Sehnsucht por uma democracia não manipulada. Aqui, a Sehnsucht já não é fuga transcendental nem nostalgia mítica regressiva, mas negatividade crítica potencialmente emancipatória. O ponto de partida é a negação da manipulação social e ideológica. Contudo, essa negação contém internamente um momento afirmativo: o anseio por uma forma de sociabilidade mais livre, não reduzida à manipulação e à objetificação dos indivíduos.
A Sehnsucht aparece assim como conteúdo positivo da crítica social. Ela transforma a negação em perspectiva histórica. Sem ela, a crítica degeneraria em puro niilismo; com ela, a negatividade converte-se em possibilidade de práxis transformadora. Nesse sentido, a Sehnsucht funciona como mediação subjetiva entre sofrimento social e imaginação histórica. Ela preserva no interior da consciência humana a percepção de que o existente não esgota o possível.
Ao mesmo tempo, Lukács insiste no caráter dialético dessa forma emancipatória da Sehnsucht. O futuro desejado é imaginado a partir de experiências históricas do passado, que fornecem “cores e formas” à democracia não manipulada. Mas esse passado não pode ser simplesmente restaurado, porque o ser social foi transformado historicamente em suas bases econômicas e sociais.
A Sehnsucht emancipatória não é, portanto, nostalgia restauradora; ela é uso crítico da memória histórica como laboratório de possibilidades. O passado serve não como modelo a repetir, mas como prova histórica de que outras formas de sociabilidade já existiram e podem inspirar novas formas históricas futuras.
É precisamente aqui que a Sehnsucht assume sua figura mais elevada em Lukács: ela torna-se imaginação histórica concreta. Não é utopia abstrata nem transcendência metafísica, mas energia subjetiva que articula crítica do presente, memória histórica e abertura ao possível. Ela mantém viva a tensão entre ser e dever-ser, entre realidade e possibilidade, impedindo que os indivíduos sejam completamente absorvidos pela manipulação e pela coisificação social.
Desse modo, a síntese final da “Ontologia do Ser Social” permite compreender Sehnsucht como índice afetivo da negatividade constitutiva do ser social. Ela expressa a incompletude estrutural da existência humana histórica.
Pode assumir formas regressivas, transcendentalizantes, míticas ou adaptativas; mas pode também converter-se em força crítica e emancipatória quando mediada pela práxis histórica consciente. Sua verdade não reside em imagens fixas de plenitude, mas na própria tensão viva que impulsiona os seres humanos para além do existente.
Em Lukács, portanto, a Sehnsucht é simultaneamente sintoma do estranhamento e energia potencial da emancipação histórica.
Iremos analisar as quatro ocorrências do termo Sehnsucht nos “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social” — um dos últimos escritos do velho Lukács e espécie de condensação madura de sua reflexão ontológica. Ao examinar essas passagens, buscaremos apreender – como temos feito - não apenas o significado filológico do termo, mas sobretudo suas mediações histórico-filosóficas no interior da crítica lukacsiana do ser social, do estranhamento e das possibilidades da práxis humana. Ao final, apresentaremos uma breve síntese conclusiva dessas reflexões filológico-críticas sobre o conceito de Sehnsucht em Lukács, procurando explicitar a riqueza de suas determinações: do anseio trágico e regressivo às formas de negatividade potencialmente emancipatórias inscritas na experiência histórica do ser social.
Ocorrência 1
Diz Lukács: “É preciso ficar claro, porém, que em tais casos as afirmações e negações precisamente do sistema dominante exibem, dos dois lados, gradações significativas, de simples adaptação até a rebelião aberta, da nostalgia de um passado que ainda não conhecia esses conflitos, até a de um futuro que não mais as conhecerá etc. Elas desenvolvem suas determinações no ser social, lutando entre si. Aquilo que, portanto, nós observamos em tais casos, do lado objetivamente social, como generidade existente, manifesta-se, de fato, na prática imediata, como o resultado de tais forças em luta, a essência de um tal ser social exprime-se, contudo, precisamente nessas lutas, onde a sua explicitação omnilateral, suas oposições reais, incorporam ontologicamente a essência objetiva da generidade ainda mais profunda e completamente do que o simples término das lutas. Espártaco as incorpora, em seu tempo, pelo menos tão claramente como seus vencedores, os líderes oficiais da antiga Roma” [p. 111]
No original: Hier ist ein Eingehen auf historische Details natürlich unmöglich. Es muß aber jedem klar sein, daß in solchen Fällen die Bejahungen und Verneinungen des gerade herrschenden Systems auf beiden Seiten bedeutsame Abstufungen aufweisen, von schlichter Anpassung bis zur offenen Rebellion, von Sehnsucht nach einer Vergangenheit, die diese Gegensätze noch nicht kannte, bis zu der einer Zukunft, die diese nicht mehr kennen werde etc., etc. Sie bilden im gesellschaftlichen Sein, einander bekämpfend, deren Bestimmungen aus. Das, was wir also in solchen Fällen auf der objektiv gesellschaftlichen Seite als vorhandene Gattungsmäßigkeit betrachten, erscheint zwar unmittelbar praktisch als das Ergebnis solcher kämpfenden Kräfte, das Wesen eines solchen gesellschaftlichen Seins drückt sich jedoch gerade in diesen Kämpfen aus, wobei deren allseitiges Offenbarwerden, ihre realen Gegensätze, das objektive Wesen der jeweiligen Gattungsmäßigkeit noch tiefer und kompletter seinshaft verkörpern als der bloß reale Ausgang der Kämpfe. Spartakus verkörpert sie für seine Zeit zumindest ebenso eindeutig, wie seine Besieger, die offiziellen Führer des damaligen Roms.
Nesta passagem dos “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social”, Györy Lukács atinge um dos pontos mais elevados e complexos de sua reflexão ontológica sobre o ser social. O termo Sehnsucht deixa de aparecer apenas como expressão ideológica da transcendência religiosa, nostalgia mítica ou desejo subjetivo de reconciliação e passa a ser integrado diretamente ao movimento contraditório da própria generidade humana (Gattungsmäßigkeit). Com isso, Lukács desloca decisivamente o problema: a Sehnsucht não é mais tratada apenas como fenômeno psicológico ou cultural, mas como forma historicamente mediada pela qual os indivíduos e grupos sociais vivenciam, no plano subjetivo, as contradições objetivas do ser social.
O primeiro aspecto decisivo da passagem é que Lukács insere a Sehnsucht no interior das “afirmações e negações” [Bejahungen und Verneinungen] do sistema dominante. Isso significa que o anseio humano não aparece como realidade puramente interior, abstrata ou existencial, mas como momento constitutivo das respostas históricas às contradições da vida social.
A Sehnsucht é, portanto, - como temos salientado - uma forma fenomenológica da negatividade histórica. Ela exprime subjetivamente aquilo que, no plano objetivo, aparece como contradição entre as possibilidades humanas e as formas históricas efetivas da sociabilidade.
O elemento central da análise é a ideia de gradação [Abstufungen]. Lukács afirma que as respostas ao sistema dominante variam “da simples adaptação até a rebelião aberta” [von schlichter Anpassung bis zur offenen Rebellion] e, paralelamente, “da nostalgia de um passado” até “a Sehnsucht por um futuro”.
Essa formulação possui enorme importância teórica porque impede qualquer interpretação unilateral do conceito. A Sehnsucht não possui um conteúdo fixo; ela é uma forma afetivo-ontológica cuja direção depende das mediações históricas concretas.
Temos, assim, duas orientações fundamentais.
De um lado, (1) existe uma Sehnsucht regressiva, voltada ao passado: o anseio por formas sociais anteriores às contradições do presente, frequentemente idealizadas como totalidades orgânicas, estáveis ou não alienadas. Essa nostalgia pode assumir formas conservadoras, românticas ou mesmo reacionárias, quando transforma o passado em imagem imaginária de reconciliação perdida.
Contudo, mesmo nessas formas ideologicamente regressivas, permanece um núcleo de verdade: a percepção efetiva de que o presente histórico é contraditório, degradante ou desumanizador.
De outro lado, (2) existe uma Sehnsucht progressiva, orientada ao futuro: o anseio por uma forma de vida ainda inexistente, capaz de superar historicamente as contradições do estranhamento e da dominação social. Aqui, a Sehnsucht deixa de ser mera nostalgia e converte-se em energia subjetiva da práxis transformadora.
Nesse caso, a Sehnsucht atua como bússola do fator subjetivo histórico: o impulso que impede os seres humanos de aceitarem passivamente sua redução à condição de objetos do sistema social.
O decisivo, porém, é que Lukács recusa transformar essa oposição em simples dualismo moral entre erro e verdade, regressão e emancipação. Ambas as formas de Sehnsucht emergem das contradições reais da generidade humana.
É precisamente nisso que os “Prolegômenos” aprofundam a problemática em relação à própria “Ontologia do Ser Social”: o centro da análise deixa de ser apenas a crítica das formas ideológicas da Sehnsucht e passa a ser sua inscrição no processo contraditório da autoconstituição histórica da humanidade.
Aqui entra em cena o conceito decisivo de Gattungsmäßigkeit — generidade humana.
Para Lukács, a humanidade não existe como essência fixa, abstrata ou reconciliada. A generidade manifesta-se concretamente como resultado de forças sociais em luta. Isso significa que a essência do ser social não reside apenas em estados finais de reconciliação histórica, mas no próprio processo contraditório em que os seres humanos enfrentam aquilo que os desumaniza.
A humanidade é processo, conflito, autoconstrução histórica.
Nesse contexto, a Sehnsucht aparece como forma subjetiva dessas tensões objetivas. Ela exprime o fato de que indivíduos e grupos sociais experimentam a inadequação do presente e orientam-se, de modos distintos, para alternativas possíveis — sejam elas regressivas ou emancipatórias.
A Sehnsucht é, portanto, o índice fenomenológico da não-coincidência entre a humanidade existente e suas possibilidades históricas.
É precisamente aqui que o exemplo de Espártaco assume importância decisiva. Lukács afirma que Espártaco encarna a essência da generidade de sua época tão claramente quanto — ou talvez mais profundamente que — os líderes oficiais de Roma. Essa formulação contém uma inversão ontológica radical.
A verdade histórica de uma sociedade não se encontra apenas nas forças que dominam e estabilizam a ordem existente, mas também nas forças que a negam.
Embora derrotado militarmente, Espártaco representa algo essencial sobre o ser social de sua época: a recusa da desumanização. Sua rebelião exprime uma Sehnsucht concreta por uma vida não reduzida à escravidão e à coisificação.
A verdade da humanidade não está na ordem romana enquanto sistema de dominação estabilizado, mas no grito histórico do escravo que se recusa a aceitar sua transformação em coisa.
Aqui, a Sehnsucht ganha uma dimensão ontológica inteiramente nova. Ela deixa de ser apenas sentimento de carência ou nostalgia subjetiva e passa a incorporar-se em figuras históricas concretas.
A Sehnsucht de Espártaco não é sonho vazio; ela constitui prova histórica de que, mesmo sob as formas mais brutais de opressão, o ser social conserva em si o impulso para a generidade autêntica.
Por isso, Lukács sugere algo extremamente profundo: a luta não é um acidente exterior ao desenvolvimento humano; ela é um dos momentos privilegiados em que a humanidade se manifesta mais plenamente.
A generidade humana autêntica não reside apenas na harmonia futura, mas já aparece na própria recusa prática da desumanização.
Isso permite compreender por que Lukács insiste que a essência do ser social se revela na “explicitação omnilateral” das oposições históricas. A humanidade aparece por inteiro justamente quando luta contra aquilo que a nega.
O ser social é composto simultaneamente pela ordem dominante e pelas forças que a contestam. A ontologia não pode limitar-se à reprodução do existente; deve apreender também as negatividades reais que emergem no interior da própria história.
Dessa forma, a Sehnsucht adquire um significado profundamente dialético. Ela é simultaneamente expressão do sofrimento histórico e energia potencial da emancipação. Sua verdade não reside necessariamente nas imagens concretas que produz — muitas vezes regressivas ou ilusórias —, mas no fato de conservar viva a tensão entre o que os seres humanos são e aquilo que poderiam tornar-se.
Em síntese, nesta passagem dos “Prolegômenos”, Lukács apresenta a Sehnsucht como forma subjetiva da negatividade histórica inscrita na dinâmica contraditória da generidade humana. Ela pode assumir orientações regressivas ou emancipatórias, voltadas ao passado ou ao futuro; porém, em todos os casos, exprime a incompletude constitutiva do ser social histórico.
A humanidade não existe como essência pronta, mas como processo conflitivo de autoconstrução. E a Sehnsucht é precisamente uma das formas pelas quais essa processualidade se torna subjetivamente vivida, sentida e historicamente impulsionada.
Ocorrência 2
Diz Lukács: “A nostalgia da humanidade por uma vida já não dominada pelo estranhamento, portanto, segundo uma generidade que não traz à vida nenhum estranhamento, que atribui ao indivíduo humano tarefas que podem conduzir a uma vida – também pessoal – capaz de trazer verdadeira e duradoura satisfação, permanece inarredável do pensamento e da emoção dos seres humanos. E como esses complexos de pensamento e sentimento não puderam se manifestar e se desenvolver nas manifestações práticas de vida e nas atividades humanas, pelos motivos dados, os seres humanos procuraram – e encontraram-– um espaço de exteriorização no campo da ideologia pura, isto é, que não se torna efetivamente ativa no plano prático-social imediato. Hegel, no seu tempo, tentou caracterizar esse mundo das ideologias como espírito objetivo e absoluto. Mas, omitindo o fato de que para ele, em última análise, estranhamento e objetividade coincidiam, que, pois, a superação do estranhamento teria de significar a reabsorção do mundo até aqui “alienado” ao espírito no sujeito-objeto idênticos (portanto, segundo sua essência, uma utopia logicizante), Hegel erra quando insere a religião no espírito absoluto. Na religião – em determinadas manifestações de Jesus de Nazaré, em determinados tipos de seus seguidores como Mestre Eckart, Francisco de Assis –, tal tendência também atua, mas, de modo geral, a religião cumpre tarefas práticas muito semelhantes às do direito e do Estado, isto é, conservar justificadamente a sociabilidade então existente (generidade) [...] [p. 261]
No original: Die Sehnsucht der Menschheit nach einem nicht mehr von Entfremdungen beherrschten Leben, also nach einer Gattungsmäßigkeit, die keine Entfremdungen ins Leben ruft, die dem einzelnen Menschen Aufgaben zuweist, die zu einem — auch persönlich — gehaltvollen, wirkliche Befriedigung bringenden Leben führen können, bleibt aus Denken und Fühlen der Menschen unausrottbar. Und da diese Gedanken- und Gefühlskomplexe in den praktischen Lebensäußerungen der menschlichen Aktivitäten aus den eben angegebenen Gründen sich unmöglich rein gesellschaftlich-praktisch äußern und entfalten konnten, suchten und fanden die Menschen einen Äußerungsspielraum auf dem Gebiet der reinen, unmittelbar gesellschaftlich-praktisch nicht effektiv wirksam werdenden Ideologie. Hegel hat seinerzeit diese Welt der Ideologien als objektiven und absoluten Geist zu kennzeichnen versucht. Jetzt ganz abgesehen davon, daß für ihn letzten Endes Entfremdung und Gegenständlichkeit zusammenfielen, daß also die Aufhebung der Entfremdung die Rücknahme der bis dahin vom Geist »entäußerten« Welt in das identische Subjekt- Objekt bedeuten mußte (dem Wesen nach also eine logisierende Utopie), irrt Hegel, wenn er die Religion dem absoluten Geist zurechnet. Wohl ist in ihr — etwa in bestimmten Äußerungen des Jesus von Nazareth, in bestimmten Typen seiner Nachfolger wie Meister Eckart, Franz von Assisi — auch eine solche Tendenz wirksam, im ganzen jedoch erfüllt die Religion praktisch höchst ähnliche Aufgaben wie etwa Recht oder Staat, nämlich das rechtfertigende Konservieren der jeweils vorhandenen Gesellschaftlichkeit (Gattungsmäßigkeit) [...]
Nesta passagem dos “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social”, György Lukács alcança uma das determinações mais profundas, universais e ontologicamente decisivas do termo Sehnsucht.
Diferentemente de outras ocorrências da “Ontologia do Ser Social” — nas quais o conceito aparecia associado a formas específicas de consciência, como a transcendência religiosa, a nostalgia regressiva, o mito reacionário, a resistência trágica ou o impulso democrático-emancipatório —, aqui a Sehnsucht é elevada ao plano da própria condição histórico-ontológica da humanidade estranhada.
O ponto de partida da análise é decisivo:
Lukács fala da Sehnsucht der Menschheit, isto é, da “nostalgia”, “anseio” ou “aspiração” da própria humanidade. O conceito desloca-se, assim, para um nível muito mais amplo.
Não se trata mais de um estado psicológico individual nem de uma disposição cultural localizada, mas de uma determinação antropológico-social do ser humano histórico sob condições de estranhamento [Entfremdung].
O conteúdo dessa Sehnsucht é explicitado de forma rigorosa: trata-se do anseio por uma vida “não mais dominada pelo estranhamento” [nicht mehr von Entfremdungen beherrschten Leben].
Temos aqui um núcleo decisivo da elaboração lukacsiana: a Sehnsucht não é desejo arbitrário nem fantasia contingente. Ela emerge diretamente da experiência histórica do estranhamento social. Como vimos noutras postagens, é a forma subjetiva pela qual a humanidade vivencia a não-coincidência entre sua existência histórica efetiva e suas possibilidades genéricas mais profundas.
Aqui entra em cena o conceito central de Gattungsmäßigkeit — a generidade humana.
Lukács define o objeto da Sehnsucht como uma forma de generidade que “não produz estranhamento”, isto é, uma sociabilidade na qual as atividades e tarefas sociais atribuídas aos indivíduos não apareçam como forças hostis, exteriores e desumanizadoras, mas possam converter-se em meios de desenvolvimento efetivo da individualidade humana.
O problema do estranhamento reside precisamente na cisão entre aquilo que fazemos para sobreviver e aquilo que poderíamos ser enquanto seres genéricos.
Por isso, a Sehnsucht exprime algo profundamente ontológico: ela é a experiência subjetiva da fratura entre o ser humano realmente existente e a humanidade possível ainda bloqueada historicamente.
O anseio humano não é simplesmente por felicidade abstrata ou paraíso imaginário, mas por uma vida em que trabalho, sociabilidade e desenvolvimento pessoal deixem de aparecer como esferas separadas e antagônicas.
Temos aqui uma inflexão fundamental em relação às passagens anteriores da “Ontologia”.
Na crítica ao mito fascista, a Sehnsucht aparecia como regressão ao irracional; na religião, como transcendentalização ideológica da negatividade; na democracia não manipulada, como imaginação política mediada pela memória histórica. Agora, porém, Lukács radicaliza o conceito: a Sehnsucht torna-se expressão permanente da própria incompletude histórica da humanidade estranhada.
Isso explica a formulação decisiva segundo a qual ela permanece “inarredável” [unausrottbar] do pensamento e do sentimento humanos.
A Sehnsucht não pode ser eliminada porque o estranhamento jamais consegue destruir completamente a generidade humana; ele apenas a bloqueia, deforma e reprime historicamente. Mesmo sob as formas mais brutais de alienação, permanece viva a exigência humana de uma vida reconciliada.
Nesse sentido, a Sehnsucht assume aqui o caráter de resistência ontológica. O estranhamento pode deformar o ser social, mas não consegue extinguir inteiramente o impulso humano em direção à generidade autêntica.
O anseio torna-se, assim, prova histórica de que a essência humana continua presente mesmo em condições profundamente desumanizadas.
Entretanto, Lukács introduz imediatamente uma mediação crítica decisiva. Esses complexos de pensamento e sentimento não puderam desenvolver-se diretamente no plano da práxis social imediata. Em outras palavras: as condições históricas impediram que a Sehnsucht encontrasse formas efetivas de realização prática.
A energia subjetiva produzida pela necessidade de reconciliação humana fica bloqueada no plano da vida social concreta.
É precisamente daí que surge a função histórica da ideologia.
A humanidade busca então um “espaço de exteriorização” [Äußerungsspielraum] no campo da ideologia pura. A Sehnsucht desloca-se para a religião, a arte, a filosofia e outras formações ideológicas que passam a exprimir simbolicamente aquilo que ainda não pode realizar-se historicamente.
Aqui a análise de Lukács torna-se extremamente refinada. Diferentemente de suas críticas anteriores à transcendência religiosa, ele reconhece agora que determinadas formas religiosas podem conter impulsos autênticos de superação do estranhamento. As referências a Jesus de Nazaré, Mestre Eckhart e Francisco de Assis mostram que a religião pode funcionar parcialmente como veículo da Sehnsucht por uma humanidade reconciliada. Nessas figuras históricas, o anseio por fraternidade, comunidade humana e superação da coisificação manifesta-se de maneira particularmente intensa.
Contudo, Lukács mantém rigorosamente sua crítica materialista. A religião institucional, em sua função histórica predominante, opera como o Direito e o Estado: sua tarefa principal consiste em conservar e legitimar a sociabilidade existente [vorhandene Gesellschaftlichkeit]. Temos aqui uma determinação dialética fundamental: a religião exprime simultaneamente o anseio pela superação do estranhamento e a reprodução ideológica do próprio estranhamento. Ela acolhe a dor humana real, mas frequentemente transforma a negatividade crítica em resignação e adaptação.
A crítica a Georg Wilhelm Friedrich Hegel aprofunda ainda mais essa problemática.
Lukács acusa Hegel de identificar estranhamento e objetividade, fazendo da superação da alienação uma reabsorção do mundo objetivo pelo sujeito-objeto idêntico do Espírito. Para Lukács, trata-se de um erro ontológico decisivo.
O mundo objetivo não é, em si mesmo, alienação. A objetividade é constitutiva do ser social. O problema não reside na existência de um mundo exterior ao sujeito, mas na forma social historicamente estranhada da relação entre os seres humanos e suas objetivações.
O estranhamento não nasce da objetividade enquanto tal, mas do fato de que as objetivações humanas adquirem autonomia hostil diante de seus próprios produtores.
Por isso, Lukács critica a solução hegeliana como “utopia logicizante”. Em Hegel, a reconciliação tende a ocorrer no plano do pensamento absoluto, da autoconsciência do Espírito. Em Lukács, ao contrário, a superação do estranhamento só pode ocorrer mediante transformação prática das relações sociais concretas.
A Sehnsucht não deve culminar em reconciliação puramente espiritual ou filosófica, mas em práxis histórica efetiva.
É precisamente aqui que esta passagem atinge sua máxima importância ontológica. A Sehnsucht deixa de ser apenas forma fenomenológica da negatividade e torna-se índice ontológico da própria possibilidade de emancipação humana. Ela é a prova histórica de que a humanidade estranhada nunca coincide plenamente com as formas sociais que a aprisionam.
Se compararmos esta passagem com as ocorrências anteriores do termo, percebemos um movimento conceitual de enorme alcance.
Na tragédia, a Sehnsucht aparecia como resistência subjetiva impotente; na religião, como transcendência regressiva; no mito fascista, como nostalgia reacionária; na democracia não manipulada, como imaginação política crítica; aqui, finalmente, ela surge como expressão universal da contradição entre humanidade existente e humanidade possível.
Temos, portanto, a determinação mais abrangente do conceito em Lukács: Sehnsucht é a forma afetivo-ontológica pela qual a humanidade estranhada experimenta sua própria incompletude histórica e mantém viva, mesmo sob condições adversas, a possibilidade de uma generidade reconciliada.
Ela é o sinal de que o ser social jamais se reduz inteiramente à adaptação silenciosa ao existente.
]Enquanto houver Sehnsucht, permanece viva a negatividade histórica que impulsiona a humanidade para além do estranhamento.
Ocorrência 3
Diz Lukács: “Portanto, não há nenhum utopismo em prever que numa transformação socialista da sociedade capitalista, numa efetiva passagem do socialismo autenticamente realizado para o comunismo, esses motivos ideológicos antiqüíssimos, ideologicamente presentes “em cima” e “embaixo” no desenvolvimento até aqui ocorrido, essa nostalgia humana de uma generidade autêntica, são chamados a desempenhar um papel decisivo na formação ideológica do fator subjetivo.” [p. 263]
No original: Es ist also keinerlei Utopismus in der Voraussicht enthalten, daß bei einer sozialistischen Umwälzung der kapitalistischen Gesellschaften, bei einem wirklichen Übergang vom echt verwirklichten Sozialismus in den Kommunismus diese uralten ideologischen Motive, die in der bisherigen Entwicklung ideologisch »oben« wie »unten« immer irgendwie gegenwärtig waren, diese menschliche Sehnsucht nach echter Gattungsmäßigkeit in der ideologischen Formung des subjektiven Faktors eine ausschlaggebende Rolle zu spielen berufen sind.
Nesta passagem decisiva dos “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social”, György Lukács conduz o conceito de Sehnsucht à sua determinação mais explicitamente histórico-emancipatória.
Se, nas passagens anteriores, o termo aparecia como expressão da humanidade estranhada — ora como nostalgia regressiva, transcendência religiosa, resistência trágica ou imaginação democrática —, aqui ele é inscrito diretamente no processo histórico de transição socialista e comunista, adquirindo papel decisivo na formação subjetiva da emancipação humana.
A formulação de Lukács é extremamente significativa: “não há, portanto, nenhum utopismo” em prever que, numa transformação socialista da sociedade capitalista e numa passagem efetiva do socialismo autenticamente realizado ao comunismo, aqueles “motivos ideológicos antiquíssimos” presentes ao longo de toda a história humana — essa “nostalgia humana de uma generidade autêntica” — desempenharão papel decisivo na formação ideológica do fator subjetivo.
O primeiro aspecto decisivo dessa formulação é a recusa explícita do utopismo.
Ao afirmar Es ist also keinerlei Utopismus..., Lukács procura afastar qualquer interpretação idealista, moralizante ou abstratamente romântica da Sehnsucht. O anseio humano por uma generidade autêntica não é concebido como fantasia impossível ou sonho metafísico desligado da realidade histórica. Pelo contrário, ele nasce das próprias contradições objetivas do ser social.
Em muitas tradições filosóficas e literárias alemãs, Sehnsucht possui frequentemente um sentido romântico: desejo infinito, nostalgia metafísica, aspiração ao inalcançável. Lukács, porém, historiciza radicalmente o conceito.
A Sehnsucht deixa de ser desejo abstrato do impossível e passa a designar a forma subjetiva pela qual os seres humanos experimentam a insuficiência histórica da sociabilidade estranhada.
O conteúdo dessa Sehnsucht é definido como menschliche Sehnsucht nach echter Gattungsmäßigkeit — “o anseio humano por uma autêntica generidade”.
O conceito de Gattungsmäßigkeit é aqui absolutamente central.
Não se trata simplesmente de solidariedade moral ou convivência harmoniosa em sentido sentimental. Lukács refere-se a uma forma histórica de sociabilidade em que os indivíduos possam finalmente realizar-se enquanto seres genéricos, isto é, enquanto participantes conscientes de uma humanidade reconciliada consigo mesma.
A generidade autêntica designa uma condição histórica na qual as objetivações sociais — o trabalho, a política, a cultura e a vida cotidiana — deixem de aparecer como forças estranhas, autonomizadas e hostis diante dos indivíduos. Em vez disso, a reprodução da vida social passaria a coincidir com o desenvolvimento universal das capacidades humanas.
É precisamente nesse ponto que a Sehnsucht deixa definitivamente de ser fenômeno psicológico secundário ou simples compensação imaginária. Ela torna-se mediação essencial entre objetividade histórica e subjetividade revolucionária.
Lukács atribui-lhe papel decisivo na constituição do “fator subjetivo” [subjektiver Faktor] da transformação socialista. Esse aspecto possui enorme importância teórica, porque Lukács sabe que nenhuma passagem ao comunismo pode realizar-se apenas por automatismo econômico ou desenvolvimento mecânico das forças produtivas.
A emancipação humana exige formação histórica da subjetividade: consciência, vontade coletiva, imaginação política, motivação ética e disposição prática para transformar radicalmente o mundo social.
É precisamente aí que a Sehnsucht desempenha sua função histórica decisiva. Ela funciona como energia histórico-afetiva da emancipação.
O anseio por uma vida não estranhada preserva, no interior da própria sociedade capitalista, a possibilidade subjetiva de sua superação. Mesmo sob formas ideológicas deformadas, essa Sehnsucht mantém viva a experiência da não-coincidência entre a humanidade realmente existente e a humanidade possível.
Por isso, Lukács afirma que esses “motivos ideológicos antiquíssimos” estiveram presentes “em cima” e “embaixo” [oben wie unten] durante todo o desenvolvimento histórico.
A formulação é profundamente dialética. O desejo de uma humanidade reconciliada atravessa épocas, classes sociais e formações históricas, ainda que sob formas ideológicas distintas e frequentemente contraditórias. Religião, arte, filosofia, utopias sociais, movimentos populares e rebeliões históricas podem conter, de maneira parcial ou deformada, essa Sehnsucht pela generidade autêntica. Mesmo quando assume formas regressivas ou ilusórias, permanece nela um núcleo de verdade: a percepção de que a vida existente é insuficiente, contraditória e desumanizadora.
Entretanto, Lukács introduz aqui uma mudança qualitativa em relação às ocorrências anteriores do conceito.
Na religião, a Sehnsucht aparecia frequentemente desviada para a transcendência; na nostalgia mítica, convertia-se em regressão irracional; na crítica da manipulação, surgia como imaginação democrática ainda presa a imagens do passado. Agora, porém, ela emerge explicitamente como possibilidade histórica efetiva.
A Sehnsucht já não é apenas reação subjetiva ao estranhamento, nem mera compensação ideológica das carências humanas. Ela converte-se em elemento constitutivo da práxis emancipatória.
Nesse sentido, Lukács realiza um movimento teórico extremamente importante: ele reumaniza o marxismo. Contra as formas economicistas e mecanicistas do chamado “marxismo vulgar”, devolve à subjetividade, ao desejo, ao afeto e à imaginação histórica um papel central na práxis revolucionária.
A Sehnsucht torna-se aquilo que poderíamos chamar de “bússola interna da emancipação”. Ela exprime a tensão entre aquilo que os indivíduos são sob o capitalismo — seres fragmentados, reduzidos a funções, mercadorias e papéis sociais — e aquilo que poderiam tornar-se enquanto seres genéricos livres e universais.
Por isso, a Sehnsucht funciona como mediação entre sofrimento histórico e ação coletiva consciente. Ela transforma mal-estar difuso em negatividade histórica ativa.
O indivíduo deixa de experimentar o estranhamento apenas como sofrimento privado e passa a percebê-lo como problema histórico-social transformável.
A nostalgia de uma vida autenticamente humana converte-se, assim, em energia subjetiva da práxis revolucionária.
A formulação de Lukács possui ainda outra implicação decisiva.
A transição ao comunismo não significa eliminação da subjetividade, da imaginação ou da dimensão afetiva da existência humana. Pelo contrário, exige precisamente sua reorganização histórica consciente. A Sehnsucht deixa de operar como fuga compensatória e converte-se em mediação consciente entre presente e futuro histórico.
O comunismo não aparece como simples rearranjo técnico da economia, mas como possibilidade histórica inscrita nas próprias tendências profundas da humanidade socializada.
Nesse sentido, a Sehnsucht é a prova subjetiva de uma possibilidade objetiva.
Ela exprime o fato de que o ser humano jamais coincide plenamente com as formas sociais alienadas que o aprisionam. Enquanto existir Sehnsucht, permanece viva a negatividade histórica que impulsiona a humanidade para além do estranhamento.
Em sua determinação última, o conceito designa a forma afetivo-ontológica pela qual a humanidade histórica experimenta e preserva, mesmo sob condições adversas, a exigência de uma generidade reconciliada — exigência que, no processo revolucionário, pode converter-se em força consciente da emancipação humana.
Ocorrência 4
Diz Lukács: “Através disso adentra o dualismo ontológico que caracteriza a maioria das religiões, antes de tudo o cristianismo, na vida europeia: de um lado, o mundo dos seres humanos, do qual se elevam as necessidades religiosas, o desejo ardente por sua realizabilidade; do outro lado, um mundo transcendente cujas qualidades ontológicas são chamadas a fornecer as perspectivas e garantias de sua realizabilidade. Não pode ser nossa tarefa aqui delinear, mesmo que esquematicamente, o desenvolvimento da filosofia grega. Importante é que essa estrutura dualista — em que pesem as, de longo alcance, diferenças e oposições de princípio —, essa função da ontologia nela se manteve até o fim. Assim, com os estoicos, assim — com uma muito mais decisiva e crescente religiosidade filosoficamente formulada — com os neoplatônicos, com Plotino e ainda mais, Proclos”. [p. 333]
No original: Dadurch tritt der ontologische Dualismus, der die meisten Religionen, vor allem das Christentum charakterisiert, ins europäische Leben ein: auf der einen Seite die Welt der Menschen, aus der die religiösen Bedürfnisse, die Sehnsucht nach ihrer Erfüllbarkeit emporsteigen, auf der anderen Seite eine transzendente Welt, deren ontologischen Beschaffenheit Perspektiven und Garantien ihrer Erfüllbarkeit zu geben berufen ist. Es kann hier nicht unsere Aufgabe sein, die Entwicklung der griechischen Philosophie auch nur skizzenhaft zu entwerfen. Wichtig ist, daß — bei allen prinzipiell sehr weit reichenden Unterschieden und Gegensätzen — diese dualistische Struktur, diese Funktion der Ontologie in ihr bis ans Ende erhalten bleibt. So bei den Stoikern, so — weit entschiedener in eine philosophisch formulierte Religiosität hinüberwachsend — bei den Neuplatonikern, bei Plotin und noch mehr bei Proklos.
Nesta passagem dos “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social” – onde temos a última ocorrência do termo Sehnsucht - , György Lukács realiza uma das análises mais densas de sua reflexão tardia sobre a relação entre Sehnsucht, transcendência religiosa e dualismo ontológico. O conceito aparece aqui inserido diretamente na gênese histórico-filosófica das religiões — sobretudo do cristianismo — permitindo a Lukács sintetizar criticamente temas centrais de sua ontologia do ser social: estranhamento, ideologia, transcendência, generidade humana e práxis histórica.
O ponto de partida da análise é a constituição de uma cisão fundamental entre dois mundos.
De um lado, encontra-se o mundo efetivo dos seres humanos, marcado pela precariedade, sofrimento, carência, limitação e estranhamento. É precisamente desse mundo que emergem as necessidades religiosas e aquilo que Lukács denomina Sehnsucht.
Do outro lado, constitui-se um mundo transcendente, concebido como esfera superior do ser, ao qual se atribui a função de garantir a realização daquilo que a vida histórica concreta não consegue satisfazer.
A importância da passagem reside no fato de Lukács articular diretamente a Sehnsucht às “necessidades religiosas” [religiöse Bedürfnisse]. Isso significa que a religião não nasce simplesmente da ignorância ou da manipulação ideológica consciente, mas de necessidades humanas reais.
A Sehnsucht exprime uma experiência histórica efetiva: a experiência da incompletude da existência humana sob condições de estranhamento social.
Embora a tradução utilize a expressão “desejo ardente”, o termo alemão conserva toda sua densidade conceitual. Não se trata de mero desejo psicológico individual, mas de um anseio historicamente produzido, que emerge das contradições objetivas da vida humana alienada.
A Sehnsucht é a forma subjetiva pela qual os indivíduos experimentam a não-coincidência entre sua existência efetiva e as possibilidades mais profundas da generidade humana.
Temos, então, uma estrutura ontológica decisiva: existe um mundo humano efetivo marcado pelo estranhamento; nesse mundo surgem necessidades de sentido, plenitude e reconciliação; essas necessidades assumem subjetivamente a forma de Sehnsucht; e a religião projeta a realização dessa tensão para um mundo transcendente. O dualismo ontológico torna-se, assim, a forma ideológica dessa cisão real.
Lukács realiza aqui algo semelhante a uma autópsia histórico-filosófica da tradição metafísica ocidental. Ele procura demonstrar como as grandes religiões e sistemas idealistas capturaram os anseios humanos reais e os deslocaram para além da história concreta. O anseio humano por uma vida reconciliada deixa de aparecer como tarefa prática de transformação do mundo e converte-se em expectativa de salvação transcendente. A transcendência religiosa funciona, portanto, como uma espécie de “ontologia de substituição”: diante da incapacidade histórica de realizar concretamente uma vida humana plena, a consciência projeta para um além metafísico a garantia imaginária dessa realização. Deus, o Céu, o Uno neoplatônico ou o Espírito absoluto tornam-se figuras transcendentes da reconciliação impossível no interior do mundo histórico efetivo.
Entretanto, Lukács insiste num ponto decisivo: a Sehnsucht religiosa possui um núcleo humano verdadeiro. Esse aspecto é central para compreender sua crítica madura da religião.
O problema da transcendência não reside no fato de que ela exprime necessidades falsas, mas no modo historicamente deformado como necessidades humanas reais são mediadas ideologicamente. A religião aparece, assim, como formação contraditória.
Por um lado, conserva viva a exigência humana de sentido, plenitude e reconciliação; por outro, desloca sua realização para fora da história, neutralizando sua potencialidade prática transformadora.
A Sehnsucht religiosa contém simultaneamente um momento crítico e um momento conservador.
Esse aspecto diferencia profundamente a posição de Lukács das formas simplificadas de crítica iluminista da religião. A transcendência é ideológica, mas a carência que a produz é ontologicamente verdadeira.
A religião é ilusória enquanto solução, mas não enquanto sintoma. Ela exprime efetivamente a insuficiência histórica do mundo estranhado diante das potencialidades da generidade humana.
A referência aos estoicos, aos neoplatônicos, a Plotino e Proclo amplia historicamente a análise. Apesar das diferenças doutrinárias entre essas correntes, todas mantêm a mesma estrutura dualista fundamental: o mundo empírico aparece como esfera insuficiente e degradada, enquanto a verdadeira realização humana é deslocada para um plano superior do ser. Lukács sugere, assim, uma linha de continuidade entre a filosofia grega tardia e o cristianismo. O dualismo entre corpo e alma, terra e céu, sensível e transcendência vai se consolidando progressivamente como estrutura dominante da vida espiritual europeia.
Nesse contexto, a Sehnsucht torna-se o motor afetivo dessa arquitetura ontológica dualista. Ela fornece a energia subjetiva que sustenta a separação entre o mundo sensível e a transcendência.
Contudo, o conceito conserva sua determinação histórico-social fundamental – como temos salientado nas postagens: a Sehnsucht continua sendo forma subjetiva da não-coincidência entre humanidade existente e humanidade possível. O que muda é a forma ideológica de sua mediação.
É precisamente aí que emerge o núcleo mais profundo da análise lukacsiana. A história da metafísica e da religião aparece, em certo sentido, como história da expropriação da Sehnsucht. O ser humano foi historicamente levado a desejar aquilo que só poderia realizar-se fora do mundo, em vez de lutar pela transformação prática das condições sociais que tornam necessária a transcendência.
O anseio por plenitude não desaparece, mas sua energia prática é desviada para o céu, para a salvação da alma ou para a contemplação metafísica. O que poderia converter-se em força de transformação histórica torna-se resignação transcendental.
Por isso, a crítica lukacsiana não consiste simplesmente em negar a transcendência, mas em recolocar historicamente aquilo que ela sequestrou.
O materialismo ontológico deve realizar o movimento inverso ao da religião e do idealismo: devolver ao mundo histórico concreto os conteúdos humanos projetados para o além.
A “generidade autêntica” não pode permanecer promessa transcendente garantida por Deus ou pelo Espírito absoluto; ela deve converter-se em tarefa histórica imanente, construída pela práxis social consciente.
Em sua determinação mais profunda, a Sehnsucht aparece, assim, como a forma afetivo-ontológica pela qual a humanidade histórica experimenta sua própria insuficiência diante de suas possibilidades genéricas. Ela pode ser capturada pela transcendência, pela regressão mítica ou pela reificação; mas também pode recuperar sua base terrestre e orientar-se para a práxis emancipatória. É precisamente essa ambivalência histórica que faz do conceito um dos núcleos mais ricos e complexos da reflexão tardia de Lukács.
À Título de Conclusão
A análise das ocorrências do termo Sehnsucht na Ontologia do Ser Social e nos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social, de György Lukács, permitiu-nos apreender a extraordinária riqueza histórico-dialética e ontológica desse conceito no interior da reflexão tardia lukacsiana.
Longe de constituir uma simples categoria psicológica, sentimental ou romântica, Sehnsucht aparece em Lukács como forma fenomenológica da negatividade inscrita no próprio ser social histórico. Ela exprime a não-coincidência entre a vida humana efetivamente existente e as potencialidades ainda não realizadas da generidade humana [Gattungsmäßigkeit]. Seu núcleo mais profundo emerge da experiência objetiva do estranhamento [Entfremdung]: sofrimento social, perda de sentido, manipulação, alienação, coisificação da vida e impossibilidade de realização plena da individualidade.
Nesse sentido, a Sehnsucht revela-se como índice afetivo da incompletude histórica da humanidade. Ela nasce precisamente ali onde o ser humano experimenta a insuficiência do mundo existente diante de suas próprias possibilidades genéricas. Por isso, mesmo em suas formas ideológicas mais deformadas, a Sehnsucht nunca é mera ilusão arbitrária: ela conserva sempre um núcleo antropológico-social verdadeiro, exprimindo necessidades humanas reais historicamente produzidas.
Entretanto — e aqui reside a profundidade dialética da análise lukacsiana —, a Sehnsucht possui um caráter profundamente ambivalente. Sua direção depende inteiramente das mediações históricas, sociais e ideológicas nas quais se insere. Ela pode orientar-se tanto para formas regressivas quanto para possibilidades emancipatórias.
Nas condições do capitalismo manipulatório do século XXI — marcado pelo hiperfetichismo, pela financeirização, pela produção industrial da subjetividade, pela manipulação algorítmica das consciências e pela expansão extrema da coisificação da vida —, a problemática da Sehnsucht torna-se ainda mais decisiva. O capitalismo tardio produz não apenas exploração econômica, mas uma profunda colonização afetiva e imaginária da subjetividade. O estranhamento deixa de aparecer apenas como alienação no trabalho e torna-se metabolismo social total: captura dos desejos, da memória, da linguagem, da temporalidade e das formas de experiência.
Nessas condições, a Sehnsucht torna-se um campo estratégico de disputa histórica.
Ela pode ser capturada regressivamente pelas nostalgias identitárias, pelos mitos políticos reacionários, pelas fantasias de segurança autoritária e pelas formas contemporâneas de irracionalismo coletivo. Pode ser absorvida pela indústria cultural como consumo infinito de simulacros compensatórios. Pode ainda degenerar em privatização absoluta da existência, em fuga narcísica ou em adaptação conformista à manipulação generalizada.
Mas ela pode também preservar — precisamente em meio ao hiperfetichismo — o núcleo irredutível da negatividade humana. A Sehnsucht pode manter viva a percepção de que a vida humana não se reduz à lógica da mercadoria, do desempenho, da manipulação e da administração tecnocrática do mundo.
Nesse sentido, a reflexão de Lukács permite recuperar a riqueza histórica da própria categoria de práxis.
A práxis emancipatória não nasce apenas de interesses econômicos imediatos, mas também de necessidades de sentido, reconhecimento, plenitude e generidade humana. A Sehnsucht aparece então como mediação afetivo-histórica entre sofrimento social e imaginação emancipatória. Ela funciona como “bússola ontológica” da humanidade estranhada: mantém aberta a distância entre o ser e o possível, entre a vida existente e a vida ainda não realizada.
Por isso, a Sehnsucht não é, em Lukács, mera nostalgia metafísica. Ela é expressão viva da historicidade inacabada do ser social. Sua verdade não reside em imagens fixas de plenitude, mas na própria tensão que impele os seres humanos para além do existente.
Nas condições históricas do século XXI, recuperar criticamente essa dimensão da Sehnsucht significa recolocar o problema da emancipação humana para além da adaptação ao capital. Significa restituir à práxis sua dimensão ontológica profunda: não apenas gestão racional do existente, mas abertura histórica para formas superiores de generidade humana.
Em última instância, a reflexão lukacsiana sobre Sehnsucht revela que, mesmo nas condições extremas de manipulação, reificação e estranhamento contemporâneos, permanece inextirpável no interior da humanidade histórica o anseio por uma vida não reduzida à lógica do capital — o anseio por uma sociabilidade verdadeiramente humana, capaz de reconciliar individualidade, liberdade, comunidade e sentido histórico.
FIM



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