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Lukács e a expressão "Não sabem, mas o fazem"-1

  • 22 de jun.
  • 23 min de leitura


A frase alemã “Sie wissen das nicht, aber sie tun es” pode ser traduzida de várias maneiras para o português, dependendo da ênfase que se quer dar. Eis algumas variações que aparecem em traduções de Marx e em usos filosóficos. Por exemplo, “Eles não sabem disso, mas o fazem.”, uma tradução mais literal e direta; ou “Eles não sabem o que fazem, mas fazem-no.”, tradução que enfatiza a ausência de consciência do ato; “Eles não têm consciência disso, mas o realizam.”, com a tradução destacando a dimensão da prática como realização objetiva. Ou ainda: “Sem saber, eles o fazem.”, uma versão mais condensada, usada em alguns contextos; ou ainda: “Eles ignoram o que fazem, mas fazem-no.”, tradução que dá ênfase ao “não saber” como ignorância. Finalmente a frase pode ser traduzida por “Eles não sabem, mas fazem.”, uma forma simplificada, bastante usada em traduções correntes.


É importante observar que o verbo “wissen” (saber) em alemão implica conhecimento consciente, reflexivo, enquanto o verbo “tun” (fazer) é mais amplo que “machen” (produzir, fabricar), indicando ação prática em geral. Por isso, a frase carrega a ideia de que a prática humana contém objetividade e conhecimento implícito, mesmo sem consciência explícita.


Nosso objetivo nesta nova série postagens é analisar as ocorrências da frase na "Ontologia do Ser Social" e nos "Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social". Em Lukács essa expressão serve para mostrar que a prática social realiza uma passagem do “mero conhecido” ao “reconhecido”, mesmo sem reflexão consciente.


Pesquisamos todas as ocorrências da frase “Sie wissen das nicht, aber sie tun es” na obra lukácsiana buscando desvelar os preciosos significados dela para -a partir daí - entender uma possível teoria da práxis humana em Lukács – tal como fizemos anteriormente com o termo Sehnsucht.


Antes de examinarmos, caso a caso, as ocorrências dessa formulação na "Ontologia" e nos "Prolegômenos", convém determo-nos - a título de Introdução - na célebre passagem de "O Capital"de Karl Marx que serviu de matriz teórica para Lukács. Foi nela que Lukács encontrou inspiração para formular essa ideia, a qual reaparece, sob outra elaboração conceitual, em um de seus textos mais importantes: "As Bases Ontológicas do Pensamento e da Atividade do Homem". Nesta postagem de Introdução vamos analisar a presença conceitual da frase neste importante ensaio lukácsiano.


Vamos dividir nossa exposição de Introdução em quatro partes, desvelando as primeiras significações fundamentais da frase "Sie wissen das nicht, aber sie tun es" :


1.     Parte I – "Sie wissen das nicht, aber sie tun es" em "O Capital" de Marx: fetichismo, prática social e objetividade das relações sociais em Marx. 


2.     Parte II – A compulsão objetiva da concorrência: "sob pena de se arruinarem", leis imanentes e o capital como sujeito automático. 


3.     Parte III – A ontologia do trabalho em Lukács: teleologia, Bestimmungen, conhecimento e incognoscibilidade do real. 


4.     Parte IV – A articulação entre Lukács e Marx: da limitação ontológica do conhecimento ao fetichismo como forma histórica da autonomização das relações sociais.

 

1

A célebre formulação de Marx — „Sie wissen das nicht, aber sie tun es” — figura entre as passagens mais densas e fecundas de "O Capital". Inserida no capítulo dedicado ao fetichismo da mercadoria, ela condensa, em poucas palavras, um dos resultados mais profundos da crítica da economia política: a reprodução da sociedade capitalista não depende da consciência que os indivíduos possuem acerca das relações sociais que produzem.


A frase, frequentemente traduzida como “eles não sabem, mas fazem”, aparece na formulação original como „Sie wissen das nicht, aber sie tun es” — literalmente, “eles não sabem isso, mas o fazem” —, integrada à conhecida passagem em que Marx demonstra que os homens veem refletidos os caracteres sociais de seu próprio trabalho como se fossem qualidades objetivas dos produtos do trabalho, como se constituíssem gesellschaftliche Natureigenschaften dessas coisas.


A inversão é decisiva: aquilo que é produzido historicamente pela atividade humana aparece diante dos próprios produtores sob a forma de uma propriedade inerente aos objetos.


A passagem completa merece ser recordada porque nela se encontra o núcleo da demonstração marxiana:


No original a passagem em alemão é :„Den Menschen werden also die gesellschaftlichen Charaktere ihrer eigenen Arbeit als gegenständliche Charaktere der Arbeitsprodukte selbst, als gesellschaftliche Natureigenschaften dieser Dinge zurückgespiegelt ... Sie wissen das nicht, aber sie tun es.” 


Numa tradução livre, ela diz: Os homens veem refletidos os caracteres sociais de seu próprio trabalho como se fossem características objetivas dos produtos do trabalho, como se fossem propriedades naturais sociais das próprias coisas. Eles desconhecem esse processo. Ainda assim, é precisamente ele que realizam cotidianamente.


O problema colocado por Marx está muito distante de uma simples crítica às ilusões da consciência ou às falsas representações elaboradas pelos indivíduos. Seu alvo não é, em primeiro lugar, um erro psicológico, tampouco uma deficiência cognitiva passível de ser corrigida mediante esclarecimento teórico.


O fetichismo da mercadoria não nasce porque os homens pensam equivocadamente acerca do mundo social; ao contrário, eles pensam dessa maneira porque vivem em um mundo cujas relações objetivas já assumiram uma forma invertida. A aparência fetichista não decorre da consciência; é a consciência que se constitui no interior de uma objetividade social previamente fetichizada. A inversão (Verkehrung) não é um acidente da percepção, mas uma determinação imanente da própria forma mercantil.


É precisamente por isso que Marx pode afirmar que os indivíduos reproduzem objetivamente determinadas relações sociais sem conhecer sua lógica interna.


Quando produtores privados trocam mercadorias, não estabelecem conscientemente relações de equivalência entre tempos de trabalho socialmente necessários; tampouco pretendem reproduzir a forma-valor ou reafirmar a universalidade do trabalho abstrato. O que procuram realizar são objetivos imediatos e particulares: vender produtos, adquirir meios de subsistência, obter renda ou ampliar seus negócios.


Entretanto, ao perseguirem esses fins singulares, acabam reproduzindo incessantemente a totalidade das relações sociais próprias da produção mercantil. A prática realiza aquilo que a consciência ignora. Essa assimetria entre agir e compreender constitui uma das descobertas decisivas da crítica da economia política.


Sob essa perspectiva, a frase „Sie wissen das nicht, aber sie tun es” exprime uma concepção inteiramente nova da objetividade social. O capitalismo não necessita de sujeitos que compreendam sua lógica para continuar existindo. Sua reprodução não depende de uma adesão consciente às categorias da economia política, nem exige que trabalhadores ou capitalistas possuam qualquer conhecimento acerca da teoria do valor. Ao contrário, basta que executem as práticas exigidas pela própria estrutura das relações mercantis.


O trabalhador vende sua força de trabalho sem precisar conhecer o conceito de trabalho abstrato; o capitalista explora trabalho vivo sem dominar a crítica marxiana da mais-valia; consumidores compram mercadorias, pagam preços e utilizam dinheiro sem perceber que participam da reprodução cotidiana da forma-valor. As categorias fundamentais do capitalismo operam, portanto, como determinações objetivas da prática social, e não como conteúdos conscientes da vontade individual.


Essa constatação permite compreender por que Marx insiste em atribuir às formas econômicas um estatuto objetivo. O valor não é um conceito inventado pelos economistas, nem uma convenção subjetiva produzida pelos agentes do mercado. Tampouco o dinheiro, o capital ou o trabalho abstrato existem apenas como construções intelectuais destinadas a organizar teoricamente a realidade. Todas essas categorias possuem existência efetiva porque se objetivam nas próprias práticas sociais.


É justamente essa objetividade específica que explica por que indivíduos inteiramente alheios à teoria econômica participam diariamente da produção e reprodução das relações capitalistas. A abstração que funda o valor não é um procedimento lógico elaborado pelo pensamento, mas uma abstração social real (Realabstraktion), produzida objetivamente no ato da troca de mercadorias. Antes de ser uma categoria da teoria, ela é uma determinação constitutiva da própria prática social.

É nesse ponto que a pequena frase de Marx adquire extraordinária densidade filosófica. Ela rompe definitivamente com toda concepção segundo a qual a consciência ocuparia o lugar de fundamento último da vida social.


A reprodução do capitalismo não se organiza a partir das ideias que os indivíduos possuem sobre si mesmos, mas das relações objetivas que executam por meio de suas atividades cotidianas.


A sociedade capitalista aparece, assim, como uma totalidade dotada de uma legalidade própria, cuja continuidade não depende da intenção subjetiva de seus participantes. A prática social conhece mais do que a consciência dos sujeitos que a realizam.


Não surpreende, portanto, que essa passagem tenha ocupado posição privilegiada em grande parte da tradição marxista do século XX. Autores como Georg Lukács, Theodor W. Adorno, Alfred Sohn-Rethel e Moishe Postone reconheceram nela um dos fundamentos para compreender a especificidade das formas sociais modernas. Cada um à sua maneira procurou demonstrar que o capitalismo produz estruturas objetivas que adquirem autonomia frente aos indivíduos, impondo-lhes determinações que estes reproduzem sem apreender plenamente sua lógica.


Embora suas interpretações divirjam em diversos aspectos, todas convergem na percepção de que Marx formulou uma teoria segundo a qual a objetividade social não deriva da consciência, mas de práticas historicamente determinadas que se autonomizam diante daqueles que as realizam.


Sob o ponto de vista dialético, a frase „Sie wissen das nicht, aber sie tun es” exprime a tensão constitutiva entre ser social e consciência.


A prática cotidiana realiza determinações cuja essência permanece opaca aos próprios agentes. Não se trata de uma oposição entre teoria e ignorância, mas da diferença estrutural entre a riqueza objetiva das relações sociais e o modo necessariamente limitado pelo qual elas se apresentam à experiência imediata.


A consciência move-se no interior de um universo já organizado por mediações objetivas que ela própria ajuda a reproduzir sem dominá-las conceitualmente.


É justamente dessa assimetria que nasce o fetichismo.


As relações sociais criadas pelos próprios indivíduos deixam de aparecer como produtos históricos de sua atividade coletiva e assumem a forma de propriedades objetivas das coisas.


O valor parece residir naturalmente na mercadoria; o dinheiro parece possuir por si mesmo a capacidade de representar riqueza; o capital surge como uma potência autônoma dotada de movimento próprio. O resultado da atividade humana converte-se em sujeito, enquanto seus produtores aparecem reduzidos à condição de executores das exigências impostas por suas próprias criações sociais.


A fórmula marxiana sintetiza, assim, um dos movimentos centrais da crítica da economia política: os homens produzem um mundo social que se lhes apresenta como independente de sua própria atividade. A objetividade das relações mercantis converte-se em uma objetividade aparentemente natural, obscurecendo sua gênese histórica e seu caráter especificamente social. Eis a coisificação.


O segredo do fetichismo - que é a consciência invertida própria da coisificação - consiste precisamente nessa autonomização das formas sociais: aquilo que foi produzido pela prática humana retorna aos produtores sob a forma de uma potência estranha que parece governá-los.


Não é a consciência que produz essa inversão; é a própria estrutura objetiva das relações capitalistas que a engendra: é a reificação e coisificação.


Por isso, a verdade do capitalismo não se encontra, em primeiro lugar, no que os indivíduos pensam acerca de suas ações, mas naquilo que efetivamente fazem ao reproduzir, dia após dia, as formas sociais que os dominam.

 

2

A objetividade das relações sociais capitalistas manifesta-se de maneira ainda mais evidente quando Marx abandona a análise da circulação simples das mercadorias e passa a examinar o movimento do capital enquanto totalidade.


Se, no capítulo sobre o fetichismo, a questão central consiste em demonstrar que os indivíduos reproduzem relações sociais sem conhecer sua estrutura objetiva, a análise da concorrência revela um aspecto complementar dessa mesma problemática: os agentes econômicos não apenas ignoram as determinações que governam sua prática, mas encontram-se submetidos a elas como se fossem forças exteriores, independentes de sua vontade.


A reprodução do capital não exige apenas práticas inconscientes; ela impõe comportamentos objetivos cuja observância constitui condição de sobrevivência econômica.

Essa dimensão aparece com notável clareza quando Marx afirma que as leis imanentes da produção capitalista se apresentam aos capitais individuais como leis coercitivas da concorrência.


A formulação alemã é particularmente expressiva: „Die immanenten Gesetze der kapitalistischen Produktion erscheinen in der äußeren Bewegung der Kapitale als Zwangsgesetze der Konkurrenz.” 


A passagem concentra uma das teses fundamentais de "O Capital": aquilo que, no plano da essência, constitui a legalidade interna do modo de produção capitalista manifesta-se, na experiência imediata dos agentes, sob a forma de uma compulsão objetiva - o que Soren Mau intitularia "compulsão muda"..


As leis não aparecem como leis. Elas surgem como exigências práticas incontornáveis, inscritas na própria dinâmica da concorrência.


O termo Zwangsgesetze merece especial atenção. Derivado de Zwang — coerção, compulsão, constrangimento —, ele designa leis que não apenas regulam determinado processo, mas obrigam efetivamente os sujeitos a conformar seu comportamento às exigências de uma dinâmica objetiva.


Não se trata, portanto, de uma obrigação jurídica ou moral. A compulsão de que fala Marx possui caráter estritamente estrutural. O agente econômico pode ignorá-la, rejeitá-la ou mesmo condená-la do ponto de vista ético; nada disso altera sua eficácia. A coerção decorre da própria forma assumida pelas relações sociais capitalistas.


É precisamente por isso que a concorrência não pode ser compreendida como simples disputa entre indivíduos motivados por interesses privados. Ela constitui o mecanismo histórico por meio do qual a legalidade interna do capital se impõe aos capitais particulares.


Cada empresário acredita agir segundo seus próprios cálculos, estratégias ou preferências. Contudo, a liberdade de suas decisões permanece rigorosamente circunscrita pelas exigências da valorização do valor.


A introdução de novas tecnologias, o aumento da produtividade, a reorganização do processo de trabalho, a redução de custos e a intensificação da exploração do trabalho vivo não resultam, em primeiro lugar, de escolhas subjetivas. Correspondem, antes, a imperativos objetivos cuja desobediência implica a perda da competitividade e, em última instância, a própria eliminação do capital individual.


Sob esse aspecto, a célebre ironia de Marx — „Accumulate, accumulate! Das ist Moses und die Propheten!” — adquire um significado muito mais profundo do que uma simples crítica moral à avidez burguesa.


A ordem para acumular não exprime um vício psicológico nem uma preferência cultural do capitalista. Ela funciona como um verdadeiro mandamento imanente da forma-capital. A acumulação deixa de ser uma possibilidade entre outras para converter-se na condição de existência do próprio capital.


O capitalista não acumula porque deseja fazê-lo; acumula porque somente assim permanece capitalista. A reprodução ampliada do valor transforma-se em necessidade objetiva inscrita na própria lógica do sistema.


Essa constatação permite compreender por que Marx insiste em distinguir o capitalista empírico da função social que ele desempenha. O indivíduo concreto pode possuir convicções religiosas, princípios morais ou preferências pessoais incompatíveis com determinadas práticas econômicas. Nada disso altera sua posição objetiva enquanto personificação do capital.


Em O Capital, Marx observa repetidamente que o capitalista aparece como Charaktermaske, uma "máscara de caráter" mediante a qual determinadas funções sociais se realizam. O comportamento do indivíduo encontra-se subordinado às exigências de uma estrutura que o transcende. A racionalidade do sistema prevalece sobre a vontade de seus agentes.


O mesmo vale, em sentido inverso, para o trabalhador assalariado. Sua inserção no mercado de trabalho tampouco decorre de uma escolha plenamente livre. A venda da força de trabalho pressupõe um processo histórico de expropriação [Enteignung] que separou os produtores diretos dos meios de produção e dos meios de subsistência. A liberdade jurídica que caracteriza o trabalhador moderno repousa precisamente sobre essa separação.


Ele é formalmente livre para vender - isto é, contratar ou não contratar sua força de trabalho, mas essa liberdade jurídica oculta uma necessidade material incontornável: para garantir sua sobrevivência, precisa vender sua capacidade de trabalho ao capital. A forma contratual da troca entre capital e trabalho apresenta-se, assim, como expressão da liberdade individual, quando, na realidade, traduz uma relação estrutural de dependência econômica.


A crítica marxiana desloca, desse modo, o próprio significado da liberdade. A aparência jurídica da igualdade entre comprador e vendedor da força de trabalho encobre uma compulsão social que antecede qualquer decisão individual.


O trabalhador comparece ao mercado como sujeito de direito, mas sua posição objetiva é determinada por relações históricas que escapam inteiramente ao âmbito de sua vontade. A liberdade contratual converte-se, assim, na forma fenomênica de uma necessidade econômica.


É justamente essa duplicidade entre aparência e essência que conduz Marx ao núcleo de sua crítica do fetichismo. As relações sociais assumem uma autonomia crescente diante dos indivíduos que as produzem, adquirindo uma objetividade que lhes permite impor comportamentos, expectativas e formas de ação independentemente das intenções subjetivas dos agentes.


Os homens acreditam dirigir o processo social, quando, na realidade, são conduzidos por formas sociais autonomizadas que adquirem a aparência de poderes naturais.


Sob essa perspectiva, a conhecida expressão segundo a qual os indivíduos agem "sob pena de se arruinarem" deixa de constituir mera figura de linguagem para designar uma característica estrutural do capitalismo.


O capitalista amplia continuamente a exploração do trabalho vivo sob pena de perder competitividade; investe em inovações tecnológicas sob pena de ser expulso do mercado; reorganiza incessantemente a produção sob pena de comprometer a valorização de seu capital.


De modo análogo, o trabalhador vende sua força de trabalho sob pena de não assegurar sua reprodução material, enquanto os próprios Estados nacionais reorganizam suas políticas econômicas, fiscais e monetárias sob pena de comprometer sua inserção competitiva no mercado mundial.


Em todos esses casos, a ação individual aparece condicionada por imperativos sistêmicos que se impõem como necessidades objetivas.


Essa compulsão possui uma característica singular: ela é impessoal. Nenhum indivíduo a exerce diretamente sobre os demais, embora todos contribuam para reproduzi-la.


O capitalista não explora porque seja pessoalmente mais cruel do que outros indivíduos; o trabalhador não aceita determinadas condições porque seja moralmente submisso; o Estado não promove políticas favoráveis à acumulação porque esteja simplesmente capturado por más intenções. Cada um atua como portador de determinações objetivas cuja origem reside na própria estrutura das relações capitalistas.


A dominação deixa de assumir predominantemente a forma de uma relação pessoal entre indivíduos para converter-se em dominação mediada por formas sociais autonomizadas.


É nesse contexto que adquire pleno significado a categoria formulada por Marx no Livro III de O Capital: o capital como das automatische Subjekt. A expressão não constitui simples recurso retórico. Ela procura apreender uma transformação decisiva na forma da dominação social moderna. O sujeito efetivo do processo deixa de ser o indivíduo empírico e passa a ser a própria dinâmica autonomizada da valorização do valor.


O movimento do capital adquire uma lógica interna que utiliza trabalhadores, capitalistas, instituições estatais e mercados como suportes funcionais de sua reprodução ampliada. Os indivíduos continuam sendo agentes reais do processo, mas sua ação encontra-se integrada em uma totalidade objetiva cuja racionalidade não coincide com suas intenções conscientes.


É justamente nesse ponto que a análise da concorrência reencontra a problemática desenvolvida por Marx no capítulo sobre o fetichismo da mercadoria. A fórmula „Sie wissen das nicht, aber sie tun es” descrevia a reprodução inconsciente das relações sociais.


A teoria da concorrência acrescenta uma determinação decisiva: os indivíduos não apenas reproduzem relações que desconhecem, mas o fazem porque essas relações assumem diante deles a forma de necessidades objetivas às quais precisam submeter-se para continuar existindo como agentes econômicos.


O fetichismo revela, assim, sua dimensão propriamente histórica. As formas sociais produzidas pela atividade humana autonomizam-se progressivamente até aparecerem como sujeitos efetivos do processo social, enquanto seus próprios criadores passam a atuar como executores das exigências inscritas nessas formas objetivadas.


A dominação capitalista realiza-se precisamente por essa mediação: quanto mais os indivíduos acreditam agir livremente, tanto mais reproduzem uma legalidade objetiva cuja força coercitiva independe de sua consciência e de sua vontade.


3

A problemática da compulsão objetiva das relações sociais capitalistas adquire uma dimensão ontológica ainda mais ampla quando colocada em diálogo com a reflexão desenvolvida por György Lukács na Ontologia do Ser Social e nos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social.


Enquanto Marx investiga a especificidade histórica da sociedade burguesa e demonstra como as formas sociais autonomizadas passam a dominar os próprios indivíduos que as produzem, Lukács procura identificar as determinações mais gerais do ser social que tornam inteligível esse fenômeno.


O ponto de partida de Lukács não é a mercadoria nem o capital, mas o trabalho, compreendido como a categoria fundante da existência propriamente humana. A partir dele, torna-se possível compreender por que a prática antecede a consciência e por que o agir humano permanece inevitavelmente exposto a um horizonte de determinações que jamais pode dominar por completo.


Depois de discutir a problemática da frase "Não sabem, mas o fazem" no Capital de Marx, vejamos como ela está presente no ensaio "As Bases Ontológicas para a Atividade e Pensamento do Homem", de Gyorgy Lukács.


Na passagem das Bases, Lukács formula essa questão em termos particularmente precisos. O desenvolvimento histórico do trabalho amplia continuamente o conhecimento humano da realidade, permitindo que novas determinações do mundo objetivo sejam descobertas e incorporadas à atividade prática. Contudo, esse progresso jamais elimina um dado constitutivo da própria existência social: a impossibilidade de conhecer integralmente a totalidade das circunstâncias que intervêm em cada ação concreta. O aperfeiçoamento do trabalho não conduz à transparência absoluta do real. Ao contrário, quanto mais o conhecimento se expande, tanto mais evidente se torna a inesgotável complexidade do mundo objetivo.


Essa formulação somente pode ser compreendida se levarmos a sério a tese central da ontologia lukacsiana. Para Lukács, o trabalho constitui a forma originária mediante a qual o ser humano rompe com a adaptação meramente biológica ao meio natural e inaugura uma modalidade inteiramente nova de relação com a realidade. Diferentemente dos processos naturais, o trabalho implica sempre uma antecipação ideal do resultado pretendido. Antes de transformar objetivamente o mundo, o sujeito projeta mentalmente um fim e organiza sua atividade em função dele. Essa antecipação consciente é aquilo que Lukács, retomando Aristóteles, Hegel e Marx, denomina teleologische Setzung, isto é, a posição teleológica de um fim.

O conceito de teleologische Setzung ocupa uma posição decisiva em toda a arquitetura da Ontologia. A palavra Setzung não designa simplesmente uma intenção subjetiva ou um desejo psicológico. Na tradição filosófica alemã, sobretudo em Hegel, o termo indica um ato objetivo de pôr, instituir ou estabelecer uma determinação que orienta o desenvolvimento de um processo real.


A finalidade projetada pelo trabalhador não permanece confinada ao pensamento; ela converte-se em princípio organizador da atividade prática. Todo trabalho pressupõe, portanto, uma unidade dialética entre teleologia e causalidade. O sujeito estabelece um fim, mas sua realização depende necessariamente do conhecimento das conexões causais que estruturam a realidade objetiva.


É precisamente nesse ponto que emerge a primeira grande mediação ontológica proposta por Lukács. Nenhuma finalidade pode realizar-se apenas porque foi concebida intelectualmente. Para transformar uma árvore em embarcação, uma pedra em ferramenta ou um terreno em espaço cultivável, o sujeito precisa conhecer determinadas propriedades objetivas da matéria sobre a qual atua. O êxito do trabalho depende do reconhecimento das causalidades efetivamente existentes no mundo.


A teleologia não substitui a causalidade; ela somente pode realizar-se mediante sua compreensão. O trabalho constitui, assim, uma síntese singular entre projeto consciente e necessidade objetiva. Esse processo possui consequências decisivas para a constituição do conhecimento humano.


Cada atividade bem-sucedida amplia o domínio prático sobre a realidade e torna cognoscíveis novas determinações do mundo objetivo. É justamente esse movimento que Lukács descreve ao afirmar que "cresce continuamente a faixa de determinações que se tornam cognoscíveis".


A expressão merece atenção filológica. O termo empregado pelo filósofo é Bestimmungen, palavra cuja importância atravessa toda a tradição dialética alemã. Traduzir Bestimmung simplesmente por "característica", "atributo" ou "propriedade" empobrece consideravelmente seu alcance conceitual. Na linguagem filosófica de Hegel e Marx, Bestimmung designa uma determinação objetiva constitutiva do próprio ser de uma coisa. Uma determinação não representa apenas um aspecto acidental do objeto; corresponde ao conjunto de relações internas que definem sua identidade e seu modo de existência. Conhecer uma realidade significa, precisamente, apreender suas determinações objetivas.


O avanço do trabalho amplia, portanto, o conjunto das Bestimmungen que podem ser conhecidas e utilizadas praticamente. O agricultor descobre novas propriedades dos solos, das sementes e das estações; o artesão aprende o comportamento dos materiais; o metalúrgico domina processos cada vez mais complexos de transformação da matéria. O crescimento das forças produtivas corresponde, simultaneamente, a uma ampliação das determinações objetivas apropriadas pela atividade humana.


Entretanto, esse mesmo movimento revela um limite que nenhuma expansão do conhecimento pode eliminar. O mundo objetivo apresenta uma riqueza de mediações infinitamente superior à capacidade cognitiva de qualquer sujeito singular. Cada ação prática realiza-se em uma rede extremamente complexa de causalidades, muitas das quais permanecem inacessíveis ao agente no momento em que atua.


É exatamente essa condição que Lukács designa como a "incognoscibilidade do conjunto das circunstâncias". Longe de expressar uma posição cética ou irracionalista, essa formulação traduz uma determinação ontológica do próprio ser social. O filósofo não afirma que o conhecimento seja impossível; afirma, antes, que ele permanece necessariamente finito diante da inesgotável complexidade do real.


Essa limitação não decorre da ignorância contingente dos indivíduos nem do estágio histórico do desenvolvimento científico. Mesmo o progresso incessante das ciências naturais e sociais não elimina a abertura constitutiva do mundo objetivo. Toda prática humana permanece inserida em uma totalidade de mediações cuja riqueza ultrapassa qualquer possibilidade de apreensão integral.


O agricultor conhece as técnicas do cultivo, mas não controla todas as variações climáticas; o engenheiro domina cálculos sofisticados, embora não possa antecipar integralmente todas as condições futuras de uma construção; o médico compreende inúmeros processos fisiológicos sem jamais dominar completamente a singularidade de cada organismo concreto. Em toda intervenção prática subsiste um excedente de determinações que escapa ao controle consciente do sujeito.


Essa característica confere ao trabalho uma estrutura paradoxal. Quanto mais o ser humano transforma o mundo, mais amplia seu conhecimento; porém, simultaneamente, mais evidente se torna a complexidade da realidade sobre a qual atua.


O progresso cognitivo não conduz à eliminação da incerteza. Pelo contrário, cada nova determinação conhecida faz aparecer outras determinações ainda desconhecidas, revelando a inesgotabilidade do ser. O desenvolvimento histórico da práxis não dissolve a distância entre conhecimento e realidade; apenas modifica continuamente seu conteúdo.


É justamente dessa tensão permanente que Lukács extrai uma de suas teses mais originais acerca da gênese das formas ideológicas. Diante da experiência reiterada de que muitos acontecimentos decisivos escapam ao domínio da consciência, os seres humanos tendem a atribuir esses elementos incontroláveis à ação de potências exteriores.


A percepção de uma realidade parcialmente inacessível desperta aquilo que o filósofo denomina "a sensação íntima de uma realidade transcendente". O transcendente não nasce, originariamente, de uma especulação metafísica abstrata nem de uma disposição religiosa inata. Sua origem encontra-se na própria estrutura ontológica do trabalho, isto é, na experiência prática dos limites do agir humano diante de um mundo cujas determinações nunca podem ser completamente apropriadas.


Por essa razão, Lukács considera a magia, a religião e diversas formas ideológicas não como simples ilusões arbitrárias, mas como respostas historicamente determinadas a uma condição objetiva da existência social.


Quando a causalidade efetiva dos fenômenos permanece desconhecida, os homens procuram preencher essa lacuna mediante construções simbólicas capazes de conferir inteligibilidade ao mundo. Espíritos, deuses, demônios, forças sobrenaturais e providências divinas constituem diferentes modalidades históricas de objetivação dessa experiência fundamental.


Antes que a ciência pudesse explicar regularidades naturais complexas, essas explicações desempenhavam a função de tornar suportável e inteligível um universo cuja riqueza causal excedia continuamente a capacidade humana de compreensão.


Essa interpretação permite compreender uma das passagens mais sugestivas da Ontologia, na qual Lukács afirma que o trabalho constitui não apenas o modelo ontológico de toda praxis, mas também o paradigma a partir do qual se forma a representação religiosa da criação do mundo. Os homens experimentam diariamente a produção consciente de objetos mediante posições teleológicas; posteriormente, projetam essa mesma estrutura sobre a totalidade da realidade.


Assim como fabricam ferramentas, constroem habitações e transformam a natureza mediante fins conscientemente estabelecidos, passam a imaginar que o próprio universo foi produzido segundo uma teleologia absoluta por um criador onisciente. A ideia de Deus criador não surge, portanto, independentemente da experiência histórica do trabalho; constitui uma projeção ampliada da estrutura teleológica que caracteriza a própria atividade produtiva dos seres humanos.


Nessa perspectiva, Lukács realiza uma inversão decisiva da tradição metafísica. Não é a atividade humana que reproduz, em escala limitada, a ação de um criador divino. O movimento é exatamente o inverso: a figura do criador absoluto constitui uma objetivação imaginária elaborada a partir da experiência concreta do trabalho humano.


A religião conserva, sob forma invertida, a estrutura ontológica da práxis. É porque os homens produzem conscientemente seu mundo objetivo que podem representar imaginariamente a realidade inteira como produto da atividade de uma consciência infinita. O trabalho revela-se, assim, como o fundamento histórico não apenas da técnica e da ciência, mas também das formas mais complexas da produção ideológica.

 

4

A reflexão de Lukács alcança seu ponto mais fecundo quando colocada em diálogo com uma das formulações mais célebres de Marx no capítulo sobre o fetichismo da mercadoria: „Sie wissen das nicht, aber sie tun es.”


A aproximação entre ambos os autores não decorre de uma identidade imediata de objetos ou de problemas. Lukács investiga a constituição ontológica do ser social em sua universalidade, enquanto Marx analisa a especificidade histórica da sociedade produtora de mercadorias. Ainda assim, existe entre eles uma continuidade teórica profunda.


A ontologia do trabalho desenvolvida por Lukács fornece as mediações necessárias para compreender por que a prática social antecede sistematicamente a consciência e por que os indivíduos produzem resultados objetivos cujo significado ultrapassa aquilo que conseguem apreender intelectualmente. A crítica marxiana do fetichismo pode, nesse sentido, ser entendida como a determinação historicamente específica dessa estrutura ontológica geral.


Desde o início da história humana, o agir prático precede o conhecimento reflexivo. Os homens transformam a natureza muito antes de elaborarem uma ciência da natureza; organizam formas de convivência antes da constituição da teoria política; desenvolvem práticas econômicas muito antes do surgimento da economia enquanto disciplina científica. A objetividade da vida social forma-se no próprio processo da atividade prática, enquanto sua compreensão teórica constitui sempre um momento posterior.


Não existe identidade imediata entre fazer e saber. A práxis produz determinações objetivas cuja inteligibilidade somente pode ser alcançada mediante um trabalho posterior de reflexão conceitual. É precisamente essa anterioridade da prática que Lukács procura demonstrar ao afirmar que o trabalho amplia continuamente o conhecimento humano sem jamais eliminar a diferença entre a riqueza objetiva do real e a capacidade finita da consciência.


Os indivíduos agem sobre um mundo cujas determinações ultrapassam constantemente o horizonte de sua experiência imediata. A eficácia prática do trabalho não pressupõe conhecimento exaustivo das cadeias causais envolvidas em cada ação. O agricultor obtém colheitas sem dominar integralmente todos os processos biológicos que condicionam o crescimento das plantas; o artesão produz instrumentos eficazes sem conhecer toda a física implicada no comportamento dos materiais; o navegador atravessa oceanos muito antes da formulação científica das leis da mecânica celeste. A prática realiza objetivamente muito mais do que a consciência consegue explicitar.


Essa assimetria ontológica constitui a condição de possibilidade da formulação marxiana. Quando Marx escreve „Sie wissen das nicht, aber sie tun es”, não está descrevendo apenas uma deficiência intelectual dos agentes econômicos. A frase remete a uma estrutura muito mais profunda da vida social: a objetividade das relações produzidas pela atividade humana excede sistematicamente a consciência dos próprios produtores. O capitalismo radicaliza essa característica universal do ser social, conferindo-lhe uma configuração histórica inteiramente nova. A distância entre prática e consciência deixa de manifestar-se apenas como limite cognitivo inevitável e passa a assumir a forma específica da autonomização das relações sociais.


Nesse ponto reside a diferença decisiva entre a análise ontológica de Lukács e a crítica histórico-social de Marx.


Para Lukács, a impossibilidade de conhecer integralmente a totalidade das circunstâncias constitui uma determinação inerente à própria condição humana. A complexidade inesgotável do real impede qualquer coincidência absoluta entre consciência e mundo objetivo. A ignorância possui aqui um fundamento ontológico. Ela não resulta de relações sociais determinadas, mas da própria estrutura aberta da realidade.


No capitalismo, entretanto, a opacidade da vida social deixa de decorrer apenas dessa limitação constitutiva. Ela passa a ser produzida e reproduzida pelas próprias formas específicas da sociabilidade mercantil. Os indivíduos já não desconhecem simplesmente uma parte das determinações objetivas que condicionam sua existência; desconhecem, sobretudo, que as próprias relações sociais que organizam sua vida cotidiana são produtos históricos de sua atividade coletiva. O desconhecimento assume, portanto, um conteúdo qualitativamente distinto. Não diz respeito apenas à complexidade do mundo natural, mas à própria estrutura social produzida pelos homens.


É justamente aí que se instala o fetichismo da mercadoria. Os produtores privados estabelecem entre si determinadas relações sociais mediadas pelo trabalho abstrato, pelo valor e pela troca mercantil. Contudo, essas relações deixam de aparecer como relações entre pessoas. Elas assumem a forma de propriedades objetivas das próprias coisas. O valor parece residir naturalmente na mercadoria; o dinheiro parece possuir por si mesmo a capacidade de representar riqueza; o capital surge como sujeito dotado de movimento próprio, capaz de crescer, expandir-se e comandar a produção independentemente da atividade humana que lhe dá origem. A objetividade social converte-se em objetividade aparentemente natural.


A categoria de Verkehrung [Inversão] torna-se, nesse contexto, decisiva. Marx insiste em que essa inversão não constitui uma simples ilusão subjetiva nem uma representação equivocada produzida pela imaginação dos indivíduos. Trata-se de uma inversão objetiva das formas sociais. As relações entre pessoas assumem a aparência de relações entre coisas, enquanto as coisas passam a exercer funções sociais que pertencem, em última instância, à atividade humana. O resultado do processo social autonomiza-se diante de seus próprios produtores e passa a confrontá-los como uma potência independente. Essa autonomização distingue radicalmente o capitalismo de todas as formas anteriores de organização social.


Nas sociedades pré-capitalistas, a dominação aparecia predominantemente vinculada a relações pessoais de dependência: o senhor e o servo, o mestre e o aprendiz, o governante e o governado. A coerção possuía rosto, nome e localização social relativamente definidos. Na sociedade burguesa, ao contrário, a dominação tende a apresentar-se como uma exigência objetiva das próprias coisas. O mercado exige, o dinheiro impõe, a concorrência obriga, o capital determina. Os indivíduos aparecem submetidos não tanto a outros indivíduos, mas às formas sociais objetivadas que eles próprios reproduzem incessantemente.


É exatamente essa transformação que permite compreender a extraordinária importância da expressão marxiana das automatische Subjekt. O capital converte-se em sujeito não porque possua consciência, vontade ou intencionalidade próprias, mas porque a dinâmica da valorização do valor adquire autonomia suficiente para impor sua lógica aos próprios indivíduos encarregados de reproduzi-la.


Capitalistas, trabalhadores, administradores públicos, consumidores e investidores tornam-se suportes funcionais de um movimento que nenhum deles controla integralmente. A subjetividade efetiva do processo desloca-se dos agentes empíricos para a própria dinâmica objetiva das formas sociais.


Sob esse aspecto, a fórmula „Sie wissen das nicht, aber sie tun es” alcança um significado ainda mais profundo. Ela já não exprime apenas a anterioridade da prática sobre a consciência, característica geral do ser social, mas revela a maneira historicamente específica pela qual essa anterioridade assume a forma da dominação fetichista no capitalismo. Os indivíduos reproduzem objetivamente relações que não compreendem porque essas relações aparecem diante deles sob uma configuração invertida. O desconhecimento não constitui simples ausência de saber; ele é produzido pela própria forma de manifestação das relações sociais. A essência apresenta-se necessariamente sob uma aparência que a oculta.


A proximidade entre Lukács e Marx torna-se, então, plenamente inteligível. Ambos recusam qualquer filosofia da consciência que faça do conhecimento subjetivo o fundamento da objetividade social.


O ser social possui prioridade ontológica sobre suas formas de representação. Os homens vivem, trabalham, produzem, trocam e transformam o mundo antes de compreender teoricamente a lógica de suas próprias ações.


Entretanto, Marx acrescenta uma determinação decisiva a esse princípio geral: no capitalismo, a distância entre prática e consciência deixa de ser apenas uma condição ontológica permanente para converter-se em mecanismo histórico de reprodução da dominação social. A objetividade fetichizada das relações mercantis produz sistematicamente formas de consciência compatíveis com sua própria reprodução.


Essa conclusão permite compreender por que o fetichismo - a consciência invertida (por conta da reificação e coisificação) - ocupa posição tão central na arquitetura de O Capital. Ele não constitui um capítulo suplementar dedicado às ideologias nem uma reflexão marginal sobre os erros da economia política clássica. O fetichismo exprime a própria forma de existência das categorias fundamentais do capitalismo. Valor, dinheiro, capital, salário, lucro e juros aparecem necessariamente sob formas que ocultam sua gênese social. A crítica dessas categorias exige, portanto, ultrapassar a aparência imediata mediante uma investigação das mediações objetivas que estruturam o modo de produção capitalista.


A pequena frase de Marx revela, assim, uma amplitude filosófica extraordinária. Ela condensa, em poucas palavras, a unidade dialética entre ontologia e crítica da economia política.


Os homens produzem objetivamente um mundo que excede sua consciência; contudo, no capitalismo, esse mundo assume a forma específica de uma objetividade autonomizada que se volta contra seus próprios produtores.


A prática [praxis] conhece mais do que a consciência, mas a própria estrutura histórica das relações mercantis impede que essa verdade se manifeste imediatamente aos indivíduos.


O segredo do fetichismo reside precisamente nessa contradição: os homens são os autores da realidade social que os domina, embora essa realidade lhes apareça como um poder estranho, independente e aparentemente natural. É nessa cisão entre produção e reconhecimento, entre objetivação e consciência, que se encontra um dos núcleos mais profundos da crítica marxiana da modernidade capitalista.


Na próxima postagem, comentaremos as diversas ocorrências da expressão „Sie wissen das nicht, aber sie tun es” na Ontologia do Ser Social e, em seguida, nos Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social, último escrito de Lukács. Trata-se de dezenas de ocorrências, o que evidencia a importância que o filósofo atribuía a essa formulação, por considerá-la portadora dos elementos fundamentais para a elaboração de uma teoria da práxis em perspectiva ontológica.


Como procuraremos demonstrar, é precisamente nessa breve sentença de Marx que Lukács identifica uma das mais profundas expressões da objetividade da prática social e da constituição histórica da consciência, conferindo-lhe um papel decisivo na arquitetura de sua ontologia do ser social.


[continua]

 

 

 

 

 
 
 

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