Lukács e o termo Sehnsucht–4
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A síntese das passagens analisadas da Ontologia do Ser Social de György Lukács permite apreender o conceito de Sehnsucht em sua determinação mais madura e complexa, não como categoria ontológica em sentido estrito, mas como forma fenomenológica da negatividade inscrita no ser social e mediada historicamente.
Trata-se, em todos os casos, de uma expressão subjetiva da não-coincidência entre a existência efetiva e a exigência de sentido, plenitude ou reconciliação — isto é, da tensão constitutiva que atravessa a vida social.
Em primeiro lugar, as passagens evidenciam que a Sehnsucht possui um núcleo antropológico-social real: ela emerge de experiências objetivas de estranhamento, perda de sentido, insegurança ou limitação da vida.
Não é uma ilusão arbitrária, mas uma forma de vivência subjetiva de contradições reais. Como insiste Lukács, mesmo nas construções ideológicas mais distorcidas “esconde-se” uma Sehnsucht humana efetiva, socialmente produzida e internamente diferenciada .
Nesse sentido, a Sehnsucht constitui uma espécie de matéria afetiva fundamental da experiência humana sob determinadas condições históricas.
Entretanto, essa estrutura básica assume direções distintas conforme as mediações sociais.
A primeira grande determinação que emerge é a da Sehnsucht como negatividade transcendentalizada. Nas formas religiosas — do neoplatonismo ao cristianismo primitivo — ela aparece como anseio de abandono do mundo criatural [das Kreatürliche] e elevação a uma esfera de sentido exterior à práxis. Aqui, a negatividade não se converte em transformação histórica, mas em fuga do mundo: a contradição social é deslocada para uma solução transcendental, produzindo uma cisão ontológica entre essencial e inessencial. A Sehnsucht funciona, assim, como mediação subjetiva que sustenta formas ideológicas de redenção, neutralizando a práxis ao prometer sua resolução fora do ser social.
Uma segunda determinação fundamental é sua generalização e diferenciação interna. A Sehnsucht não é privilégio de formas elevadas de consciência; ela atravessa toda a vida social, do mais ordinário ao mais sutil. O exemplo do Rentnerideal (ideal do aposentado) mostra isso com clareza: aqui, o anseio assume a forma de desejo de estabilidade absoluta, de suspensão do tempo e da historicidade. Trata-se de uma orientação regressiva, na qual a tensão constitutiva da vida é negada em favor de uma fantasia de satisfação permanente. Ainda assim, mesmo essa forma banal expressa necessidades reais — sobretudo a busca por segurança diante de um mundo instável —, o que confirma o estatuto ambivalente da Sehnsucht: ela pode alimentar tanto impulsos emancipatórios quanto formas de adaptação imaginária à ordem existente.
A terceira determinação — a mais rigorosa do ponto de vista ontológico — é sua relação necessária com a Verdinglichung (coisificação). Lukács afirma que toda realização da Sehnsucht por redenção só pode ocorrer em formas coisificadas .
Isso significa que, ao buscar objetivar-se em imagens, conceitos ou narrativas, o anseio necessariamente se fixa em formas estáticas, perdendo sua dinâmica originária. A tensão viva é convertida em estado; o movimento, em figura estabilizada.
O exemplo da Divina Comédia de Dante Alighieri ilustra essa dialética: enquanto o Inferno preserva a processualidade trágica da vida, o Paraíso representa uma plenitude coisificada, desprovida de verdadeira vitalidade.
Dessa análise resulta um paradoxo central: a Sehnsucht é, enquanto tensão, o motor da vida — expressão da negatividade, da abertura e da busca; mas, enquanto realizada como estado final, implica sua própria negação, pois elimina a processualidade que a constitui.
A realização imaginada da plenitude coincide, assim, com a estagnação. A vida humana não pode ser adequadamente figurada como ausência de contradições; toda tentativa nesse sentido conduz à abstração e à perda de realidade.
Pode-se, portanto, sintetizar o conceito de Sehnsucht em Lukács como segue: trata-se da forma subjetiva pela qual os indivíduos experienciam a contradição entre o ser e o dever-ser; essa forma é socialmente mediada e historicamente variável; ela pode orientar-se para a práxis, para a transcendência ou para a adaptação regressiva; e, ao buscar objetivação, tende inevitavelmente a assumir formas coisificadas. Sua verdade não reside nas imagens de sua realização, mas na própria tensão que expressa.
Em última instância, a análise lukacsiana conduz a uma conclusão decisiva: a única mediação não alienada dessa negatividade é a práxis histórica. A Sehnsucht não deve ser suprimida nem realizada como estado absoluto, mas mediada no interior do processo social. Ela é, por assim dizer, o índice afetivo da incompletude constitutiva do ser social — e, ao mesmo tempo, a energia que pode, sob condições históricas determinadas, alimentar a transformação emancipatória.
Vejamos as últimas ocorrências do termo Sehnsucht na “Ontologia do Ser Social”. Na próxima postagem iremos analisar as 4 ocorrências do termo nos “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social”.
Ocorrência 7
Diz Lukács: "Não é por acaso que, já antes do período de preparação propriamente dito para aquelas correntes de reação das massas que atingiram seu auge no fascismo, a renovação do mito e a Sehnsucht por um retorno de tempos criadores de mitos desempenharam um papel de crescente importância. Com o darwinismo no mundo orgânico e com as investigações etnográficas iniciadas por Morgan, surgiu a base científica para conceber a pré-história e a história do tornar-se humano como um processo histórico imanente e interiormente necessário, que bane qualquer apelo à transcendência para o reino dos contos de fadas e torna compreensível o homem como um ser criado pela natureza e pela sociedade — humanamente falando: um ser autocriado. Por razões ideológicas, que só poderão ser tratadas detalhadamente ao final desta seção, essas possibilidades despertaram resistências, tanto abertas quanto veladas." [p.600]
No original: Es ist kein Zufall, daß schon vor der eigentlichen Vorbereitungsperiode zu jenen massenreaktionären Strömungen, die dann im Faschismus ihre Aufgipfelung erreichten, die Erneuerung des Mythos, die Sehnsucht nach einer Wiederkehr von mythenschaffenden Zeiten eine wachsend bedeutende Rolle spielte. Mit dem Darwinismus in der organischen Welt, mit den von Morgan initiierten ethnographischen Untersuchungen entstand die wissenschaftliche Grundlage, die Vorgeschichte und Geschichte des Menschwerdens als einen immanenten, innerlich notwendigen historischen Prozeß aufzufassen, der jeden Appell an Transzendenz ins Reich der Märchen verbannt und den Menschen als von Natur und Gesellschaft geschaffenes — menschlich gesprochen: selbstgeschaffenes — Wesen begreiflich macht. Aus ideologischen Gründen, die erst am Schluß dieses Abschnitts ausführlich behandelt werden können, lösten diese Möglichkeiten offene wie versteckte Widerstände aus.
Nesta passagem da Ontologia do Ser Social, de György Lukács, o termo Sehnsucht aparece em um contexto histórico-ideológico preciso, vinculado às correntes reacionárias de massa que culminaram no fascismo, assumindo assim uma determinação regressiva e politicamente carregada. Trata-se de uma forma específica de anseio que já não se orienta ao futuro nem à transcendência religiosa, mas ao passado mítico: a Sehnsucht por um retorno a tempos criadores de mitos. Esse deslocamento é decisivo, pois indica uma inflexão do conceito em direção a uma função ideológica de resistência à modernidade.
O núcleo da análise de Lukács reside na contraposição entre mito e ciência.
De um lado, o desenvolvimento científico, com Charles Darwin e Lewis Henry Morgan, estabelece as bases para compreender o tornar-se humano [Menschwerden] como um processo histórico imanente, internamente necessário, que dispensa qualquer recurso à transcendência. O ser humano passa a ser concebido como produto da natureza e da sociedade, isto é, como um ser autocriado. Essa concepção implica não apenas uma ruptura epistemológica com o mito, mas também uma transformação profunda na autocompreensão humana: o homem torna-se responsável por sua própria história.
É precisamente contra essa responsabilização que se dirige a Sehnsucht analisada por Lukács. Ela expressa uma recusa da imanência histórica e da condição autocriadora do ser social, assumindo a forma de uma nostalgia do irracional.
Trata-se do desejo de retorno a uma suposta “era de ouro” mítica, na qual o mundo era explicado por forças transcendentais e o indivíduo estava dispensado de enfrentar a complexidade da história e da ciência.
Nesse sentido, a Sehnsucht configura-se como fuga da razão: não mais um anseio por liberdade ou por plenitude, mas uma vontade de abandonar a explicação racional em favor de narrativas mágicas e totalizantes.
Essa orientação regressiva possui implicações decisivas.
Em primeiro lugar, ela implica uma recusa da autocriação e da responsabilidade histórica. Se a ciência revela o ser humano como agente de sua própria formação, a Sehnsucht pelo mito representa o desejo de abdicar dessa condição, entregando o destino humano a forças exteriores — sejam elas divinas, naturais ou míticas.
Em vez de sujeito da história, o indivíduo busca tornar-se objeto de um destino previamente dado.
Em segundo lugar, essa forma de Sehnsucht constitui o terreno psicológico e afetivo das ideologias reacionárias.
Lukács sugere que o anseio por mito não é apenas uma atitude individual, mas uma energia coletiva que pode ser mobilizada politicamente. Ao idealizar uma totalidade perdida — uma comunidade orgânica, uma unidade originária —, essa Sehnsucht torna os indivíduos receptivos a discursos que prometem restaurar uma “grandeza mítica”, frequentemente associada a nações, povos ou raças.
Nesse sentido, ela funciona como mediação subjetiva que prepara o terreno para o fascismo.
A estrutura dessa forma de Sehnsucht pode ser explicitada com rigor: o avanço da ciência dissolve as explicações míticas e impõe a imanência histórica; essa transformação gera desestabilização e perda de referências; tal desestabilização suscita resistências ideológicas; essas resistências se manifestam subjetivamente como Sehnsucht por retorno ao mito; e essa Sehnsucht, por sua vez, pode ser mobilizada politicamente como força regressiva.
Dessa forma, o que está em jogo é uma inversão da função da Sehnsucht.
Em outras configurações, ela pode expressar abertura ao possível ou tensão em direção à transformação; aqui, ao contrário, ela opera como fechamento, como recusa da modernidade e da práxis histórica.
Trata-se de uma negatividade que não se converte em ação transformadora, mas em fuga para formas imaginárias do passado.
Em síntese, nesta passagem, Sehnsucht designa uma forma de negatividade regressiva que se dirige contra a racionalidade científica e a autoconsciência histórica, assumindo a figura de uma nostalgia do mito.
Ela expressa o desejo de escapar à responsabilidade da autocriação e de substituir a dureza da verdade histórica pelo conforto de narrativas totalizantes. Ao fazê-lo, torna-se um elemento central na formação de ideologias reacionárias, evidenciando que a direção da Sehnsucht — emancipatória ou regressiva — depende das mediações históricas e sociais que a configuram.
Ocorrência 8
Diz Lukács: "Os motivos que hoje empurram na direção da negação foram acabamos de demonstrar, e ressalta claramente desta análise que, na negação da manipulação e de seus fundamentos teóricos, residem também momentos de uma perspectiva positiva: a Sehnsucht por uma democracia não manipulada, para cuja imagem fatos do próprio passado fornecem as cores e as formas. É evidente que um passado — por mais que seja, em si e especialmente nas representações desejadas, atraente ou mesmo arrebatador — jamais poderá ser realizado de novo, fática e concretamente, em um ser economicamente transformado de modo profundo." [p.721]
No original: Die Motive, die heute in die Richtung der Negation treiben, haben wir eben aufgezeigt, und es ist aus dieser Analyse Klar ersichtlich, daß in dem Verneinen der Manipulation und ihrer theoretischen Fundierungen auch Momente einer positiven Perspektive stecken: die Sehnsucht nach einer nicht manipulierten Demokratie, zu deren Bilde auch Tatsachen der eigenen Vergangenheit die Farben und die Formen liefern. Selbstredend kann eine Vergangenheit — und sei sie an sich und insbesondere in den Wunschvorstellungen noch so anziehend, ja hinreißend — niemals in einem ökonomisch gründlich veränderten Sein tatsächlich, konkret neu verwirklicht werden.
Nesta última ocorrência do termo Sehnsucht na Ontologia do Ser Social, o termo assume uma determinação particularmente complexa, pois condensa, de modo dialético, elementos progressivos e regressivos, articulando crítica social e possibilidade histórica.
Diferentemente de outras ocorrências analisadas — nas quais o anseio aparecia como fuga transcendental, nostalgia mítica ou desejo de estabilização da vida —, aqui ele se vincula a uma perspectiva potencialmente emancipatória: a Sehnsucht por uma democracia não-manipulada.
O ponto de partida da análise é a negação da manipulação. Lukács insiste que esse “não” dirigido às formas contemporâneas de dominação ideológica não é meramente destrutivo; ao contrário, ele contém em si um momento afirmativo.
Toda crítica radical ao existente traz consigo, ainda que de modo implícito, uma orientação positiva. É precisamente nesse interior que emerge a Sehnsucht: como o conteúdo afirmativo da negação, como o “sim” latente que dá direção ao gesto crítico. Sem essa dimensão, a negação seria puro niilismo; com ela, transforma-se no primeiro momento de uma práxis potencialmente transformadora.
Nesse sentido, a Sehnsucht funciona como mediação entre o descontentamento com o presente e a construção de um futuro possível. Ela expressa o anseio por uma forma de sociabilidade não-manipulada, isto é, por relações sociais nas quais os indivíduos não sejam reduzidos a objetos de controle ideológico. Trata-se, portanto, de uma forma de negatividade que já contém um núcleo de verdade: a percepção de que a realidade existente é inadequada e deve ser superada.
Entretanto, essa orientação positiva não se apresenta de modo conceitualmente puro. Lukács observa que a imagem dessa democracia não-manipulada é construída a partir de elementos do passado, que fornecem “cores e formas” à representação desejada. Aqui reside a ambivalência da Sehnsucht: ela recorre à memória histórica para figurar o futuro. O passado não é tomado como modelo a ser restaurado, mas como material simbólico que torna imaginável uma alternativa ao presente.
Essa função do passado distingue essa forma de Sehnsucht tanto da nostalgia reacionária quanto da idealização mítica. Não se trata de um desejo de retorno a uma “era de ouro”, mas do uso do passado como “laboratório de possibilidades”.
Experiências históricas — formas de participação política, momentos de maior autonomia coletiva — servem como evidência de que o existente não esgota o possível. O passado, assim, não é destino, mas prova histórica da contingência do presente.
Contudo, Lukács introduz um limite decisivo: um passado, por mais atraente que seja, não pode ser realizado novamente em condições historicamente transformadas. A base econômica do ser social mudou de maneira profunda, e isso impede qualquer retorno literal.
A Sehnsucht, portanto, só pode assumir um caráter produtivo se reconhecer essa mediação. Trata-se de um desejo que deve ser, ao mesmo tempo, crítico e realista.
Dessa forma, a Sehnsucht assume aqui a figura de um desejo dialético. Ela não se limita a negar o presente nem a idealizar o passado; ela opera como imaginação política, isto é, como capacidade de traduzir valores históricos — liberdade, participação, autonomia — em formas novas, adequadas às condições contemporâneas.
Trata-se de um anseio que reconhece a historicidade e, precisamente por isso, exige invenção.
Essa dimensão permite compreender por que a Sehnsucht desempenha um papel fundamental na gênese dos movimentos sociais. A ação coletiva não nasce apenas de necessidades materiais imediatas, mas de uma exigência de sentido.
A Sehnsucht funciona como a energia subjetiva que transforma frustração em ação, indignação em projeto, negatividade em direção histórica.
A Sehnsucht é o que permite ao sujeito afirmar: o existente não é necessário, a vida pode ser diferente.
Nesse sentido, a Sehnsucht pode ser compreendida como uma espécie de bússola histórica. Ela não constitui uma fuga da realidade, mas um princípio de orientação no interior dela.
Ao manter viva a tensão entre o que é e o que poderia ser, impede que o indivíduo se reduza à condição de objeto passivo da manipulação. Ela preserva, no plano subjetivo, um “espaço de manobra” que torna possível a imaginação e a ação transformadora em escala social.
Se contrastarmos essa ocorrência com as anteriores, o desenvolvimento conceitual torna-se evidente.
Na tragédia, a Sehnsucht aparecia como resistência subjetiva sem mediação objetiva; na religião, como negatividade deslocada para a transcendência; na crítica ao mito, como regressão ideológica ao passado; na forma ordinária, como desejo de estabilização e negação da historicidade; na análise da coisificação, como impulso que se neutraliza ao se realizar em formas fixas. Aqui, ao contrário, nesta forma dialética de negatividade, ela emerge como negatividade crítica com conteúdo potencialmente emancipatório, ainda que mediada por formas ideológicas imperfeitas.
Em síntese, nesta passagem, Sehnsucht designa uma forma dialética de negatividade: um anseio por uma sociabilidade não manipulada que, ao mesmo tempo, recorre ao passado para figurar o futuro e reconhece a impossibilidade de restaurá-lo.
Trata-se de uma força utópica produtiva, que articula crítica e imaginação, negação e perspectiva, memória e invenção. Sua direção não é a fuga nem o retorno, mas a abertura de possibilidades históricas no interior do presente.
Na próxima postagem (nº 5), analisaremos as duas primeiras ocorrências do termo Sehnsucht nos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social, de György Lukács. Em seguida, na postagem nº 6, concluiremos a série, organizando sistematicamente a riqueza de significações do termo em Lukács — da práxis trágica e da práxis conformista à práxis emancipatória.



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