top of page
Buscar

Lukács e a expressão “Não sabem, mas o fazem” - 5

  • 22 de jul.
  • 37 min de leitura

Nesta quinta postagem da série, voltamos nossa atenção para as últimas ocorrências da célebre formulação Sie wissen das nicht, aber sie tun es presentes no segundo volume da Ontologia do Ser Social, de György Lukács. O propósito permanece o mesmo: examinar cuidadosamente cada uma dessas passagens, acompanhando o modo pelo qual Lukács reinterpreta e desloca a sentença marxiana — até convertê-la em uma categoria de alcance decisivo para a elaboração de sua ontologia da práxis e do ser social.


Nas próximas postagens, analisaremos as seis ocorrências da frase Sie wissen das nicht, aber sie tun es nos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social — último texto filosófico de Lukács, redigido em 1970, nos meses finais de sua vida, e publicado postumamente em 1984.

 

10

Diz Lukács: “Não foi inadvertido que, na descrição de um estado de fato muitíssimo elementar, tenhamos recorrido às categorias filosóficas como generalidade, particularidade e singularidade. Com um exemplo drástico queríamos mostrar o quão cedo, em que estágio mais primitivo, as mais importantes categorias do conhecimento da realidade já devem aflorar praticamente. Contudo, sem a mínima conscienciosidade sobre as implicações que suas descobertas mais primitivas continham implicitamente. Marx diz, com razão, que as categorias são »formas de ser, determinações da existência«, e é por isso que podem aflorar praticamente e serem usadas muito antes de tornarem-se conhecidas enquanto tais. Já apontamos, no tratamento do trabalho de conexões similares, que todas confirmam o profundo conhecimento de Marx de que a práxis já põe e aplica muito de teórico sem poder tornar consciente qualquer suspeita de seu significado teórico. »Não o sabem, mas fazem«, diz Marx. E Engels aponta seguidamente ao herói da comédia de Molière que por toda a vida falou em prosa, sem o saber, mas o fazia. Nessa peculiaridade da relação da práxis humana e teoria se expressa algo duplo. Considerada do ponto de vista do mundo exterior, o fato de que as categorias que empregamos em nossas teorias são imagens [Abbilder] das objetividades do mundo objetivamente real. Em oposição a teorias que tentam enfraquecer o caráter mimético do conhecimento e, por exemplo, concedem à realidade objetiva um ser-em-si conteudístico-material e, contudo, concebem suas formas exclusivamente como produtos do espírito, sublinha Marx que a objetividade de todos os objetos não é separável de seu ser material.194 Essa visão do existente em si completa-se teoricamente com que a objetividade de todos os objetos e relações existentes possuem uma infinidade extensiva e intensiva de determinações. Apenas daqui pode ser adequadamente entendido também o aspecto subjetivo, prático bem como teórico, do processo de domínio da realidade: na práxis sempre são apreendidas objetividades reais (e é evidente que seria impossível apreendê-las praticamente se esse apreender não fosse precedido por uma representação, uma reprodução intelectual, no sujeito que age), ao mesmo tempo deve ser constatado sobre toda práxis que ela jamais — por princípio, jamais — possui a totalidade das determinações como sua base de conhecimento. Toda práxis e toda teoria a ela ligada está ante o dilema: ser encarregada e dirigida ao apreender — impossível — da totalidade de determinações, ao lado de uma necessária renúncia parcial espontânea ao atendimento de tais demandas. Do ponto de vista de uma crítica gnosiológica da teoria ligada com a práxis, Lenin descreve muito plasticamente a situação que daqui resulta: »Para conhecer realmente um objeto, é preciso apreender e pesquisar todos os seus aspectos, todas as conexões e ›mediações‹. Jamais conseguiremos fazer isso plenamente, mas a exigência de considerar todos os lados nos preservará de erros e da estagnação«. [p. 171]


A longa passagem da Ontologia do Ser Social de György Lukács constitui uma das formulações mais profundas de sua concepção da relação entre práxis e conhecimento. Nela, Lukács retoma a célebre afirmação de Marx — “Sie wissen das nicht, aber sie tun es” (“Eles não o sabem, mas o fazem”) — para demonstrar que a atividade prática dos seres humanos antecede historicamente e fundamenta ontologicamente o desenvolvimento da consciência teórica.


Como já vimos em postagens anteriores, o que Marx havia formulado originalmente no contexto do fetichismo da mercadoria é transformado por Lukács numa tese geral sobre a gênese do conhecimento humano. A frase de Marx aparece no capítulo sobre o fetichismo da mercadoria em O Capital. Ali, ela se refere ao fato de que os produtores de mercadorias, ao realizarem trocas no mercado, estabelecem objetivamente relações sociais determinadas sem compreenderem teoricamente o que estão fazendo. Eles não sabem que, por trás da troca de mercadorias, seus trabalhos concretos são reduzidos a trabalho humano abstrato e que, desse modo, constituem objetivamente o valor. Ignoram a essência do processo social que produzem, mas o produzem efetivamente. A realidade social funciona independentemente de sua consciência. É precisamente esse aspecto que Lukács generaliza.


Lukács observa que, mesmo nos estágios mais primitivos da vida humana, categorias fundamentais do pensamento já são utilizadas na prática muito antes de serem conhecidas teoricamente. Quando um ser humano escolhe uma pedra para utilizá-la como instrumento, ele distingue uma pedra específica entre muitas outras porque reconhece nela determinadas propriedades gerais — dureza, resistência, capacidade de corte. Ainda que não possua qualquer teoria filosófica acerca das categorias de universalidade, particularidade e singularidade, ele opera efetivamente com elas. A pedra concreta é singular; suas propriedades úteis pertencem a uma classe mais ampla de características gerais; e sua utilização em determinada situação prática constitui uma mediação particular entre o universal e o singular. O indivíduo não sabe nada sobre essas categorias, mas as emprega concretamente em sua atividade.


É por isso que Lukács cita a observação de Engels acerca do personagem de Molière que falava em prosa durante toda a vida sem saber o que era prosa. A humanidade utiliza categorias ontológicas e lógicas muito antes de tomar consciência delas. Assim, quando Marx afirma “eles não o sabem, mas o fazem”, não está simplesmente descrevendo uma forma de ignorância. Está apontando para uma característica constitutiva da vida social: a prática humana contém muito mais racionalidade objetiva do que aquilo que os indivíduos conseguem apreender conscientemente.


Essa tese está diretamente ligada à definição marxiana das categorias como Daseinsformen, Existenzbestimmungen — “formas de ser” e “determinações da existência”. O significado filológico e filosófico dessa expressão é decisivo. Para Marx e Lukács, as categorias não são construções arbitrárias da consciência nem formas subjetivas impostas ao mundo exterior. Elas são determinações reais do próprio ser. Antes de serem conceitos, são modos efetivos de existência da realidade. Por isso podem atuar objetivamente muito antes de serem reconhecidas teoricamente.


A universalidade, a causalidade, a quantidade, a qualidade, a finalidade e inúmeras outras categorias não surgem na filosofia para depois serem aplicadas ao mundo; elas existem no próprio mundo e aparecem primeiro na atividade prática dos seres humanos. Somente posteriormente tornam-se objeto de elaboração científica e filosófica.


Aqui se revela – mais uma vez - uma das teses fundamentais da ontologia lukacsiana: a prioridade ontológica da práxis. A prática não deriva da teoria; ao contrário, a teoria deriva da prática. Os seres humanos produziram instrumentos muito antes do surgimento da mecânica, construíram habitações antes da arquitetura, cultivaram a terra antes da agronomia, utilizaram a linguagem antes da gramática e raciocinaram antes da lógica. O conhecimento teórico é uma forma superior e reflexiva de uma atividade que já estava presente objetivamente na vida prática. A teoria não cria a realidade; procura compreender de maneira consciente aquilo que a prática já realiza.


Lukács aprofunda essa argumentação recorrendo ao conceito de Abbild, termo alemão que significa “imagem”, “reprodução” ou “reflexo”. Quando ele afirma que as categorias são imagens das objetividades do mundo real, está retomando a teoria marxista do conhecimento. O pensamento não produz suas categorias a partir de si mesmo; ele reproduz idealmente determinações que pertencem ao próprio ser.


As categorias são reflexos intelectuais de estruturas efetivamente existentes na realidade objetiva. Dessa forma, Lukács combate as correntes idealistas e neokantianas que atribuem às formas do conhecimento uma origem puramente subjetiva. Para ele, seguindo Marx, não existe uma separação radical entre conteúdo material e forma. A forma pertence ao próprio objeto. Conhecer significa reproduzir intelectualmente uma realidade objetiva que existe independentemente da consciência.


Entretanto, a passagem não se limita a afirmar o caráter objetivo das categorias. Lukács procura também explicar os limites inevitáveis do conhecimento humano. A realidade é infinitamente mais rica do que qualquer teoria que possamos construir sobre ela. Todo objeto possui uma multiplicidade praticamente inesgotável de determinações, relações e mediações. É isso que ele denomina uma infinidade extensiva e intensiva de determinações [unendliche extensive und intensive Mannigfaltigkeit der Bestimmungen].


Cada objeto está inserido em uma rede complexa de conexões que jamais pode ser apreendida integralmente. Por essa razão, toda prática e toda teoria se deparam com um dilema fundamental. Para agir sobre a realidade, o ser humano precisa conhecer determinadas propriedades dos objetos. Contudo, nunca pode conhecer todas as suas determinações. Quando um trabalhador utiliza uma ferramenta, conhece alguns aspectos relevantes dela, mas ignora inúmeros outros. Quando um cientista formula uma teoria, apreende determinadas relações essenciais do fenômeno estudado, mas jamais sua totalidade absoluta. A ação humana sempre se realiza sobre a base de um conhecimento parcial.


É nesse contexto que a fórmula “eles não o sabem, mas o fazem” adquire seu significado mais profundo na ontologia de Lukács. Ela não designa simplesmente uma deficiência subjetiva da consciência. Expressa uma condição estrutural da existência humana. Os homens são capazes de agir porque conhecem algo da realidade, mas jamais conhecem tudo. A prática pressupõe conhecimento, mas não conhecimento absoluto. Se fosse necessário conhecer a totalidade das determinações de um objeto antes de agir sobre ele, nenhuma ação seria possível. O trabalho, a técnica, a ciência e a própria vida cotidiana exigem decisões tomadas sob condições inevitáveis de conhecimento incompleto.


É por isso que Lukács recorre a uma observação de Lenin segundo a qual conhecer verdadeiramente um objeto exigiria apreender todos os seus aspectos, todas as suas conexões e todas as suas mediações. Tal exigência é impossível de ser plenamente realizada. Contudo, ela permanece indispensável como orientação metodológica. A busca incessante da totalidade impede que transformemos conhecimentos parciais em verdades absolutas e nos protege contra a estagnação dogmática.


A conclusão da passagem é profundamente dialética. A história humana desenvolve-se inicialmente sob a forma do “não sabem, mas fazem”. A prática social produz continuamente resultados, instituições, categorias e formas de vida que ultrapassam a consciência imediata dos indivíduos. A teoria surge posteriormente como esforço para compreender aquilo que já existe e funciona objetivamente. Por isso a práxis contém sempre um excedente ontológico em relação à consciência. Os homens fazem mais do que sabem; realizam mais do que compreendem; produzem objetivamente relações, formas e categorias cuja significação teórica só será reconhecida muito depois.


Assim, quando Lukács recupera a frase de Marx, ele não está apenas discutindo o fetichismo da mercadoria. Está formulando uma teoria geral do conhecimento e da vida social. A humanidade transforma a realidade muito antes de compreendê-la plenamente. As categorias do pensamento não nascem da especulação abstrata, mas da própria atividade prática dos seres humanos. A ciência, a filosofia e a teoria representam o esforço histórico de tornar consciente aquilo que, durante longos períodos, foi realizado apenas de maneira prática. Nesse sentido, a fórmula “eles não o sabem, mas o fazem” exprime uma verdade fundamental da ontologia do ser social: a consciência nasce da práxis, mas a práxis sempre contém mais realidade do que qualquer consciência pode abarcar.


Observações filológicas


Do ponto de vista filológico, essa passagem da Ontologia do Ser Social é particularmente rica porque nela Lukács condensa uma série de categorias fundamentais de sua ontologia e, ao mesmo tempo, explicita a maneira pela qual se apropria criticamente de Marx, Hegel, Engels e Lenin. Uma leitura atenta do texto original alemão revela nuances conceituais que muitas vezes desaparecem nas traduções e que são decisivas para compreender o alcance de sua argumentação.


A primeira observação refere-se à expressão utilizada por Lukács ao afirmar que recorreu a categorias filosóficas como generalidade [Allgemeinheit], particularidade [Besonderheit] e singularidade [Einzelheit] para descrever um estado de coisas extremamente elementar. Ele escreve que essas categorias foram herangezogen. O verbo heranziehen significa literalmente “trazer para junto”, “convocar”, “chamar em auxílio”, “mobilizar”. Lukács não diz simplesmente que utilizou [benutzt] ou aplicou [angewandt] tais categorias. Ele afirma que as convocou para a análise de um fenômeno simples da vida prática. Essa escolha vocabular não é casual. Ela indica uma intenção metodológica muito precisa: mostrar que categorias tradicionalmente associadas à lógica hegeliana não pertencem exclusivamente ao domínio abstrato da filosofia, mas podem ser reencontradas nas formas mais simples e cotidianas da atividade humana.


Em seguida, Lukács afirma querer demonstrar wie früh, auf wie primitiver Stufe essas categorias surgem. A expressão significa literalmente “quão cedo” e “em quão primitivo estágio”. O termo Stufe possui uma longa tradição na filosofia alemã, especialmente em Hegel, onde designa um grau, um momento ou uma etapa do desenvolvimento. Lukács o utiliza em sentido genético e ontológico. Seu objetivo é mostrar que as categorias fundamentais do conhecimento não aparecem apenas em formas elevadas de reflexão filosófica, mas já estão presentes nos estágios mais rudimentares da práxis humana.


A escolha do verbo que descreve esse aparecimento também é significativa. Lukács afirma que as categorias da compreensão da realidade já devem praktisch auftauchen. O verbo auftauchen significa “aflorar”, “emergir”, “surgir à superfície”. Trata-se de um termo fenomenológico, não epistemológico. As categorias não são apresentadas como invenções da consciência nem como construções subjetivas do pensamento. Elas emergem espontaneamente da própria atividade prática dos homens. A formulação reforça uma das teses centrais da ontologia lukacsiana: as categorias são determinações do ser antes de serem categorias do pensamento.


Outro termo importante é Tragweite, presente na expressão die theoretische Tragweite. Traduz-se habitualmente por “alcance teórico”, mas a palavra possui uma riqueza semântica maior. Ela deriva de tragen (carregar, sustentar) e Weite (amplitude, extensão). O sentido original sugere algo como “amplitude de sustentação” ou “alcance efetivo”. Quando Lukács afirma que os homens não têm consciência da theoretische Tragweite de suas descobertas mais primitivas, quer dizer que desconhecem as implicações teóricas profundas daquilo que realizam praticamente.


É nesse contexto que aparece a famosa definição de Marx segundo a qual as categorias são Daseinsformen, Existenzbestimmungen. A filologia desses termos é extremamente importante.


 Daseinsformen significa literalmente “formas de ser-aí”. O termo Dasein não designa simplesmente existência em sentido abstrato. Refere-se ao modo concreto de ser de algo, à sua presença efetiva no mundo. Já Existenzbestimmungen significa “determinações da existência”. Marx utiliza os dois termos conjuntamente para enfatizar que as categorias não são criações subjetivas da mente, mas modos efetivos de existência e determinações estruturais do próprio ser. Lukács recupera essa formulação porque ela fornece o fundamento ontológico de toda a sua argumentação: as categorias podem surgir na prática antes de serem conhecidas teoricamente porque pertencem ao próprio ser da realidade.


Essa ideia reaparece quando Lukács afirma que a prática vieles Theoretische bereits setzt und anwendet. Aqui encontramos dois verbos decisivos. O primeiro é setzen, um dos conceitos centrais da tradição idealista alemã. Embora costume ser traduzido por “pôr”, seu significado é mais amplo. Pode indicar instituir, estabelecer, pressupor ou produzir objetivamente. Quando Lukács afirma que a prática já “põe” elementos teóricos, não quer dizer apenas que ela os utiliza. Significa que a própria prática os produz e pressupõe objetivamente. O segundo verbo, anwenden, significa aplicar. Assim, a prática não apenas contém teoricidade de forma latente; ela já a institui e a aplica antes mesmo de tomar consciência dela.


É nesse ponto que Lukács introduz a célebre frase de Marx: Sie wissen das nicht, aber sie tun es. Do ponto de vista filológico, há aqui um detalhe frequentemente negligenciado.

Marx não escreve Sie wissen es nicht (“eles não o sabem”), mas Sie wissen das nicht. O uso do demonstrativo das é decisivo. Ele aponta para uma determinação específica da realidade. No contexto do fetichismo da mercadoria, o “isso” refere-se ao fato de que os produtores de mercadorias não sabem que estão reduzindo seus trabalhos concretos a trabalho humano abstrato. Em Lukács, porém, o alcance da frase é ampliado. O “isso” passa a abranger todas as determinações ontológicas implícitas na práxis humana. Os homens operam continuamente com categorias fundamentais do ser sem possuir consciência teórica delas.


Uma palavra central para compreender essa concepção é Abbild, utilizada por Lukács quando afirma que as categorias são Abbilder der Gegenständlichkeiten der objektiv wirklichen Welt. O termo deriva de Bild (imagem), mas seu significado vai além de uma simples imagem. Abbild significa reprodução, cópia, reflexo. Trata-se de um conceito clássico da teoria materialista do conhecimento. Ao utilizá-lo, Lukács afirma que as categorias do pensamento são reproduções intelectuais de determinações existentes na realidade objetiva. O conhecimento não cria arbitrariamente suas formas; ele reproduz idealmente estruturas efetivamente presentes no ser.


Ainda mais reveladora é a escolha do termo Gegenständlichkeiten. Lukács não utiliza simplesmente Gegenstände (“objetos”), mas o substantivo abstrato derivado, que significa “objetividade” ou “objetualidade”. O foco desloca-se dos objetos particulares para o caráter objetivo da realidade. O que interessa não são apenas coisas isoladas, mas a estrutura objetiva do mundo enquanto tal.


Essa preocupação reaparece na expressão extremamente densa stofflichinhaltliches Ansichsein. O termo pode ser decomposto em três elementos: stofflich (material), inhaltlich (conteudístico) e Ansichsein (ser-em-si). Lukács está criticando concepções que admitem a existência de um conteúdo material objetivo, mas transformam as formas da realidade em produtos exclusivos da consciência. Contra essa posição, ele insiste, seguindo Marx, que forma e conteúdo pertencem conjuntamente ao próprio ser das coisas.


Outro conceito de enorme importância é a formulação segundo a qual todo objeto possui eine extensive und intensive Unendlichkeit von Bestimmungen, “uma infinitude extensiva e intensiva de determinações”. A distinção é significativa. A infinitude extensiva refere-se à quantidade virtualmente ilimitada de relações que cada objeto mantém com outros objetos. A infinitude intensiva refere-se à profundidade interna dessas determinações. Assim, cada objeto é simultaneamente um nó de relações externas e uma totalidade de determinações internas. Essa concepção aproxima-se claramente da ideia hegeliana de totalidade concreta.


Quando Lukács afirma que toda apreensão prática pressupõe eine Abbildung, eine gedankliche Reproduktion, ele emprega novamente dois termos complementares. Abbildung designa o reflexo ou a reprodução da realidade na consciência. Gedankliche Reproduktion significa reprodução intelectual ou mental. A duplicação não é redundante. Ela enfatiza que o conhecimento é simultaneamente reflexo da realidade e reconstrução ativa dessa realidade no pensamento.


Finalmente, a passagem culmina numa das expressões mais importantes de toda a ontologia lukacsiana: die Totalität der Bestimmungen, “a totalidade das determinações”. Trata-se de uma formulação profundamente marcada pela herança hegeliana. Não significa a soma de todas as características de um objeto, mas o conjunto articulado de suas mediações e relações constitutivas. É precisamente por isso que Lukács insiste que nenhuma prática e nenhuma teoria possuem jamais, prinzipiell niemals — “por princípio, jamais” — essa totalidade como base de conhecimento. Não se trata de uma limitação histórica ou técnica. Trata-se de uma impossibilidade ontológica. A realidade é infinitamente mais rica do que qualquer apreensão humana dela.


Daí decorre o dilema fundamental da práxis e do conhecimento. Toda ação e toda teoria estão necessariamente orientadas para a apreensão da totalidade das determinações, mas são obrigadas, ao mesmo tempo, a renunciar parcialmente a essa exigência. A atividade humana precisa conhecer o suficiente para agir, mas jamais pode conhecer tudo. É exatamente nesse ponto que a frase de Marx adquire seu significado ontológico mais profundo.


Os homens realizam continuamente operações práticas que pressupõem categorias, relações e determinações que ultrapassam sua consciência imediata. Eles não sabem plenamente o que fazem, mas o fazem. A prática social contém sempre mais racionalidade objetiva do que aquela que os indivíduos conseguem explicitar teoricamente.

Assim, a análise filológica do texto revela que palavras como auftauchen, setzen, Abbild, Gegenständlichkeit, Ansichsein, Bestimmung e Totalität não são meros termos técnicos. Elas formam um campo semântico coerente que sustenta toda a concepção ontológica de Lukács.


As categorias não são invenções do pensamento nem construções subjetivas da consciência. Elas são formas objetivas do ser que emergem inicialmente na práxis, muito antes de serem reconhecidas pela teoria. É por isso que a fórmula marxiana Sie wissen das nicht, aber sie tun es torna-se, em Lukács, muito mais do que uma observação sobre o fetichismo da mercadoria: ela expressa uma verdade fundamental da ontologia do ser social. A humanidade age, produz, transforma e reproduz o mundo antes de compreendê-lo plenamente, e a teoria surge precisamente como tentativa de tornar consciente aquilo que a prática já realizava de forma objetiva e efetiva.

 

11

Diz Lukács: “Até aqui investigamos apenas as novas alternativas relacionadas à própria economia. Marx fala, todavia, na passagem citada, com clareza inequívoca, sobre a essência do reino da liberdade, cujos pressupostos constituem o objeto dessas alternativas. Ele diz sobre a relação do reino da liberdade com o reino da necessidade: »Além dele é que começa o desenvolvimento das forças humanas, considerado como um fim em si mesmo«. Ele não se esquece, todavia, de acrescentar que o reino da necessidade tem de permanecer a base indispensável do florescimento que assim surge. Apenas nessa conexão »o desenvolvimento das forças humanas, considerado como um fim em si mesmo«, adquire seu sentido concreto. Já falamos sobre o trabalho como a primeira base do processo de vida humano; igualmente mostramos que a indissolúvel duplicidade no real tornar-se-humano dos seres humanos, seu desenvolvimento quer como ser genérico quer ao mesmo tempo como individualidade, brota, tomado no sentido mais amplo, do processo de trabalho. Deve-se, para esse processo ser corretamente entendido, apreender essa sua duplicidade tanto na separabilidade quanto na unificação dos momentos. As questões que os processos econômicos levantam na transformação dinâmica das formações, através de cujas respostas os seres humanos singulares se formam e se desdobram tanto como ser genérico quanto como individualidade, têm, de fato, a base de sua realidade última nas objetividades economicamente determinadas de seu respectivo presente, todavia, vão ininterruptamente para além dessa imediaticidade no mundo ambiente ontológico fundado antes de tudo sobre a divisão de trabalho social. Esse ir para além, contudo, é determinado, por último, pelo processo de produção material; se uma determinada tomada de posição espiritual se independentiza, é sempre existente uma necessidade social como seu motor. Essa conexão não precisa ser, de modo algum, uma conexão consciente; mesmo na realidade o é apenas em casos extremamente excepcionais. »Eles não sabem, mas fazem«, diz Marx sobre a práxis social dos seres humanos, e pode-se dizer que quanto mais é distante uma tal práxis do processo de produção no sentido estrito, tanto menor é a probabilidade de que seja executada com a consciência correta sobre suas próprias bases e funções sociais”. [p.462]


Essa passagem da Ontologia do Ser Social é particularmente importante porque nela Lukács – como temos enfatizado exaustivamente - amplia consideravelmente o significado da célebre formulação de Marx — Sie wissen das nicht, aber sie tun es (“Eles não o sabem, mas o fazem”).


Em O Capital, Marx utiliza essa frase no contexto do fetichismo da mercadoria para indicar que os produtores de mercadorias realizam objetivamente determinadas relações sociais sem terem consciência delas. Ao trocar mercadorias, eles reduzem seus trabalhos concretos a trabalho humano abstrato, constituem o valor e reproduzem a forma social da produção mercantil, embora não saibam teoricamente que estão fazendo isso. Lukács, entretanto, retoma essa formulação e a transforma numa tese muito mais ampla sobre a natureza do ser social e sobre a relação entre consciência, práxis e desenvolvimento histórico.


O contexto da passagem é a discussão da distinção marxiana entre o reino da necessidade [Reich der Notwendigkeit] e o reino da liberdade [Reich der Freiheit]. Lukács comenta a conhecida passagem do Livro III de “O Capital” na qual Marx afirma que o verdadeiro reino da liberdade só pode começar para além da esfera da produção material imediata da vida. Contudo, Marx acrescenta imediatamente que o reino da necessidade jamais desaparece, permanecendo como fundamento permanente de toda vida humana. A liberdade não substitui a necessidade; ela surge sobre sua base. Quanto mais desenvolvida se torna a capacidade da sociedade de regular racionalmente seu metabolismo com a natureza, mais espaço se abre para atividades que possuem valor em si mesmas e não apenas como meios para a sobrevivência material.


Lukács utiliza essa distinção para desenvolver uma de suas teses centrais: o processo histórico de humanização possui uma estrutura dupla. O trabalho não produz apenas bens materiais. Ele produz simultaneamente o desenvolvimento do gênero humano [Gattung] e o desenvolvimento dos indivíduos concretos. É o que ele chama de “indissolúvel duplicidade” [unauflösliche Doppelheit] do tornar-se humano dos seres humanos.


Por um lado, a humanidade acumula capacidades, conhecimentos, técnicas, formas de cooperação e níveis cada vez mais elevados de sociabilidade. Por outro lado, os indivíduos singulares formam sua personalidade, sua consciência e sua individualidade no interior desse processo histórico. O desenvolvimento do gênero humano e o desenvolvimento dos indivíduos constituem momentos inseparáveis de uma mesma dinâmica.


Entretanto, esse processo não ocorre de forma transparente para os sujeitos que dele participam. As decisões individuais, os valores morais, as crenças religiosas, as orientações políticas, as formas artísticas, as teorias filosóficas e científicas possuem sua base última nas condições materiais historicamente determinadas da vida social.


Contudo, essa relação raramente é percebida pelos próprios indivíduos. Lukács afirma que os processos espirituais e culturais ultrapassam continuamente a imediaticidade econômica da qual surgem. A partir da divisão social do trabalho, formam-se esferas relativamente autônomas da vida social — política, arte, religião, filosofia, direito, ciência — que desenvolvem suas próprias formas internas de funcionamento. Porém, essa autonomia é sempre relativa. Nenhuma dessas esferas existe independentemente das necessidades sociais que a produziram.


Por isso Lukács escreve que, quando uma determinada tomada de posição espiritual se autonomiza, existe sempre uma necessidade social funcionando como seu motor. A escolha do termo Motor é extremamente significativa. Ele não fala em causa mecânica nem em determinação direta. A necessidade social atua como força impulsionadora do desenvolvimento das formas culturais e espirituais. Mesmo quando uma teoria filosófica parece existir apenas no plano das ideias, mesmo quando uma religião parece referir-se exclusivamente ao transcendente ou quando uma obra de arte parece expressar apenas sentimentos individuais, existe por trás delas uma necessidade social objetiva que impulsiona sua existência histórica.


É precisamente nesse contexto que Lukács introduz a frase de Marx: Sie wissen das nicht, aber sie tun es. Aqui ela já não se refere apenas ao funcionamento da economia mercantil. Ela passa a designar uma característica geral da vida social. Os seres humanos produzem continuamente instituições, valores, formas culturais, sistemas filosóficos, ideologias e práticas sociais sem compreender plenamente as determinações sociais que os levam a agir dessa maneira. A consciência imediata dos indivíduos normalmente não alcança as condições históricas que tornam possível sua própria atividade.


Essa observação é reforçada pela afirmação de Lukács de que a conexão entre as formas espirituais e suas bases sociais não precisa ser uma conexão consciente. Pelo contrário, ela quase nunca o é. Os indivíduos participam de processos sociais que possuem uma lógica objetiva independente daquilo que eles pensam sobre eles. A relação entre uma ideologia e as necessidades históricas que a produzem existe objetivamente, ainda que os sujeitos envolvidos a ignorem completamente. Essa é uma das razões pelas quais Lukács recupera a fórmula marxiana. Ela expressa uma característica estrutural da práxis social: os homens realizam continuamente processos cuja significação objetiva ultrapassa sua consciência.


Lukács acrescenta ainda uma observação particularmente importante. Quanto mais distante uma forma de práxis estiver do processo imediato de produção material, menor tende a ser a probabilidade de que seus agentes compreendam corretamente suas bases e funções sociais. Essa afirmação possui um alcance teórico enorme. O trabalhador diretamente envolvido na produção pode perceber mais facilmente certas determinações concretas de sua atividade, pois elas aparecem de forma relativamente visível em sua relação cotidiana com o trabalho. Já um filósofo, um jurista, um teólogo, um político ou um artista atuam em esferas muito mais mediadas da vida social. Por isso, a distância entre a consciência imediata e as determinações objetivas que sustentam sua atividade tende a aumentar.


Essa ideia está intimamente relacionada à teoria lukacsiana da ideologia. Para Lukács, a ideologia não deve ser entendida simplesmente como erro, ilusão ou mentira deliberada. Ela é uma forma necessária de consciência social. Os indivíduos interpretam o mundo a partir de sua posição histórica concreta e das mediações específicas que estruturam sua existência. Como a realidade social é infinitamente mais complexa do que aquilo que qualquer consciência individual pode apreender, surgem inevitavelmente formas de consciência que captam certos aspectos da realidade enquanto deixam outros na sombra. A ideologia não é, portanto, uma simples falsificação da realidade; é uma forma historicamente determinada de relação com ela.


Nesse sentido, a fórmula marxiana “eles não o sabem, mas o fazem” adquire um significado ontológico muito profundo. Ela deixa de ser apenas uma observação sobre o fetichismo da mercadoria e torna-se uma caracterização geral do ser social. Os homens fazem a história sem conhecer plenamente as determinações históricas que orientam suas ações. Produzem instituições que não compreendem integralmente. Criam sistemas filosóficos sem perceber todas as necessidades sociais que lhes deram origem. Defendem valores morais cuja gênese histórica lhes permanece oculta. Constroem formas de vida que possuem funções sociais muito mais amplas do que aquelas que imaginam conscientemente.


Por isso, quando Lukács utiliza a frase de Marx nessa passagem, ele está afirmando algo muito mais amplo do que a simples existência de ignorância subjetiva. O que está em jogo é uma característica constitutiva da própria ontologia do ser social. A realidade social é sempre mais rica, mais profunda e mais complexa do que a consciência que os indivíduos possuem dela. 


A práxis humana produz continuamente resultados que ultrapassam as intenções conscientes dos agentes. Os homens sabem algo sobre o que fazem, mas jamais sabem tudo. É justamente essa diferença permanente entre a riqueza objetiva do processo social e a limitação inevitável da consciência individual que permite compreender por que a história humana avança através de ações cujos efeitos, significados e determinações ultrapassam constantemente o horizonte imediato daqueles que as realizam. Em Lukács, portanto, a frase de Marx exprime uma lei fundamental do ser social: os homens fazem o mundo social e histórico em que vivem, mas raramente compreendem integralmente as forças objetivas que orientam sua própria atividade.


Observações filológicas


Do ponto de vista filológico, essa passagem da Ontologia do Ser Social é extremamente rica porque nela Lukács articula categorias centrais de sua ontologia tardia com conceitos fundamentais herdados de Marx e Hegel. Uma leitura atenta do texto alemão permite perceber que sua argumentação não é construída apenas por meio de teses teóricas, mas também através de um vocabulário cuidadosamente escolhido, no qual cada termo carrega uma história filosófica específica. O tema geral da passagem é a relação entre o reino da necessidade e o reino da liberdade, o desenvolvimento das capacidades humanas, a formação simultânea do gênero humano e da individualidade, a autonomização relativa das formas espirituais e a inconsciência constitutiva da práxis social, expressa na fórmula marxiana Sie wissen das nicht, aber sie tun es.


A passagem começa retomando uma das formulações mais célebres de Marx sobre o reino da liberdade. Lukács cita a expressão segundo a qual, para além do reino da necessidade, inicia-se die menschliche Kraftentfaltung, die sich als Selbstzweck gilt, geralmente traduzida como “o desenvolvimento das forças humanas considerado como um fim em si mesmo”.


Entretanto, uma análise filológica mostra que o termo central aqui é Kraftentfaltung. Trata-se de uma palavra composta por Kraft (força, potência, capacidade) e Entfaltung (desdobramento, desenvolvimento, explicitação de algo que estava envolvido). O verbo correspondente, entfalten, significa literalmente “desdobrar”, como se abre algo que estava dobrado sobre si mesmo. Portanto, Kraftentfaltung não designa simplesmente crescimento ou expansão quantitativa; indica o processo pelo qual potencialidades latentes tornam-se efetivas. Há aqui uma proximidade evidente tanto com a tradição aristotélica da passagem da potência ao ato quanto com a concepção hegeliana de desenvolvimento como explicitação de determinações já presentes de forma potencial.


A própria expressão Selbstzweck também merece atenção. Ela é formada por Selbst (si mesmo) e Zweck (fim, finalidade). Significa literalmente “finalidade em si mesma”. Marx e Lukács contrapõem essa ideia às atividades próprias do reino da necessidade, nas quais o trabalho aparece como meio para alcançar um objetivo externo, sobretudo a reprodução material da vida. No reino da liberdade, ao contrário, o desenvolvimento das capacidades humanas transforma-se em finalidade própria. O ser humano passa a realizar atividades cujo valor não reside apenas em sua utilidade externa, mas no próprio processo de realização das potencialidades humanas.


Lukács prossegue afirmando que esse desenvolvimento só pode ser compreendido corretamente se levarmos em conta aquilo que ele chama de die untrennbare Doppelseitigkeit im realen Menschwerden des Menschen, expressão que poderia ser traduzida como “a inseparável duplicidade do tornar-se humano do homem”.


Aqui encontramos duas palavras particularmente importantes. A primeira é Doppelseitigkeit. Embora frequentemente traduzida por “duplicidade” ou “dualidade”, seu sentido literal é “dupla face” ou “dupla lateralidade”, pois deriva de doppelt (duplo) e Seite (lado). A ideia não é a de duas realidades independentes, mas de dois aspectos inseparáveis de um mesmo processo. A segunda palavra é Menschwerden, um termo profundamente marcado pela tradição hegeliana. Literalmente significa “tornar-se humano”. A humanidade não é concebida como uma essência pronta e acabada; ela é um processo histórico permanente de humanização. O homem torna-se humano através da atividade prática, sobretudo através do trabalho.


Esse processo possui, segundo Lukács, uma estrutura dupla. Por um lado, desenvolve-se o gênero humano enquanto totalidade histórica; por outro, desenvolvem-se os indivíduos concretos. É por isso que ele utiliza a categoria marxiana de Gattungswesen, tradicionalmente traduzida como “ser genérico”. Filologicamente, a palavra é composta por Gattung (gênero, espécie) e Wesen (essência, ser).


Contudo, em Marx, Gattungswesen não significa simplesmente pertencimento biológico à espécie humana. Refere-se à capacidade especificamente humana de objetivar-se universalmente, de produzir um mundo social, histórico e cultural que transcende a mera reprodução biológica. Lukács contrapõe essa dimensão universal à Individualität, a individualidade concreta. O desenvolvimento histórico é simultaneamente um processo de universalização do gênero humano e de individuação dos sujeitos.


Para descrever essa relação, Lukács emprega ainda o termo Gedoppeltheit, que também costuma ser traduzido por “duplicidade”. Entretanto, sua filologia sugere algo mais preciso. A palavra deriva do verbo doppeln (duplicar) e indica uma estrutura de dupla determinação. O gênero humano e a individualidade não são polos externos que posteriormente entram em relação; são momentos constitutivos de uma mesma totalidade. O indivíduo só se torna verdadeiramente indivíduo através do desenvolvimento histórico do gênero, e o gênero só se realiza através da atividade dos indivíduos concretos.


A seguir, Lukács afirma que as formas superiores da vida social possuem sua base última nas objetividades economicamente determinadas da época histórica correspondente. Aqui aparece a expressão die Basis ihrer letzthinnigen Realität. O adjetivo letzthinnig significa algo como “último”, “derradeiro”, “fundamental”.


Portanto, Lukács não está afirmando que a economia seja a causa mecânica de todas as formas espirituais. Ele afirma que ela constitui sua realidade última, seu fundamento ontológico mais profundo. Trata-se de uma formulação muito diferente do economicismo vulgar. As formas culturais, políticas, jurídicas e ideológicas possuem relativa autonomia, mas essa autonomia repousa sobre um fundamento material historicamente determinado.


Essa autonomia relativa aparece na expressão gehen über diese Unmittelbarkeit hinaus. (ir além dessa imediaticidade). O verbo hinausgehen significa literalmente “ir para além”. Lukács quer dizer que as formas espirituais ultrapassam continuamente a imediaticidade econômica da qual surgem. Elas não permanecem presas à esfera da produção material. Desenvolvem lógicas próprias, linguagens próprias e dinâmicas relativamente autônomas. Contudo, esse ultrapassamento não significa ruptura. Trata-se de uma transcendência fundada. A esfera espiritual vai além da economia, mas continua dependente dela em última instância.


Esse ponto torna-se ainda mais claro quando Lukács escreve: wenn sich eine bestimmte geistige Stellungnahme verselbständigt ("quando uma determinada tomada de posição espiritual se autonomiza"). O termo geistige Stellungnahme é difícil de traduzir por uma única expressão. Literalmente significa “tomada de posição espiritual” ou “posição intelectual”. Refere-se a orientações ideológicas, filosóficas, religiosas, artísticas ou culturais. Já o verbo verselbständigen deriva de selbst (próprio) e significa “autonomizar-se”, “tornar-se independente”. Lukács está descrevendo o processo pelo qual determinadas formas de consciência adquirem dinâmica própria e parecem emancipar-se completamente de suas bases materiais.


Contudo, ele acrescenta imediatamente que sempre existe ein gesellschaftliches Bedürfnis als Motor ("uma necessidade social como motor"). Essa expressão é particularmente reveladora. Lukács não utiliza o termo Ursache (causa) nem Grund (fundamento), mas Motor (motor). A metáfora é dinâmica. As necessidades sociais não produzem mecanicamente as formas espirituais; elas as impulsionam, fornecem a energia que sustenta seu desenvolvimento histórico. Toda ideologia, toda religião, toda filosofia e toda forma cultural responde, em última instância, a necessidades sociais objetivas.


É nesse contexto que aparece a famosa fórmula de Marx: “Sie wissen das nicht, aber sie tun es.” Aqui a filologia do pronome das é decisiva. Marx não diz simplesmente “eles não sabem”. Ele diz “eles não sabem isso”. O demonstrativo aponta para algo determinado: as condições sociais objetivas de sua própria atividade. Como temos salientado, em Lukács, essa fórmula deixa de referir-se apenas ao fetichismo da mercadoria e passa a caracterizar a totalidade da práxis social. Os indivíduos agem, criam instituições, defendem valores, elaboram filosofias, produzem arte e reproduzem formas de vida sem conhecer plenamente as necessidades sociais que impulsionam essas atividades.


Essa ideia é reforçada pela afirmação de que tal conexão não precisa ser bewußtseinsmäßig. Esse adjetivo significa literalmente “pertencente à consciência” ou “apreendido conscientemente”. Lukács insiste que a relação entre as formas espirituais e suas bases sociais não precisa ser consciente. Pelo contrário, ela raramente o é. Ele afirma inclusive que isso ocorre apenas em extremsten Ausnahmefällen, isto é, em casos extremamente excepcionais.


A conclusão da passagem reforça essa tese. Quanto mais distante uma forma de práxis estiver do processo produtivo em sentido estrito, menor será a probabilidade de que seus participantes possuam uma consciência correta de suas próprias bases sociais. O termo entfernter (“mais distante”) não se refere a uma distância espacial, mas a uma distância mediacional. Quanto mais complexa e mediada for uma esfera da vida social, mais difícil se torna perceber os fundamentos materiais que a sustentam. Um filósofo, um teólogo, um jurista ou um artista encontram-se normalmente mais afastados das determinações imediatas da produção do que um trabalhador diretamente envolvido nela. Por isso, a distância entre consciência e fundamento tende a aumentar.


A palavra decisiva nessa conclusão é Grundlagen, “fundamentos”. Lukács não está discutindo apenas origens históricas, mas os fundamentos estruturais da atividade social. Sua tese é que os indivíduos quase nunca possuem consciência adequada desses fundamentos. Eles realizam continuamente práticas cujos pressupostos e funções sociais lhes permanecem parcialmente ocultos.


Vista em seu conjunto, a filologia da passagem revela a coerência interna do vocabulário lukacsiano. Termos como Kraftentfaltung, Selbstzweck, Menschwerden, Gattungswesen, Gedoppeltheit, Gegenständlichkeit, hinausgehen, verselbständigen, Motor, bewußtseinsmäßig e Grundlagen pertencem todos a um mesmo campo semântico. Eles descrevem uma realidade social em que as formas espirituais se autonomizam relativamente, ultrapassam a imediaticidade econômica e desenvolvem uma dinâmica própria, mas continuam sendo impulsionadas por necessidades sociais objetivas que normalmente permanecem fora da consciência dos indivíduos.


É precisamente nesse contexto que a fórmula marxiana Sie wissen das nicht, aber sie tun es adquire seu significado ontológico mais amplo em Lukács. Ela exprime a ideia de que os humanos produzem continuamente a sociedade, a cultura, as ideologias, as instituições e a própria história sem conhecer plenamente os fundamentos sociais objetivos de sua atividade.

O ser social é mais profundo, mais complexo e mais rico do que a consciência que os indivíduos possuem dele, e é justamente essa diferença entre realidade objetiva e consciência subjetiva que torna possível o desenvolvimento histórico da humanidade.


12


Diz Lukács: “Aqui não importa Tolstói, nem diretamente também o estético. Teve apenas de ser mostrado quão elementar a grande arte, quando ela quer permanecer grande arte, pode abrir caminhos sob condições desfavoráveis, o quão é capaz, com necessidade social elementar, de despedaçar os mais petrificados fetiches da alienação e sua ideologia — para o indivíduo a partir do nível de seu próprio modo de vida e ideologia. O fato fundamental da vida social, de que o tornar-se-confronto fecundo com o próprio ser social, seu divisar e apreender, conduz à práxis autêntica — »não sabem, mas o fazem«, diz Marx — repete- -se aqui no plano mais elevado da luta ideológica pela libertação, a luta para o tornar-se-humano dos seres humanos em sua generidade para si. Naturalmente, não se pode »sociologicamente« reduzir ambos os movimentos ao mesmo denominador. A estrutura altamente similar, contudo — a despeito de todas as diferenças que vão até a opositividade —, é uma indicação justamente do quão fundamental é o caráter teleológico do trabalho, a práxis humana e a confrontação, com isso inseparavelmente ligada, com o ser em sua verdadeira forma, embora, como vimos, as confrontações no metabolismo com a natureza tenham uma estrutura, dinâmica, etc., muito diferente que nos estados de fato puramente sociais. Onde o dirimir dos conflitos cessa de ser imediatamente prático, esses complexos aqui descritos podem adentrar ao primeiro plano. Eles de fato estão contidos latentemente em todas as decisões próprias e essencialmente práticas e podem, sob circunstâncias, p. ex., em levantes revolucionários, vir à luz do dia com força explosiva; aqui, todavia, são eles, na média, subordinados às questões e respostas práticas cotidianas. Sua operatividade como componente comprova, todavia, que eles brotam do ser social e são convocados a promover (ou inibir) o seu progresso. A generidade para si em um polo e o ser humano não mais meramente particular [partikulare], que ultrapassando sua particularidade (Partikularität) no outro, são, portanto, realidades sociais, não meramente criações utópico-ideológicas do pensamento. [p. 680]


Essa passagem da Ontologia do Ser Social pertence a um dos momentos mais elevados da reflexão de Lukács, porque nela a célebre fórmula marxiana Sie wissen das nicht, aber sie tun es (“Eles não o sabem, mas o fazem”) deixa definitivamente o terreno da economia política e da constituição espontânea do ser social para alcançar o plano da emancipação humana, da arte, da ideologia e da formação daquilo que Lukács denomina Gattungsmäßigkeit für sich, isto é, a “generidade para si”.


O que está em questão aqui já não é apenas a maneira pela qual os homens produzem relações sociais sem compreendê-las plenamente, mas a forma pela qual podem começar a superar a alienação e aproximar-se de uma existência autenticamente humana antes mesmo de possuírem uma consciência teórica completa desse processo.


O ponto de partida da passagem é a reflexão sobre a grande arte. Lukács afirma que não está interessado diretamente em Tolstói nem propriamente em uma discussão estética especializada. O exemplo da arte serve para mostrar algo mais fundamental: a capacidade que a grande criação artística possui de romper os fetiches do estranhamento e de abrir caminhos para uma compreensão mais profunda da realidade social. Mesmo sob condições históricas desfavoráveis, a arte autêntica pode revelar aos indivíduos aspectos essenciais do mundo em que vivem que permanecem ocultos na experiência cotidiana. Ela é capaz de despedaçar aquilo que Lukács chama de “fetiches petrificados do estranhamento”, ou seja, aquelas formas de consciência que fazem as relações historicamente produzidas pelos homens aparecerem como naturais, inevitáveis e independentes da atividade humana.


A grande arte realiza essa tarefa não por meio de uma doutrina ou de uma teoria explícita, mas porque permite ao indivíduo confrontar-se com aspectos fundamentais de sua própria existência social. Ela rompe a aparência imediata das coisas e faz surgir uma percepção mais profunda da realidade. É justamente nesse contexto que Lukács introduz novamente a frase de Marx: Sie wissen das nicht, aber sie tun es.


Contudo, a fórmula assume aqui um significado diferente daquele que possuía nas passagens anteriores da “Ontologia”. Quando Lukács a utilizava para discutir a produção social, o fetichismo da mercadoria ou a constituição espontânea da personalidade, ela designava o fato de que os indivíduos participam de processos sociais cujos fundamentos e consequências desconhecem. Como salientamos acima, os homens produzem a sociedade, a história, as instituições e as formas de vida sem compreender plenamente o significado objetivo do que fazem. Agora, porém, a questão é mais elevada. Trata-se da própria luta pela emancipação humana.


Lukács escreve que o confronto fecundo com o próprio ser social conduz à práxis autêntica. A expressão alemã que utiliza — das fruchtbare Sich-Auseinandersetzen mit dem gesellschaftlichen Sein — é particularmente significativa. O verbo sich auseinandersetzen não significa apenas confrontar-se ou debater. Ele possui o sentido de decompor criticamente algo, distinguir seus elementos, esclarecer uma realidade confusa. Há nele a ideia de separar e analisar para compreender. Assim, o indivíduo passa a confrontar-se criticamente com o próprio ser social, com as estruturas objetivas da sociedade em que vive e com as formas de alienação que moldam sua existência.


Desse confronto nasce uma práxis autêntica. O indivíduo deixa de agir exclusivamente sob o impulso das determinações espontâneas da sociedade e começa a orientar sua ação a partir de uma compreensão crescente de sua situação histórica. Entretanto, mesmo nesse estágio superior, a consciência não coincide integralmente com a realidade. É precisamente por isso que Lukács retoma a fórmula de Marx. Também no processo de emancipação humana os indivíduos frequentemente realizam mais do que compreendem teoricamente. Muitas vezes começam a romper os limites do estranhamento, a questionar os fetiches existentes e a transformar sua relação com o mundo antes mesmo de possuírem uma teoria acabada do que estão fazendo.


Nesse sentido, a frase “eles não o sabem, mas o fazem” reaparece agora num plano qualitativamente superior. Ela já não se refere apenas à reprodução inconsciente da sociedade. Refere-se também ao início de sua transformação consciente. Os indivíduos podem começar a agir em direção à liberdade antes de compreenderem plenamente o significado histórico dessa ação. Podem participar de processos de emancipação que ultrapassam o horizonte imediato de sua consciência.


Lukács observa, entretanto, que não se deve reduzir sociologicamente os dois fenômenos ao mesmo denominador. Não se pode simplesmente identificar a produção espontânea da sociedade com a luta consciente pela libertação humana. Trata-se de processos qualitativamente diferentes. Contudo, existe entre eles uma estrutura comum. Ambos se enraízam na mesma característica fundamental do ser social: o caráter teleológico da práxis humana.


Aqui encontramos um dos núcleos mais profundos da ontologia lukacsiana. Desde o início de sua existência histórica, o ser humano relaciona-se com a realidade por meio do trabalho. O trabalho é a primeira forma de atividade teleológica. Nele o indivíduo estabelece um fim, confronta-se com as determinações objetivas do mundo e procura transformar a realidade de acordo com seus objetivos. O conhecimento surge precisamente dessa necessidade prática de agir sobre o real. Não nasce da contemplação passiva, mas da exigência de orientar uma atividade transformadora.


É por isso que Lukács afirma que o confronto com o ser em sua forma verdadeira permanece inseparavelmente ligado ao caráter teleológico da práxis. Mesmo nas formas mais elevadas da vida espiritual — arte, filosofia, ideologia, política — continua presente essa estrutura originária. O conhecimento continua sendo uma forma de relação prática com a realidade. A busca da verdade continua ligada à necessidade de orientar a ação humana.

A passagem prossegue mostrando que esses processos normalmente permanecem latentes na vida cotidiana.


Os indivíduos vivem, trabalham, tomam decisões, formulam juízos morais e políticos sem refletir continuamente sobre a totalidade do ser social. Entretanto, as potencialidades para uma compreensão mais profunda da realidade estão sempre presentes. Lukács afirma que elas se encontram latentemente contidas em todas as decisões verdadeiramente práticas. Toda ação humana possui uma relação potencial com a totalidade social, mesmo quando essa relação não é conscientemente percebida.


Em determinadas circunstâncias históricas, porém, aquilo que permanece latente pode tornar-se explícito. Lukács menciona como exemplo os levantes revolucionários. Em situações revolucionárias, as contradições fundamentais da sociedade emergem à superfície. Os indivíduos passam a perceber com intensidade incomum sua inserção na totalidade histórica. A relação entre suas ações particulares e o destino coletivo torna-se mais visível. A consciência histórica amplia-se de forma súbita e aquilo que normalmente permanece oculto manifesta-se com força explosiva.


Contudo, mesmo fora desses momentos excepcionais, tais tendências continuam existindo e operando silenciosamente na vida social. Elas constituem componentes permanentes do ser social. Sua própria existência demonstra que não se trata de construções arbitrárias do pensamento ou de fantasias utópicas. Elas brotam da própria realidade objetiva da vida humana.


É nesse contexto que aparece o conceito de Gattungsmäßigkeit für sich, a “generidade para si”. Lukács retoma aqui uma distinção fundamental da tradição hegeliano-marxista entre o “em si” [an sich] e o “para si” [für sich]. Os humanos pertencem objetivamente ao gênero humano. Essa pertença existe independentemente de sua consciência. Trata-se de uma generidade em si. Contudo, isso não significa que tenham consciência dessa condição. A generidade para si surge quando os indivíduos passam a reconhecer-se conscientemente como membros ativos da humanidade enquanto totalidade histórica. Surge quando a universalidade humana deixa de ser apenas uma realidade objetiva e torna-se também uma realidade consciente.


Ao lado dessa categoria aparece outra igualmente importante: a figura do ser humano que ultrapassa sua mera particularidade. Lukács distingue cuidadosamente entre partikulare (o particular) e Partikularität (a particularidade). O “homem meramente particular” é aquele encerrado nos limites imediatos de sua existência privada, de seus interesses imediatos e de seu horizonte restrito. Superar a particularidade não significa eliminar a individualidade. Significa, ao contrário, elevar a individualidade a um nível mais universal, no qual ela se reconhece como parte consciente da totalidade social e histórica.


Por isso Lukács conclui afirmando que tanto a generidade para si quanto o indivíduo que transcende sua mera particularidade são realidades sociais efetivas. Não se trata de ideais abstratos, de construções utópicas ou de simples invenções da imaginação filosófica. São possibilidades reais inscritas na própria estrutura do ser social. Decorrem das tendências objetivas do desenvolvimento histórico da humanidade.


Nesse contexto, a fórmula marxiana Sie wissen das nicht, aber sie tun es alcança talvez sua forma mais elevada em toda a “Ontologia do Ser Social”. Ela já não se refere apenas à produção de mercadorias, à reprodução das relações sociais ou à formação espontânea da personalidade. Refere-se agora ao próprio processo de emancipação humana. Os homens podem começar a romper os fetiches do estranhamento, a superar os limites de sua particularidade e a aproximar-se da generidade para si antes mesmo de possuírem uma consciência teórica completa desse movimento.


A prática emancipatória frequentemente antecede a plena consciência da emancipação. Assim como a humanidade produziu historicamente a sociedade sem compreender inteiramente o que fazia, pode também iniciar a construção de formas superiores de existência humana antes de compreender plenamente o significado histórico desse processo. A liberdade começa a ser produzida na prática antes de tornar-se completamente transparente para a consciência. É exatamente esse movimento que Lukács vê expresso, em seu nível mais elevado, na fórmula marxiana segundo a qual os homens “não sabem disso, mas o fazem”.


Observações filológicas


Do ponto de vista filológico, essa passagem da Ontologia do Ser Social é particularmente importante porque nela Lukács reúne algumas das categorias mais elevadas e maduras de sua reflexão: estranhamento [Entfremdung], fetichismo, práxis, teleologia, generidade para si [Gattungsmäßigkeit für sich], particularidade [Partikularität], emancipação humana e a famosa fórmula marxiana Sie wissen das nicht, aber sie tun es. O texto situa-se num nível muito diferente daquele em que Marx utilizou originalmente essa frase em “O Capital”. Ali ela servia para explicar a produção inconsciente das relações mercantis; aqui ela é deslocada para o terreno da libertação humana e da superação do estranhamento. É por isso que a análise filológica do vocabulário utilizado por Lukács revela um conteúdo ontológico de enorme profundidade.


A passagem inicia-se com uma observação metodológica importante. Lukács afirma: Es kommt hier nicht auf Tolstoi, auch nicht direkt auf das Ästhetische an. A tradução literal seria: “Aqui não se trata de Tolstói, nem diretamente do estético”. O verbo ankommen auf possui um significado específico. Não quer dizer simplesmente “falar sobre”, mas “ser decisivo”, “ser a questão central”. Com essa formulação, Lukács deixa claro que Tolstói é apenas um exemplo. Seu verdadeiro problema não é a crítica literária nem a teoria estética em sentido estrito. O que está em jogo é uma questão ontológica: a capacidade que determinadas formas da cultura, especialmente a grande arte, possuem de romper os mecanismos do estranhamento.


Essa ideia aparece logo na expressão seguinte: wie elementar die große Kunst sich Bahn brechen kann. O verbo sich Bahn brechen é extremamente expressivo. Literalmente significa “abrir caminho rompendo obstáculos”, “forçar passagem”. A imagem evocada é a de uma corrente de água que rompe uma barragem ou de uma planta que atravessa uma superfície endurecida. Lukács está afirmando que a grande arte possui uma força objetiva capaz de abrir passagem mesmo sob as condições históricas mais desfavoráveis. Ela não depende simplesmente da boa vontade dos indivíduos; possui uma potência própria de revelação da realidade.


Essa capacidade decorre daquilo que ele chama de gesellschaftlich elementare Notwendigkeit, “uma necessidade social elementar”. A palavra decisiva é Notwendigkeit. Na tradição hegeliano-marxista, ela não significa mera inevitabilidade empírica. Refere-se a uma necessidade objetiva inscrita na estrutura do ser. Assim, Lukács não está dizendo que a arte ocasionalmente produz efeitos emancipatórios. Está afirmando que existe uma necessidade social profunda que faz com que a grande arte tenda a desempenhar essa função.


É nesse contexto que surge uma das expressões mais significativas da passagem: die erstarrtesten Fetische der Entfremdung. Traduzida literalmente, ela significa “os fetiches mais petrificados do estranhamento”. O adjetivo erstarrt designa algo endurecido, congelado, petrificado. Não se trata de simples ilusões passageiras, mas de formas de consciência que se cristalizaram historicamente e passaram a parecer naturais.


Aqui encontramos uma conexão muito interessante entre fetichismo e estranhamento. Lukács não fala simplesmente em fetiches da mercadoria ou do capital. Fala em “fetiches do estranhamento”. O fetiche aparece como uma forma cristalizada de estranhamento, uma estrutura mental que impede os indivíduos de perceberem a realidade social em sua verdadeira configuração.


Esses fetiches operam no nível daquilo que Lukács chama de Lebensführung, a “condução da vida”. O termo possui uma longa tradição na sociologia alemã, especialmente em Max Weber. Não se refere apenas ao estilo de vida, mas à maneira concreta pela qual os indivíduos organizam sua existência cotidiana. A arte autêntica possui a capacidade de intervir exatamente nesse plano, transformando a relação que o indivíduo mantém com sua própria vida.


É nesse momento que Lukács introduz uma expressão central: das fruchtbare Konfrontiertwerden mit dem gesellschaftlichen Sein. Literalmente: “o ser colocado em confronto fecundo com o ser social”. A formulação é extremamente significativa. Ele não utiliza um verbo ativo, como “confrontar-se”, mas a forma passiva Konfrontiertwerden (“ser confrontado”). O indivíduo é colocado diante da realidade social de maneira inevitável. A arte realiza precisamente essa função: obriga o sujeito a confrontar-se com aspectos do mundo social que normalmente permanecem invisíveis.


O adjetivo fruchtbar também merece atenção. Significa fecundo, produtivo, gerador. Não se trata de qualquer confronto. É um confronto que produz transformação. A partir dele, o indivíduo passa a perceber aspectos fundamentais da realidade que anteriormente estavam ocultos.


Lukács descreve esse movimento utilizando dois verbos cuidadosamente escolhidos: Erblicken e Erfassen. O primeiro significa divisar, avistar, perceber intuitivamente. O segundo significa apreender, compreender conceitualmente. A sequência é importante. Primeiro o indivíduo vê; depois compreende. A arte possui precisamente essa função mediadora. Ela permite divisar algo da realidade social e, a partir daí, abre a possibilidade de compreendê-la.


Esse processo conduz àquilo que Lukács denomina echte Praxis, a “práxis autêntica”. O adjetivo echt significa verdadeiro, genuíno, autêntico. A práxis autêntica surge quando o indivíduo passa a relacionar-se com a realidade social a partir de uma compreensão mais profunda de sua estrutura.


É nesse contexto que reaparece a frase de Marx: Sie wissen das nicht, aber sie tun es. Contudo, aqui ela assume um significado novo e mais elevado. Nas passagens anteriores da “Ontologia”, a fórmula descrevia a produção do valor, a reprodução das relações sociais ou a constituição espontânea da personalidade. Agora ela se refere ao processo de emancipação humana. O indivíduo pode começar a romper os fetiches do estranhamento antes de compreender plenamente o que está fazendo. Pode iniciar sua libertação prática antes de possuir uma teoria completa da libertação.


Lukács afirma explicitamente que essa estrutura reaparece auf der höchsten Ebene des ideologischen Befreiungskampfes, isto é, “no mais elevado nível da luta ideológica pela libertação”. A expressão é extremamente importante. O processo emancipatório não começa necessariamente com uma consciência teórica acabada. Muitas vezes a prática antecede a teoria. Os indivíduos podem agir em direção à liberdade antes de compreender inteiramente o significado histórico dessa ação.


O objetivo desse processo é aquilo que Lukács denomina das Menschwerden des Menschen in seiner Gattungsmäßigkeit für sich, o tornar-se humano do homem em sua generidade para si. Encontramos aqui novamente o conceito de Menschwerden, o tornar-se humano. O homem não é uma essência acabada; é um processo permanente de humanização. E essa humanização atinge um novo patamar quando a humanidade se torna consciente de si mesma enquanto gênero.


É precisamente isso que significa Gattungsmäßigkeit für sich. A expressão retoma a distinção hegeliana entre an sich (em si) e für sich (para si). A humanidade existe objetivamente enquanto gênero. Essa é sua existência em si. Contudo, a humanidade nem sempre possui consciência dessa condição. A generidade para si surge quando os indivíduos passam a reconhecer-se conscientemente como membros ativos da humanidade enquanto totalidade histórica.


Lukács adverte, entretanto, que não se deve reduzir sociologicamente os diferentes processos de reprodução social e emancipação ao mesmo denominador. Eles são distintos. Contudo, possuem uma estrutura profundamente semelhante. Essa semelhança revela algo fundamental: o caráter teleológico do trabalho e da práxis humana.


A categoria decisiva aqui é der teleologische Charakter der Arbeit. O trabalho é a forma originária de atividade humana orientada por fins. É nele que surge a necessidade de confrontar-se com a realidade objetiva para transformá-la. Por isso Lukács afirma que o confronto com o ser em sua verdadeira forma [das Sein in seiner wahren Gestalt] permanece inseparável da práxis. Mesmo nas formas mais elevadas da vida espiritual — arte, filosofia, política, ideologia — continua presente essa estrutura originária.


Em seguida, Lukács observa que esses processos de emancipação normalmente permanecem latentes na vida cotidiana. Estão latent enthalten, isto é, “contidos de forma latente” em todas as decisões verdadeiramente práticas. Eles não desaparecem; apenas permanecem ocultos. Em determinadas circunstâncias históricas, contudo, podem emergir com força extraordinária.


É por isso que ele menciona os processos revolucionários. Em momentos de transformação radical da sociedade, essas tendências latentes podem vir à luz mit explosiver Kraft, “com força explosiva”. A metáfora é reveladora. As possibilidades emancipatórias já existem no interior do ser social, mas normalmente permanecem subterrâneas. Em determinadas conjunturas históricas, porém, emergem de forma repentina e intensa.


Essa análise conduz Lukács à sua conclusão fundamental. Ele contrapõe dois polos.


De um lado, a Gattungsmäßigkeit für sich, a generidade para si. De outro, o ser humano que deixa de ser meramente partikular, meramente particular. Aqui a distinção entre partikulare Mensch e Partikularität é decisiva. O primeiro designa o indivíduo particular; o segundo, a particularidade enquanto forma de existência. Superar a particularidade não significa abolir a individualidade. Significa ultrapassar os limites estreitos da existência privada e reconhecer-se como parte consciente da humanidade enquanto totalidade histórica.


É por isso que Lukács acrescenta uma observação decisiva: superar a particularidade significa superar também o estranhamento [Entfremdung]. A alienação não é apenas econômica. Ela consiste igualmente no aprisionamento do indivíduo em sua existência particular isolada. A emancipação implica uma elevação da individualidade a um plano universal.


A conclusão da passagem sintetiza toda a sua argumentação.


A generidade para si e o indivíduo que supera sua particularidade estranhada não são fantasias filosóficas nem construções utópicas. Lukács insiste que se trata de gesellschaftliche Realitäten, realidades sociais. Não são meros ideologisch-utopische Denkgebilde, construções mentais ideológico-utópicas. São possibilidades efetivas inscritas na própria estrutura do ser social.


Nesse contexto, a fórmula marxiana Sie wissen das nicht, aber sie tun es alcança talvez sua expressão mais elevada em toda a “Ontologia do Ser Social”. Ela já não descreve apenas a reprodução inconsciente das relações sociais. Descreve o próprio início da emancipação humana.


Os indivíduos podem começar a romper os fetiches do estranhamento, a superar sua particularidade alienada e a aproximar-se da generidade para si antes mesmo de possuírem uma consciência teórica completa desse movimento.


A libertação começa na prática antes de tornar-se plenamente consciente. Assim como os homens produziram historicamente a sociedade sem compreender inteiramente o que faziam, podem também iniciar a construção de formas superiores de humanidade antes de compreender plenamente o significado desse processo. É justamente essa prioridade ontológica da práxis em relação à consciência que Lukács reconhece como uma das determinações mais profundas do ser social.


 
 
 

Comentários


bottom of page