Lukács e o termo "Sehnsucht"-3
- 27 de abr.
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A partir da postagem anterior podemos reconstruir, com bastante precisão teórica, um campo semântico complexo do termo “Sehnsucht” em György Lukács, que se afasta tanto do uso romântico originário quanto de qualquer psicologização imediata, sendo reconduzido a uma ontologia do ser social e da práxis.
Em primeiro lugar, “Sehnsucht” aparece como forma afetiva da negatividade ontológica, isto é, como expressão subjetiva da não-coincidência entre o ser e suas possibilidades. Não se trata de um simples sentimento, mas de uma estrutura afetiva que traduz, no plano da experiência vivida, a tensão constitutiva do ser social. Nesse sentido geral, ela é sempre índice de uma falta — não uma falta abstrata, mas historicamente determinada, enraizada nas contradições do desenvolvimento social.
No entanto, essa negatividade assume determinações distintas conforme sua mediação histórica e social.
Num primeiro nível, “Sehnsucht” pode assumir uma forma regressiva, quando se dirige a um passado historicamente superado. Nesse caso, ela não expressa abertura ao possível, mas fechamento da subjetividade na particularidade. Trata-se de um anseio ideologicamente deformado, no qual o indivíduo, incapaz de apreender a totalidade concreta do presente, projeta no passado uma falsa reconciliação. Aqui, Sehnsucht é nostalgia alienada: uma negatividade desviada, capturada pela particularidade e incapaz de orientar a práxis transformadora.
Num segundo nível — mais complexo —, Sehnsucht aparece como forma difusa, pré-conceitual e socialmente disseminada da negatividade histórica. Aqui, Sehnsucht não se volta ao passado, mas ao futuro — ainda que de modo obscuro. Ela se articula com aquilo que Lukács descreve como “negação abstrata do existente” e “pressentimento confuso do que virá”. Trata-se de uma experiência coletiva de inadequação do mundo existente, vivida como mal-estar, inquietação ou sensação de insuficiência.
Nesse registro, Sehnsucht constitui uma espécie de proto-consciência histórica: não é ainda conceito, nem projeto, nem práxis organizada, mas já é participação sensível nas contradições objetivas do desenvolvimento social.
Sua eficácia, contudo, é mediada e indireta — ela só se converte em ação através de mediações ideológicas, culturais e políticas.
Num terceiro nível, particularmente denso, Sehnsucht aparece como centelha subjetiva de resistência sob condições de impossibilidade objetiva. No contexto da análise da tragédia, ela designa o lampejo de um anseio por ação — por resistência ativa — que, no entanto, permanece bloqueado pelas condições históricas.
Aqui, ela não é regressiva nem indeterminada: seu conteúdo é concreto (resistência, liberdade, dignidade), mas sua realização é impossível. Trata-se, portanto, de uma negatividade sem eficácia prática imediata, que persiste como tensão interna do sujeito.
Essa forma revela um aspecto decisivo: Sehnsucht funciona como reserva de humanidade, como não-coincidência entre o indivíduo e sua condição objetiva. Ela impede a completa adaptação e mantém aberto um “espaço interno de manobra”, ainda que apenas no plano subjetivo.
Dessa tripla determinação emerge uma tese central: em Lukács, Sehnsucht não é categoria explicativa fundamental, mas forma fenomenológica de contradições ontológicas do ser social.
Ela não explica a realidade; ela é o que deve ser explicado. Seu conteúdo depende inteiramente da posição do sujeito no interior da totalidade histórica e das mediações disponíveis.
Ao mesmo tempo, há uma unidade subjacente a essas variações: em todos os casos, Sehnsucht expressa a tensão entre particularidade e generidade (Gattungsmäßigkeit), isto é, entre o indivíduo empírico e as possibilidades da humanidade enquanto ser genérico.
No capitalismo — ou, mais amplamente, sob condições de estranhamento — essa generidade permanece muda, não realizada. A Sehnsucht é justamente o modo pelo qual essa dimensão genérica irrompe na subjetividade, ainda que de forma deformada, difusa ou impotente.
Por isso, sua ambivalência é estrutural. Ela pode ser (1) regressiva (quando capturada pela particularidade), (2) embrionariamente progressiva (quando expressa a negatividade histórica difusa) (3) ou tragicamente afirmativa (quando aponta para possibilidades bloqueadas). Em todos os casos, ela indica que o ser social não se esgota no que é: há sempre um excedente de possibilidade que se manifesta, no plano da experiência, como anseio.
Em última instância, a leitura lukacsiana reconduz Sehnsucht à problemática da práxis.
Somente quando essa negatividade afetiva é mediada por formas de consciência e organização — filosofia, arte, política — ela pode deixar de ser mera inquietação e tornar-se força histórica efetiva.
Sem essas mediações, ela oscila entre nostalgia, mal-estar difuso e resistência impotente.
Assim, Sehnsucht é, no pensamento de Lukács, a forma sensível da contradição entre o existente e o possível — uma categoria-limite que revela, no interior da subjetividade, o movimento inacabado da história.
Vamos prosseguir analisando ocorrências do termo “Sehnsucht” na “Ontologia do Ser Social” onde o termo Sehnsucht aparece 8 vezes; e nos “Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social”, ele aparece 4 vezes.
Faremos comentários visando expondo as significações do termo Sehnsucht no pensamento lukacsiano como sendo uma ontologia da práxis trágica nas condições históricas do capitalismo senil.
Nesta terceira postagem vamos ver os comentários críticos de mais 3 ocorrências do termo “Sehnsucht” na “Ontologia do Ser Social”.
Nas próximas postagens daremos prosseguimento às análises críticas das outras ocorrências – tanto na "Ontologia do Ser Social", quanto nos "Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social".
Ocorrência 4
Diz Lukács: "Esta construção já está presente — permanecendo em solo pagão — para os neoplatônicos; ela domina a atividade essencial da visão de mundo das diversas seitas, etc., da privatização geral; no cristianismo primitivo, intensifica-se de maneira unicamente consequente — embora radicalmente fantástica — essa Sehnsucht de deixar radicalmente para trás o que é criatural, de elevar-se, libertado disso, à plenitude de sentido da vida, rumo às imagens de desejo e sonho dos apocalipses, nos quais a radical divisão do ser entre o essencial e o inessencial é selada definitivamente pelo Juiz do Mundo; uma vida eterna, impedida por nada, no nível da alma que alcançou a si mesma e que, nesse alcançar-se, foi redimida, concedida e garantida pela divindade." [p. 593]
No original: Diese Konstruktion ist bereits — auf heidnischem Boden bleibend — für die Neuplatoniker vorhanden; sie dominiert die wesentliche weltanschauliche Aktivität der verschiedenen Sekten etc. der generellen Privatisierung; im frühen Christentum steigert sich in allein konsequenter, freilich radikal phantastischer Weise diese Sehnsucht, das Kreatürliche radikal hinter sich zu lassen, sich davon befreit zur Sinnhaftigkeit des Lebens zu erheben, zu den Wunsch- und Traumbildern der Apokalypsen, in denen die radikale Zweiteilung des Seins zwischen Unwesentlichen und Wesentlichen durch den Weltrichter endgültig besiegelt wird, die ein ewiges, durch nichts gehindertes Leben auf dem Niveau der sich selbst erreichten, in diesem Sicherreichen erlösten Seele von der Gottheit verliehen und garantiert wird.
Nesta passagem da "Ontologia do Ser Social", de György Lukács, o termo Sehnsucht assume uma configuração teórica específica: não mais como forma de resistência subjetiva ou como negatividade pré-conceitual orientada ao futuro, mas como figura ideológica historicamente determinada de uma negatividade desviada para além do mundo social.
O contexto é a crítica às formas religiosas que emergem em situações de crise e de “privatização geral” [generelle Privatisierung], isto é, de retraimento da vida social para a interioridade subjetiva.
Lukács identifica uma continuidade entre o neoplatonismo e o cristianismo primitivo: ambos elaboram construções de mundo nas quais o sentido da vida é deslocado da realidade efetiva para uma esfera transcendente.
Nesse quadro, Sehnsucht é definida como o anseio de deixar radicalmente para trás o que é criatural [das Kreatürliche], isto é, o mundo finito, histórico e corpóreo. Trata-se de uma orientação negativa em relação à realidade: não se busca sua transformação histórica, mas sua superação por meio da negação e da fuga para uma esfera de sentido exterior ao mundo social.
Essa orientação se explicita na busca pela Sinnhaftigkeit des Lebens [plenitude de sentido da vida], concebida como elevação a uma dimensão desvinculada da práxis.
O sentido não é produzido no interior das relações sociais, mas projetado para além delas.
Disso resulta uma cisão ontológica radical: o mundo empírico é desvalorizado como inessencial [Unwesentliches], enquanto a verdadeira realidade é deslocada para o plano do essencial [Wesentliches], figurado nas imagens apocalípticas de redenção.
A Sehnsucht desempenha, aqui, o papel de fundamento afetivo dessa cisão. Ela expressa uma carência real — perda de sentido, estranhamento, impotência diante do mundo —, mas a resolve de forma ideológica, deslocando a negatividade para uma solução transcendental.
A contradição social é, assim, convertida em promessa de redenção: vida eterna, julgamento final, reconciliação absoluta.
A estrutura dessa operação pode ser formulada com precisão: há uma contradição objetiva no ser social; essa contradição é vivida subjetivamente como Sehnsucht; essa tensão é deslocada para uma solução transcendental; o resultado é uma forma ideológica que neutraliza a práxis transformadora.
O momento decisivo dessa transposição é a promessa de uma vida eterna [ewiges, durch nichts gehindertes Leben], livre de todas as limitações — finitude, sofrimento, contradição.
Essa promessa resolve, no plano imaginário, as tensões reais da existência, mas, ao fazê-lo, retira-as do campo da ação histórica.
Nesse sentido, Sehnsucht aparece como motor afetivo da fuga do mundo. Ela torna plausível e desejável a transcendência, funcionando como mediação subjetiva que sustenta a construção ideológica. Sem esse anseio, a projeção transcendental não possuiria eficácia.
Pode-se, então, definir com rigor o estatuto de Sehnsucht nesta passagem - trata-se de uma forma de negatividade subjetiva;– essa negatividade dirige-se contra o mundo existente [das Kreatürliche];– porém, em vez de se converter em práxis, sublima-se em transcendência;– o resultado é uma ideologia que absolutiza a cisão entre mundo e sentido.
Em termos conceituais, a Sehnsucht configura-se aqui como forma afetiva de uma negatividade transcendentalizada: um anseio que, incapaz de encontrar mediações históricas adequadas, projeta sua realização para além do ser social.
Essa análise permite compreender a ambivalência do fenômeno.
Por um lado, a Sehnsucht expressa uma dimensão constitutiva da condição humana: a não-coincidência entre a existência empírica e a aspiração à plenitude.
Por outro, sua forma histórica concreta pode assumir direções regressivas, quando essa tensão é resolvida por meio da negação do mundo.
Se relacionada ao conjunto da ontologia lukacsiana, a implicação torna-se evidente: a mediação adequada entre negatividade e realização só pode ocorrer no interior do mundo social, por meio da práxis. A religião, ao contrário, desloca essa mediação para fora da realidade, convertendo a contradição em promessa.
Dito de outro modo, a Sehnsucht religiosa constitui uma forma alienada de uma estrutura que, sob outras condições, poderia alimentar a práxis emancipatória.
Ela contém um conteúdo potencialmente progressivo — o anseio por sentido, plenitude e reconciliação —, mas o realiza de modo regressivo, ao negar o mundo em vez de transformá-lo.
Em síntese, nesta passagem, Sehnsucht designa a forma fenomenológica de uma negatividade que, ao não encontrar mediações históricas adequadas, se converte em transcendência ideológica.
A operação crítica de Lukács consiste precisamente em mostrar que o anseio não desaparece, mas se transforma — e que sua direção (práxis ou transcendência) depende das condições históricas e das mediações sociais disponíveis.
Ocorrencia 5
Diz Lukács: "Naturalmente, não se deve ignorar que nela se esconde uma Sehnsucht humana diversamente graduada, tanto interna quanto externamente, que abrange desde o mais ordinário até o mais sutil. Não queremos nem falar do 'ideal do aposentado', que desejaria fixar o tempo da velhice — e, às vezes, de toda a vida — em um estado de imutabilidade sem preocupações, onde os desejos vitais fossem permanentemente realizáveis." [p. 593]
No original: Es soll natürlich nicht verkannt werden, daß sich darin eine innerlich wie äußerlich vielfach abgestufte, vom Ordinärsten bis zum Subtilsten reichende Sehnsucht der Menschen verbirgt. Wir wollen gar nicht vom Rentnerideal sprechen, das die Zeit des Alters, mitunter des ganzen Lebens, in einem sorglos unveränderlichen Zustand der permanent erfüllbaren Lebenswünsche fixieren möchte.
Nesta passagem da Ontologia do Ser Social, de György Lukács, o termo Sehnsucht assume uma determinação distinta das anteriormente analisadas: não mais como centelha trágica de resistência, nem como negatividade transcendentalizada da consciência religiosa, mas como forma difusa, socialmente disseminada e internamente diferenciada do desejo humano, que se estende do nível mais ordinário às formas mais sutis.
O ponto de partida é a advertência metodológica de Lukács: “Es soll natürlich nicht verkannt werden…”. ["Não se deve, naturalmente, ignorar..."] - Não se deve ignorar que, mesmo nas construções ideológicas, encontra-se uma Sehnsucht humana. Tal formulação é decisiva para a crítica materialista: as formas de consciência não são ilusões arbitrárias, mas expressões — ainda que deformadas — de experiências reais.
Trata-se, portanto, de explicar sua gênese social e subjetiva, e não simplesmente rejeitá-las.
A caracterização central — “eine innerlich wie äußerlich vielfach abgestufte Sehnsucht” ["um anseio multifacetado em seus graus, tanto interna quanto externamente"]— indica que a Sehnsucht é graduada tanto interna quanto externamente, abrangendo um espectro que vai “do mais ordinário ao mais sutil” [vom Ordinärsten bis zum Subtilsten]. Não há, assim, uma única forma de Sehnsucht, mas uma multiplicidade de configurações, determinadas pelas mediações sociais e pelas formas de experiência.
Essa formulação desloca o conceito para um plano decisivo: Sehnsucht deixa de aparecer como fenômeno excepcional ou elevado e passa a ser compreendida como estrutura generalizada da experiência humana sob determinadas condições históricas. Ela se manifesta tanto em sistemas religiosos ou filosóficos quanto em formas cotidianas aparentemente triviais.
É nesse contexto que Lukács introduz o exemplo do Rentnerideal [ideal do aposentado], que constitui uma forma paradigmática de Sehnsucht ordinária.
Trata-se do desejo de fixar o tempo — especialmente o da velhice, mas por vezes o da vida inteira — em um estado de imutabilidade sem preocupações [sorglos unveränderlichen Zustand], no qual os desejos seriam permanentemente realizáveis [permanent erfüllbaren Lebenswünsche].
Aqui, o conteúdo da Sehnsucht torna-se plenamente determinado: trata-se do anseio por uma existência sem contradições, sem tensões e sem transformação — em suma, sem historicidade. O desejo não é o de transformar o mundo, mas o de suspender o devir, estabilizando a vida em uma condição de satisfação contínua.
Essa forma de Sehnsucht possui caráter regressivo.
Ela não expressa abertura para possibilidades novas, mas recusa da própria dinâmica do ser social. O tempo histórico, com suas contradições e exigências de práxis, é percebido como ameaça, e não como campo de realização. A vida, que é essencialmente processual, é aqui imaginada como estado fixo.
Contudo, Lukács não reduz essa forma a mera ilusão. Ao afirmar que essa Sehnsucht “se esconde” [verbirgt] nessas construções, ele indica que se trata de expressão de necessidades reais — sobretudo a busca por segurança, estabilidade e satisfação.
O problema não reside no conteúdo dessas necessidades, mas na forma que assumem: a fixação da vida em um estado imutável, o que implica a negação de sua processualidade.
A estrutura dessa forma de Sehnsucht pode ser explicitada do seguinte modo: experiências reais de insegurança e instabilidade geram o desejo de estabilidade; esse desejo é formulado como anseio por imutabilidade; o resultado é uma forma de consciência que nega o caráter histórico e processual do ser social.
Comparativamente, essa passagem permite situar três orientações fundamentais da Sehnsucht:
– na tragédia, como centelha de resistência sem mediação objetiva;– na religião, como negatividade deslocada para a transcendência;– aqui, - ideal do aposentado - como desejo de estabilização e suspensão da história.
Em todos os casos, contudo, permanece o núcleo comum: Sehnsucht é a forma subjetiva pela qual os indivíduos experimentam a não-coincidência entre o que é e o que desejam que seja. O que varia é a direção dessa tensão: transformação, fuga ou adaptação.
A análise revela, assim, a ambivalência constitutiva da Sehnsucht. Ela pode operar como força criativa, orientada à superação das condições existentes, ou como forma regressiva de adaptação imaginária.
No caso do Rentnerideal [ideal do aposentado] trata-se claramente desta última: uma tentativa de resolver contradições sociais por meio da retirada à esfera privada e da idealização de uma vida sem conflitos.
Essa forma de consciência corresponde à tendência à privatização da existência. A vida é reduzida ao âmbito individual, e as contradições sociais são deslocadas para soluções subjetivas. Em vez de transformação histórica, temos adaptação imaginária.
Nesse sentido, a Sehnsucht ordinária configura-se como uma espécie de armadilha: ao buscar eliminar o conflito e a tensão, ela elimina também o movimento que constitui a própria vida social.
O desejo de satisfação permanente implica, paradoxalmente, o esvaziamento da própria Sehnsucht, cuja essência reside precisamente na tensão em direção ao não realizado.
A formulação de Lukács permite, portanto, compreender a Sehnsucht como uma espécie de “matéria-prima” do desejo humano, que pode assumir direções distintas: nas formas mais elevadas, como anseio por liberdade, justiça ou sentido; nas formas ordinárias, como desejo de conforto, estabilidade e ausência de esforço. Em ambos os casos, trata-se da mesma estrutura fundamental, diferentemente mediada.
Em termos ontológicos, a passagem evidencia que a Sehnsucht pode ser plenamente integrada à reprodução social existente.
O “ideal do aposentado” não representa ruptura com o mundo, mas adaptação a ele: em vez de transformar as condições que produzem insegurança, projeta-se uma solução na forma de uma vida privada, estável e protegida.
Pode-se, assim, sintetizar o significado de Sehnsucht nesta passagem:
– trata-se de uma estrutura geral do desejo humano, socialmente mediada e internamente diferenciada;– ela abrange um espectro que vai do trivial ao elaborado;– manifesta-se, no caso analisado, como desejo de imutabilidade e satisfação permanente;– expressa uma recusa da historicidade e da práxis;– ao mesmo tempo, revela necessidades reais não resolvidas.
A força da análise lukacsiana reside precisamente em mostrar que mesmo as formas mais banais de desejo são expressões de contradições profundas do ser social.
A Sehnsucht não desaparece; ela se transforma, se adapta e se distribui por diferentes níveis da vida social.
Em última instância, a passagem reforça a tese central: Sehnsucht não constitui uma categoria ontológica, mas uma forma fenomenológica da negatividade, cuja orientação — progressiva ou regressiva — depende das mediações históricas nas quais se insere.
Ocorrencia 6
Diz Lukács: "Não é difícil perceber que a realização de todo anseio [Sehnsucht] por redenção só pode ocorrer em formas reificadas. Nenhuma espiritualidade, nenhuma paixão no projetar e nas tentativas de concretização — e, sobretudo, no sonhar com tais realizações — pode escapar a essa necessidade ontológica da reificação. Se tomarmos a mais alta personificação poética da Sehnsucht por redenção da personalidade humana, a Divina Comédia de Dante, pode-se notar, precisamente no contraste entre o efeito sempre renovado e vivo do 'Inferno' frente ao sucesso acadêmico e protocolar do 'Paraíso', que os conflitos insolúveis, trágicos ou tragicômicos, refletem ali o processo vital humano em sua autêntica processualidade existencial; enquanto aqui [no Paraíso], mesmo as virtudes autênticas estagnam em uma reificação, na qual apenas movimentos ilusórios — em última análise lúdicos ou, na melhor das hipóteses, subjetivo-líricos — podem conferir às sombras a aparência de uma vivacidade não reificada." [p.594]
No original: Es ist nicht schwer einzusehen, daß die Erfüllung einer jeden Sehnsucht nach Erlösung nur in verdinglichten Formen erfolgen kann. Keine Geistigkeit, Keine Leidenschaft im Entwerfen und in den Verwirklichungsversuchen, vor allem im Erträumen solcher Erfüllungen kann dieser ontologischen Notwendigkeit der Verdinglichung entgehen. Nimmt man die höchste dichterische Verkörperung der Sehnsucht nach Erlösung der menschlichen Persönlichkeit, Dantes »Göttliche Komödie«, so kann man gerade im Gegensatz der immer erneuten, lebendigen Wirkung der »Hölle« zum gelehrtenhaften Achtungserfolg des »Paradieses« ersehen, daß die tragischen oder tragikomischen unlösbaren Konflikte dort den menschlichen Lebensprozeß in seiner seinsmäßigen echten Prozeßhaftigkeit widerspiegeln, während hier auch echte Tugenden zu einer Verdinglichung erstarren, wobei .nur — letzten Endes spielhafte, bestenfalls subjektiv-lyrische — Scheinbewegungen den Schatten den Schein einer unverdinglichten Lebenshaftigkeit verleihen können.
Nesta passagem da Ontologia do Ser Social, de György Lukács, o termo Sehnsucht atinge sua determinação mais rigorosa e crítica, ao ser diretamente articulado à categoria de Verdinglichung [coisificação], sendo inscrito no interior de uma necessidade ontológica que governa as formas de consciência e suas projeções de sentido.
O ponto de partida é a tese central de Lukács: die Erfüllung einer jeden Sehnsucht nach Erlösung nur in verdinglichten Formen erfolgen kann. Isto é, a realização de toda Sehnsucht por redenção só pode ocorrer em formas coisificadas.
Trata-se de uma afirmação de alcance ontológico: não se trata de um fenômeno empírico contingente, mas de uma determinação estrutural do ser social. Toda tentativa de dar forma ao anseio — seja no plano religioso, artístico ou filosófico — está submetida à "ontologische Notwendigkeit der Verdinglichung" ["necessidade ontológica da coisificação"].
O conteúdo da Sehnsucht é aqui claramente delimitado: trata-se de um anseio por redenção [Sehnsucht nach Erlösung], isto é, pela superação das contradições fundamentais da existência — sofrimento, finitude, estranhamento. Esse anseio contém um núcleo humano legítimo, ligado à busca de plenitude, reconciliação e realização da personalidade. Contudo, sua realização imaginada [Erträumen], bem como suas tentativas de objetivação, não podem escapar às formas sociais existentes.
A consequência é decisiva: nenhuma espiritualidade [Geistigkeit], nenhuma paixão [Leidenschaft] no projetar ou tentar concretizar essa realização escapa à coisificação.
A Sehnsucht, ao buscar objetivar-se, necessariamente se converte em forma — e essa forma, por sua própria natureza, implica fixação, estabilização e delimitação do conteúdo.
O argumento pode ser explicitado do seguinte modo: a Sehnsucht é uma tensão subjetiva orientada à totalidade e à plenitude; para se tornar representável, deve assumir formas objetivas (imagens, narrativas, conceitos); essas formas fixam o conteúdo, interrompendo sua dinâmica; o resultado é uma objetivação que coincide com a coisificação — o movimento vivo é convertido em forma estática.
A análise da "Divina Comédia", de Dante Alighieri, funciona como exemplo privilegiado dessa dinâmica. Lukács estabelece um contraste entre o Inferno e o Paraíso.
No Inferno, os conflitos trágicos e insolúveis refletem a processualidade autêntica da vida humana [seinsmäßige echte Prozeßhaftigkeit]: há tensão, contradição e movimento.
Já no Paraíso, a plenitude é representada como estado fixo e acabado: mesmo as virtudes autênticas “estagnam” [erstarren] em formas coisificadas. O resultado é uma perda de vitalidade. A vida, enquanto processo, é substituída por uma aparência de movimento [Scheinbewegungen], isto é, por simulações que carecem de efetiva dinâmica ontológica.
A realização da Sehnsucht revela-se, assim, como sua própria neutralização: ao atingir sua forma “plena”, o anseio perde sua negatividade constitutiva e sua energia processual.
Tem-se, então, uma inversão dialética fundamental: enquanto tensão, a Sehnsucht é movimento, negatividade e abertura; enquanto realizada, torna-se fixação, estabilização e reificação. Quanto mais perfeita a realização imaginada, mais completa a perda de vitalidade.
Esse paradoxo é central para a ontologia lukacsiana.
Ele indica que a Sehnsucht por redenção, quando concebida como estado final absoluto, entra em contradição com a natureza processual do ser social. A vida humana não pode ser adequadamente representada como estado sem contradições; toda tentativa nesse sentido resulta em abstração e perda de realidade.
Do ponto de vista da crítica marxista, isso implica uma ampliação do conceito de coisificação: a Verdinglichung não se limita à esfera econômica, mas se estende às formas culturais e às projeções mais elevadas da subjetividade.
A Sehnsucht, ao buscar escapar do estranhamento, acaba reproduzindo, em nível ideológico, a lógica da fixação e da objetivação que caracteriza o mundo coisificado.
Pode-se, então, sintetizar o significado de Sehnsucht nesta passagem: trata-se de um anseio por redenção e superação das contradições da existência; ele contém um núcleo humano legítimo, ligado à busca de sentido e plenitude; e sua realização exige objetivação em formas; essas formas, por necessidade ontológica, são coisificadas; o resultado é a transformação do movimento em estado fixo, com perda de processualidade.
A conclusão de Lukács é inequívoca: não há realização não-coisificada da Sehnsucht por redenção no plano das representações. Toda tentativa de figurar a plenitude da vida humana tende a congelá-la em formas que negam sua própria essência dinâmica.
Isso não implica a rejeição da Sehnsucht. Ao contrário, ela permanece como índice de uma carência real e de uma exigência legítima. Contudo, sua verdade não reside em suas imagens de realização, mas na própria tensão que ela expressa.
Desse modo, a Sehnsucht revela-se como força vital que só subsiste enquanto busca. Ela constitui o motor do processo da vida, mas carrega uma contradição fundamental: busca uma redenção que, se plenamente realizada, implicaria sua própria dissolução.
A análise permite, assim, distinguir dois polos:
– como processo, a Sehnsucht exprime a dinâmica viva da existência, marcada por tensão, conflito e transformação;
– como estado, sua realização implica a supressão dessa dinâmica e a conversão do sujeito em forma coisificada.
Nesse sentido, a autenticidade da vida humana reside na processualidade — isto é, na permanência da tensão, do “ainda não”, da negatividade ativa. A satisfação plena, ao contrário, coincide com a estagnação.
A leitura lukacsiana de Dante ilustra esse ponto de maneira exemplar: a vitalidade do Inferno deriva da presença da Sehnsucht, isto é, da tensão e do conflito; o Paraíso, desprovido dessa tensão, aparece como forma estabilizada e, por isso, desprovida de verdadeira vida.
O ser humano revela-se, assim, como um ser marcado por um paradoxo estrutural: anseia pela superação do conflito, mas sua vitalidade depende da permanência da tensão.
A Sehnsucht constitui precisamente essa tensão constitutiva.
Em última instância, Lukács afirma a primazia da práxis como mediação adequada dessa negatividade.
A superação das contradições não pode ser concebida como estado final fixo, mas apenas como processo histórico aberto, no qual a negatividade não é eliminada, mas continuamente mediada.
Assim, nesta passagem, Sehnsucht aparece em sua forma mais dialeticamente determinada: como impulso que revela a necessidade de superação do estranhamento, mas que, ao buscar sua realização fora da práxis histórica, converte-se inevitavelmente em forma coisificada, perdendo sua vitalidade originária.
[continua]



Análise profunda e sobremaneira pertinente para pensarmos sobre o termo e o sujeito social que pode transformar nossa realidade num lento processo de estranhamento.