Lukács e a expressão “Não sabem, mas o fazem” - 4
- 15 de jul.
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Nesta quarta postagem da série, voltamos nossa atenção para as três primeiras ocorrências da célebre formulação Sie wissen das nicht, aber sie tun es presentes no segundo volume da Ontologia do Ser Social, de György Lukács. Dando continuidade ao percurso desenvolvido nas postagens anteriores, tomamos como ponto de partida o levantamento realizado diretamente sobre o texto original em alemão da edição bilíngue publicada pelo Coletivo Veredas. O propósito permanece o mesmo: examinar cuidadosamente cada uma dessas passagens, acompanhando o modo pelo qual Lukács reinterpreta e desloca a sentença marxiana, até convertê-la em uma categoria de alcance decisivo para a elaboração de sua ontologia da práxis e do ser social.
Como observamos anteriormente, a frase Sie wissen das nicht, aber sie tun es ocupa uma posição singular no interior da reflexão lukacsiana. Trata-se, talvez, de uma das formulações de Marx que mais profundamente atravessam a arquitetura conceitual da Ontologia. Se, em sua origem, ela aparece vinculada à crítica do fetichismo da mercadoria, delimitando um aspecto específico das formas de objetivação próprias da sociedade capitalista, Lukács amplia de maneira significativa seu campo de inteligibilidade. A sentença deixa de remeter exclusivamente ao funcionamento da sociabilidade fundada no capital e passa a iluminar uma determinação constitutiva da própria práxis humana. Sob essa perspectiva, ela já não exprime apenas a inconsciência social produzida pelo fetichismo, mas revela um traço ontológico da atividade prática por meio da qual os indivíduos produzem e reproduzem o mundo social, frequentemente sem apreenderem de modo consciente a totalidade das determinações objetivas implicadas em sua ação.
É precisamente esse movimento de ampliação conceitual que procuraremos acompanhar na análise das passagens examinadas nesta postagem. Cada uma delas explicita uma nova mediação por meio da qual Lukács incorpora a conhecida sentença de Marx ao núcleo de sua investigação ontológica, conferindo-lhe uma densidade teórica que ultrapassa em muito seu contexto de formulação original. A célebre frase transforma-se, assim, em um dos fios condutores da reflexão lukacsiana sobre a gênese, o desenvolvimento e a reprodução do ser social, permitindo compreender como a objetividade histórica se constitui através de práticas cujo significado efetivo excede, de maneira recorrente, a consciência imediata dos sujeitos que as realizam.
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Diz Lukács: “[...] a pesquisa dos objetos e processos na natureza, que precede o pôr da causalidade pelo criar dos meios, é constituída, por sua essência, mesmo que não seja por muito tempo conscientemente reconhecida, de atos reais de conhecimento e, com isso, objetivamente contém o início, a gênese, da ciência. Aqui também vale o discernimento de Marx: “Não o sabem, mas o fazem”. Apenas mais tarde, neste capítulo, poderemos nos ocupar com as consequências muito amplas das conexões que assim emergem. Aqui, provisoriamente, apenas pode ser referido que todo conhecer e aplicar de conexões causais, portanto, todo pôr em uma causalidade real, figura de fato no trabalho como meio para uma finalidade singular; objetivamente, contudo, tem a propriedade de ser também aplicado a outra finalidade, mesmo a uma imediatamente inteiramente heterogênea. Por mais longamente que se possa ter tido apenas uma consciência puramente prática, em toda aplicação com sucesso a uma nova esfera, faticamente têm lugar corretas abstrações, as quais, em sua estrutura interna objetiva, já têm em si importantes marcas do pensamento científico. Já a história das ciências até aqui, ainda que esse problema raramente se coloque com plena consciência, mostra em quantos casos se originaram legalidades gerais, altamente abstratas a partir da experiência das necessidades práticas, do melhor tipo de sua satisfação, i.e., pela indagação dos melhores meios no trabalho. Mas, mesmo à parte disto, mostra a história muitos exemplos de que realizações do trabalho, amplamente abstraídas — e nós acabamos de referir que tais generalizações no processo de trabalho emergem necessariamente — podem resultar em bases para uma já pura consideração científica da natureza. É em geral reconhecida, p. ex., uma tal gênese da geometria. Aqui não é o lugar de tratar mais de perto desse complexo de questões, basta apontar um interessante caso indicado por Bernal, apoiado em investigações especializadas de Needham, sobre a astronomia chinesa antiga. Diz que apenas após a invenção da roda, tornou-se possível imitar com precisão o movimento circular do céu ao redor dos polos. Parece que a astronomia chinesa partiu desta ideia de rotação. Até então, o mundo celestial fora tratado como o nosso. Da sua tendência inerente a tornar-se independente da pesquisa dos meios na preparação e implementação do processo de trabalho, se eleva, portanto, o pensamento cientificamente dirigido e procede mais tarde às diferentes ciências naturais.” [p.24]
Nessa passagem do Volume II da Ontologia do Ser Social, Lukács desenvolve uma das teses mais originais de sua interpretação materialista da história do conhecimento: a ciência nasce do trabalho. Mais precisamente, ela surge do processo pelo qual os seres humanos, para realizar seus fins práticos, são obrigados a investigar os objetos e processos da natureza, descobrindo neles nexos causais objetivos que podem ser utilizados na transformação do mundo.
O que Lukács procura demonstrar é que a gênese da ciência não deve ser buscada na contemplação desinteressada da realidade nem em uma suposta inclinação natural do espírito humano para o conhecimento abstrato, mas no metabolismo social entre homem e natureza mediado pelo trabalho.
O ponto de partida da argumentação é a observação de que todo processo de trabalho exige uma investigação prévia das propriedades dos objetos naturais. Antes de fabricar uma ferramenta, construir uma habitação ou cultivar a terra, os homens precisam conhecer certas características dos materiais com que trabalham. Devem descobrir quais pedras cortam melhor, quais madeiras resistem mais ao peso, quais plantas são comestíveis, quais animais podem ser domesticados e quais ciclos naturais precisam ser respeitados. Esse conhecimento não surge inicialmente como ciência consciente. Os homens não sabem que estão produzindo conhecimento científico.
Entretanto, ao realizarem tais investigações, executam efetivos atos de conhecimento [Erkenntnisakte]. É por isso que Lukács retoma a famosa frase de Marx: Sie wissen das nicht, aber sie tun es — “Eles não sabem disso, mas o fazem.”
Os homens pré-históricos não possuíam física, química ou biologia, mas produziam objetivamente os pressupostos a partir dos quais essas ciências poderiam surgir.
A questão central para Lukács é que toda descoberta de uma relação causal possui uma característica ontológica muito particular. Ela nasce para resolver um problema concreto e imediato, mas contém potencialmente algo que ultrapassa esse contexto específico.
Quando um grupo humano descobre que determinado tipo de pedra produz uma lâmina mais eficiente, essa descoberta parece inicialmente restrita à fabricação de instrumentos de corte. No entanto, o conhecimento causal envolvido pode posteriormente ser aplicado em situações completamente diferentes. Uma relação causal descoberta em um campo pode ser transferida para outro. Um procedimento técnico criado para um problema específico pode tornar-se útil em contextos inteiramente distintos. É justamente aí que surge a possibilidade da abstração.
Lukács chama atenção para o fato de que, cada vez que uma relação causal é aplicada com sucesso em um novo domínio, realiza-se uma abstração correta. Ainda que essa abstração permaneça por muito tempo apenas implícita na prática, ela já possui uma estrutura interna que antecipa o pensamento científico. O homem começa a separar mentalmente a relação causal da situação concreta em que ela foi originalmente descoberta. Ele percebe, ainda que de forma prática e não teórica, que uma determinada conexão objetiva vale para múltiplos casos.
Surge assim a generalização. E a generalização é um dos fundamentos da ciência.
Por isso Lukács afirma que a própria história das ciências revela inúmeros exemplos em que leis extremamente gerais e abstratas tiveram origem em necessidades práticas. As grandes descobertas científicas não surgiram inicialmente de uma contemplação pura da natureza, mas da busca pelos meios mais adequados para satisfazer necessidades humanas.
O trabalho cria problemas; a resolução desses problemas exige conhecimento; o conhecimento produz abstrações; e essas abstrações convertem-se progressivamente em ciência. A ciência aparece, portanto, como um desenvolvimento imanente das exigências cognitivas do trabalho.
O exemplo da geometria é particularmente esclarecedor. Tradicionalmente, a geometria é apresentada como uma das formas mais elevadas do pensamento abstrato. Contudo, sua origem histórica encontra-se em necessidades extremamente concretas: medir terras, construir edificações, traçar canais de irrigação, organizar cidades e delimitar propriedades. O pensamento geométrico emerge da prática. A abstração matemática não nasce fora do mundo material, mas da tentativa de resolver problemas colocados pela atividade produtiva.
O exemplo da astronomia chinesa, mencionado por Lukács a partir de Bernal e Needham, aprofunda ainda mais essa ideia. Segundo essa hipótese histórica, somente após a invenção da roda tornou-se possível reproduzir materialmente os movimentos circulares observados no céu. A experiência técnica da rotação teria fornecido um modelo para a interpretação dos movimentos celestes.
Em outras palavras, uma inovação surgida no trabalho material influenciou diretamente a forma de pensar o cosmos. Isso revela algo extremamente importante para a ontologia do conhecimento: os modelos científicos não derivam apenas da observação da natureza, mas também das formas históricas da prática social.
A maneira como os homens trabalham influencia a maneira como concebem o mundo.
É nesse sentido que Lukács afirma que o desenvolvimento do pensamento científico decorre da tendência inerente à própria investigação dos meios de trabalho. Ao procurar aperfeiçoar instrumentos, técnicas e procedimentos, os homens são levados a formular abstrações cada vez mais amplas.
Progressivamente, essas abstrações adquirem autonomia relativa em relação às necessidades práticas imediatas e transformam-se em investigação científica propriamente dita. Surgem então as diversas ciências naturais.
Entretanto, Lukács insiste que não se trata de um evento único ocorrido em algum momento remoto da história. Essa gênese repete-se continuamente. Em diferentes épocas e sob formas variadas, novas necessidades práticas geram novas formas de abstração e novos campos científicos.
Aqui emerge uma das observações mais profundas do texto. As hipóteses científicas mais sofisticadas apoiam-se frequentemente em imagens-modelo [Modellvorstellungen] que têm origem nas concepções ontológicas do cotidiano. Essas concepções cotidianas, por sua vez, estão estreitamente vinculadas às experiências de trabalho dominantes em cada época histórica.
As formas de produção influenciam as formas de percepção; as formas de percepção influenciam os modelos científicos. Isso não significa que a ciência seja uma simples projeção ideológica da vida cotidiana. As leis científicas continuam expressando determinações objetivas da realidade. Contudo, os caminhos históricos pelos quais essas determinações são descobertas são profundamente condicionados pelas experiências práticas da humanidade.
Por essa razão, muitas revoluções científicas possuem raízes em transformações graduais das visões de mundo produzidas pela vida cotidiana e pelo trabalho. Certas mudanças acumulam-se lentamente até que, em determinado momento, tornam-se qualitativamente novas e revolucionárias.
Uma transformação nas práticas sociais pode preparar silenciosamente uma transformação nas formas de pensar a natureza. A história da ciência aparece, assim, como parte da história geral do metabolismo entre humanidade e mundo objetivo.
O trecho final possui uma relevância especial para a compreensão da ciência contemporânea. Hoje, observa Lukács, a situação parece invertida. Em vez de o trabalho gerar diretamente a ciência, são as ciências organizadas que frequentemente realizam o trabalho preparatório para a indústria. Universidades, laboratórios e centros de pesquisa produzem conhecimentos que posteriormente são aplicados nos processos produtivos. Essa inversão aparente leva muitos a acreditar que a ciência tornou-se completamente independente do trabalho.
Contudo, Lukács rejeita essa interpretação. Ontologicamente, a relação fundamental permanece a mesma. A ciência continua enraizada na prática social. Apenas as mediações tornaram-se incomparavelmente mais complexas. Entre o trabalho imediato e a produção do conhecimento científico surgiram instituições, organizações e sistemas especializados que ocultam a origem prática desse processo.
É precisamente por isso que Lukács sugere a necessidade de uma análise ontológico-crítica da relação moderna entre ciência e indústria. Tal investigação deveria mostrar como a crescente integração da pesquisa científica ao aparelho produtivo influencia a própria ciência, seus problemas, seus métodos e seus objetivos.
Embora ele não desenvolva essa questão nesse momento da obra, a observação possui enorme atualidade. Ela aponta para problemas que hoje se manifestam na tecnociência, na pesquisa financiada por grandes corporações, na subordinação crescente da produção de conhecimento às exigências da acumulação de capital e na transformação da ciência em força produtiva direta.
Em síntese, a tese fundamental de Lukács é que a ciência não surge primeiro como teoria para depois ser aplicada à prática. O movimento histórico real é o inverso. O trabalho obriga os homens a descobrir causalidades objetivas; a descoberta dessas causalidades produz abstrações; as abstrações acumuladas tornam-se conhecimento científico.
Mesmo as formas mais elevadas da ciência permanecem ligadas, em última instância, às experiências históricas do trabalho humano. A famosa fórmula de Marx — “Eles não sabem disso, mas o fazem” — adquire aqui um significado decisivo: os homens produzem, por meio de sua atividade prática, as condições objetivas da ciência muito antes de compreenderem conscientemente a natureza desse próprio processo. A ciência aparece, assim, como um desenvolvimento histórico do trabalho e como um momento superior do metabolismo social entre humanidade e natureza.
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Diz Lukács: “Precisamente essa dependencialidade entre a receptividade consciente e os frequentes, e com importância vital, efeitos que ocorrem do mundo ambiente é ultrapassada no trabalho e na linguagem. O trabalho mais primitivo pressupõe um destacar-se da apercepção do que serve como objeto de trabalho, como instrumento de trabalho, etc., de tais relações como a há pouco descrita. Para poderem ser usadas no trabalho, suas propriedades devem ser reconhecidas em uma certa multilateralidade, em sua capacidade de reação em variadas relações, i.e., — tendencialmente — o ser-em-si das coisas em determinações essenciais e objetivamente determinadas. Disto brota um processo de abstração espontâneo e — por um tempo muito longo — certamente não executado conscientemente. Deva, p. ex., uma pedra ser utilizada para cortar, emergem determinações gerais como dureza, propriedade de ser afiada, etc., que são existentes em pedras externamente muito diferentes e que podem faltar em aparentemente muito similares. O mais primitivo trabalho deve ser praticamente precedido, portanto, por generalizações, abstrações de distintos tipos. Se o ser humano que executa esse ato tem ao menos um pressentimento de que executa uma abstração, nada tem a ver com o tópico; aqui vale a verdade marxiana por nós com frequência citada: “Não o sabem, mas fazem”. Fazem, contudo, não sozinhos, cada um por si, mas socialmente. A pedra mais primitivamente elaborada, mesmo a apanhada para o trabalho, é já um objeto no mundo, para o mundo do ser social: todos podem usá-la. Torna-se, aqui, uma propriedade inerente da própria objetividade que os objetos naturais, em sua ontologicidade original, não possuem. Deste ponto de vista, sua usabilidade social é casual. (O que, naturalmente, não exclui as suas determinações causais.) A objetividade social, portanto, é sempre uma geral.” [p.346]
Antes de entrar propriamente na análise da passagem, convém situar o problema que orienta a investigação de Lukács.
No segundo volume da Ontologia do Ser Social, o filósofo procura responder a uma questão decisiva para toda a ontologia do ser social: de onde provém a capacidade humana de abstração e por que ela deve ser compreendida como uma determinação originária do trabalho e da linguagem. Sua intenção consiste em demonstrar que a abstração não emerge, em primeiro lugar, da filosofia, da lógica formal ou da elaboração científica, mas da própria atividade prática mediante a qual os homens transformam a natureza e produzem as condições de sua existência. Trata-se, portanto, de uma crítica de grande alcance às concepções intelectualistas que situam a origem da abstração exclusivamente na consciência teórica.
Contra essa tradição, Lukács sustenta que a abstração é, antes de tudo, um momento constitutivo do próprio ser social.
O ponto de partida de sua argumentação encontra-se na comparação entre a percepção animal e a atividade humana.
No mundo biológico, observa Lukács, a percepção dos seres vivos permanece estreitamente subordinada aos estímulos que possuem relevância imediata para a conservação da vida. O animal apreende o alimento, identifica o perigo, reconhece o parceiro sexual ou localiza o abrigo porque essas situações respondem diretamente às exigências de sua reprodução biológica. Sua relação com o mundo permanece circunscrita à imediaticidade das necessidades vitais. Os objetos aparecem sempre inseridos em circunstâncias concretas e particulares, inseparáveis da situação específica em que são percebidos.
É justamente essa forma imediata de relação com a realidade que começa a ser superada com o aparecimento do trabalho e da linguagem.
Quando Lukács afirma que o trabalho rompe a dependência exclusiva da percepção imediata, está descrevendo uma transformação ontológica fundamental. A atividade humana deixa de orientar-se apenas pelas necessidades biológicas presentes e passa a apreender os objetos segundo propriedades relativamente estáveis, suscetíveis de serem mobilizadas em diferentes situações e para finalidades diversas. O mundo deixa de ser experimentado apenas como um conjunto de estímulos circunstanciais e passa a revelar determinações objetivas que podem ser reconhecidas, comparadas e utilizadas.
É nesse contexto que assume especial importância a expressão empregada por Lukács: o homem começa a apreender o objeto em seu Ansichsein, isto é, em seu ser-em-si.
A referência, entretanto, não deve ser confundida com a Ding an sich kantiana.
Lukács não pretende reintroduzir uma metafísica da coisa-em-si inacessível ao conhecimento. O que está em questão é algo muito distinto: a capacidade de identificar propriedades objetivas que pertencem ao objeto independentemente da situação imediata em que ele se apresenta. O trabalho inaugura precisamente essa forma de relação com a objetividade.
O exemplo utilizado pelo próprio Lukács é particularmente elucidativo.
Consideremos uma pedra destinada à fabricação de um instrumento cortante. Quem a seleciona não está interessado apenas naquela pedra singular enquanto objeto concreto. A escolha depende da identificação de determinadas propriedades gerais — sua dureza, resistência, possibilidade de ser afiada e capacidade de conservar um fio cortante. A ação prática já não é orientada pela aparência contingente do objeto, mas por determinações que podem repetir-se em inúmeros exemplares diferentes.
Aqui se produz uma inflexão decisiva. O indivíduo deixa de perceber apenas esta pedra específica para reconhecer propriedades que podem estar presentes em muitas outras. Uma pedra clara e outra escura podem compartilhar o mesmo grau de dureza; duas pedras visualmente semelhantes podem comportar-se de maneira inteiramente distinta quando submetidas ao trabalho. O critério da ação desloca-se, assim, da aparência sensível para as determinações objetivas do objeto.
É exatamente nesse deslocamento que Lukács identifica o primeiro núcleo da abstração.
A dureza não é uma pedra. Tampouco o são a resistência ou a possibilidade de afiação. Essas determinações não existem isoladamente, mas são propriedades abstraídas da multiplicidade dos objetos concretos. Toda atividade laborativa, por mais elementar que seja, pressupõe esse movimento intelectual de isolamento de características gerais.
Antes mesmo de utilizar uma ferramenta, o homem já realizou uma operação abstrativa: distinguiu mentalmente uma propriedade objetiva comum a diversos objetos singulares.
A originalidade da análise lukacsiana reside precisamente em mostrar que essa operação não nasce da especulação filosófica nem da elaboração científica. Ela emerge diretamente da práxis. O homem não necessita formular uma teoria da dureza para distinguir pedras resistentes de pedras frágeis, assim como não precisa conhecer mineralogia para selecionar materiais adequados à confecção de instrumentos. A abstração constitui um produto espontâneo da atividade prática. Ela se realiza objetivamente antes de tornar-se objeto de reflexão consciente.
É precisamente nesse ponto que Lukács retoma a célebre formulação de Marx: Sie wissen das nicht, aber sie tun es: "Eles não sabem disso, mas o fazem."
A referência adquire aqui um significado particularmente profundo. Os primeiros homens realizam abstrações muito antes de possuírem consciência do processo abstrativo que executam. Produzem conceitos práticos antes de elaborarem conceitos teóricos.
A práxis antecede a teoria; a objetividade antecede sua tematização consciente.
As categorias operam efetivamente na reprodução da vida social antes de se converterem em objeto do pensamento filosófico ou científico. Essa inversão metodológica constitui um dos fundamentos mais sólidos da ontologia lukacsiana.
Entretanto, a análise não se encerra na relação entre prática e abstração. Lukács introduz uma determinação ainda mais decisiva: essas abstrações não são produzidas por consciências isoladas, mas surgem desde o início como processos sociais. É nesse momento que sua investigação alcança uma das passagens mais densas de toda a discussão.
Quando uma pedra é selecionada, transformada e utilizada como instrumento de trabalho, ela deixa de existir exclusivamente como objeto natural. Continua sendo uma pedra, evidentemente, mas sua objetividade já não é apenas natural. Ela ingressa no mundo do ser social porque passa a integrar um complexo de relações humanas historicamente constituídas. Pode ser utilizada por outros indivíduos, transmitida entre gerações, reproduzida, aperfeiçoada ou tomada como modelo para a fabricação de novos instrumentos. Sua existência adquire uma determinação qualitativamente nova.
Não se trata de uma alteração física da pedra, mas de uma transformação ontológica de sua objetividade. Ela continua possuindo as mesmas propriedades naturais; contudo, passa a incorporar determinações sociais inexistentes na natureza enquanto tal. Sua identidade já não se esgota na materialidade física. Ela torna-se portadora de uma função social objetivada.
Essa formulação aproxima-se de maneira notável da problemática que Marx desenvolverá posteriormente ao investigar o valor, a mercadoria e as formas especificamente sociais da objetividade.
O trabalho introduz nos objetos determinações que não pertencem à natureza considerada isoladamente. A natureza produz pedras; somente a sociedade produz ferramentas. A pedra natural possui propriedades físico-químicas. A ferramenta conserva essas propriedades, mas acrescenta-lhes uma objetividade social que resulta da atividade humana coletiva.
É isso que Lukács pretende explicitar quando afirma que a pedra transformada converte-se em um objeto existente für die Welt des gesellschaftlichen Seins, isto é, "para o mundo do ser social". Sua utilidade deixa de restringir-se ao indivíduo que a produziu. Ela torna-se potencialmente compartilhável por toda a comunidade. Pode ser apropriada, reproduzida e utilizada por qualquer membro do grupo, incorporando uma forma de universalidade inexistente na natureza.
Daí decorre uma das afirmações mais importantes de toda a passagem: Die gesellschaftliche Gegenständlichkeit ist also immer eine Allgemeine: A objetividade social é, portanto, sempre uma objetividade geral.
Essa proposição condensa um dos núcleos fundamentais da ontologia lukacsiana. No âmbito da natureza, os objetos existem como singularidades concretas. Uma árvore é apenas aquela árvore; um rio é apenas aquele rio; uma pedra permanece uma pedra singular entre outras.
No ser social, entretanto, os objetos passam a incorporar determinações universais produzidas pela prática coletiva. Uma ferramenta já não representa apenas um exemplar isolado. Ela expressa um tipo, uma função, um modelo socialmente reconhecido. Sua significação ultrapassa sua existência individual porque nela se objetiva uma generalidade produzida historicamente.
Por essa razão, a objetividade social possui sempre caráter universal. Ela consiste em uma objetividade que já incorpora abstrações objetivadas, sedimentadas na própria materialidade dos produtos do trabalho.
Nesse ponto, a reflexão de Lukács estabelece uma ponte particularmente fecunda com categorias que Marx desenvolverá na crítica da economia política. O trabalho produz objetos que já condensam generalizações sociais objetivadas. Sob esse aspecto, a ferramenta primitiva pode ser compreendida como a primeira forma histórica de objetivação de uma abstração social: ela materializa um saber coletivo acerca das propriedades gerais da natureza e de suas possibilidades de utilização.
No capitalismo, esse mesmo movimento alcançará um grau incomparavelmente superior de desenvolvimento. Valor, dinheiro e capital constituem formas objetivas de abstrações sociais reais. Assim como a ferramenta incorpora uma generalidade produzida pelo trabalho coletivo, a mercadoria objetiva trabalho abstrato socialmente válido.
Há, contudo, uma diferença decisiva entre ambos os momentos históricos. Na ferramenta primitiva, a generalidade permanece imediatamente transparente, vinculada à sua utilidade concreta. Na sociedade capitalista, ao contrário, ela assume a forma fetichizada da objetividade do valor, ocultando sua própria gênese social sob a aparência de uma propriedade natural das coisas.
A análise desenvolvida por Lukács conduz, assim, a uma conclusão de grande alcance.
A capacidade humana de abstração não constitui um atributo originário da consciência teórica, mas nasce no próprio processo de trabalho. Para transformar a natureza em meio de ação, os homens precisam reconhecer propriedades gerais que transcendem a singularidade imediata dos objetos. Essas abstrações surgem espontaneamente da práxis, muito antes de serem formuladas conceitualmente. Produzem-se socialmente, sedimentam-se nos próprios produtos do trabalho e passam a integrar a objetividade do mundo humano. O trabalho revela-se, desse modo, não apenas como origem da técnica, mas também como fundamento ontológico da abstração, da generalização, do pensamento conceitual e, em última instância, da própria ciência. A objetividade social emerge precisamente quando os objetos deixam de existir apenas como singularidades naturais e passam a incorporar determinações universais produzidas pela atividade coletiva. É por essa razão que Lukács pode afirmar que a objetividade social é, desde sua gênese, uma objetividade essencialmente geral.
9
Diz Lukács: “O tornar-se-humano do ser humano nesse patamar do seu desdobramento é, todavia, ainda amplamente o resultado de um processo espontâneo, objetivo de desenvolvimento social, independente da atividade dos seres humanos singulares. Embora esse não seja mais que um processo peculiar de síntese dos atos singulares teleológicos dos seres humanos — claro, respondem a questões postas social-economicamente —, o seu curso, em sua totalidade (Gesamtheit) é totalmente causal, sem nenhuma teleologia, independentemente das intenções que chamaram à vida os atos teleológicos singulares, do saber e da consciência dos seres humanos que os puseram e os acompanharam. “Eles não o sabem, mas o fazem” foi a frase de Marx que citamos repetidamente. Nesse processo surge, igualmente com necessidade espontânea, a personalidade humana como resultado desse crescimento; de um lado, como mera necessidade de condensar na práxis em unidade as diferentes capacidades que surgem socialmente do ser humano, por outro lado e ao mesmo tempo como configuração, como tornar-se distinta daquela polarização do ser social, a qual seguidamente já foi falada. Em si, constitui, de fato, desde o primeiro início, o ser humano singular um polo do ser social, como complexo processual; todavia, a nova forma de generidade da humanidade que surge nesse movimento polar está, no início, apenas um pouco para além da »mudez« da vida pré-humana. A generidade humana trabalha permanentemente para sair da mudez animal, o que se funda na ontologicidade originária de que a adaptação humana ativa ao entorno, i.e., a sua conversão, através do trabalho que se torna sempre mais efetivo, cujo órgão é o acréscimo quantitativo da divisão do trabalho, cria, convertendo a natureza, recuando a barreira natural, um mundo sempre mais determinado socialmente, i.e., direcionado ao ser humano. Esse processo elementar do tornar-se-humano experimenta uma alteração qualitativa com o surgir da personalidade humana. O qualitativamente novo que aqui adentra significa, claro, todo um complexo de contradições essencialmente novas, mais elevadamente dispostas, cujo caráter comum consiste, antes de tudo, em que elas — condizentes, nisso, com as outras contradições sociais — não são jamais destacáveis do solo social de onde surgem, embora, em sentidos importantes, conduzam para além dele. Imediatamente, essas contradições se expressam na questão, já tratada, da relação entre o desenvolvimento ascendente das capacidades humanas singulares e da personalidade humana. Este não se permite separar daquele, e pode, muito facilmente e com muita frequência, o primeiro operar contra o desdobramento do último”. [p. 645]
A passagem da Ontologia do Ser Social em exame figura entre as mais densas e abrangentes de toda a elaboração teórica de György Lukács. Nela, o filósofo enfrenta uma das questões decisivas da ontologia marxista: de que modo os seres humanos produzem a história sem jamais dominarem plenamente o processo histórico em sua totalidade.
É precisamente no interior dessa problemática que reaparece a conhecida formulação de Marx — Sie wissen das nicht, aber sie tun es ("Eles não o sabem, mas o fazem"). Entretanto, sua função já não se limita à crítica do fetichismo da mercadoria ou das formas ideológicas da consciência. Lukács amplia consideravelmente seu alcance, convertendo-a numa categoria capaz de iluminar o próprio processo histórico de constituição da humanidade e da personalidade humana.
O ponto de partida de sua reflexão reside na ideia de que o processo de Menschwerdung, o tornar-se humano do ser humano, não se apresenta, em seus momentos originários, como resultado de um projeto conscientemente elaborado pelos indivíduos.
Durante extensos períodos da história, a humanização desenvolve-se como um movimento objetivo da própria vida social.
Convém observar que a noção de espontaneidade empregada por Lukács não possui qualquer afinidade com a ideia de acaso, contingência absoluta ou ausência de determinação. Ao contrário, ela designa um processo dotado de legalidades objetivas próprias, produzido pela atividade dos homens, mas cujo desenvolvimento ultrapassa continuamente o horizonte de sua consciência. Os indivíduos participam ativamente desse movimento; contudo, não o planejam nem o dirigem em sua totalidade.
É a partir dessa constatação que Lukács formula uma das teses fundamentais de sua ontologia do ser social. O desenvolvimento histórico constitui-se pelo entrelaçamento de uma multiplicidade de atos teleológicos individuais. Cada ser humano age orientado por finalidades determinadas; cada ato de trabalho representa uma teleologische Setzung, uma posição teleológica de finalidade.
Os indivíduos perseguem objetivos concretos, respondem a necessidades imediatas, formulam projetos, realizam escolhas. Todavia, quando o olhar se desloca do plano da ação singular para a Gesamtheit do processo histórico, torna-se evidente que o resultado global jamais coincide com qualquer finalidade conscientemente estabelecida por indivíduos ou coletividades particulares. A ação individual possui estrutura teleológica; o movimento histórico como totalidade apresenta caráter causal.
Essa distinção adquire importância decisiva porque permite a Lukács romper, de maneira rigorosa, com toda concepção teleológica da história.
O curso histórico não realiza um plano metafísico oculto, não obedece a uma Razão universal que conduziria silenciosamente os acontecimentos nem tampouco manifesta a vontade de um sujeito supra-histórico encarregado de dirigir a humanidade em direção a um destino previamente inscrito na realidade.
A história emerge da articulação objetiva de milhões de atos humanos orientados por finalidades particulares, mas o resultado dessa imensa rede de interações assume a forma de uma causalidade histórica que excede radicalmente as intenções conscientes de seus agentes.
É justamente nesse ponto que a célebre sentença de Marx adquire, na leitura lukacsiana, seu significado propriamente ontológico. Ao retomar a fórmula Sie wissen das nicht, aber sie tun es, Lukács procura demonstrar que os homens fazem a história sem saber plenamente que a fazem.
Mais ainda: produzem efeitos históricos que ultrapassam incomparavelmente os fins imediatos que orientam sua conduta. Cada indivíduo acredita perseguir interesses particulares, resolver problemas concretos ou realizar objetivos estritamente pessoais. Entretanto, essas mesmas ações participam, simultaneamente, da constituição de processos históricos muito mais amplos, cuja lógica objetiva lhes permanece, em larga medida, inacessível.
A sociedade constitui-se pela atividade consciente dos indivíduos, mas o desenvolvimento efetivo dessa atividade não se reduz ao conteúdo da consciência que eles possuem dela.
Quando Lukács afirma, por isso, que o processo histórico se desenvolve independentemente do saber e da consciência dos homens, não pretende diminuir o papel da subjetividade nem reduzir os indivíduos à condição de meros suportes passivos de forças objetivas. Sua tese é muito mais sutil. Os homens agem conscientemente em todas as situações concretas de sua existência; deliberam, escolhem, avaliam circunstâncias e orientam suas ações segundo finalidades determinadas. Aquilo que escapa ao domínio da consciência não é a ação imediata, mas a configuração histórica produzida pelo entrelaçamento de inúmeras ações semelhantes.
Os indivíduos sabem o que pretendem fazer em cada situação concreta, mas não podem antecipar a totalidade das consequências históricas produzidas quando seus atos se articulam aos de milhões de outros sujeitos distribuídos ao longo do tempo e do espaço social.
É precisamente essa diferença estrutural entre a teleologia da ação singular e a causalidade objetiva do processo histórico que constitui uma das contribuições mais originais da ontologia lukacsiana.
A história permanece sendo obra dos homens; contudo, aquilo que ela produz excede permanentemente o campo de visão daqueles que a produzem. A práxis humana possui, assim, uma objetividade própria que não pode ser deduzida da consciência subjetiva de seus agentes. A célebre sentença de Marx deixa, então, de referir-se exclusivamente ao fetichismo da mercadoria para tornar-se uma chave interpretativa da própria dinâmica do ser social: os homens fazem a história, mas a riqueza objetiva desse fazer ultrapassa continuamente aquilo que sabem, pretendem ou imaginam realizar.
A partir dessa formulação geral, Lukács introduz uma nova dimensão de sua investigação: o problema da constituição da Persönlichkeit. A personalidade não aparece como uma realidade originária da vida psíquica nem como simples produto da interioridade subjetiva. Tampouco resulta de um ato de vontade pelo qual o indivíduo decidiria tornar-se aquilo que é. Sua gênese deve ser procurada no próprio movimento histórico do gesellschaftliches Sein.
Em outras palavras, a personalidade emerge objetivamente do desenvolvimento da sociabilidade humana; ela constitui um momento necessário do processo de Menschwerdung.
Lukács identifica duas determinações fundamentais desse processo. A primeira decorre da crescente complexificação da vida social. À medida que a divisão do trabalho se amplia, que as formas de cooperação se multiplicam e que a reprodução da sociedade exige competências cada vez mais diferenciadas, os indivíduos são levados a desenvolver um conjunto igualmente diversificado de capacidades, conhecimentos, habilidades e formas de comportamento. Essa multiplicidade não pode permanecer dispersa. A própria prática social impõe a necessidade de integrá-la numa unidade relativamente estável, capaz de conferir continuidade à ação do indivíduo.
É dessa exigência objetiva de unificação que nasce a personalidade.
A Persönlichkeit, portanto, não representa uma essência interior preexistente ao mundo social. Ela constitui a forma pela qual o indivíduo organiza e articula, em uma totalidade relativamente coerente, as múltiplas determinações produzidas pelo desenvolvimento histórico da sociedade.
Sua unidade não elimina a diversidade das capacidades adquiridas; ao contrário, realiza-se precisamente mediante sua integração prática.
A personalidade é, assim, uma síntese histórica, continuamente produzida e transformada pelas mediações da vida social.
Esse processo, contudo, não pode ser compreendido apenas do ponto de vista da individualidade. Lukács o insere numa problemática mais ampla, que diz respeito à própria estrutura do ser social. É nesse contexto que introduz uma das categorias centrais de sua ontologia: a relação entre o indivíduo singular e a Gattungsmäßigkeit, a generidade humana.
Desde o início da existência propriamente humana, o indivíduo constitui um dos polos fundamentais do ser social. O outro polo, entretanto, não corresponde simplesmente ao conjunto dos indivíduos existentes nem à espécie concebida em sentido biológico. A Gattungsmäßigkeit designa a humanidade enquanto totalidade histórico-social, isto é, o complexo objetivo das relações, objetivações e capacidades produzidas ao longo do processo histórico.
Nos estágios iniciais da humanidade, porém, essa dimensão genérica ainda se encontrava em estado embrionário. A humanidade enquanto gênero histórico apenas começava a constituir-se.
É nesse contexto que Lukács emprega a notável imagem segundo a qual a nova forma de generidade humana ainda se encontrava apenas um pouco além da Stummheit [mudez] da vida pré-humana. A expressão possui uma densidade ontológica que ultrapassa em muito seu significado literal. A "mudez" de que fala Lukács não designa apenas a ausência de linguagem articulada. Refere-se, sobretudo, à incapacidade característica da vida animal de produzir uma história objetivada.
Os animais adaptam-se às condições do ambiente, reproduzem sua existência e estabelecem formas relativamente estáveis de comportamento. Entretanto, sua atividade não produz um mundo histórico cumulativo. Cada geração reinicia essencialmente o mesmo processo vital, sem que as objetivações adquiridas se convertam em patrimônio universal da espécie. Não há desenvolvimento progressivo da cultura, nem transformação sistemática da natureza por meio do trabalho, nem acumulação histórica das capacidades produzidas coletivamente.
A ruptura com essa condição ocorre precisamente quando o trabalho inaugura uma forma inteiramente nova de relação entre o homem e a natureza. O ser humano deixa de adaptar-se passivamente ao ambiente e passa a transformá-lo segundo finalidades conscientemente postas. Ao modificar a natureza, modifica simultaneamente as condições de sua própria existência e, com isso, transforma a si mesmo. A produção dos meios de vida converte-se, desde então, em produção da própria humanidade.
É por essa razão que Lukács afirma que a Gattungsmäßigkeit trabalha incessantemente para superar a mudez da vida animal. O desenvolvimento das forças produtivas, o aperfeiçoamento das formas de cooperação e a ampliação da divisão social do trabalho promovem aquilo que ele descreve como um progressivo recuo das barreiras naturais. A natureza não desaparece nem deixa de constituir o fundamento material da existência humana. O que se altera é sua forma de mediação.
As determinações imediatamente naturais cedem lugar, de maneira crescente, às determinações produzidas pela própria atividade social. O mundo em que vivem os homens torna-se cada vez menos um dado simplesmente natural e cada vez mais uma realidade historicamente produzida.
Entretanto, o aparecimento da personalidade introduz uma inflexão qualitativa nesse processo de humanização. Até esse momento, o desenvolvimento do ser social podia ser descrito principalmente como expansão objetiva das capacidades humanas. Com a constituição da Persönlichkeit, surge uma dimensão nova: a relação reflexiva do indivíduo consigo mesmo. O homem deixa de apenas participar objetivamente do desenvolvimento histórico e passa também a confrontar-se com sua própria existência, interrogando seus objetivos, valores, possibilidades e limites.
Esse movimento não elimina as determinações sociais que constituem o indivíduo. Ao contrário, torna-as ainda mais complexas. A personalidade parece manifestar-se como uma realidade interior, privada e autônoma, mas sua formação continua integralmente dependente das condições históricas que a tornam possível. Sua interioridade não representa um domínio separado da objetividade social; constitui uma de suas formas mais desenvolvidas.
É justamente por isso que Lukács insiste em que as contradições próprias da personalidade jamais podem ser abstraídas do terreno social onde se originam.
A subjetividade possui uma história, e essa história é inseparável da história da sociedade. Mesmo quando a personalidade parece ultrapassar determinados limites da sociabilidade existente, ela continua sendo produzida pelas mediações objetivas que estruturam o gesellschaftliches Sein.
A autonomia do indivíduo não suprime sua gênese social; antes, constitui uma de suas expressões historicamente mais complexas.
A partir dessa perspectiva, Lukács estabelece uma distinção de extraordinária importância para toda a sua crítica da modernidade. O desenvolvimento das capacidades humanas e o desenvolvimento da personalidade não constituem processos idênticos. Embora profundamente articulados, podem seguir direções distintas e até mesmo contraditórias. Nada garante que a extraordinária expansão das capacidades técnicas, científicas, organizacionais e produtivas da humanidade seja acompanhada por um florescimento correspondente da personalidade.
Ao contrário, Lukács admite explicitamente que o crescimento dessas capacidades pode converter-se em obstáculo ao desenvolvimento da própria Persönlichkeit. A humanidade pode ampliar de maneira impressionante seu domínio técnico sobre a natureza, multiplicar seus conhecimentos científicos e elevar continuamente sua produtividade, enquanto produz indivíduos cada vez mais fragmentados, unilateralizados e submetidos a formas intensificadas de alienação.
Essa observação revela o alcance crítico de sua ontologia: o progresso objetivo da civilização não coincide necessariamente com a realização humana dos indivíduos. A expansão das forças produtivas pode coexistir com formas profundas de empobrecimento subjetivo, fazendo da riqueza objetiva da sociedade o fundamento de uma personalidade cada vez mais limitada em suas possibilidades efetivas de desenvolvimento.
A filologia da reflexão lukacsiana
Do ponto de vista filológico, essa passagem da Ontologia do Ser Social ocupa uma posição singular na arquitetura da obra de Lukács. Nela convergem algumas das categorias fundamentais de sua ontologia — Menschwerden, Entfaltung, Persönlichkeit, Gattungsmäßigkeit, gesellschaftliches Sein, Teleologie, Kausalität — articuladas em torno da célebre formulação marxiana Sie wissen das nicht, aber sie tun es.
A leitura atenta do texto alemão revela que Lukács não está apenas comentando um problema específico da filosofia da história; seu objetivo é reconstruir ontologicamente o processo de formação da humanidade, compreendendo tanto o desenvolvimento do gênero humano quanto a constituição da individualidade como momentos de uma mesma dinâmica histórica produzida pela práxis social, mas permanentemente excedente em relação à consciência dos sujeitos que dela participam.
A análise inicia-se com a expressão Das Menschwerden des Menschen, habitualmente traduzida por "o tornar-se humano do homem".
Embora correta, essa tradução não restitui inteiramente a riqueza semântica da construção alemã. O substantivo Menschwerden reúne Mensch (ser humano) e werden (tornar-se, vir-a-ser), condensando uma concepção profundamente marcada pela herança dialética de Hegel.
A humanidade deixa de aparecer como essência fixa ou atributo natural e passa a ser concebida como processo. O homem não possui desde sempre uma natureza plenamente constituída; ele produz historicamente sua própria humanidade. O conceito remete, assim, a um movimento permanente de autoconstituição, no qual o ser humano transforma simultaneamente o mundo e a si próprio. Lukács retoma, sob essa formulação, uma das intuições decisivas de Marx: a história humana é, em última instância, história da autoprodução dos próprios homens.
Essa concepção processual é reforçada pela expressão auf dieser Stufe seiner Entfaltung. Traduzir Entfaltung simplesmente por "desenvolvimento" é suficiente para transmitir o sentido geral da frase, mas empobrece sua densidade conceitual. O termo deriva do verbo entfalten, formado a partir de Falte, "dobra". Seu significado literal é "desdobrar", "abrir aquilo que se encontrava dobrado", "explicitar o que permanecia latente".
O desenvolvimento deixa, portanto, de ser concebido como mera acumulação quantitativa para designar um processo de explicitação progressiva de potencialidades objetivas. A escolha vocabular não é casual. Ela preserva a afinidade de Lukács com a tradição dialética hegeliana, para a qual o devir histórico consiste precisamente no desdobramento de determinações internas já presentes de forma potencial.
É nesse contexto que Lukács caracteriza o processo de humanização, nesse estágio de sua evolução, como resultado de um desenvolvimento social espontâneo e objetivo, relativamente independente da consciência dos indivíduos singulares.
A palavra spontan merece atenção especial. Na linguagem corrente, espontaneidade costuma sugerir improvisação, casualidade ou ausência de ordem. Nada disso corresponde ao emprego lukacsiano do termo.
Na tradição marxista, espontaneidade designa um processo que emerge objetivamente da atividade humana sem resultar de um planejamento consciente. Sua dinâmica possui determinações próprias, produzidas pelas relações sociais, e não pela intenção deliberada dos indivíduos. Os homens fazem esse processo, mas não o dominam enquanto totalidade.
Essa mesma ideia reaparece quando Lukács caracteriza a história como ein eigenartiger Prozeß der Synthese. A tradução corrente — "um peculiar processo de síntese" — é correta, mas convém sublinhar a força do adjetivo eigenartig, que significa "próprio", "singular", "característico".
O filósofo pretende indicar que a história não constitui uma simples agregação de ações individuais. Ela representa uma síntese objetiva produzida pelo entrelaçamento de incontáveis práticas humanas, síntese cuja lógica não pode ser reduzida à soma das intenções particulares que a originaram.
Cada indivíduo age segundo finalidades próprias; a totalidade histórica, entretanto, adquire um movimento relativamente autônomo.
É justamente nesse ponto que a oposição entre teleologische Akte e Kausalität assume seu pleno significado ontológico. Os atos individuais possuem estrutura teleológica. Toda ação humana, especialmente o trabalho, implica uma finalidade previamente posta, uma teleologische Setzung. O indivíduo imagina antecipadamente o resultado pretendido e orienta sua atividade segundo esse fim. Contudo, quando a análise abandona o plano da ação singular e se desloca para a Gesamtheit do processo histórico, desaparece qualquer teleologia global. A história manifesta-se como um processo causal.
Essa formulação constitui um dos aspectos mais originais da ontologia lukacsiana. Ela rompe simultaneamente com as filosofias idealistas da história e com qualquer tentativa de atribuir ao desenvolvimento histórico um sentido previamente inscrito em sua própria estrutura. Não existe um plano oculto da Razão, uma finalidade imanente do Espírito ou um sujeito transcendente conduzindo silenciosamente o destino da humanidade. A história resulta da articulação objetiva de milhões de atos teleológicos particulares; sua unidade não deriva de uma finalidade superior, mas da causalidade produzida pelo próprio entrelaçamento dessas ações.
É exatamente nesse contexto que Lukács reinsere a conhecida frase de Marx: Sie wissen das nicht, aber sie tun es. A observação filológica possui aqui especial relevância. Marx não escreve simplesmente sie wissen es nicht, mas sie wissen das nicht. O pronome demonstrativo das remete sempre a algo determinado. Não se trata de uma ignorância genérica, mas do desconhecimento de um conteúdo preciso: os indivíduos ignoram o significado objetivo dos processos históricos que sua própria atividade produz.
Eles fazem muito mais do que sabem fazer. As consequências históricas de sua práxis excedem radicalmente aquilo que pretendem realizar.
É por isso que Lukács pode afirmar que o desenvolvimento da humanidade ocorre independentemente do saber e da consciência daqueles que dele participam. Não porque a consciência seja irrelevante, mas porque existe uma diferença estrutural entre o horizonte subjetivo da ação e a objetividade histórica produzida por essa mesma ação. Os indivíduos conhecem seus objetivos imediatos; desconhecem, porém, a totalidade das determinações que sua atividade desencadeia quando se combina com a atividade de inúmeros outros indivíduos.
É precisamente sobre esse fundamento que Lukács introduz a problemática da Persönlichkeit. Também a personalidade emerge de forma espontânea, isto é, como resultado objetivo do desenvolvimento histórico do ser social, e não como simples criação subjetiva da vontade individual. Sua origem está vinculada à necessidade crescente de integrar numa unidade prática as capacidades heterogêneas produzidas pela complexificação da vida social.
Essa ideia encontra expressão particularmente precisa na formulação die gesellschaftlich entstehenden heterogenen Fähigkeiten der Menschen zur Einheitlichkeit in der Praxis zusammenzufassen [ "unificar, na prática, as diversas habilidades humanas que emergem socialmente."]
O núcleo da frase encontra-se em Einheitlichkeit. Mais do que "unidade", o termo designa um processo de unificação, de integração dinâmica, de constituição de coerência interna. A personalidade surge precisamente porque o indivíduo necessita articular, numa configuração relativamente estável, o conjunto diversificado de capacidades desenvolvidas ao longo de sua inserção na vida social.
Ao mesmo tempo, Lukács caracteriza esse processo como Ausgestaltung e Distinktwerden de uma polarização imanente ao próprio ser social. Também aqui a escolha lexical merece atenção. Ausgestaltung significa configuração, formação estruturada, desenvolvimento segundo uma forma determinada; Distinktwerden, por sua vez, indica o processo de tornar-se distinto, diferenciado.
A personalidade não constitui apenas uma unidade interna; ela representa igualmente um processo histórico de individuação, por meio do qual cada sujeito adquire uma singularidade concreta no interior da universalidade do gênero humano.
Essa individuação conduz diretamente à categoria de Gattungsmäßigkeit, talvez uma das mais difíceis de traduzir em toda a ontologia lukacsiana. Derivada de Gattung (gênero), ela não designa simplesmente a espécie humana em sentido biológico. Refere-se à humanidade enquanto universalidade histórico-social objetivamente constituída. O gênero humano deixa de ser um dado natural e torna-se uma realidade produzida pela própria história.
É precisamente por isso que Lukács afirma que essa nova forma de Gattungsmäßigkeit encontra-se, inicialmente, apenas um pouco além da Stummheit des vormenschlichen Lebens ["a mudez da vida pré-humana"] A palavra Stummheit significa literalmente "mudez", mas seu alcance ontológico é muito mais amplo. Ela exprime a incapacidade característica da vida animal de produzir um mundo histórico objetivado. Os animais adaptam-se ao ambiente e reproduzem sua existência, mas não acumulam cultura, não transformam sistematicamente a natureza através do trabalho nem objetivam universalmente suas capacidades.
A humanidade começa exatamente quando essa mudez ontológica é progressivamente superada pela práxis social.
Toda essa sequência conceitual revela o extraordinário rigor filológico da construção lukacsiana. As escolhas vocabulares do texto alemão não possuem caráter meramente estilístico; elas constituem momentos essenciais da própria argumentação. Cada termo preserva a herança dialética de Hegel, incorpora a crítica marxiana da sociedade e contribui para a elaboração de uma ontologia em que o ser social aparece como resultado de um processo histórico de objetivação cuja riqueza excede continuamente a consciência dos indivíduos que o produzem. É justamente nessa articulação entre rigor filológico e elaboração ontológica que reside uma das maiores originalidades da Ontologia do Ser Social.
A análise culmina naquilo que talvez constitua a consequência mais abrangente da ontologia histórica elaborada por Lukács: a distinção entre o desenvolvimento das capacidades humanas e o desenvolvimento da personalidade. Embora ambos os processos tenham origem no mesmo movimento de constituição do gesellschaftliches Sein [Ser Social], eles não evoluem necessariamente de maneira paralela nem mantêm entre si uma relação de correspondência automática. Ao contrário, a própria dinâmica histórica pode colocá-los em tensão.
Lukács exprime essa ideia por meio da distinção entre die Höherentwicklung der einzelnen menschlichen Fähigkeiten, isto é, o desenvolvimento superior das capacidades humanas, e a formação da Persönlichkeit. As capacidades objetivas da humanidade podem expandir-se extraordinariamente — no plano técnico, científico, produtivo ou organizacional — sem que esse progresso seja acompanhado por um enriquecimento equivalente da personalidade dos indivíduos concretos. A história demonstra, de modo recorrente, que a ampliação do poder objetivo da sociedade não conduz, por si só, ao florescimento das potencialidades humanas.
Essa observação possui um alcance crítico que ultrapassa amplamente o contexto imediato da passagem. Lukács rompe, desse modo, com toda concepção evolucionista segundo a qual o avanço das forças produtivas produziria automaticamente formas superiores de realização humana. O desenvolvimento histórico é contraditório.
A objetivação crescente das capacidades humanas pode coexistir com processos de empobrecimento subjetivo, unilateralização dos indivíduos e intensificação das formas de alienação. Nada autoriza supor que o progresso técnico e econômico implique, por necessidade, progresso humano.
O próprio texto alemão enfatiza essa possibilidade quando afirma que o desenvolvimento das capacidades pode sehr leicht und oft — muito facilmente e com muita frequência — atuar contra o desenvolvimento da personalidade. A formulação merece atenção. Lukács não descreve uma exceção histórica, mas uma possibilidade recorrente inscrita nas próprias contradições do desenvolvimento social. O crescimento das capacidades objetivas da humanidade pode transformar-se, paradoxalmente, em obstáculo para a constituição de indivíduos efetivamente desenvolvidos.
Essa tese adquire particular relevância quando projetada sobre a crítica marxiana da sociedade capitalista. O capitalismo representa, talvez como nenhuma outra formação social anterior, uma extraordinária expansão das capacidades produtivas do gênero humano. A ciência converte-se em força produtiva imediata; o trabalho social alcança níveis inéditos de cooperação; a técnica amplia continuamente o domínio da humanidade sobre a natureza.
Contudo, esse mesmo movimento produz indivíduos submetidos à fragmentação do trabalho, à especialização unilateral, à reificação das relações sociais e às múltiplas formas de Entfremdung. O desenvolvimento das forças produtivas e o desenvolvimento da personalidade deixam de convergir e passam frequentemente a mover-se em direções opostas.
É precisamente essa dissociação que permite compreender por que Lukács atribui à categoria de personalidade um significado ontológico que não pode ser reduzido à simples evolução das capacidades humanas. A Persönlichkeit constitui uma forma superior de mediação entre indivíduo e gênero humano, mas sua realização permanece condicionada pelas contradições históricas da sociedade em que se desenvolve. Ela não representa uma conquista definitivamente assegurada pelo progresso da civilização; ao contrário, permanece permanentemente exposta às limitações impostas pelas formas sociais historicamente existentes.
A partir desse ponto, a célebre sentença de Marx — Sie wissen das nicht, aber sie tun es — alcança talvez sua significação mais profunda em toda a Ontologia do Ser Social. Seu alcance já não se restringe ao problema do valor, do fetichismo ou da ideologia. Tampouco se limita à análise da circulação mercantil. A fórmula converte-se em princípio interpretativo do próprio processo histórico de constituição da humanidade.
Os homens produzem a sociedade através de sua atividade prática. Produzem instituições, formas culturais, linguagens, conhecimentos, técnicas e modos de vida. Produzem igualmente a Gattungsmäßigkeit, isto é, a universalidade histórica do gênero humano. Ao fazê-lo, criam também as condições objetivas para o surgimento da personalidade individual. Entretanto, nenhuma dessas objetivações coincide plenamente com aquilo que os indivíduos sabem ou pretendem realizar. A riqueza objetiva da história excede continuamente a consciência de seus agentes.
Essa distância entre intenção subjetiva e resultado histórico não constitui um acidente nem uma imperfeição do processo social. Trata-se de uma determinação constitutiva do próprio gesellschaftliches Sein. A objetividade histórica possui uma lógica de desenvolvimento que emerge da práxis humana, mas que jamais pode ser reduzida às representações conscientes daqueles que participam dela. Cada indivíduo realiza ações orientadas por fins particulares; o entrelaçamento dessas ações produz uma realidade qualitativamente distinta, dotada de legalidades próprias.
É justamente por essa razão que Lukács transforma a conhecida frase de Marx em uma das categorias centrais de sua ontologia. Ela exprime a diferença permanente entre a consciência imediata dos sujeitos e a objetividade histórica que sua própria atividade produz. Os homens fazem a história porque agem teleologicamente; mas a história nunca coincide com a soma de suas intenções. Produzem mais do que pretendem produzir, inauguram processos que escapam ao seu controle e criam objetivações cujo significado ultrapassa incomparavelmente o horizonte de sua consciência.
Vista em seu conjunto, a passagem oferece uma das formulações mais rigorosas da ontologia histórica de Lukács. A humanidade produz a si mesma mediante a práxis, mas essa autoprodução realiza-se através de um processo cuja riqueza objetiva excede continuamente o saber dos indivíduos. O Menschwerden não constitui a execução de um plano previamente concebido; é o resultado histórico da articulação entre teleologia e causalidade, entre ação consciente e objetividade social.
A personalidade, o gênero humano e a própria história emergem desse movimento contraditório, no qual a práxis cria incessantemente formas de existência que superam aquilo que seus próprios agentes são capazes de antecipar ou compreender. É precisamente nessa diferença estrutural entre consciência e objetividade que Lukács identifica uma das determinações fundamentais do ser social e uma das contribuições mais profundas da fórmula marxiana Sie wissen das nicht, aber sie tun es para a ontologia da práxis.
[continua]



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