Os Titãs do Capital - Parte 5

Existiu alguma relação entre Jeffrey Epstein[1] e gestoras de ativos financeiros como BlackRock e Vanguard ?
Epstein era conhecido pela capacidade de intermediação e construção de influência. De imediato, as fontes consultadas não permitem estabelecer uma relação direta com ambas, de modo que esse vínculo permanece como questão de investigação.
A resposta exige distinguir vínculos pessoais, negócios efetivamente documentados e conexões indiretas entre instituições.
Entretanto, essa investigação, abre uma questão mais ampla – e importante – para entendermos o mundo social dos Titãs do Capital: qual é o papel das relações pessoais com a alta cúpula do poder na reprodução do capital financeiro?
Nossa hipótese interpretativa é que Epstein pode ser compreendido como uma figura particular das formas de personificação do capital na esfera financeira: um intermediário cuja capacidade de cultivar relações com pessoas influentes constituía um recurso fundamental de sua atuação[2]. Sua posição nesse universo deve ser examinada levando em conta a articulação entre dinheiro, acesso e prestígio. Apresentar pessoas, aproximar interesses e circular em ambientes restritos são capacidades que podem ser convertidas em oportunidades de negócios, remuneração e influência.
No universo do capital fictício, em que direitos sobre rendimentos futuros são negociados e capitalizados no presente, a desenvoltura social de suas personas pode adquirir importância econômica decisiva. Uma apresentação pode abrir caminho para um negócio; uma relação de confiança pode favorecer a administração de uma fortuna; a proximidade com centros de decisão pode oferecer acesso privilegiado a informações e oportunidades. A teia de relações funciona, nesse sentido, como um ativo imaterial: um recurso acumulado, cultivado e mobilizado em benefício de interesses econômicos. Embora não seja, por si mesma, um título financeiro ou capital fictício, ela pode favorecer sua circulação, administração e expansão.
Epstein cultivou contatos em diferentes círculos de poder e prestígio, que incluíam figuras como Donald Trump, Andrew — então príncipe britânico — e o intelectual Noam Chomsky. Esses contatos tiveram naturezas e graus de proximidade distintos; sua existência não estabelece, por si só, participação nos crimes de Epstein. Para nossa análise, interessa compreender como a circulação entre ambientes políticos, empresariais, aristocráticos e acadêmicos podia ampliar seu acesso e sua credibilidade social.
É nessa perspectiva que propomos examinar sua trajetória: como um caso em que a construção de relações se tornou parte das condições de exercício do poder econômico. A proximidade com pessoas prestigiadas pode facilitar novas aproximações, e cada acesso conquistado pode aumentar a capacidade de intermediação.
No capitalismo quântico – o capitalismo da etapa superior da crise estrutural do capital, a aparente impessoalidade dos mercados convive com redes muito concretas de reconhecimento, confiança e influência. Os ativos financeiros circulam por instituições; as oportunidades de comandá-los também passam pelas relações entre suas personas.
1. Entendendo o caso Jeffrey Epstein
O caso Jeffrey Epstein é um escândalo de abuso sexual, tráfico de pessoas e exploração de menores que envolveu uma rede global operada pelo financista americano Jeffrey Epstein, ganhando novas proporções com a divulgação de milhões de documentos oficiais, conhecidos como "Epstein Files", que revelaram a magnitude do esquema e as conexões de Epstein com figuras poderosas da política, das finanças e da realeza.
Epstein, um financista com ligações com a elite mundial, foi acusado de operar um esquema de recrutamento e exploração sexual de dezenas de meninas menores de idade e mulheres jovens, muitas delas em situações vulneráveis, e o caso veio à tona em 2019, quando ele foi preso e aguardava julgamento por acusações federais de tráfico sexual, mas foi encontrado morto em sua cela na prisão em agosto daquele ano, em um suicídio oficialmente declarado que, no entanto, gerou inúmeras teorias da conspiração.
Sua parceira de longa data, Ghislaine Maxwell, foi considerada cúmplice e condenada em 2021 por tráfico sexual e outros crimes, recebendo uma sentença de 20 anos de prisão. Em 2025, o governo dos EUA sancionou a Lei de Transparência dos Arquivos de Epstein, que resultou na divulgação de mais de 3,5 milhões de páginas de documentos, 2.000 vídeos e 180.000 imagens a partir de janeiro de 2026, com o material, ainda com muitos trechos censurados para proteger a identidade das vítimas, incluindo transcrições de júri, relatórios de investigação, e-mails e outros registros.
A análise desses documentos revelou contatos e relacionamentos de Epstein com diversas pessoas proeminentes, o que gerou pedidos de investigação e escrutínio público, mencionando e mostrando trocas de e-mails com membros da realeza britânica, como o Príncipe Andrew, e com políticos americanos e britânicos, além de levar o congressista americano Thomas Massie a divulgar publicamente uma lista de nomes de alegados co-conspiradores que deveriam ser investigados, incluindo o Príncipe Andrew, o ex-presidente da JP Morgan Jes Staley e o bilionário Leon Black.
Investigações foram abertas em países como França e Reino Unido para apurar possíveis crimes cometidos em seus territórios e o envolvimento de seus cidadãos, com a polícia britânica, por exemplo, revisando documentos sobre voos particulares ligados a Epstein que passaram por aeroportos do país.
A divulgação dos arquivos também alimentou teorias da conspiração, como a de que Epstein era um agente de inteligência (Mossad ou CIA) ou que sua morte foi um assassinato para proteger pessoas influentes, e embora o vice-presidente dos EUA, JD Vance, tenha mencionado a conexão com a inteligência israelense em uma entrevista, os documentos divulgados não apresentam provas conclusivas que sustentem essas alegações, com a falta de respostas definitivas e a desconfiança pública em instituições fazendo com que essas teorias persistam.
A dimensão e a gravidade das acusações levaram especialistas independentes da ONU a afirmarem que os atos descritos podem configurar crimes contra a humanidade, exigindo investigações "independentes, completas e imparciais", enquanto os especialistas da ONU e organizações de defesa dos direitos humanos enfatizam que a renúncia de pessoas mencionadas nos arquivos não é um substituto para a responsabilização criminal e que "ninguém é rico ou poderoso demais para estar acima da lei".
Apesar do grande volume de documentos liberados, muitos acreditam que a divulgação foi insuficiente, e o Congresso americano e grupos de sobreviventes criticam o Departamento de Justiça por reter informações e por falhas no processo, como a exposição involuntária de dados sensíveis de vítimas, enquanto a liberação da carta de suicídio atribuída a Epstein, que foi mantida em sigilo por anos, só aumentou a especulação e o debate público sobre os acontecimentos.
No fim, o caso Jeffrey Epstein expõe um sistema de abuso sexual que operou por décadas com a aparente conivência ou negligência de instituições poderosas, deixando um rastro de vítimas e uma demanda por justiça que continua a ecoar.
2. Rastreando Jeffrey Epstein e a BlackRock
A questão sobre uma possível relação entre a BlackRock e Jeffrey Epstein é complexa, pois envolve não uma conexão corporativa direta e institucional, mas sim uma rede de contatos que permeia a elite financeira global, da qual a BlackRock é um dos pilares centrais. Como dissemos, até o momento, não existem evidências públicas de que a BlackRock, como entidade jurídica, tenha mantido negócios diretos com Epstein ou que este tenha sido cliente da gestora. No entanto, a relação BlackRock e Epstein é frequentemente discutida sob três perspectivas principais:
1. Conexões de Indivíduos e o Fórum Econômico Mundial (WEF)
A conexão mais citada ocorre em espaços de governança global. Recentemente, em fevereiro de 2026, o Fórum Econômico Mundial (WEF) iniciou uma investigação sobre o seu então CEO, Børge Brende, devido a encontros com Epstein revelados em documentos do Departamento de Justiça dos EUA. Durante esse processo de investigação, Larry Fink, o CEO da BlackRock, foi nomeado como um dos co-presidentes interinos do conselho do WEF. Embora isso coloque Fink em uma posição de liderança para lidar com as "sobras" do escândalo no WEF, não indica uma cumplicidade pessoal com Epstein, mas sublinha a proximidade desses atores nos mesmos círculos de poder.
2. A Conexão Leon Black e Apollo Global Management
Um ponto de confusão comum para o público é a figura de Leon Black, cofundador da Apollo Global Management (uma gigante do private equity, frequentemente comparada à BlackRock pela escala e influência). Leon Black teve uma relação financeira e pessoal profunda e documentada com Epstein, chegando a pagar-lhe cerca de 170 milhões de dólares por serviços de consultoria tributária e planejamento sucessório até 2017. As investigações indicam que Epstein inclusive ajudou Black a lidar com disputas envolvendo pagamentos a mulheres com quem o executivo teve relações. Devido à similaridade dos nomes e do setor de atuação, muitas vezes essas informações são erroneamente atribuídas à BlackRock ou a Larry Fink.
3. Participações Acionárias em Instituições Envolvidas
Como a BlackRock é a maior gestora de ativos do mundo, ela detém participações significativas em quase todas as grandes instituições financeiras que estiveram sob escrutínio por seus laços com Epstein.
O caso mais emblemático é o do JPMorgan Chase, que processou mais de 1 bilhão de dólares para Epstein ao longo de 15 anos. A BlackRock é uma das maiores acionistas do JPMorgan, mas essa é uma relação de investimento passivo (via fundos de índice como o iShares) e não uma gestão operacional ou cumplicidade nos serviços bancários prestados ao criminoso.
Aparentemente, não há prova de uma "parceria" BlackRock-Epstein. O que existe é a onipresença da BlackRock no sistema financeiro onde Epstein circulava, e a coincidência de lideranças (como Larry Fink) assumindo o controle de organizações (como o WEF) que foram abaladas pelas revelações sobre o agenciador.
4. O “mago” das Finanças
Para além das manchetes sensacionalistas, a reputação de Jeffrey Epstein como um "gênio das finanças" não advinha de uma performance de mercado superior — como a de um Warren Buffett ou de um Jim Simons — mas sim de uma capacidade quase sem precedentes de atuar como um engenheiro social e fiscal dentro das zonas cinzentas do capital global.
Sua "genialidade" residia na compreensão de que, no topo da pirâmide de riqueza, a liquidez financeira é menos importante do que a imunidade tributária e a arquitetura de ativos. Vejamos os pilares técnicos que sustentaram essa percepção entre a elite de Wall Street:
1. A Maestria do Planejamento Sucessório e o "GRAT"
Epstein tornou-se indispensável para figuras como Leon Black e Leslie Wexner por dominar ferramentas obscuras do código tributário americano, especialmente o GRAT (Grantor Retained Annuity Trust). Trata-se de um instrumento financeiro que permite transferir ativos que se valorizam rapidamente para herdeiros sem pagar praticamente nenhum imposto sobre doações ou heranças. Sua habilidade consistia em estruturar esses fundos em jurisdições de baixa tributação (como as Ilhas Virgens Americanas), criando uma barreira legal que tornava a fortuna de seus clientes virtualmente invisível ao fisco e a credores.
2. Arbitragem de Prestígio e o "Hedge Fund" de Relacionamentos
Epstein operava o que analistas chamam de arbitragem de rede. Ele percebeu que bilionários muitas vezes sofrem de um isolamento intelectual. Ao financiar cientistas de renome e organizar conferências exclusivas, ele "empacotava" o acesso a essas mentes brilhantes e o vendia a seus clientes financeiros.
Para um bilionário, o conselho de Epstein não era apenas sobre onde investir, mas sobre com quem jantar. Esse “capital relacional” era convertido em taxas de gestão astronômicas. Ele funcionava como um nó central em uma rede de pequena escala, onde a informação privilegiada fluía antes de chegar aos terminais da Bloomberg.
3. A Fachada do "Single Family Office"
Diferente da BlackRock, que gere trilhões de diversos investidores, Epstein promovia-se como gestor de um Single Family Office (SFO). No mundo das finanças, o SFO é o ápice do prestígio porque é privado, não exige registro detalhado na SEC (Securities and Exchange Commission) e lida com estratégias de preservação de riqueza de longo prazo, não apenas lucro trimestral.
Ele cultivava a mística do "investidor solitário" que não precisava de marketing porque seu trabalho falava por si nos círculos fechados. Essa aura de exclusividade extrema criava um efeito de vies cognitivo (o "Efeito Halo"): se ele era íntimo de prêmios Nobel e chefes de estado, sua competência financeira era assumida como absoluta, mesmo que ninguém visse seus balanços.
4. O Uso de Derivativos e Opções de Maneira Opaca
Embora os registros de suas negociações reais sejam escassos, sabe-se que ele utilizava derivativos complexos para proteger grandes blocos de ações de seus clientes contra a volatilidade, permitindo que eles mantivessem o controle de suas empresas enquanto extraíam liquidez. Essa sofisticação técnica, embora comum em bancos de investimento, era apresentada por ele como uma "fórmula secreta".
Em suma, Jeffrey Epstein foi reconhecido como um "gênio" não por criar valor, mas por ser um exímio gestor da percepção e da opacidade. Ele entendia as inseguranças e as necessidades fiscais da classe ultra-rica e oferecia soluções que os bancos tradicionais, por estarem sob regulação estrita, não podiam ou não queriam oferecer de forma tão personalizada e sombria.
A tese de que a conversão de "acesso" em "ativos" constitui a dinâmica elementar do poder econômico contemporâneo sintetiza a passagem histórica do capitalismo industrial, centrado na produção e na circulação de mercadorias físicas, para uma formação sociotécnica dominada pela financeirização e pelo extrativismo de rendas. Nesse arranjo, o poder não emana primordialmente da posse direta de fábricas ou da exploração imediata do trabalho fabril em sentido clássico, mas da capacidade infraestrutural e jurídica de cercar fluxos existenciais, informacionais e relacionais, transformando a mera permissão de trânsito ou fruição em um direito perpétuo de extração de valor.
O conceito de “ativização” [assetization], formulado de maneira rigorosa na sociologia econômica contemporânea, designa precisamente o processo pelo qual coisas, relações, direitos ou utilidades que antes não operavam como propriedade geradora de rendimento são remodelados institucionalmente para funcionar como ativos financeiros negociáveis e geradores de fluxos de caixa futuros [cash flows][3].
Epstein contribuiu para a criação da arquitetura de veículos de investimento e à manipulação de estruturas de capital para inflar ou proteger o patrimônio — áreas onde ele era operante — a resposta reside na forma como ele utilizava e sofisticava certos instrumentos[4].
Embora não tenha inventado o conceito de "participação acionária", Epstein foi um dos pioneiros na utilização radical de Special Purpose Vehicles (SPVs) e entidades offshore para gerir o que, na prática, eram participações privadas em empresas públicas (como a L Brands de Les Wexner). Epstein era mestre em manipular os componentes que determinam o valor de uma ação e o controle sobre ela.
Epstein utilizava o que se chama de Complex Equity Derivatives (Derivativos de Equidade Complexos) para permitir que seus clientes monetizassem suas participações sem precisar vender as ações diretamente, o que evita a queda do preço da ação no mercado e a consequente redução do Lucro por Ação (EPS) reportado[5].
A "genialidade" atribuída a ele estava na Engenharia Financeira. Enquanto analistas tradicionais olhavam para o EPS como um dado estático de performance, Epstein olhava para a estrutura de capital como algo maleável. Ele utilizava técnicas de Arbitragem Fiscal que, embora não alterassem o lucro operacional da empresa, aumentavam o lucro líquido disponível para o acionista ao reduzir drasticamente a carga tributária. Epstein personificava essa separação: ele geria a "função" e a "aparência" da riqueza sem necessariamente ser o dono do capital produtivo.
É comum haver confusão entre o indicador financeiro EPS e os modelos de Employee Participation Schemes ou Equity Participation Shares. Epstein era frequentemente consultado sobre como estruturar a remuneração de executivos de alto escalão (como no caso da Victoria's Secret) utilizando opções de ações e esquemas de participação que minimizassem o impacto fiscal imediato.
Ele atuava na fronteira entre o que é legal e o que é meramente "não regulamentado", criando redes de empresas de fachada que detinham essas participações. Isso permitia que o lucro real fosse desviado para paraísos fiscais antes de ser contabilizado nas métricas oficiais de ganhos da empresa-mãe.
Embora a cultura popular e certas teorias de bastidores às vezes tentem atribuir a Jeffrey Epstein a "invenção" dos ETFs (Exchange-Traded Funds), a realidade histórica é tecnicamente distinta, mas revela por que o nome dele ficou gravado nos círculos que viriam a dominar esse mercado[6]. Jeffrey Epstein não inventou os ETFs, mas ele estava "na sala" e mantinha relações profundas com as figuras que os criaram e com a instituição que os popularizou: a BlackRock. Aqui está a análise técnica e histórica dessa conexão:
Os ETFs, especificamente o primeiro grande sucesso, o SPDR (conhecido como "Spider", que rastreia o S&P 500), foram lançados em 1993. Os créditos intelectuais e técnicos pela criação pertencem a Nathan Most e Steven Bloom, da American Stock Exchange (AMEX). Mas Epstein, na década de 1980 e início de 1990, já circulava agressivamente entre os executivos da AMEX e de grandes bancos de investimento. A sua "participação" não foi na linha de código ou na petição regulatória junto à SEC, mas sim como um catalisador de capital. Ele era um dos poucos que compreendia precocemente o potencial de transformar índices estáticos em ativos negociáveis em tempo real — algo que hoje é o coração da BlackRock.
A BlackRock nasceu em 1988, dentro do Grupo Blackstone, antes de se tornar independente. Larry Fink, o fundador da BlackRock, é frequentemente citado como o homem que viu nos ETFs o futuro das finanças globais. A relação de Epstein com esse círculo ocorria via Leon Black (Apollo) e outros fundadores da Blackstone. No final dos anos 80, Epstein era visto como um "prodígio" que ajudava a estruturar as bases tributárias para esses novos veículos de investimento coletivo. Ele não era o engenheiro do ETF, mas era o arquiteto fiscal que ajudava a desenhar como esses grandes fundos poderiam operar com o mínimo de fricção tributária.
Epstein foi um dos "evolucionistas" que ajudou a elite a transitar do modelo de ações individuais para o modelo de gestão de índices e derivativos.
Epstein prestava consultoria para os "donos" do mercado (como os fundadores da Apollo e figuras ligadas à Bear Stearns) sobre como esses novos produtos financeiros poderiam ser usados para proteger grandes fortunas. Ele foi um dos primeiros a investir pesadamente na ideia de que a gestão ativa (escolher ações) perderia para a gestão passiva (índices/ETFs), o que lhe rendeu uma aura de profeta financeiro. Como ele financiava pesquisas no MIT e em Harvard sobre modelos matemáticos de mercado, muitos acreditavam que ele fornecia os algoritmos que sustentavam os primeiros ETFs quantitativos[7].
Epstein foi, para os ETFs, o que um especulador visionário é para uma nova tecnologia: ele não construiu o motor, mas foi um dos primeiros a entender como usá-lo para transportar a elite financeira para uma nova era de opacidade e eficiência. Portanto, sua ligação com a BlackRock (via os fundos de índice da gestora) é puramente sistêmica — a BlackRock é hoje a maior operadora de ETFs do mundo (iShares), e Epstein foi um dos arquitetos sociais da classe que hoje detém esses ativos.
Como veremos adiante na abordagem psicanalítica sobre o “mago das finanças”, Epstein funcionava como uma espécie de Grande Outro para os bilionários, alguém que supostamente detinha o "saber" absoluto sobre as falhas do sistema.
5. Epstein e a Vanguard: A Geometria do Capital Passivo
Diferente da sua relação com a BlackRock (que é baseada em conexões pessoais com fundadores e executivos), a relação de Epstein com a Vanguard era estritamente funcional e estrutural.
A Vanguard, fundada por John Bogle, é a antítese do modelo de "clube fechado" de Epstein. Bogle criou a Vanguard sob uma estrutura de propriedade mútua (onde os donos do fundo são os próprios investidores), focada na redução drástica de custos e na democratização do acesso aos índices. Epstein, por outro lado, operava na exclusividade radical e na opacidade.
Não há registros de que Epstein tenha prestado consultoria para a Vanguard ou influenciado sua governança. Contudo, como gênio da arbitragem tributária, ele utilizava os fundos da Vanguard como "estacionamentos de liquidez" para seus clientes. Ele via nos fundos de índice da Vanguard o instrumento perfeito para a preservação de capital de longo prazo de bilionários como Leslie Wexner, permitindo que grandes fortunas fossem "indexadas" ao mercado sem a necessidade de gestão ativa que atraísse atenção regulatória.
O ALADDIN [Asset, Liability, Debt and Derivative Investment Network] é o "sistema nervoso central" da BlackRock, responsável por gerir o risco de mais de 21 trilhões de dólares em ativos globais. Epstein participou tecnicamente da criação do ALADDIN.
A arquitetura do ALADDIN foi desenvolvida por Larry Fink e uma equipe de especialistas em tecnologia (como Charles Hallac) no final da década de 80, inicialmente para analisar títulos lastreados em hipotecas (mortgage-backed securities)[8].
Onde reside a "genialidade" de Epstein nesse contexto?
Embora não tenha escrito o código, Epstein foi um dos primeiros grandes entusiastas e estrategistas do uso de modelos matemáticos complexos para a precificação de ativos e gestão de risco soberano. Ele circulava intensamente no MIT e em Harvard, financiando matemáticos e físicos que acabaram sendo contratados pela BlackRock para aperfeiçoar o ALADDIN.
Epstein operava como um consultor de lógica. Ele foi um dos arquitetos da transição do mercado de "sentimento" para o mercado de "dados". Ele compreendeu antes de muitos que o poder não estaria mais em quem tinha o dinheiro, mas em quem detinha a tecnologia de processamento do risco.
Larry Fink construiu a ferramenta (ALADDIN), mas Epstein era um dos principais teóricos da "classe proprietária" que validava a necessidade dessa ferramenta para a manutenção da hegemonia financeira.
5. A Síntese: O "Arquiteto do Ecossistema"
Epstein não era o inventor das ferramentas (ETFs, ALADDIN, Indexação), mas ele era o facilitador social e intelectual que permitia que essas ferramentas fossem aceitas e adotadas pela elite bilionária. Ele era o elo entre a academia (onde a teoria dos algoritmos nascia) e Wall Street (onde o capital esperava para ser automatizado)[9]. Epstein não assinou a planta do ALADDIN, mas ele foi um dos que pavimentou o terreno intelectual e político para que a BlackRock pudesse erguer esse edifício. Ele foi o "gênio" que entendeu que a informação e o processamento do risco seriam a nova forma de soberania.
6. Jeffrey Epstein e Daniel Vorcaro (Banco Master): a “devassidão” do capital fictício na era do capitalismo quântico
Podemos estabelecer uma aproximação - mutatis mutandis - entre Jeffrey Epstein e Daniel Vorcaro.
O ponto mais consistente da comparação é a conversão de riqueza financeira em acesso pessoal ao poder — e desse acesso em vantagens econômicas, prestígio e possíveis mecanismos de proteção.
A expressão “capital fictício expelindo sua podridão ontológica” tem força ensaística, mas precisa ser desenvolvida para que a crítica estrutural ultrapasse a denúncia moral.
No caso de Epstein, há evidências de que dinheiro e relações com instituições prestigiadas contribuíram para sua permanência em círculos influentes mesmo depois da condenação de 2008. O próprio relatório do MIT documentou a aceitação de suas doações após essa condenação e reconheceu graves erros de julgamento. Podemos interpretar essa circulação como uma tentativa de transformar riqueza em reconhecimento social, conferindo respeitabilidade a alguém cujo histórico deveria suscitar escrutínio. Isso não torna todos os seus interlocutores cúmplices de seus crimes.
No caso Master, a conexão entre finanças e poder apresenta uma dimensão particularmente concreta.
Segundo reportagem baseada em relatório produzido para o banco e entregue ao Banco Central, o Master possuía investimentos em direitos a possíveis indenizações da União, cuja realização dependia de decisões judiciais. A reportagem relaciona esses negócios às aproximações de Vorcaro com integrantes do Judiciário. Aqui, a decisão institucional pode modificar diretamente a possibilidade de recebimento e o preço de um direito financeiro. A existência de contatos, entretanto, não demonstra automaticamente favorecimento ilícito[10].
Além disso, a Operação “Compliance Zero” investiga suspeitas de carteiras de crédito sem lastro e negociação de títulos falsos. Em outra frente, a Polícia Federal informou que apura intimidação de jornalistas, obtenção indevida de informações sigilosas e possíveis interferências em investigações. São fatos sob investigação, cuja responsabilidade individual precisa ser estabelecida.
Tais fatos permitem examinar a hipótese de uma articulação entre operações financeiras, influência e tentativas de impedir o escrutínio público. Portanto, é deste modo que a comparação com Epstein se sustenta nesse plano; obviamente, ela não autoriza atribuir a Vorcaro os crimes sexuais do financista norte-americano.
A partir daí, temos a tese de que as relações pessoais constituem recursos de poder que podem atuar sobre as condições de realização dos ganhos financeiros. Quando um ativo depende de pagamentos futuros, reconhecimento jurídico ou decisões administrativas, o acesso aos centros de decisão pode adquirir enorme utilidade econômica.
A rede de relações complementa o patrimônio financeiro: abre portas, aproxima interesses e pode facilitar a preservação de posições ameaçadas.
É claro que não podemos considerar o capital fictício como capital fraudulento. Em Marx, a categoria envolve a capitalização de rendimentos esperados e a circulação de títulos cujos preços possuem movimentos relativamente autônomos em relação ao capital que representam. Um título perfeitamente legal pode constituir capital fictício; um título falsificado acrescenta a fraude a esse universo. Confundir as duas coisas – fictício e fraudulento - faria o problema parecer restrito aos operadores criminosos – o que não é o caso.
Mas esses escândalos – Jeffrey Epstein e Daniel Vorcaro - tornam visíveis formas de dominação favorecidas pela concentração da riqueza financeira e pela possibilidade de converter dinheiro em influência institucional.
É na era do capitalismo quântico que a dominância do capital fictício – que opera como antivalor – abre espaços para a fraude e transforma pessoas e instituições em meios privados de acumulação, proteção e impunidade.
A fraude não é uma consequência automática de todo capital fictício – mas torna-se comum na era da financeirização.
A pergunta mais fecunda seria: como a aparente impessoalidade dos mercados financeiros se apoia em relações tão pessoais de acesso, dependência e influência? Epstein e Vorcaro permitem explorar essa contradição, preservadas – é claro - suas diferenças: títulos circulam como abstrações, mas seu comando e suas condições de realização passam por pessoas, instituições e relações concretas de poder.
À Título de Reflexão: Uma Explicação Psicanalítica
Ao isolarmos o funcionamento sistêmico, a figura de Jeffrey Epstein emerge não como um investidor de varejo, mas como um operador de infraestrutura do capitalismo rentista. Na escuta clínica e na teoria psicanalítica, o fenômeno que cerca figuras como Jeffrey Epstein e a fascinação exercida sobre elites econômicas e intelectuais não se explica apenas pela cumplicidade criminosa ou pelo cálculo utilitário, mas por uma operação psíquica precisa: a encarnação do Sujeito Suposto Saber (Sujet supposé Savoir) e a presentificação de uma face obscena do Grande Outro.
A montagem do laço transferencial apoia-se estruturalmente na ilusão de que o Outro detém a chave mestra do desejo, da falta e do gozo. Jacques Lacan, ao formalizar a transferência no Seminário 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, define o pivô dessa dinâmica: "Desde que haja em algum lugar sujeito suposto saber, [...] há transferência." (LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1988).
No caso de Epstein junto a bilionários, chefes de Estado e acadêmicos laureados, a suposição de saber não incidia sobre um conhecimento técnico-financeiro convencional ou acadêmico estrito, mas sobre um saber operatório clandestino: a convicção de que ele compreendia as dobras invisíveis do poder, os atalhos regulatórios e, fundamentalmente, como transitar sem interdição pelas fissuras da Lei.
Para a subjetividade do hipercapitalista, o acúmulo infinito de capital não elimina a castração, nem a angústia diante da contingência do sistema. Epstein funcionava como a figura que oferecia a garantia de que o sistema não era falho por acaso, mas manipulável por quem possuísse o código de acesso. Ele operava, portanto, como fiador imaginário da completude do Outro.
Contudo, a dimensão mais radical desse arranjo não repousa na vertente pacificadora do saber, mas naquilo que a psicanálise designa como o “Outro do Gozo” ou o “Pai da horda primeva” teorizado por Sigmund Freud em Totem e Tabu. O bilionário encontra na figura de tal operador a corporificação de um sujeito que se coloca acima da interdição paterna, alguém que goza sem limite e que convida os demais a participarem dessa transgressão como pacto iniciático de filiação. Disse Freud: "O pai da horda primeva era livre, suas pulsões eram desimpedidas, ele não precisava fazer sacrifício algum para tornar possível a vida em comum."— FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011).
Ao disponibilizar o acesso a um gozo ilimitado e juridicamente blindado, a "aura de gênio" transmuta-se em uma cumplicidade fantasmática. A suposição de saber sobre as falhas do sistema servia como anteparo ideológico e psíquico para que esses agentes delegassem a ele a gestão de sua própria perversão e de seu desamparo estrutural, ancorando a fantasia de que o poder absoluto reside na capacidade de fazer da própria transgressão a regra de um círculo restrito de iniciados.
NOTAS
[1] Jeffrey Epstein foi um financista norte-americano condenado por crimes sexuais em 2008 e novamente preso, em julho de 2019, sob acusações federais de tráfico sexual de menores e conspiração. Morreu na prisão em agosto daquele ano, antes do julgamento. Ghislaine Maxwell, sua colaboradora, foi considerada culpada em 2021 e sentenciada a vinte anos de prisão em junho de 2022 por crimes relacionados à exploração sexual de menores. Mains adiante trataremos do caso Jeffrey Epstein.
[2] No Brasil – mutatis mutantis – ele teria como equivalente o caso Daniel Vorcaro do Banco Master.
[3] Conforme apontam Kean Birch e Fabian Muniesa (2020), um ativo difere ontologicamente de uma mercadoria: enquanto a mercadoria é produzida para ser trocada em uma transação discreta no mercado (M - D - M'), o ativo é estruturado para ser mantido, controlado e explorado temporalmente por meio de cobrança contínua de pedágios, juros, royalties ou taxas de serviço: "Um ativo não é simplesmente uma mercadoria que se compra e se vende; trata-se de um recurso que pode ser controlado e negociado como propriedade, e do qual um fluxo de rendimentos pode ser extraído por meio de sua posse e controle ao longo do tempo." (BIRCH, Kean; MUNIESA, Fabian (Orgs.). Assetization: Turning Things into Assets in Technoscientific Capitalism. Cambridge: The MIT Press, 2020). Nesse horizonte, a própria noção de "acesso" substitui a propriedade privada universalizada para os usuários, operando uma cisão assimétrica: a despossessão do usuário comum — reduzido à condição de subscritor ou operador precário de interfaces — é a contrapartida exata da monopolização do ativo subjacente pelos conglomerados de capital de risco e plataformas digitais. O que a finança contemporânea precifica não é o valor de uso que o indivíduo usufrui, mas a garantia contratual e algorítmica de que ele jamais deterá a infraestrutura, permanecendo perpetuamente obrigado a pagar pelo direito de entrada
[4] Essa dinâmica resgata e aprofunda as categorias de Karl Marx sobre a renda da terra (Grundrente) e o capital fictício (fiktives Kapital) expostas no Livro III de O Capital. A transformação do acesso em ativo replica a lógica dos cercamentos (enclosures), onde o monopólio sobre um meio indispensável à vida permite ao proprietário exigir um tributo sobre a circulação alheia sem necessidade de produzir valor novo: "A propriedade sobre certas forças naturais, o monopólio sobre as mesmas, é, portanto, a condição para a transformação do sobrelucro em renda da terra." (MARX, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Livro III. São Paulo: Boitempo, 2017). No ecossistema financeiro atual, as plataformas digitais, as redes de pagamento, as patentes e os bancos de dados funcionam como a "terra" monopolizada do século XXI. Brett Christophers, em seu estudo sobre o capitalismo rentista, demonstra como o poder financeiro moderno reside na apropriação do excedente econômico por meio da posse de ativos escassos ou artificialmente restritos: "O capitalismo rentista é um sistema econômico no qual os rentistas — aqueles que controlam ativos geradores de renda e extraem renda econômica daqueles que necessitam ter acesso a eles — desempenham um papel central e definidor na economia." (CHRISTOPHERS, Brett. Rentier Capitalism: Who Owns the Economy, and Who Pays for It? London/New York: Verso, 2020, p. xxv). Ao transmutar dados comportamentais, hábitos de consumo e redes de comunicação em derivativos e títulos securitizados, o capital financeiro fecha o ciclo da subsunção formal e real: a vida em sociedade passa a ser intermediada por portais de acesso cujo controle é securitizado nos mercados globais. O poder soberano das finanças repousa, em última análise, nessa prerrogativa de instituir gargalos estruturais e ditar os custos e as condições sob as quais o corpo social tem permissão de existir, produzir e se comunicar.
[5] Epstein não criou o EPS (Lucro por Ação), que é uma convenção contábil universal. Ele, porém, foi um arquiteto de estruturas de participação (Equity Schemes) extremamente sofisticadas e opacas, desenhadas para extrair valor dessas métricas sem expor seus clientes ao escrutínio público ou fiscal.
[6] Sobre os ETF´s, vide Nota 1 da postagem 3 de “Os Titãs do Capital”. Vide Wigglesworth, Robin. Trillions: How a Band of Wall Street Renegades Invented the Index Fund and Changed Finance Forever. New York: Portfolio/Penguin, 2021. (Este livro detalha a história dos ETFs e, embora foque nos inventores reais, descreve o ecossistema de Wall Street da época).
[7] Bernstein, Peter L. Capital Ideas: The Improbable Origins of Modern Wall Street. New York: Free Press, 1992; Zuckerman, Gregory. The Man Who Solved the Market. Este livro é interessante para entender o contraste entre quem criava os modelos e quem, como Epstein, os utilizava para trânsito de influência.
[8] Wigglesworth, Robin. Trillions: How a Band of Wall Street Renegades Invented the Index Fund and Changed Finance Forever. Este livro analisa também a criação do ALADDIN e a ascensão da BlackRock sem o foco no sensacionalismo).
[9] Fink, Larry. Annual Letters to Shareholders. (Especialmente as de 1994 e 1999, onde ele descreve a filosofia por trás do ALADDIN).
Hallac, Charles. Risk Management and the Aladdin Platform. (Artigo técnico sobre a infraestrutura do sistema).
[10] Vide https://c-level.folha.uol.com.br/financas/2026/09/acoes-que-somam-r-143-bi-estao-na-raiz-da-influencia-de-vorcaro-no-judiciario.shtml?utm_source=chatgpt.com



Comentários