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O conceito de trabalho uberizado: Nota metodológica - 4



É o controle do trabalho exercido pelo aplicativo que denuncia a natureza do trabalho uberizado como forma de trabalho capitalista. O poder do capital se exerce por meio do controle despótico sobre o trabalho. Esta é forma fundamental (e fundante) do capital: confrontar (e opor-se) ao trabalho vivo. O controle despótico se origina da alienação – objetiva e subjetiva – do trabalho com respeito às condições materiais de produção. Na medida em que o trabalho vivo está alienado das condições materiais de produção e o capital criou uma superpopulação relativa - o exército industrial de reserva - à sua disposição no mercado de trabalho, a força de trabalho tornou-se dispensável e sujeito às contingências do mercado.


Diz-se que o motorista de aplicativo – por exemplo – é proprietário dos meios de produção, sendo assim, “patrão de si mesmo” ou trabalhador autônomo. Ele é o proprietário do veículo que dirige e do smartphone que utiliza no labor cotidiano. Mas isto é uma mistificação da ideologia capitalista. O verdadeiro meio de produção do motorista de aplicativo não é o veículo, mas sim, o aplicativo – que está alienado dele pois pertence à corporação capitalista. O motorista é “do aplicativo” sendo a propriedade (do aplicativo), privada.  


O problema do trabalho uberizado não está na forma tecnológica do controle (algoritmos), mas na forma social do controle operado por meios tecnológicos que são alheios ao trabalho vivo. A forma tecnológica apenas determina o modo de operar do controle alienado do capital tornando-o mais opaco e intransparentes por conta do fetiche da tecnologia.


No caso do trabalho uberizado, a opacidade do controle tecnológico só reforça a carga ideológica contida no modo “por conta própria”, ocultando assim, a subordinação real do trabalhador à racionalidade do capital.


O despotismo do algoritmo é deveras sutil, contrastando-se – por exemplo - com o despotismo do capataz nos locais de trabalho (o uberizado não tem “local de trabalho” propriamente dito, nem uma chefia “no seu pé” e muito menos, uma “jornada de trabalho” típica  – é esta “excentricidade” do trabalho capitalista do uberizado que alimenta a ilusão ideológica de liberdade).


O aplicativo oculta o fato de que o trabalho “por conta própria” - na medida que se “uberiza” -, torna-se essencialmente trabalho capitalista. O modo “por conta própria” torna-se a casca ideológica do labor uberizado. O controle capitalista - no caso do trabalho uberizado - ocorre por meio do uso do aplicativo, a forma tecnológica que materializa a alienação do trabalho. Na verdade, o aplicativo é a forma intrusiva que interverte as relações sociais de produção.


O que aparece como sendo “por conta própria” é efetivamente trabalho capitalista. A intrusão do aplicativo o denuncia. De fato, o modo “por conta própria” - que sustenta a aparência do sistema - torna-se a determinação material ideológica do trabalho uberizado. Na medida em que o veículo e o smartphone - instrumentos do trabalho - são propriedades pessoais do motorista de aplicativo e ele escolhe o horário de trabalho, etc – além parece estar “livre” do controle despótico da chefia imediata e “livre” do local de trabalho e da jornada de trabalho prescrita. Pode-se afirmar que o trabalho capitalista com maior carga de automistificação ideológica é o trabalho uberizado. O trabalhador pode imaginar-se trabalhador “autônomo”.


Vejamos como o controle do trabalho é exercido em algumas formas de trabalho como - por exemplo - o trabalho doméstico, trabalho artesanal, trabalho capitalista e trabalho público:


Na forma de trabalho doméstico, (por exemplo, uma mulher pessoa que cuida do lar), o sujeito que trabalha exerce a atividade com autonomia, tendo controle total do processo de trabalho (não se deve confundir trabalho doméstico com emprego doméstico que é a forma alienada do trabalho doméstico). No trabalho do lar não produz valores de troca, mas sim, valores de uso. A pessoa é dona dos meios de produção e tem o controle individual (ou familiar) da alocação dos recursos e fins da atividade produtiva. 


Na forma do trabalho artesanal, o sujeito que trabalha – individualmente - exerce a atividade “por conta própria”, sendo assim, autônomo, e tendo o controle total do processo de trabalho e do produto-mercadoria, resultado imediato da produção (valor de troca). O artesão opera a produção simples de mercadorias, isto é, produz valores de troca para o mercado, apropriando-se ele mesmo - do excedente.


Na forma do trabalho capitalista, o sujeito que trabalha – o trabalhador assalariado – faz parte do “trabalhador coletivo do capital”, estando subsumido (ou subordinado no caso dos improdutivos) à produção do capital (a força de trabalho é capital variável e os meios de produção adquire a forma de capital constante). A forma-capital impregna todos os elementos do processo produtivo - inclusive o trabalho vivo que é trabalho assalariado. No trabalho capitalista, o controle da atividade laboral está alienado do trabalho vivo, materializando-se na forma tecnológica e/ou na forma gerencial (externa), personas do capital que visam cumprir a finalidade de autovalorização do capital.


Na forma do trabalho público, o sujeito que trabalha,sendo parte da engrenagem da “máquina pública” do Estado político, não produz - é claro - valores de troca, mas sim, bens (serviços) de utilidade pública. O trabalhador público está subordinado à racionalidade alienada do Estado político do capital, havendo nesse caso, o controle da atividade laboral pela forma tecnológica e/ou pela forma gerencial sob controle do gestor político do capital.

 

Defendemos a tese de que o trabalho uberizado é trabalho capitalista “excêntrico” – isto é, ele não se organiza pelas formas típicas do trabalho capitalista propriamente dito. Ao mesmo tempo, ele incorpora o modo “por conta própria” do trabalho individualizado que lhe serve como determinação material ideológica. Entretanto, como todo trabalho capitalista – típico ou excêntrico – ele sofre o controle do capital.


No caso do trabalho uberizado, o controle direto do capital ocorre pelo aplicativo (a forma tecnológica), estando ele - o trabalho vivo - subordinado ao capital. A diferença entre “subsunção” e “subordinação” do trabalho ao capital diz respeito à modalidade de alienação e autoalienação dos humanos diante do capital. Vejamos:


A problemática da “subsunção” diz respeito à contradição inscrita na alienação do trabalho produtivo. A diferença entre trabalho produtivo e improdutivo é relevante para discernirmos se o trabalho está subsumido ou subordinado ao capital. Trabalho produtivo é aquele que produz o mais-valor.


O conceito de trabalho produtivo é fundamental para a crítica do capital pois nele está contido a verdadeira contradição social do nosso tempo histórico. Primeiro, só o trabalho produtivo está subsumido ao capital. Caso o sujeito que trabalha produza - ele próprio - sua alienação (e auto-alienação) – como é o caso do trabalhador assalariado produtivo - ele encontra-se na posição de subsumido ao capital. O assalariado produtivo recebe salário – entendido como sendo a parcela do mais-valor produzido por ele próprio. O trabalhador produtivo produz a sua própria servidão e por conseguinte, a sua própria redundância.


]Por outro lado, os demais trabalhadores assalariados e “assalariados” – entre aspas – no caso dos trabalhadores uberizados, estão na posição - não de subsunção - mas de subordinação frente ao capital : os improdutivos para o capital sofrem a “exploração” e dominação do capital enquanto exterioridade estranhada (a utilização das aspas é importante para ressaltar que não se trata a rigor, de exploração e de assalariamento no sentido típico do trabalho capitalista produtivo pois o motorista de aplicativo não vende a sua força de trabalho em troca de um salário para o capital tal como ocorre , por exemplo, com o trabalhador assalariado).


O trabalho produtivo é o “âmago” da produção social no modo de produção capitalista. Ele é a base da reflexão marxiana de critica da economia política. Marx partiu da crítica do trabalho produtivo. Embora a economia capitalista tenha o predomínio dos serviços - e muitas atividades de serviços são improdutivas interiores à produção do capital - não devemos esquecer que as atividades improdutivas existem em função da produção (a indústria no sentido amplo da palavra – a atividade que produz mais-valor). Assim, o trabalho improdutivo é uma função do trabalho produtivo. 


Ao utilizarmos o termo ‘trabalho improdutivo’, não expressamos nenhum juízo de valor. O trabalho uberizado, seja dos motoristas de aplicativo ou dos entregadores de mercadorias, é improdutivo para o capital. Isso ocorre porque eles não produzem mais-valor, mas sim, o realizam, como é o caso dos entregadores. Alternativamente, trocam trabalho por renda, mesmo que, nesse caso, a renda adquira a forma salarial (conforme explicado na postagem anterior).


Vamos concluir nossas reflexões sobre o trabalho uberizado, abordando uma característica marcante do capitalismo: a compulsão à expansão. Essa compulsão faz com que o capital incorpore outras formas de produção social, tanto pré-capitalistas quanto pós-capitalistas, em si mesmo e para seu próprio benefício. Isso inclui formas como a produção artesanal ou ‘por conta própria’, bem como a produção pública, respectivamente.


Nenhum outro modo histórico de produção teve tanta força interna de compulsão expansiva envolvendo outras modalidades de produção historicamente demarcadas. Foi a expansividade compulsiva do capital frente a sua crise estrutural, visando criar novas fronteiras de lucratividade – real ou fictícia – e incorporando as novas condições tecnológicas da produção do capital, que produziram o “excentrismo” do trabalho “uberizado”.


Taylorismo, fordismo-taylorismo e toyotismo são modelos de organização do trabalho capitalista que caracterizaram historicamente as diversas fases da produção do capital no século XX. O trabalho uberizado está impregnado do espírito do toyotismo na medida em que novo nexo psicofísico do sujeito que trabalha no século XXI está imbuído dos valores-fetiches do toyotismo [sujeito neoliberal como empresa de si mesmo, “captura”/manipulação da subjetividade). Na verdade, o espírito do toyotismo que está disseminado na sociedade neoliberal reforça o modo “por conta própria” enquanto determinação material ideológica do trabalho uberizado.

 

 

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